Sião a saque, ou na terra de Judas

judas

Esta história decorre no inverno de finais do ano 1959 princípios de 1960. Há nela engano e desejo, desilusão de amor e uma certa questão religiosa que ficou por responder.

Amos Oz, Judas

Vamberto Freitas

A citação que vai aqui como epígrafe é a abertura do romance Judas, do israelita Amos Oz, recentemente traduzido e publicado no nosso país. Não, não tem nada a ver, como noutro contexto me recordaria um velho mestre meu na faculdade californiana se soubesse destas minhas leituras, com o sexo e a violência do Velho Testamento. Ou melhor, tem a ver também com tudo isso, mas como uma fantástica tirada artística não sobre os antigos que moldaram todo o nosso destino, mas sim sobre a condição humana numa modernidade nada mais reconfortante, a fundação de Israel vista na sua essencialidade trágica, e sobretudo o individuo, ou cada ser humano, no seu isolamento e desespero perante a História, e o que esta faz de nós quando na luta e construção de uma sociedade se esquece que cada homem e mulher tem um coração autónomo, independente, e nem sempre os seus sonhos ou busca de uma utopia, sagrada ou profana, coincidem ou lhe atribuem um lugar em que a sua própria identidade ou felicidade esteja em paz com a restante comunidade. Não se trata de um romance sobre o Judas bíblico, se bem que é ele que fornece a esta narrativa a continuidade de como nos tratamos mutuamente, tornado-se um fio condutor de como hoje, à semelhança do que se sucedeu há dois mil anos, permanecemos equivocados pelas linguagens que raramente fazem mais do que distorcer a verdade, ou recriar a “realidade” que depois nos esmaga ou mata, nos faz esmagar e matar. Por entre as linhas-mestras da História, estão os homens e as mulheres, sentados na sua velhice ou na azáfama do seu quotidiano, a imitar uma ideia de normalidade nas suas vidas, digerindo todas as feridas do passado e tentando escapar à brutalidade em que vive cada nação, país, cidade ou aldeia. Israel, pois, somos nós todos, mesmo os que a querem fazer arder num fogo apocalíptico e supostamente redentor. Sião, símbolo do que desejaríamos ser mas não somos, refúgio que nos convida mas nos mata. “É óbvio – diz o protagonista de Judas – que não lhe agrada andar sozinha de madrugada no Monte Sião. E também não é nada seguro”. Não precisamos de saber muito da história da fundação moderna de Israel, e do Holocausto que apressou boa parte do mundo a autorizá-la, nem é preciso saber muito dos textos sagrados para a leitura deste romance. Ajuda, mas será, em primeiro lugar, o reconhecimento identitário, em termos estritamente humanos, que o leitor terá de descodificar para perceber logo de início que a obra que tem em sua frente é tão-só uma outra visão da nossa comum condição, a contingência da História, repita-se, um pano de fundo onde veremos o outro, e de onde ele olha intensamente dos dois lados desse espelho as nossas pessoas, que se fundem, seja esse um desejo mútuo ou não. Sim, Judas aqui é também essa outra imagem e ficção que tanto sangue tem feito derramar, tanta dor sofrida. A ficção pela qual nos guiamos. Só que o “traidor” desta narrativa também se chama Shaatiel Abravanel, que foi um pensador e militante judeu do seu tempo, tendo acabado os seus dias na solidão do seu quarto, incessantemente a ler e a escrever após ser expulso da comunidade pelos primeiros líderes do seu país porque não os apoiava na luta por um estado hebraico. A genialidade deste romance está no facto de um dos protagonistas ser um doutorando falhado que queria fazer uma tese sobre como os judeus viram e vêem Judas Iscariotes, e o velho militante sionista com quem vive durante quatro meses apresenta-lhe o seu falecido amigo e compadre, em que, uma vez mais, o conceito de traição segura tudo ou quase tudo quanto nos é apresentado nestas páginas.

Judas tem no seu centro como protagonistas e condutores de toda a narrativa Gershom Wald, patriarca e um dos fundadores do Estado de Israel (que havia estado ao lado de David Ben-Gurion, seu primeiro presidente e combatente desde sempre), Atalia Abravanel, sua nora, e Samuel Asch, que responde a um anúncio visto na sua faculdade a oferecer um emprego na casa dos dois para fazer companhia ao idoso, mais ou menos já imobilizado, mas intelectualmente activo. A chegada de Samuel, um estudante de vinte e poucos anos, à velha casa numa rua periférica de Jerusalém vai despoletar não só as analepses sustentadas sobre a história antiga e moderna do país hebraico na voz do veterano em repouso, como leva Samuel a desejar intimidade ou um relacionamento sério com Atalia, de quarenta e cinco anos, e viúva do filho único de Wald, selvaticamente morto há uns anos numa patrulha militar na Galileia. Nesta sua estrutura linear e simples o romance leva-nos  continuamente ao contacto com as mais variadas figuras ligadas à fundação e à condução de Israel, aqui ainda antes das grandes batalhas que viriam a eclodir nos anos 60 até aos nossos dias, como nos recoloca na sequência de eventos e nomes mais marcantes da história e cultura recentes. Temos na narrativa que Wald vai revivendo e equacionando página a página as três gerações em convivência no tempo ficcional de Judas, cada uma com as suas angústias existenciais e desejos pessoalíssimos, em harmonia ou não com os acontecimentos colectivos do seu passado, ou abertos a todos os argumentos que lhes possam colocar, quer no que diz respeito à sua sorte pessoal como ao destino que lhes trouxe até à realidade do presente, e mais ainda a um futuro em tudo incerto e ferozmente contestado por outros logo ali ao lado. Creio ser intencional por parte de um grande autor como Amos Oz, pessoalmente conotado com a esquerda dialogante e pacifista do seu país, que pede um diálogo com todos os seus vizinhos e actores político-militares, sem que ponha em causa a sua lealdade ao novo estado do Médio Oriente, não enfatizar directamente nem o selvagem passado europeu que leva às decisões da geração mais velha e a que pertence Wald, como deixa também ao leitor a imaginação sobre todos os outros nos arredores. O seu humanismo não esquece e muito menos trivializa seja quem for, pois o outro espreita constantemente quer nos relatos de Wald quer nos avisos de Samuel quanto ao seu desconforto nas ruas da sua cidade natal. O tema fundamental do romance é essa tentativa de equilíbrio entre uma História que coloca os seus personagens na situação que é a sua, sem que possa haver recuos, e os seus desejos íntimos, pessoalíssimos, a busca do amor na solidão dos dias e perante a morte natural ou anunciada que os ameaça por todos os lados. Não se trata propriamente de um romance de ideias, no sentido clássico que a crítica tem das suas formas, mas sim um mosaico discursivo e de todo intelectualizado, que só lhe acrescenta profundidade, e permite ao leitor mais comprometido com a literatura séria desfrutar do grande saber e sabedoria do autor em relação à humanidade nas suas infindáveis contingências, ou ainda a universalidade da nossa comum condição, em que o medo ou euforia de viver se estende de uma ponta do planeta à outra.

A ironia e humor estão constantemente presentes numa narrativa que nunca deixa estes dois fios condutores, a interpretação histórica de um povo, e a singularidade de cada ser humano apanhado nas suas teias. A tese de doutoramento de Samuel Asch nunca é concluída, mas tanto ele como o seu interlocutor na velha casa de Jerusalém discutem constantemente se Judas Iscariotes foi um traidor, ou, pelo contrário, tal como poderá ser entendido pelos judeus, foi o mais fiel apóstolo de Jesus, que o levaria ao suicídio num momento de reconhecimento da ausência da sua própria fé ou de qualquer divindade daquele que fora o seu Senhor. O pai de Atalia, falecido com a idade naquela mesma casa partilhada com a Atalaia e o seu sogro Wald, foi um outro “Judas” para os seus companheiros de luta pelo Estado de Israel, se aceitarmos a calúnia cristã que associa o seu nome à mais vil traição dos que se consideram e se consideravam estar no lado “correcto” da História. Shaatiel Abravanel foi expulso da vida pública do seu novo país quando se opôs à fundação de um Estado que excluiria os palestinianos, esses sendo os novos expulsos do seu lar, a sua História negada, o seu direito a uma identidade autónoma na sua própria terra como que proibida. De quando em quando Samuel passeia-se pelo lado de cá do muro que divide a cidade, nunca o atravessando, insinuando assim a separação de facto entre as duas comunidades, cada qual com a sua reivindicação pela nascença ou pelos textos antigos das suas origens. Mais do que a violência física num modo de ser e estar, sentimos a violência interior, a violência de alma entre estes seres que se querem honestos consigo próprios. Os seus conhecimentos intelectuais não permitem um alheamento de toda a complexidade que os rodeia no labirinto de vida e morte muito antigas na cidade que é a génese de todo o sofrimento e de toda a esperança. Ler Judas é reencontrarmos tudo o que, dentro ou fora daquela geografia, nos foi incutido desde a infância.

Entre uns e outros está Atalia, silenciosa quanto a tudo isto, mas num rodopio constante na sua vida profissional e íntima. Sim, eventualmente, deita-se com Samuel, mas a sua viagem na vida é outra, que permanece aqui meio misteriosa, meio vazia. Está em paz, parece, com as suas perdas e as suas inseguranças. Mais do que as descrições físicas da mulher bonita e matura, é esse quotidiano movimentado e em parte passado nos cafés e outros poisos sociais da cidade que recria para nós a sua sensualidade, a mulher que também encarna uma História muito antiga e cruel, ao mesmo tempo que persegue os seus prazeres e equilíbrios interiores. Estes não são só os novos habitantes de Sião, somos nós todos nos templos das nossas crenças e (in)felicidades.

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Amos Oz, Judas (tradução de Lúcia Liba Mucznik), Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 11 de Novembro de 2016.

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