Revisitação A Sangue Frio, ou o outro lado do sonho americano

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O crime fora um acidente psicológico, virtualmente um acto impessoal; era como se as vítimas tivessem sido mortas por um raio. Salvo uma coisa: haviam sofrido um terror prolongado, uma lenta agonia.

Truman Capote, A Sangue Frio

Vamberto Freitas

Há um outro passo neste grande livro de Truman Capote que retive na memória de modo especial. A Sangue Frio, publicado nos EUA em 1966, entrava na consciência literária dos seus leitores por muitas e inquietantes razões. Obra experimental na sua forma, Capote conseguia aliar o jornalismo de investigação da época com a fluência e todas as restantes técnicas narrativas do romance psicológico e realista. Suspeito que havia lido John Dos Passos, que criava uma frase descritiva como quem aponta uma câmara cinematográfica ao seu personagem ou ambiente circundante, ou simplesmente seguiu o seu instinto e conhecimento de certo dramatismo ambíguo – quando não hipócrita – na cultura popular americana, ou a surpresa ante o óbvio, neste caso a violência e a morte instituídas como último reduto de justiça e castigo absoluto – tanto por parte do criminoso como por parte do estado. “Só desejo – diz Richard Hickcock já com a corda ao pescoço na tarde de 22 de Junho de 1965, e minutos depois do seu comparsa, Perry Smith, ter sofrido a mesma sorte – afirmar que não quero mal a ninguém. Vocês mandam-me para um mundo melhor do que este”. Estas suas últimas palavras perante as testemunhas do seu enforcamento numa prisão do Kansas fazem-me lembrar, agora nesta minha (re)leitura da mais recente edição portuguesa do romance após um longo período de tempo, do personagem de Charles Dickens no seu clássico A Tale of Two Cities, quando é também executado numa praça jacobina de Paris – vou para um mundo muito melhor do que este, diz, onde nunca estive. Aliás, creio haver qualquer coisa de Dickens nesta incomparável obra de Truman Capote, mesmo que não exista nada em comum entre uma grande Londres do século XIX e uma pequena aldeia chamada Holcomb na pradaria do médio oeste americano no século seguinte – os infelizes a braços com a sua sobrevivência numa sociedade de minorias ambiciosas e de maiorias deserdadas, em que o puritanismo da classe dominante se contrapõe firmemente aos supostos perdedores e à sua insanidade, ou, no mínimo, desespero numa sociedade em que a ostentação da riqueza e bem-estar lhes lembra a cada momento o seu fracasso, nunca assumido como sendo pessoal, mas sim porque alguém os impediu de atingir certa igualdade ou funcionalidade no seu quotidiano. São as últimas palavras, as de Hickock, de quem não se arrependeu da sua transgressão levada aos limites, que é o roubo da vida a outros, mas também de quem não quer deixar de sentenciar um mundo que ele acha que lhe foi injusto e de todo mau. A Sangue Frio é esse thriller psicológico de uma história vivida, que se ergue ao mesmo tempo como uma rara peça de beleza literária, quer nas suas linguagens frias, duras e pretensamente distanciadas dos seus sujeitos, quer como um retrato completo de um determinado tempo e lugar, em que os antecedentes histórico-sociais – como as origens nacionais e étnicas dos seus personagens principais – colocam comportamentos, andanças, cenas e visões do mundo num contexto que é familiar ao leitor melhor informado ou formado. Não é aconselhável especular sobre a intencionalidade de um autor numa determinada obra, mas aqui parece-me mais do que claro que Truman Capote quis fotografar minuciosamente todas as contradições da sociedade em que na altura lhe foi dado viver e testemunhar. A originalidade desta narrativa não está em separar os “bons” e os “maus”, algo muito comum na visão maniqueísta na mundividência daquele país – é uma tirada de força e arte sobre a tragédia que é a vida humana, sobre a ambígua condição sempre periclitante da nossa vivência em comunidade, dos secretos estados de alma de quem connosco convive, ou aleatoriamente nos condena à marginalidade.

O narrador que é Truman Capote junta aqui todos os pedaços factuais da madrugada de 15 de Novembro, quando dois indivíduos de nome Perry Smith e Richard Hickcock, ambos saídos recentemente de uma penitenciária do Estado de Kansas e que lá se haviam conhecido, rumam até à próspera mas discreta fazenda da família do patriarca Herbert William Clutter e da sua atribulada esposa Bonnie, e dos filhos adolescentes Nancy e Kenyon, que se encontravam deitados nas vésperas do Dia de Graças, quando esperavam toda a restante família vinda de fora, inclusive mais duas filhas, uma casada, outra comprometida. Perry e Richard (Dick), este residente numa cidade um pouco maior e vizinha, tinha sido alertado por um outro recluso da sua área que os Clutter tinham em casa um cofre, e provavelmente bem recheado dado a estatura do seu dono na comunidade, e especialmente o respeito em que lhe tinham todos em Holcomb, inclusive na sua igreja de uma denominação protestante. Conservador e bem educado, trata todos com a dignidade que lhe é devolvida em toda a parte. Enganam-se os seus assassinos – anda sempre com pouquíssimo dinheiro, não tem cofre nenhum em casa, e após um dos mais assustadores actos de violência contra os quatro membros da família, encontram e levam uma quantia entre os quarenta e cinquenta dólares. O detalhe com que Truman nos descreve cada passo dos dois bandidos e das suas vítimas constitui por si só uma narrativa cuja tensão, acredito, nunca foi superada numa obra semelhante. Não foram só os documentos do tribunal, conversas com a polícia e a imprensa local, escrutinado tudo por assistentes e colegas durante alguns cinco anos, inclusive o trabalho aturado em entrevistas de Harper Lee com as mais variadas figuras, uma das suas colaboradoras a quem o livro é dedicado e sua grande amiga de infância, já na altura a famosa autora do premiado To Kill A Mocking Bird/Não Matem a Cotovia. Ele próprio viria a desenvolver certa intimidade com os assassinos presos, em longas conversas sobre todo o seu passado e condições de vida até ao momento fatídico em Holcomb. O que mais impressiona o leitor é a absoluta fluência com que eles falam das suas vidas e o entendimento que delas tinham, o modo racional como viam o seu lugar na sociedade ou entre a família e amigos antes dos dias de roubos e prisões bem mais leves. Estas transcrições – e por vezes escritos dos próprios assassinos – são de uma frieza aterrorizadora. Descrevem ao autor em pormenor cada minuto do seu assalto aos Clutter, cada movimento das suas vítimas, cada suplício de todos eles para que salvassem a sua vida. Procedem à matança de cada membro da família nos seus próprios quartos, ouvem as suas preces a pedir misericórdia, mas procedem com faca e caçadeira sem pestanejar, e ainda mais sem qualquer sentimento, até ao ponto de Perry deitar numa caixa de papelão Herbert Clutter para que morresse, como confessa ao autor, nalgum “conforto”. Nunca uma peça literária tinha conseguido um efeito tão misto nos seus leitores, nunca um relato tão frio e objectivo havia exercido tanto fascínio – ou medo – até à hora da execução dos dois homicidas. Alguns anos depois, Norman Mailer faria o mesmo com um caso notório de outro crime levado a cabo por um Gary Gilmore, no Estado de Utah, em The Executioner’s Song, publicado em 1979. Mailer era fascinado pela vida e crimes hediondos do seu tempo, e este seu livro, que ele próprio considerava o seu magnum opus, foi do mesmo modo classificado como “não-ficção criativa”, tendo recebido o Pulitzer Prize logo de seguida. No entanto, nunca entraria, ou até hoje não entrou, na memória literária do país como entrou e ficou A Sangue Frio.

Uma das imagens recorrentes em A Sangue Frio é o gigantesco comboio de carga visto ao longe das casas agrícolas no meio dos campos imensos ou por entre as pequenas aldeias, o seu apito ouvido na distância desperta como que um sentimento de solidão e lonjura, relembra-nos do isolamento conformado das suas personagens. É o mundo que corre em nossa frente, não para e não desembarca passageiro nenhum, recordamos apenas que estamos sós, mas é também um momento em que nos damos conta de que fazemos parte de todo um mundo muito maior do que o que nos coube no nosso destino. Quando lemos os últimos momentos deste romance de não-ficção, o enforcamento destes dois assassinos não nos é tão clarificador como talvez gostássemos que fosse. Aliás, na pequena aldeia e nos campos de Holcomb existem muitos outros que, pela sua religiosidade ou filosofia de vida, clamam contra a pena máxima do seu Estado. Como nesse comboio a alta velocidade que passa ao longe, ficamos e partimos, sem saber a que lugar pertencemos, ou queremos pertencer, sem resolver se queremos ou não para o sentenciado castigo in extremis – ou escutar o outro lado da nossa alma.

Truman Capote era já então um escritor e dandy citadino em Nova Iorque, mas havia nascido e crescido no sul profundo. Essa outra América ruralizada e isolada seria porventura o seu imaginário mais significante e memorizado. Nos meus longos anos de América, eu via e ouvia com alguma frequência Truman Capote a ser entrevistado ou em conversa em programas televisivos mais ou menos literários, ou na coscuvilhice habitual e sem nexo de outros encontros no pequeno ecrã. Trabalhava o seu jeito efeminado nos gestos e olhares, era devastador na má língua ante outros escritores e figuras diversas da sociedade. Criava com estas suas linguagens improvisadas empatia ou repulsa, mas nunca nos deixava indiferentes. Só que reler esta sua obra, já canónica, é reencontrar o poder da grande literatura, ou como a sua linguagem torce e retorce a nossa “realidade”, e sobretudo as nossas mais profundas crenças.

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Truman Capote, A Sangue Frio (tradução de Maria Isabel Braga, 9ª edição), Lisboa, D. Quixote, 2016. Publicado na minha coluna “BoderCrossings” do Açoriano Oriental, 04 de Novembro, 2016.

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