A História, e cada um de nós

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Arte, ou a nossa humanidade no escuro e ao espelho

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À sua volta, as coisas escureceram, deixando de poder ser nomeadas, e Antonia pressentiu qualquer coisa indizível: um verdadeiro medo e a estranheza da esperança.

Cristina Drios, Adoração

Vamberto Freitas

Há entre alguns dos escritores e escritoras portuguesas de uma nova geração o que creio ser uma tendência identitária que vai muito para além do seu território íntimo e natal. Dirão que no processo histórico mundial em curso essa disponibilidade para ver o mundo nos seus infindáveis contextos linguísticos, culturais e artísticos é uma inevitabilidade. A nossa literatura entre outras gerações quase sempre esteve e ainda permanece obcecada com o nosso modo de ser e estar ante os outros. Tem sido uma temática constante, e produziu muitas das obras primas que têm uma noção de portugalidade como referência primordial. Do mesmo modo, o nosso impulso e visão universalistas vêm desde Camões e Fernão Mendes Pinto até ao modernismo de um Fernando Pessoa, desdobrado num tremendo jogo de espelhos que reflecte toda a tradição ocidental, toda a mítica da antiguidade até à nossa modernidade no labirinto de uma cidade europeia outrora capital imperial, e que, mesmo no seu marasmo decadente, não esquecia nem deixava de desejar as viagens longínquas ao encontro de um outro nas terras distantes. Toda a grande literatura, diz-nos a tradição crítica, é um diálogo que acolhe ou rejeita os seus antecedentes e antecessores, as “multitudes” de um Walt Whitman metamorfoseadas na pluralidade do nosso ser pessoano. Em Adoração, o novo romance de Cristina Drios, a palavra Portugal aparece uma única vez, e simplesmente em relação à visão artística desta prosa que tem como ponto de partida e chegada um diálogo entre as artes, nomeadamente entre a própria literatura, a palavra e os seus limites, e a pintura caravaggiana dos séculos XVI e XVII, tendo como fundo naturalmente a Itália ainda repartida por feudos e cidades-estados de norte a sul, ou espalhadas por ilhas no mediterrâneo de toda a beleza e tragédia. “Na verdade – diz o narrador ou narradora deste romance – sois feito daquilo que o Caravaggio nos seus quadros pinta, sois feito de luz e sombra, de vida e morte, de culpa e perdão”. Creio que haverá poucas definições ou interpretações da grande arte ocidental que consigam resumir tão eloquentemente a natureza do gesto que é a humanidade tentar entender-se através do acto criativo, ou da sua imaginação expressa por qualquer meio extra-científico. Edmund Wilson diria um dia que o modernismo literário do século passado, especialmente a partir de James Joyce e das suas reinvenções linguísticas, quase faria desaparecer a poesia nas suas formas conhecidas, pois a nova prosa ficcional estava a encarregar-se de juntar ao seu realismo descritivo e psicológico toda a beleza poética e imaginativa das nossas emoções. Poderá ter exagerado nas suas previsões e leituras, mas a verdade é que um romance como este aqui em foco é esse brilhante jogo de luz e sombras, da palavra rude e realista seguida ou integrada em frases tão doces e melódicas que se assemelham ao que porventura sentirá um observador de qualquer quadro do artista que lhe serve de sujeito, criador para sempre e parte indelével ou inesquecível do que efectivamente é o nosso imaginário da maldade e da beleza, da bondade e crueldade das lendas e dos mitos que nos fazem quem somos, ou pensamos ser. Um diálogo entre as artes, só por si, poderá não ter nada de original, faz parte das mais variadas obras, mas Adoração, creio, integra-se agora num dos mais sofisticados e clássicos cânones das literaturas portuguesa e europeia. Dizer literatura “portuguesa” poderá insinuar também aqui outra discussão teórica, mas digo-o assim e por agora porque vem de uma autora nacional e que escreve na sua língua natal.

Antes de mais, é preciso advertir o leitor que não é preciso entender ou sequer ser admirador do grande pintor italiano que se dedicou à transfiguração na tela de temas predominantemente bíblicos, e não poucas vezes parodiantes de outros artistas, antes ou do seu próprio tempo, para ser ler Adoração. Um dos grandes feitos deste romance de Cristina Drios é precisamente transportar-nos da nossa actualidade por demais conhecida para os séculos da luz e da escuridão, tal como nos quadros de fundo negro e figuras luminosas, que eram a marca inconfundível de Caravaggio, o verdadeiro protagonista do romance, e em cujo mundo e lendas ou factos biográficos se enredam os outros personagens principais: Antonia Rei, filha de bem, mais ou menos, residente num velho e recuperado palácio de Palermo, essa capital ilhoa governada simultaneamente por políticos e pela histórica máfia, cuja dicotomia não é sempre clara, e o polícia Salvatore Amato precocemente viúvo e sentimentalmente magoado por obra e graça desses verdadeiros donos da sociedade, os de arma e faca em punho e o silêncio tribal como única filosofia de vida. Estamos em 1992, quando a história tem início numa rua da cidade e em frente a um café, de vida normalíssima, mas o momento em que Antonia assiste a pouca distância a um assassínio clássico levado a cabo com uma caçadeira e fuga numa mota, sendo pouco tempo depois interrogada informalmente por Salvatore, que acontece viver no mesmo bairro e vizinho da mulher aterrorizada com o que acaba de testemunhar. Tudo o que acontece e nos é contado a partir desse momento tem como motivação única, verdadeira e histórica o roubo da tela de Caravaggio intitulada Natividade com S. Francisco e S. Lourenço ou A Adoração, a 17 de Outubro de 1969, “e que continua desaparecida. Tudo o mais – informa-nos a autora numa nota prévia – é ficção ou quase”. Quase, porque Cristina Drios reconstrói toda uma época por ela investigada, toda uma ambiência habitada por personagens reais (outros artistas, mecenas, figuras amigas e inimigas, autoridades políticas e religiosas) presentes nas histórias da arte do seu e nosso tempo. É nesse acto de imaginação pura e nas diversas linguagens do romance que vão desde documentos arquivados ou inventados pela narradora que Adoração se ergue como uma singular obra literária, uma vez mais, em diálogo com alguma da pintura mais memorializada da história europeia e universal, a sua temática toda uma reinterpretação da religiosidade e mítica que passou a definir-nos a vida e a morte, o amor e o ódio, a solidariedade e a traição. Algures entre uma espécie do romance policial e histórico, todo caos do nosso presente é contraposto a um passado nada menos instável e cruel, em que o bem e o mal se entrecruzam na continuidade sem fim que foram e são desde sempre as nossas vidas colectivas, ou na solidão da miséria de rua ou da frieza indiferente de palácios e jardins que só na arte nos parecem ou viram paraísos oníricos. São várias e de tempos próximos e distantes as vozes que nos falam nestas páginas sem uma única resposta para os enigmas e mistérios da vida vivida ou representada. Cada frase, ora depuradamente realista ora de uma poética lírica que nos faz querer lê-la em voz alta, é uma interpelação ao leitor sobre como olhar em seu redor, e depois admirar-se no jogo de espelhos em que nos vemos em várias dimensões, ou nas distorções da nossa própria fealdade, a luminosidade da nossa auto-consciência ensombrada pela escuridão em que Caravaggio colocava os seus míticos seres e espaços reinventados.

Com passos decididos, – diz o narrador de Antonia quando ela regressa ao palácio paternal após testemunhar o crime na praça do Teatro Massimo, definindo-a perfeitamente, definindo o seu estatuto, introduzindo ao mesmo tempo toda a trama que vai guiar a sua história de surpresa, medo e fascínio, fascínio dela e nosso – Antonia subiu a escadaria, olhando pela janela. O céu tomara tons de um azul extremo, violento, sem nuvens: a obra de Deus, na sua infinita beleza, a não precisar de assinatura, a bastar-lhe a nossa adoração. E se Caravaggio nunca assinara as suas telas, pensou ela, talvez fosse porque também lhe bastasse apenas a adoração da sua obra, já que não deixava de ser o demiurgo desse universo, compreendido ou não. Nesse instante, porque lhe dissera ser quase um vizinho, pensou no comissário Salvatore Amato e logo depois, estranhamente, no pai com um nó na garganta e uma sensação amarga de abismo e perda…”

Se há uma característica textual que mais marca Adoração, creio, é a subtileza da sua ironia, a capacidade de movimento entre vários tempos ficcionais, sem que o leitor se perda num emaranhado de acções, ou dos múltiplos personagens secundários que giram em volta da vida e obra de Caravaggio. Cristina Drios consegue retratar uma sociedade de um renascentismo que parece já em fase tardia e em anunciada decadência, com todo o seu dramatismo histórico, político e artístico, uma espécie de caos criativo que em muito pouco difere dos nossos próprios dias, como comprovam os acontecimentos que dão início e fim a Adoração. Por certo que o melhor dos romances ditos “históricos” tentam quase sempre imprimir esta noção de que a passagem do tempo não implica necessariamente a progressão de ser e estar, a que chamaríamos de Iluminismo e depois Modernidade, a separação do tempo da Inquisição e da criminalidade generalizada da nossa própria era está suspensa num ténue fio de suposta moralidade e civilidade. Talvez seja esse um outro tema deste romance audaz: quase todos os quadros de Caravaggio, relembra-nos a narradora, são representações dos homens e mulheres saídos da mítica religiosidade civilizacional a que pertencemos, mas cujos figurantes eram as caras e os corpos dos seus contemporâneos, quando não do próprio artista. Adoração traz-nos essa outra originalidade – a arte literária revendo-se a si própria, olhando outras formas e eternas representações do tempo e da vida.

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Cristina Drios, Adoração, Lisboa, Teorema/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 18 de Novembro, 2016.

Sião a saque, ou na terra de Judas

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Esta história decorre no inverno de finais do ano 1959 princípios de 1960. Há nela engano e desejo, desilusão de amor e uma certa questão religiosa que ficou por responder.

Amos Oz, Judas

Vamberto Freitas

A citação que vai aqui como epígrafe é a abertura do romance Judas, do israelita Amos Oz, recentemente traduzido e publicado no nosso país. Não, não tem nada a ver, como noutro contexto me recordaria um velho mestre meu na faculdade californiana se soubesse destas minhas leituras, com o sexo e a violência do Velho Testamento. Ou melhor, tem a ver também com tudo isso, mas como uma fantástica tirada artística não sobre os antigos que moldaram todo o nosso destino, mas sim sobre a condição humana numa modernidade nada mais reconfortante, a fundação de Israel vista na sua essencialidade trágica, e sobretudo o individuo, ou cada ser humano, no seu isolamento e desespero perante a História, e o que esta faz de nós quando na luta e construção de uma sociedade se esquece que cada homem e mulher tem um coração autónomo, independente, e nem sempre os seus sonhos ou busca de uma utopia, sagrada ou profana, coincidem ou lhe atribuem um lugar em que a sua própria identidade ou felicidade esteja em paz com a restante comunidade. Não se trata de um romance sobre o Judas bíblico, se bem que é ele que fornece a esta narrativa a continuidade de como nos tratamos mutuamente, tornado-se um fio condutor de como hoje, à semelhança do que se sucedeu há dois mil anos, permanecemos equivocados pelas linguagens que raramente fazem mais do que distorcer a verdade, ou recriar a “realidade” que depois nos esmaga ou mata, nos faz esmagar e matar. Por entre as linhas-mestras da História, estão os homens e as mulheres, sentados na sua velhice ou na azáfama do seu quotidiano, a imitar uma ideia de normalidade nas suas vidas, digerindo todas as feridas do passado e tentando escapar à brutalidade em que vive cada nação, país, cidade ou aldeia. Israel, pois, somos nós todos, mesmo os que a querem fazer arder num fogo apocalíptico e supostamente redentor. Sião, símbolo do que desejaríamos ser mas não somos, refúgio que nos convida mas nos mata. “É óbvio – diz o protagonista de Judas – que não lhe agrada andar sozinha de madrugada no Monte Sião. E também não é nada seguro”. Não precisamos de saber muito da história da fundação moderna de Israel, e do Holocausto que apressou boa parte do mundo a autorizá-la, nem é preciso saber muito dos textos sagrados para a leitura deste romance. Ajuda, mas será, em primeiro lugar, o reconhecimento identitário, em termos estritamente humanos, que o leitor terá de descodificar para perceber logo de início que a obra que tem em sua frente é tão-só uma outra visão da nossa comum condição, a contingência da História, repita-se, um pano de fundo onde veremos o outro, e de onde ele olha intensamente dos dois lados desse espelho as nossas pessoas, que se fundem, seja esse um desejo mútuo ou não. Sim, Judas aqui é também essa outra imagem e ficção que tanto sangue tem feito derramar, tanta dor sofrida. A ficção pela qual nos guiamos. Só que o “traidor” desta narrativa também se chama Shaatiel Abravanel, que foi um pensador e militante judeu do seu tempo, tendo acabado os seus dias na solidão do seu quarto, incessantemente a ler e a escrever após ser expulso da comunidade pelos primeiros líderes do seu país porque não os apoiava na luta por um estado hebraico. A genialidade deste romance está no facto de um dos protagonistas ser um doutorando falhado que queria fazer uma tese sobre como os judeus viram e vêem Judas Iscariotes, e o velho militante sionista com quem vive durante quatro meses apresenta-lhe o seu falecido amigo e compadre, em que, uma vez mais, o conceito de traição segura tudo ou quase tudo quanto nos é apresentado nestas páginas.

Judas tem no seu centro como protagonistas e condutores de toda a narrativa Gershom Wald, patriarca e um dos fundadores do Estado de Israel (que havia estado ao lado de David Ben-Gurion, seu primeiro presidente e combatente desde sempre), Atalia Abravanel, sua nora, e Samuel Asch, que responde a um anúncio visto na sua faculdade a oferecer um emprego na casa dos dois para fazer companhia ao idoso, mais ou menos já imobilizado, mas intelectualmente activo. A chegada de Samuel, um estudante de vinte e poucos anos, à velha casa numa rua periférica de Jerusalém vai despoletar não só as analepses sustentadas sobre a história antiga e moderna do país hebraico na voz do veterano em repouso, como leva Samuel a desejar intimidade ou um relacionamento sério com Atalia, de quarenta e cinco anos, e viúva do filho único de Wald, selvaticamente morto há uns anos numa patrulha militar na Galileia. Nesta sua estrutura linear e simples o romance leva-nos  continuamente ao contacto com as mais variadas figuras ligadas à fundação e à condução de Israel, aqui ainda antes das grandes batalhas que viriam a eclodir nos anos 60 até aos nossos dias, como nos recoloca na sequência de eventos e nomes mais marcantes da história e cultura recentes. Temos na narrativa que Wald vai revivendo e equacionando página a página as três gerações em convivência no tempo ficcional de Judas, cada uma com as suas angústias existenciais e desejos pessoalíssimos, em harmonia ou não com os acontecimentos colectivos do seu passado, ou abertos a todos os argumentos que lhes possam colocar, quer no que diz respeito à sua sorte pessoal como ao destino que lhes trouxe até à realidade do presente, e mais ainda a um futuro em tudo incerto e ferozmente contestado por outros logo ali ao lado. Creio ser intencional por parte de um grande autor como Amos Oz, pessoalmente conotado com a esquerda dialogante e pacifista do seu país, que pede um diálogo com todos os seus vizinhos e actores político-militares, sem que ponha em causa a sua lealdade ao novo estado do Médio Oriente, não enfatizar directamente nem o selvagem passado europeu que leva às decisões da geração mais velha e a que pertence Wald, como deixa também ao leitor a imaginação sobre todos os outros nos arredores. O seu humanismo não esquece e muito menos trivializa seja quem for, pois o outro espreita constantemente quer nos relatos de Wald quer nos avisos de Samuel quanto ao seu desconforto nas ruas da sua cidade natal. O tema fundamental do romance é essa tentativa de equilíbrio entre uma História que coloca os seus personagens na situação que é a sua, sem que possa haver recuos, e os seus desejos íntimos, pessoalíssimos, a busca do amor na solidão dos dias e perante a morte natural ou anunciada que os ameaça por todos os lados. Não se trata propriamente de um romance de ideias, no sentido clássico que a crítica tem das suas formas, mas sim um mosaico discursivo e de todo intelectualizado, que só lhe acrescenta profundidade, e permite ao leitor mais comprometido com a literatura séria desfrutar do grande saber e sabedoria do autor em relação à humanidade nas suas infindáveis contingências, ou ainda a universalidade da nossa comum condição, em que o medo ou euforia de viver se estende de uma ponta do planeta à outra.

A ironia e humor estão constantemente presentes numa narrativa que nunca deixa estes dois fios condutores, a interpretação histórica de um povo, e a singularidade de cada ser humano apanhado nas suas teias. A tese de doutoramento de Samuel Asch nunca é concluída, mas tanto ele como o seu interlocutor na velha casa de Jerusalém discutem constantemente se Judas Iscariotes foi um traidor, ou, pelo contrário, tal como poderá ser entendido pelos judeus, foi o mais fiel apóstolo de Jesus, que o levaria ao suicídio num momento de reconhecimento da ausência da sua própria fé ou de qualquer divindade daquele que fora o seu Senhor. O pai de Atalia, falecido com a idade naquela mesma casa partilhada com a Atalaia e o seu sogro Wald, foi um outro “Judas” para os seus companheiros de luta pelo Estado de Israel, se aceitarmos a calúnia cristã que associa o seu nome à mais vil traição dos que se consideram e se consideravam estar no lado “correcto” da História. Shaatiel Abravanel foi expulso da vida pública do seu novo país quando se opôs à fundação de um Estado que excluiria os palestinianos, esses sendo os novos expulsos do seu lar, a sua História negada, o seu direito a uma identidade autónoma na sua própria terra como que proibida. De quando em quando Samuel passeia-se pelo lado de cá do muro que divide a cidade, nunca o atravessando, insinuando assim a separação de facto entre as duas comunidades, cada qual com a sua reivindicação pela nascença ou pelos textos antigos das suas origens. Mais do que a violência física num modo de ser e estar, sentimos a violência interior, a violência de alma entre estes seres que se querem honestos consigo próprios. Os seus conhecimentos intelectuais não permitem um alheamento de toda a complexidade que os rodeia no labirinto de vida e morte muito antigas na cidade que é a génese de todo o sofrimento e de toda a esperança. Ler Judas é reencontrarmos tudo o que, dentro ou fora daquela geografia, nos foi incutido desde a infância.

Entre uns e outros está Atalia, silenciosa quanto a tudo isto, mas num rodopio constante na sua vida profissional e íntima. Sim, eventualmente, deita-se com Samuel, mas a sua viagem na vida é outra, que permanece aqui meio misteriosa, meio vazia. Está em paz, parece, com as suas perdas e as suas inseguranças. Mais do que as descrições físicas da mulher bonita e matura, é esse quotidiano movimentado e em parte passado nos cafés e outros poisos sociais da cidade que recria para nós a sua sensualidade, a mulher que também encarna uma História muito antiga e cruel, ao mesmo tempo que persegue os seus prazeres e equilíbrios interiores. Estes não são só os novos habitantes de Sião, somos nós todos nos templos das nossas crenças e (in)felicidades.

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Amos Oz, Judas (tradução de Lúcia Liba Mucznik), Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 11 de Novembro de 2016.

Revisitação A Sangue Frio, ou o outro lado do sonho americano

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O crime fora um acidente psicológico, virtualmente um acto impessoal; era como se as vítimas tivessem sido mortas por um raio. Salvo uma coisa: haviam sofrido um terror prolongado, uma lenta agonia.

Truman Capote, A Sangue Frio

Vamberto Freitas

Há um outro passo neste grande livro de Truman Capote que retive na memória de modo especial. A Sangue Frio, publicado nos EUA em 1966, entrava na consciência literária dos seus leitores por muitas e inquietantes razões. Obra experimental na sua forma, Capote conseguia aliar o jornalismo de investigação da época com a fluência e todas as restantes técnicas narrativas do romance psicológico e realista. Suspeito que havia lido John Dos Passos, que criava uma frase descritiva como quem aponta uma câmara cinematográfica ao seu personagem ou ambiente circundante, ou simplesmente seguiu o seu instinto e conhecimento de certo dramatismo ambíguo – quando não hipócrita – na cultura popular americana, ou a surpresa ante o óbvio, neste caso a violência e a morte instituídas como último reduto de justiça e castigo absoluto – tanto por parte do criminoso como por parte do estado. “Só desejo – diz Richard Hickcock já com a corda ao pescoço na tarde de 22 de Junho de 1965, e minutos depois do seu comparsa, Perry Smith, ter sofrido a mesma sorte – afirmar que não quero mal a ninguém. Vocês mandam-me para um mundo melhor do que este”. Estas suas últimas palavras perante as testemunhas do seu enforcamento numa prisão do Kansas fazem-me lembrar, agora nesta minha (re)leitura da mais recente edição portuguesa do romance após um longo período de tempo, do personagem de Charles Dickens no seu clássico A Tale of Two Cities, quando é também executado numa praça jacobina de Paris – vou para um mundo muito melhor do que este, diz, onde nunca estive. Aliás, creio haver qualquer coisa de Dickens nesta incomparável obra de Truman Capote, mesmo que não exista nada em comum entre uma grande Londres do século XIX e uma pequena aldeia chamada Holcomb na pradaria do médio oeste americano no século seguinte – os infelizes a braços com a sua sobrevivência numa sociedade de minorias ambiciosas e de maiorias deserdadas, em que o puritanismo da classe dominante se contrapõe firmemente aos supostos perdedores e à sua insanidade, ou, no mínimo, desespero numa sociedade em que a ostentação da riqueza e bem-estar lhes lembra a cada momento o seu fracasso, nunca assumido como sendo pessoal, mas sim porque alguém os impediu de atingir certa igualdade ou funcionalidade no seu quotidiano. São as últimas palavras, as de Hickock, de quem não se arrependeu da sua transgressão levada aos limites, que é o roubo da vida a outros, mas também de quem não quer deixar de sentenciar um mundo que ele acha que lhe foi injusto e de todo mau. A Sangue Frio é esse thriller psicológico de uma história vivida, que se ergue ao mesmo tempo como uma rara peça de beleza literária, quer nas suas linguagens frias, duras e pretensamente distanciadas dos seus sujeitos, quer como um retrato completo de um determinado tempo e lugar, em que os antecedentes histórico-sociais – como as origens nacionais e étnicas dos seus personagens principais – colocam comportamentos, andanças, cenas e visões do mundo num contexto que é familiar ao leitor melhor informado ou formado. Não é aconselhável especular sobre a intencionalidade de um autor numa determinada obra, mas aqui parece-me mais do que claro que Truman Capote quis fotografar minuciosamente todas as contradições da sociedade em que na altura lhe foi dado viver e testemunhar. A originalidade desta narrativa não está em separar os “bons” e os “maus”, algo muito comum na visão maniqueísta na mundividência daquele país – é uma tirada de força e arte sobre a tragédia que é a vida humana, sobre a ambígua condição sempre periclitante da nossa vivência em comunidade, dos secretos estados de alma de quem connosco convive, ou aleatoriamente nos condena à marginalidade.

O narrador que é Truman Capote junta aqui todos os pedaços factuais da madrugada de 15 de Novembro, quando dois indivíduos de nome Perry Smith e Richard Hickcock, ambos saídos recentemente de uma penitenciária do Estado de Kansas e que lá se haviam conhecido, rumam até à próspera mas discreta fazenda da família do patriarca Herbert William Clutter e da sua atribulada esposa Bonnie, e dos filhos adolescentes Nancy e Kenyon, que se encontravam deitados nas vésperas do Dia de Graças, quando esperavam toda a restante família vinda de fora, inclusive mais duas filhas, uma casada, outra comprometida. Perry e Richard (Dick), este residente numa cidade um pouco maior e vizinha, tinha sido alertado por um outro recluso da sua área que os Clutter tinham em casa um cofre, e provavelmente bem recheado dado a estatura do seu dono na comunidade, e especialmente o respeito em que lhe tinham todos em Holcomb, inclusive na sua igreja de uma denominação protestante. Conservador e bem educado, trata todos com a dignidade que lhe é devolvida em toda a parte. Enganam-se os seus assassinos – anda sempre com pouquíssimo dinheiro, não tem cofre nenhum em casa, e após um dos mais assustadores actos de violência contra os quatro membros da família, encontram e levam uma quantia entre os quarenta e cinquenta dólares. O detalhe com que Truman nos descreve cada passo dos dois bandidos e das suas vítimas constitui por si só uma narrativa cuja tensão, acredito, nunca foi superada numa obra semelhante. Não foram só os documentos do tribunal, conversas com a polícia e a imprensa local, escrutinado tudo por assistentes e colegas durante alguns cinco anos, inclusive o trabalho aturado em entrevistas de Harper Lee com as mais variadas figuras, uma das suas colaboradoras a quem o livro é dedicado e sua grande amiga de infância, já na altura a famosa autora do premiado To Kill A Mocking Bird/Não Matem a Cotovia. Ele próprio viria a desenvolver certa intimidade com os assassinos presos, em longas conversas sobre todo o seu passado e condições de vida até ao momento fatídico em Holcomb. O que mais impressiona o leitor é a absoluta fluência com que eles falam das suas vidas e o entendimento que delas tinham, o modo racional como viam o seu lugar na sociedade ou entre a família e amigos antes dos dias de roubos e prisões bem mais leves. Estas transcrições – e por vezes escritos dos próprios assassinos – são de uma frieza aterrorizadora. Descrevem ao autor em pormenor cada minuto do seu assalto aos Clutter, cada movimento das suas vítimas, cada suplício de todos eles para que salvassem a sua vida. Procedem à matança de cada membro da família nos seus próprios quartos, ouvem as suas preces a pedir misericórdia, mas procedem com faca e caçadeira sem pestanejar, e ainda mais sem qualquer sentimento, até ao ponto de Perry deitar numa caixa de papelão Herbert Clutter para que morresse, como confessa ao autor, nalgum “conforto”. Nunca uma peça literária tinha conseguido um efeito tão misto nos seus leitores, nunca um relato tão frio e objectivo havia exercido tanto fascínio – ou medo – até à hora da execução dos dois homicidas. Alguns anos depois, Norman Mailer faria o mesmo com um caso notório de outro crime levado a cabo por um Gary Gilmore, no Estado de Utah, em The Executioner’s Song, publicado em 1979. Mailer era fascinado pela vida e crimes hediondos do seu tempo, e este seu livro, que ele próprio considerava o seu magnum opus, foi do mesmo modo classificado como “não-ficção criativa”, tendo recebido o Pulitzer Prize logo de seguida. No entanto, nunca entraria, ou até hoje não entrou, na memória literária do país como entrou e ficou A Sangue Frio.

Uma das imagens recorrentes em A Sangue Frio é o gigantesco comboio de carga visto ao longe das casas agrícolas no meio dos campos imensos ou por entre as pequenas aldeias, o seu apito ouvido na distância desperta como que um sentimento de solidão e lonjura, relembra-nos do isolamento conformado das suas personagens. É o mundo que corre em nossa frente, não para e não desembarca passageiro nenhum, recordamos apenas que estamos sós, mas é também um momento em que nos damos conta de que fazemos parte de todo um mundo muito maior do que o que nos coube no nosso destino. Quando lemos os últimos momentos deste romance de não-ficção, o enforcamento destes dois assassinos não nos é tão clarificador como talvez gostássemos que fosse. Aliás, na pequena aldeia e nos campos de Holcomb existem muitos outros que, pela sua religiosidade ou filosofia de vida, clamam contra a pena máxima do seu Estado. Como nesse comboio a alta velocidade que passa ao longe, ficamos e partimos, sem saber a que lugar pertencemos, ou queremos pertencer, sem resolver se queremos ou não para o sentenciado castigo in extremis – ou escutar o outro lado da nossa alma.

Truman Capote era já então um escritor e dandy citadino em Nova Iorque, mas havia nascido e crescido no sul profundo. Essa outra América ruralizada e isolada seria porventura o seu imaginário mais significante e memorizado. Nos meus longos anos de América, eu via e ouvia com alguma frequência Truman Capote a ser entrevistado ou em conversa em programas televisivos mais ou menos literários, ou na coscuvilhice habitual e sem nexo de outros encontros no pequeno ecrã. Trabalhava o seu jeito efeminado nos gestos e olhares, era devastador na má língua ante outros escritores e figuras diversas da sociedade. Criava com estas suas linguagens improvisadas empatia ou repulsa, mas nunca nos deixava indiferentes. Só que reler esta sua obra, já canónica, é reencontrar o poder da grande literatura, ou como a sua linguagem torce e retorce a nossa “realidade”, e sobretudo as nossas mais profundas crenças.

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Truman Capote, A Sangue Frio (tradução de Maria Isabel Braga, 9ª edição), Lisboa, D. Quixote, 2016. Publicado na minha coluna “BoderCrossings” do Açoriano Oriental, 04 de Novembro, 2016.