Arte, ou a nossa humanidade no escuro e ao espelho

adoracao

À sua volta, as coisas escureceram, deixando de poder ser nomeadas, e Antonia pressentiu qualquer coisa indizível: um verdadeiro medo e a estranheza da esperança.

Cristina Drios, Adoração

Vamberto Freitas

Há entre alguns dos escritores e escritoras portuguesas de uma nova geração o que creio ser uma tendência identitária que vai muito para além do seu território íntimo e natal. Dirão que no processo histórico mundial em curso essa disponibilidade para ver o mundo nos seus infindáveis contextos linguísticos, culturais e artísticos é uma inevitabilidade. A nossa literatura entre outras gerações quase sempre esteve e ainda permanece obcecada com o nosso modo de ser e estar ante os outros. Tem sido uma temática constante, e produziu muitas das obras primas que têm uma noção de portugalidade como referência primordial. Do mesmo modo, o nosso impulso e visão universalistas vêm desde Camões e Fernão Mendes Pinto até ao modernismo de um Fernando Pessoa, desdobrado num tremendo jogo de espelhos que reflecte toda a tradição ocidental, toda a mítica da antiguidade até à nossa modernidade no labirinto de uma cidade europeia outrora capital imperial, e que, mesmo no seu marasmo decadente, não esquecia nem deixava de desejar as viagens longínquas ao encontro de um outro nas terras distantes. Toda a grande literatura, diz-nos a tradição crítica, é um diálogo que acolhe ou rejeita os seus antecedentes e antecessores, as “multitudes” de um Walt Whitman metamorfoseadas na pluralidade do nosso ser pessoano. Em Adoração, o novo romance de Cristina Drios, a palavra Portugal aparece uma única vez, e simplesmente em relação à visão artística desta prosa que tem como ponto de partida e chegada um diálogo entre as artes, nomeadamente entre a própria literatura, a palavra e os seus limites, e a pintura caravaggiana dos séculos XVI e XVII, tendo como fundo naturalmente a Itália ainda repartida por feudos e cidades-estados de norte a sul, ou espalhadas por ilhas no mediterrâneo de toda a beleza e tragédia. “Na verdade – diz o narrador ou narradora deste romance – sois feito daquilo que o Caravaggio nos seus quadros pinta, sois feito de luz e sombra, de vida e morte, de culpa e perdão”. Creio que haverá poucas definições ou interpretações da grande arte ocidental que consigam resumir tão eloquentemente a natureza do gesto que é a humanidade tentar entender-se através do acto criativo, ou da sua imaginação expressa por qualquer meio extra-científico. Edmund Wilson diria um dia que o modernismo literário do século passado, especialmente a partir de James Joyce e das suas reinvenções linguísticas, quase faria desaparecer a poesia nas suas formas conhecidas, pois a nova prosa ficcional estava a encarregar-se de juntar ao seu realismo descritivo e psicológico toda a beleza poética e imaginativa das nossas emoções. Poderá ter exagerado nas suas previsões e leituras, mas a verdade é que um romance como este aqui em foco é esse brilhante jogo de luz e sombras, da palavra rude e realista seguida ou integrada em frases tão doces e melódicas que se assemelham ao que porventura sentirá um observador de qualquer quadro do artista que lhe serve de sujeito, criador para sempre e parte indelével ou inesquecível do que efectivamente é o nosso imaginário da maldade e da beleza, da bondade e crueldade das lendas e dos mitos que nos fazem quem somos, ou pensamos ser. Um diálogo entre as artes, só por si, poderá não ter nada de original, faz parte das mais variadas obras, mas Adoração, creio, integra-se agora num dos mais sofisticados e clássicos cânones das literaturas portuguesa e europeia. Dizer literatura “portuguesa” poderá insinuar também aqui outra discussão teórica, mas digo-o assim e por agora porque vem de uma autora nacional e que escreve na sua língua natal.

Antes de mais, é preciso advertir o leitor que não é preciso entender ou sequer ser admirador do grande pintor italiano que se dedicou à transfiguração na tela de temas predominantemente bíblicos, e não poucas vezes parodiantes de outros artistas, antes ou do seu próprio tempo, para ser ler Adoração. Um dos grandes feitos deste romance de Cristina Drios é precisamente transportar-nos da nossa actualidade por demais conhecida para os séculos da luz e da escuridão, tal como nos quadros de fundo negro e figuras luminosas, que eram a marca inconfundível de Caravaggio, o verdadeiro protagonista do romance, e em cujo mundo e lendas ou factos biográficos se enredam os outros personagens principais: Antonia Rei, filha de bem, mais ou menos, residente num velho e recuperado palácio de Palermo, essa capital ilhoa governada simultaneamente por políticos e pela histórica máfia, cuja dicotomia não é sempre clara, e o polícia Salvatore Amato precocemente viúvo e sentimentalmente magoado por obra e graça desses verdadeiros donos da sociedade, os de arma e faca em punho e o silêncio tribal como única filosofia de vida. Estamos em 1992, quando a história tem início numa rua da cidade e em frente a um café, de vida normalíssima, mas o momento em que Antonia assiste a pouca distância a um assassínio clássico levado a cabo com uma caçadeira e fuga numa mota, sendo pouco tempo depois interrogada informalmente por Salvatore, que acontece viver no mesmo bairro e vizinho da mulher aterrorizada com o que acaba de testemunhar. Tudo o que acontece e nos é contado a partir desse momento tem como motivação única, verdadeira e histórica o roubo da tela de Caravaggio intitulada Natividade com S. Francisco e S. Lourenço ou A Adoração, a 17 de Outubro de 1969, “e que continua desaparecida. Tudo o mais – informa-nos a autora numa nota prévia – é ficção ou quase”. Quase, porque Cristina Drios reconstrói toda uma época por ela investigada, toda uma ambiência habitada por personagens reais (outros artistas, mecenas, figuras amigas e inimigas, autoridades políticas e religiosas) presentes nas histórias da arte do seu e nosso tempo. É nesse acto de imaginação pura e nas diversas linguagens do romance que vão desde documentos arquivados ou inventados pela narradora que Adoração se ergue como uma singular obra literária, uma vez mais, em diálogo com alguma da pintura mais memorializada da história europeia e universal, a sua temática toda uma reinterpretação da religiosidade e mítica que passou a definir-nos a vida e a morte, o amor e o ódio, a solidariedade e a traição. Algures entre uma espécie do romance policial e histórico, todo caos do nosso presente é contraposto a um passado nada menos instável e cruel, em que o bem e o mal se entrecruzam na continuidade sem fim que foram e são desde sempre as nossas vidas colectivas, ou na solidão da miséria de rua ou da frieza indiferente de palácios e jardins que só na arte nos parecem ou viram paraísos oníricos. São várias e de tempos próximos e distantes as vozes que nos falam nestas páginas sem uma única resposta para os enigmas e mistérios da vida vivida ou representada. Cada frase, ora depuradamente realista ora de uma poética lírica que nos faz querer lê-la em voz alta, é uma interpelação ao leitor sobre como olhar em seu redor, e depois admirar-se no jogo de espelhos em que nos vemos em várias dimensões, ou nas distorções da nossa própria fealdade, a luminosidade da nossa auto-consciência ensombrada pela escuridão em que Caravaggio colocava os seus míticos seres e espaços reinventados.

Com passos decididos, – diz o narrador de Antonia quando ela regressa ao palácio paternal após testemunhar o crime na praça do Teatro Massimo, definindo-a perfeitamente, definindo o seu estatuto, introduzindo ao mesmo tempo toda a trama que vai guiar a sua história de surpresa, medo e fascínio, fascínio dela e nosso – Antonia subiu a escadaria, olhando pela janela. O céu tomara tons de um azul extremo, violento, sem nuvens: a obra de Deus, na sua infinita beleza, a não precisar de assinatura, a bastar-lhe a nossa adoração. E se Caravaggio nunca assinara as suas telas, pensou ela, talvez fosse porque também lhe bastasse apenas a adoração da sua obra, já que não deixava de ser o demiurgo desse universo, compreendido ou não. Nesse instante, porque lhe dissera ser quase um vizinho, pensou no comissário Salvatore Amato e logo depois, estranhamente, no pai com um nó na garganta e uma sensação amarga de abismo e perda…”

Se há uma característica textual que mais marca Adoração, creio, é a subtileza da sua ironia, a capacidade de movimento entre vários tempos ficcionais, sem que o leitor se perda num emaranhado de acções, ou dos múltiplos personagens secundários que giram em volta da vida e obra de Caravaggio. Cristina Drios consegue retratar uma sociedade de um renascentismo que parece já em fase tardia e em anunciada decadência, com todo o seu dramatismo histórico, político e artístico, uma espécie de caos criativo que em muito pouco difere dos nossos próprios dias, como comprovam os acontecimentos que dão início e fim a Adoração. Por certo que o melhor dos romances ditos “históricos” tentam quase sempre imprimir esta noção de que a passagem do tempo não implica necessariamente a progressão de ser e estar, a que chamaríamos de Iluminismo e depois Modernidade, a separação do tempo da Inquisição e da criminalidade generalizada da nossa própria era está suspensa num ténue fio de suposta moralidade e civilidade. Talvez seja esse um outro tema deste romance audaz: quase todos os quadros de Caravaggio, relembra-nos a narradora, são representações dos homens e mulheres saídos da mítica religiosidade civilizacional a que pertencemos, mas cujos figurantes eram as caras e os corpos dos seus contemporâneos, quando não do próprio artista. Adoração traz-nos essa outra originalidade – a arte literária revendo-se a si própria, olhando outras formas e eternas representações do tempo e da vida.

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Cristina Drios, Adoração, Lisboa, Teorema/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 18 de Novembro, 2016.

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