Retratos açorianos

brisas

Suporte precioso onde a Vida se instala,/desdobrando-se em tons e sons num/cântico de Primavera, onde nascem e vivem Poetas.

Ana Franco, Brisas

Vamberto Freitas

Vai aí na integra o poema de abertura, significantemente intitulado “Ónix”, desta singular viagem pela terra e pelo mar dos Açores, onde a bondade da sua natureza se alia à indelével memória da sua autora no seu regresso à natureza, aos amigos e a outras pessoas que lhe deram sentido à vida e lhe moldaram a sua visão a partir de mundos muito mais vastos e humanamente complexos do que as pequenas ilhas do nosso arquipélago. Ana Franco reside desde há muito em Lisboa, e foi no continente que ela criou e desenvolveu toda uma carreira no ensino e nas artes plásticas, particularmente na sua colaboração ou protagonismo em exposições de grande alcance e originalidade, como foi o caso que ela nos relembra quando o escritor Alçada Baptista a chamou a participar no programa “Nós e os Laços”, e em que ela deu a sua “visão sobre a importância da Arte na Vida Quotidiana portuguesa”. Não me espanta o romantismo implícito nestes poemas de Brisas, e muito menos o trabalhar a memória através de palavras semanticamente carregadas ante a natureza que rodeou a sua infância na ilha, e particularmente ante figuras da família ou amigas que também lhe moldaram o seu modo de ser e estar nas suas vivências em espaços metropolitanos bem mais vastos e humanamente muito mais complexos do que uma pequena sociedade onde escorre sangue comum nas veias de quase todos, onde se nasce e morre ao lado dos que connosco partilham uma rua ou bairro, todo um destino. Estes poemas da nossa autora tardaram, mas a vida comanda as nossas vontades. Chegamos todos a uma idade em que vivemos as mais inesperadas circunstâncias – a mais forte das quais está expressa num belo poema que prefiro não ler outra vez ou citar pela proximidade pessoalíssima em que esses versos me colocam – e que tornam inadiáveis a palavra que, a um só tempo, expressa boa parte da vida interior, e pode ser interpretada também como uma mão estendida a todos os outros que a encontram nas suas páginas. Antes de mais, quero reafirmar o que sempre nos foi evidente na nossa modernidade, quer a modernidade da vida, quer na literatura – o tema todo poderoso foi sempre o regresso a casa, real ou metafórico, esta necessidade de nunca decepar as nossas raízes, de nunca deixarmos de cultivar os nossos jardins. Um crítico americano lembrava-nos ainda há poucos dias que James Joyce abandonou Dublin para depois passar a vida a revive-la e a transfigurá-la na sua obra; William Faulkner nunca quis sair de casa, e fez de um pequeno espaço um universo inteiro onde a condição humana é representada universalmente, em todo o seu esplendor e miséria; entre nós, Vitorino Nemésio faria o mesmo a partir do continente, em praticamente toda a sua obra e nos seus frequentes regressos à Praia da Vitória. Os escritores da minha geração seguiram-lhe os passos, mesmo que alguns deles o neguem por razões que Freud já conhecia muito bem. Redefiniram, estes, a terra e o seu tempo, por vezes obsessivamente. João de Melo mitificou a açorianidade adentro da sua própria modernidade literária, e Emanuel Félix na poesia carregou-a ainda mais de solidão e poiso dos vencidos inconformados.

Nesta obra de Ana Franco temos palavras e expressões recorrentes – que António Rego, prefaciador destas páginas, também assinalou no seu texto – que anunciam ou denotam de imediato a sua temática poética, uma sequência que mais parece uma exposição de quadros ou uma sinfonia da terra atlântica: basalto, paleta variada, água, orvalho, arte e artistas, música, silêncio. Toda a sua poesia parece essa tela que tem como centro e margens a própria ilha envolta num levíssimo toque sensual que o seu orvalho refresca e como que cristaliza nas folhas das árvores e nas pétalas das flores, as formas, as cores, os cheiros, a sombra da ilha-mulher perfilada nesta que é a sua pintura sublime. Quase vemos em cada verso os próprios movimentos dos dedos da artista na orientação dos pincéis, transmitindo-nos o canto dos pássaros e os sons das suas linguagens enquanto nos pisca o olho para atentarmos nos seus constantes estados de alma, que oscilam entre a tristeza de grandes perdas humanas e a alegria de pertencer a uma pequena terra sempre presente no mosaico das suas recordações, na saudade ora transfigurada num sorriso ora numa lágrima e no choro de quem sabe que estamos numa viagem cujo regresso só poderá acontecer através da arte, que nos sobrevive e para sempre testemunha o termos sido, simplesmente. Um primeiro livro raramente é um primeiro livro, quando o escritor ou poeta vai escrevendo e arrumando essas páginas em gavetas, tira e recompõe, elimina e adiciona. Então, irrompe a palavra/que jorra dentro de mim/amarfanhada pelo tempo/que não lhe pude dar, escreve em “Dêem-me Natureza, Silêncio”. Brisas contém versos que datam dos anos 90 e chegam até aos nossos dias. Publicar um livro de poemas será sempre essa vontade de partilha, uma vez mais, a oferenda de quem não está nem quer estar só. Os Açores poderão sofrer de carências várias que provêm das suas circunstâncias históricas e da geografia acidental que nasceu do fogo repartida entre si, mas desde os seus primeiros dias foi uma terra contada pelos seus poetas, representada pelos seus artistas que nunca deixaram de lhe ser fiéis, a distância agudizando ainda mais a necessidade de a viver e reviver. Como diria um dia o florentino Pedro da Silveira, poucas são as terras de dimensões semelhantes que têm sabido insistir na sua presença e na universalidade da condição que nos foi dado viver, e que Raul Brandão chamou de “solidão pavorosa” em As Ilhas Desconhecidas. Chegamos à contemporaneidade não como meros súbditos de certos poderes, mas sim como sujeitos e construtores da sua multissecular sociedade. De “Auto-Retrato”: se eu/fizesse/um auto-retrato/uma gota/de orvalho/seria./Porque nada/ da Vida/da natureza/e da Arte/tingir queria. Falo aqui ainda numa sensualidade que tem a ver com o prazer que adivinhamos no próprio olhar lento de escrever, ou nas palavras de uma voz serena mas firme, um gesto de sedução ou de comovida sensação ao transfigurar o que a poeta ama na vida que lhe deram e dão os que a acompanham nessa tal viagem de perpétua descoberta e sentido de pertença, antes deste chamamento das suas origens nas ilhas açorianas. Na verdade, Brisas retoma e recupera, num tempo de cinismo e medos de toda ordem, os Açores cuja beleza natural se contrapõe à sua História menos feliz e segura, essa geografia de tremores de terra e mar de chumbo por entre o mais azul dos horizontes e os sonhos das nossas navegações rumo ao outro lado.

Nem digo por palavras minhas – escreve António Rego no prefácio – o que contém este livro. Roubo palavras soltas que se espraiam por estas páginas. Ónix, Açores-contas enfiadas pelo mar dentro. Nascentes límpidas, lava que esculpiu o mar, o silêncio, as neblinas, a brisa e as brisas, o açoriano irrepetível que vagueia pelo mar ao sabor do vento. O mar – a grande estrada por vezes de crinas brancas, o basalto, rocha forte, filha das forças da natureza. A água respiração da terra, a cascata que não se sabe se canta ou reza. E o orvalho, íris da natureza que é para a terra o que as estrelas são para o céu. E as árvores que falam e as hortênsias que preferem o silêncio”.

Brisas é uma esplêndida litania à natureza dos Açores, e, nas suas últimas páginas, uma homenagem a algumas das figuras que entraram e ficaram na vida da poeta, uns família, outros reconhecidos pela sua actividade pública ou ligada aos ritos e à religiosidade mais comoventes do povo açoriano. Estes são os seus poemas de amor e gratidão a um destino em que a dor afina, ainda mais, o amor, parafraseando a própria autora. Quando a poeta escreve Dentro de Nós/há sempre Primavera/na idade/no sorriso/tal como nas estações, lembro-me de como Herman Melville escreveu “Novembro no coração” para metaforizar o estado de espírito do seu personagem maior, Ismael, antes de se fazer ao mar e às lides de homens bravos. Não sei se haverá muitas outras gentes que vivem em atenção permanente aos humores do tempo como nós açorianos, atentos a cada mudança da luz no céu ou da cor no mar. Quedamo-nos introspectivos e de olhar no longínquo para depois explodirmos ao som de música e foguetes (como alguém também disse sobre outra terra) quando o sol brilha e as noites ficam banhadas no luar de Agosto. A poesia celebratória da terra e do seu povo já é pouco comum entre nós, mas creio que palavras como as de Ana Franco vêm relembrar-nos de como olhar em nosso redor e voltar a apreciar a beleza de cada recanto, o contraste absoluto com a dita civilização de betão e muito rancor citadino. Diria ainda que parte da nossa civilidade requer de quando em quando essa apreciação da dádiva que é este Rosário de contas/pelo mar estendido, nos versos de abertura do poema precisamente intitulado “Açores”.

De resto, falta dizer que a arte, literária ou outra, não recupera as nossas maiores perdas na vida, que é sempre a morte ou o afastamento dos que nos amam e amamos. No entanto, a literatura é esse outro acto contra o esquecimento, é, repita-se, a memória transfigurada de quem fomos e somos, de como vivemos e sobrevivemos em comunidade num determinado tempo e lugar, é a narrativa que se transforma no elo ou no memorial mais poderoso das gerações que se seguem e cuja identidade os aproxima irremediavelmente de nós. É essa, creio, a mensagem maior de Brisas, a palavra poética como testemunho de um destino comum, que é o da autora e o nosso.

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Ana Franco, Brisas, Cascais, Princípia, Editora, Lda., 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, de 9 de Dezembro de 2016.

A arte do riso e a realidade da arte

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O homem que eu amava deixou-me por outra e eu entrei em desespero e matei-o. Provavelmente enlouqueci. Mas talvez não seja eu realmente culpada.

Teolinda Gersão, Prantos, amores e outros desvarios

Vamberto Freitas

Já sabemos que um conto tem de surpreender o seu leitor de imediato, e o seu fim ser caracterizado por uma radical viragem na narrativa. Tudo o que esperávamos não acontece, e o que nos parece ou nos disseram ser a “realidade” distorce-se numa subversão textual que, assim mesmo, não pode perder a plausibilidade. Dir-se-ia que isto é verdade sobre qualquer peça de ficção, mas o conto por regra constitui uma fatia-de-vida que só vale a pena ser relatada como que numa parábola, não necessariamente para ensinamento seja de quem for, mas para nos colocar do outro lado do espelho de onde vemos e nos vemos ora em mundos que não pensávamos comuns, ou sequer reconhecíveis por outros, ora aonde, afinal, vivemos a felicidade do inatingível ou o pesadelo de todos os nossos medos, ou ainda a estranheza do que nos é meramente diferente mas sem ameaças ou prazeres de qualquer espécie. Por outras palavras, o conto deverá retratar e devolver a nossa própria humanidade guiada, sempre, pela complexidade da consciência humana, que nos leva e traz imparavelmente em viagens imaginárias de dentro para fora e de fora para dentro. Somos nós que reinventamos a realidade, e é, simultaneamente, essa mesma realidade que nos forma e deforma. Para dar aqui só um exemplo extremo de uma outra literatura, diremos que do fantástico aterrorizador de um mestre como Edgar Allan Poe ao hiper-realismo dito “sujo” de um Raymond Carver cabem todas as nossas fantasias e medos, todos os nossos prazeres e desgostos da mais afastada modernidade até aos nossos dias quase inomináveis a partir de ideologias reinantes, mundividências ou representações artísticas nas letras e nas outras artes. Queria apenas colocar esta obra de Teolinda Gersão num outro contexto, que não o habitual realismo, por mais brilhante que seja, da nossa própria tradição. A autora de Prantos, amores e outros desvarios não só parte quase sempre do quotidiano, como creio alguém já ter observado, para o reinventar na sua arte, como nesse processo cria os mais inesperados universos paralelos, desconstruindo não só esses seus dias presumivelmente vividos e lembrados, como desconstrói implacavelmente outros mundos contidos em literaturas que a influenciaram, ou pelo menos de um modo ou outro entraram nos seus múltiplos imaginários literários. “Alice in Thunderland”, o último conto deste livro, é uma revisitação nada inocente e de todo surpreendente ao famoso romance Alice in Wonderland/Alice no País das Maravilhas, publicado em 1885 sob o pseudónimo de Lewis Carrol, e que contém em si toda a temática que tende ser recorrente em muita da sua obra – a génese da própria literatura, e depois a realidade que a provocou ou inspirou nos seus diversos contextos, e vice-versa. Todos estes contos são, para citar aqui o título de uma outra autora que me é muito querida, um “sorriso por dentro da noite”. Aliás, desde a primeira à última linha desta escrita, é o humor que mais sobressai em cada personagem ou situação defrontada, nunca retirando a seriedade da sua temática, desde o amor e desamor à injustiça das e nas nossas vidas, como em “O meu semelhante” e “Décimo mandamento”, até à natureza da mentira como verdade, que é naturalmente a essência de toda a grande literatura, a vida escondida no sonho, ou o pesadelo do dia-a-dia disfarçado no sentido de missão e obrigação perante os outros, como em “Vizinhas”.

A escrita de Teolinda Gersão traz luz à nossa escuridão, mesmo que a loucura espreite a cada momento. O primeiro conto desta colectânea, “Pranto e riso da noiva assassina” é uma magnífica tirada a uma condição universal que é o amor entre dois seres humanos, seguida pela humilhação da rejeição, a raiva íntima sentida num momento de uma vida tornada para sempre numa comédia posterior, o que mais nos move e comove enterrado inevitavelmente na sucessão de relacionamentos abertos ou escondidos, ou na aceitação da solidão e saudade. A morte de que aqui se fala “acontece” com um realismo quase assustador, mas apenas num estado onírico. Cabe à literatura dar sentido e reorganizar as verdades e falsidades das nossas vidas, desfazer o mistério das coisas perante coincidências sem qualquer sentido ou origem deliberada – os “desvarios” que todos vivemos uma vez ou outra, com ou sem consequências maiores. Por mais individualistas, ou mesmo narcisistas que sejam estes personagens masculinos ou femininos (a autora dá voz a narradoras e a narradores), a grande sociedade que os rodeia está sempre presente, sem nunca se pronunciar certas palavras-chavões que julgam ou sentenciam a nossa condição colectiva, está reflectida irremediavelmente nos valores que cada um segue, profere ou justifica o que faz ou deixa de fazer. Mesmo na clausura de um prédio citadino, aqueles que o “homem subterrâneo” de Dostoievski rejeitava como sendo parte de um outro inferno da modernidade, residem as múltiplas metáforas da condição humana que nos é dado viver e testemunhar, palavras e acções uma clara reprodução e fingimento do que vai e predomina no lado de fora da porta. Desde uma empregada de limpeza a um banqueiro demasiado reconhecível na nossa actualidade, estão lado a lado a consciência magoada de quem virou as costas ao sofrimento momentâneo de outro com a crueldade da hipocrisia beatificada da chamada sociedade aberta e compassiva. Pode a autora extrair a mais bela poesia do buraco negro que também envolve e afoga a nossa existência, mas nunca o esconde. Poderá ser que só a ficção fala a verdade, como ainda há dias nos relembrava a escritora Anna Solomon em “Writer, Writer Pants on Fire”, num mini-ensaio de The New York Times: “As mentiras da ficção – escrevia ela – são mais verdadeiras do que a própria verdade”. Não vejo melhor descrição – ‘Escritora, Escritora, Calças a Arder’ – desta e de outras obras de Teolinda Gersão. A quase indescritível confusão e insegurança das nossas vidas nos tempos presentes e escuros, parafraseando uma outra grande autora do século passado, tem levado a um certo fascínio de escritores, portugueses e estrangeiros, pelas artes e estudos clássicos de outros séculos, como que numa tentativa de melhor se perceber as origens da tragédia moderna. Ler estes contos da nossa urbanidade é como olharmos solitariamente pela janela, vendo o que vai na rua – poderemos estar sós, mas fazemos parte de um todo, somos apenas mais uma peça do mosaico, indesligável, por mais que queiram certos existencialistas, da sorte de todos os outros.

Viu-se no brilhante papel de benemérito – eis aqui o pensamento do banqueiro em ‘Décimo Mandamento’, e que a caminho da igreja que frequenta assiduamente topa um mendigo cheio de fome, provocando-lhe pensamentos que não só se assemelham a muito do que ainda se pensa e diz por palavras variadas e bem mais estudadas, como engloba boa parte da história europeia recente – a assinar um compromisso de serviços gratuitos aos mendigos: distribuição ilimitada de pão, vinho e carne, tratamento nas clínicas geridas pelo Banco, garantia de todos os encargos com a sua cremação ou enterro… A abundância de comida pouco variada mantê-los-ia fartos e gordos, mas não saudáveis, por um tempo relativamente curto. E, vivos ou mortos, os seus corpos tornavam-se um manancial de lucro, desde recolha de sangue e venda de órgãos, campo livre para testar novas substâncias, para já não falar do que, como a gordura, poderia ser aproveitado no campo da cosmética. Bastava saber como fazer as coisas, mas nisso ele era perito e tinha uma enorme rede a colaborar com ele”.

Aqui como noutros contos, Prantos, amores e outros desvarios é um diálogo com alguma da mais duradoura literatura satírica e modernista a partir de Jonathan Swift, como se vê na citação anterior, a talvez Aldous Huxley e George Orwell, consciente ou mesmo que apenas sub-conscientemente. O último conto, já referido, “Alice in Thunderland”, significativamente o mais longo desta colectânea, é uma peça antológica, na sua forma e no seu tema, na sua perfeição contextual com que escava a possível génese não só de Alice no País das Maravilhas, mas da literatura em geral e pelos motivos mais diversos, quer pessoais, religiosos, ideológicos ou meramente artísticos. A ficção toda inocente do livro que se tornou um clássico no mundo inteiro, imortalizado ainda mais pelos estúdios da Disney, poderá ter a sua génese no que hoje é considerado o mais sujo desejo, a pedofilia, o professor de nome Charles Lutwidge Dodgson escondendo numa história sem sentido ou nexo a voracidade com que fotografava e se passeava com raparigas e rapazes. O choque literário deste texto não deveria surpreender ninguém para além de ser uma astuta narrativa, só a capacidade interpretativa da sua narradora. Fez-me lembrar de imediato outra criação desde há muito icónica e lendária na cultura universal do século passado, e igualmente até aos nossos dias – a origem da balada “Over the Rainbow”. Foi escrita pelo judeu-americano nova-iorquino, e comunista pró-soviético Edgar Ypsel Harburg – que acabaria na lista negra de Hollywood durante a perseguição anti-esquerda dos anos 50 – para o filme Wizard of Oz, em 1939, mas a sua mensagem era bem outra, que não a canção de embalar meninos e meninas, mas sim o equivalente ideológico, digamos, dos nossos “amanhãs que cantam”, tendo o letrista escondido nas suas palavras a implícita crítica ideológica e política àquele momento histórico do seu país e do mundo, os perpétuos desvarios do nosso destino.

Prantos, amores e outros desvarios dá continuidade a uma extensa obra literária da nossa autora. “O que a Teolinda faz é escrever a vida”, afirmou noutra parte e vem reproduzido na contracapa deste livro a professora e ensaísta Maria Alzira Seixo. São os nossos irremediáveis estados de alma – com princípio, meio e fim, mesmo que das realidades textuais não o reconheçamos. Somos nós do outro lado do espelho a espreitar a nossa própria humanidade. Aliás, os três substantivos do título destes contos significam talvez na totalidade toda a condição humana, no imaginário destes personagens e na realidade das nossas próprias vidas.

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Teolinda Gersão, Prantos, amores e outros desvarios, Lisboa, Porto Editora, 2016. A informação sobre o autor de “Over the Rainbow” foi tirado de American Dreamers: How The Left Changed A Nation, de Michael Kazin.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 2 de Dezembro, 2016.