História e identidade, ou metáforas do amor e do ódio

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As lendas atraem a elite como as ideologias atraem os homens comuns, e como as descrições de terríveis forças ocultas atraem a ralé e a escória. Somos o quê neste pântano de aristocratas e selvagens?

Tiago Salazar, A Escada De Istambul

Vamberto Freitas

Antes de irmos ao contexto ficcional das palavras acima citadas, permitam-me uma observação preliminar. A Escada De Istambul é o primeiro romance de Tiago Salazar, a história de uma família judia sefardita de nome Camondo, com possíveis origens na Península Ibérica, e com história documentada da sua errância desde Veneza a Paris, quando os seus poucos sobreviventes são efectivamente extintos nos campos de batalha e nos campos de concentração alemães da II Guerra Mundial. Já iremos também à natureza de uma narrativa de fôlego como esta, e o jogo de espelhos entre a realidade e a ficção, a fiabilidade dos seus narradores, e como uma obra de arte se auto-sustenta sem mais referências biográficas ou mesmo fundamentação em tudo que diz respeito à passagem do tempo e aos rumos nacionais de cada geografia em que é localizada. Por agora queria dizer que Tiago Salazar e este seu novo livro enquadram-se no que me parece ser um novo grupo de escritores pertencentes a uma geração que segue a minha, e que tem irremediavelmente a globalização como casa do ser, como temas tão familiares como os que escreviam ou escrevem sobre os palmos de terra da sua nascença e vivência, digamos um William Faulkner a retratar uma certa americanidade sulista, ou qualquer um dos nossos mais conhecidos neorealistas, mas não só, a transfigurar uma vida numa pequena aldeia ou campo alentejano. Poderei estar equivocado, mas para estas novas vozes entre nós – e digo-o sem qualquer juízo de valor ou atitude literária – a questão da portugalidade, da nossa identidade adentro de fronteiras europeias ou mesmo transatlânticas, está arrumada, ou já não chega para nos colocarmos na história e comunidade mundiais a que pertencemos, entre ou para além de raça, língua, religião ou ideologia. Nestes últimos anos, só como alguns exemplos, temos João Pinto Coelho, com o Perguntem a Sarah Gross, Cristina Drios, com Adoração, Valter Hugo Mãe com quase toda a sua obra e agora com Homens Imprudentemente Poéticos. Noutros registos artísticos em que esse mundo sem fronteiras – ou as fronteiras que agora nos são íntimas – é vivido ou meramente observado e comentado por personagens lusos temos os contos em Amor em Lobito Bay, de Lídia Jorge, o recente Prantos, amores e outros desvarios, de Teolinda Gersão, assim como alguma ficção de Ernesto Rodrigues, particularmente o seu romance Uma Bondade Perfeita. Não que a arte literária se livre ou se possa livrar das suas geografias humanas – só que as define e refine perpetuamente, o movimento histórico de cada época requerendo, penso, esses outros olhares, as viagens ora “para dentro”, como diria Edward Said, ora a descoberta da universalidade num caminhar em busca de, ou na convivência com o Outro, esse ser imaginário que acabamos todos por habitar, mesmo na nossa terra natal. A Escada De Istambul faz-nos relembrar ou tomar consciência de muitas destas questões, inclusive a geografia como determinante também da condição que nos é dado conhecer e viver, menos do que como poiso enraizado de estabilidade e felicidade do que como condenação perante a História universal de raiva e sangue entre povos e as suas filosofias de vida. Esta é uma narrativa que recua alguns séculos e termina a meados do século passado, mas a sua intemporalidade demonstra mais a circularidade da história do que qualquer noção de progresso em linha recta.

Na verdade boa parte da escrita do nosso tempo raramente separa ou tem de separar géneros, o autor confundindo-se com o narrador, a prosa ensaística ou mesmo poética intromete-se frequentemente na narrativa descritiva ou noutros discursos, em diálogo ou em confronto adentro da trama contada. Um romance também pode ser, como A Escada De Istambul é, uma outra viagem – o género de literatura a que o autor está ligado entre nós, um género cuja poética se abre a uma grande diversidade narrativa – pelo tempo e pela História na reinvenção de outras vidas cujo significado se torna algo mais do que os seus próprios sujeitos ou personagens. O autor deambula aqui por Istambul e dá por si numa escada algo original na mais histórica e simbólica cidade do Bósforo, ou do Levante no seu todo. Na sua admiração pela estrutura original dos degraus que a certa altura se bifurcam em duas direcções encontra um arquitecto turco, de nome Mehte, que nota o seu fascínio ou interesse fora do comum, e o convida para um copo de raki e uma longa conversa. Começa assim o relato histórico mas quase desconhecido da família de Abraham-Salomon Camondo, desde a sua chegada àquela cidade imperial na século XVIII, entre o autor e o turco que se torna na fonte e voz principal de toda a narrativa deste romance, e que nos vai proporcionando a contextualização política de várias eras. O simbolismo de toda a trama não nos poderá ser alheio – geografia e vidas tornando-se metáforas do desencontro entre sociedades, civilizações e poderes que desde de sempre separam o Ocidente europeu do outro lado do seu ser, que serão o Próximo e o Médio Oriente. Que a família Camondo se torna distinta na Constantinopla agora muçulmana mas de um passado de grandeza universal por entre um desacordo perpétuo entre povos que teriam tudo para se aproximarem, é, uma vez mais, essa metáfora dominante de A Escada De Istambul. Os Camondo eram uma família de banqueiros internacionais, possivelmente desde os dias da Inquisição. Será precisamente a partir dessa posição de todo estereótipada entre nós – o judeu agiota, errante e desleal – e que tem levado à perseguição implacável em praticamente todos os países e outras culturas e religiões do mundo até à maior tentativa de genocídio da história humana, que a narrativa de Tiago Salazar desconstrói a falsidade tão simples como mortífera sobre e para o povo judeu, particularmente na Europa e arredores mais próximos, essa mesma Europa que hoje se vê na obrigação de receber outros povos também originários das mesmas áreas, essa mesma Europa em que os próprios judeus se sentem de novo ameaçados. No entanto, os Camondo foram, em primeiro lugar, fundadores de escolas ecuménicas, financiadores de imperadores e empresários, protectores e mecenas das artes, desde o velho Império Otomano aos impressionistas de Paris do fim do século XIX e à modernidade artística em geral das décadas seguintes.

Todas as acções, todas as práticas ora quotidianas ora visionários de um outro futuro para todos, toda a filosofia de vida desta família judaica desmente a grande mentira que os assombrou desde as suas origens até aos nossos dias. Será importante realçar que não se trata de romanticizar um povo perseguido, reforçar ou sugerir inferioridade ou superioridade a outros, mas simplesmente “ouvir” a história contada não por um ocidental, não por um judeu, mas sim pelo narrador principal, que assumimos ser de grande formação científica e humanística – e muçulmano. Na narrativa de Mehte, em que a “realidade” histórica e necessariamente reinventada se alia à imaginação pura, não deduzimos qualquer intenção de branqueamento ou, repita-se, romanticização dos perseguidos, mas sim uma outra versão em volta de questões maiores de toda a nossa civilização, reduzidas ao exemplo de uma distinta família rica e generosa, mas para quem a História não deixava que um chão se tornasse pátria, que uma língua os ligasse a uma tradição, que uma religião fosse vista como uma entre outras, tentando chegar a um Deus comum. Creio que estamos perante uma outra subversão do orientalismo, a visão perpetrada por ocidentais sobre povos da mesma região ou do Outro em geral, que estruturou toda a obra teórica do palestiniano Edward Said, e que foi muito recentemente retrabalhada no grande romance Bússola, do francês Mathias Enard. Nesse sentido, A Escada De Istambul ficará para nós como uma das poucas obras que, sem nunca o insinuar, terá como um dos seus referentes principais o nosso próprio passado de perseguição e violência pouco abordada nos compêndios do ensino nacional a todos os níveis, esse que levou até há décadas ao esconderijo de comunidades de origem judaica no nosso território nacional. De resto, serão por certo as suas linguagens e estruturas narrativas, que combinam vários tempos histórico-políticos e culturas ditas nacionais, que suponho interessar aos seus leitores, para além naturalmente das representações dos personagens principais, do seu quotidiano e existência visionária quanto a um outro futuro para si e para nós todos.

Um dos grandes prazeres que estão de regresso à leitura de muitos dos nossos escritores contemporâneos é que os jogos linguísticos ou de linguagens ofuscadoras já não passam por ser marcas únicas da uma grande arte, essa que era destinada não se sabe bem a quem. Poderá ser que a ausência de sentido ou filosofia de vida foi um dos grandes temas da modernidade literária. Outros dizem que não, que foi a obsessão de um regresso simbólico ou real a casa que mais comoveu um James Joyce ou um William Faulkner. Não são de leitura fácil, mas tinham e têm algo a dizer. Seja como for, este regresso pós-modernista a certo revisionismo histórico pelo lado positivo, pelo lado da bondade humana e das luzes na escuridão, é muito bem-vindo. O outro lado têm vozes que chegue – e pouca ou nenhuma beleza.

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Tiago Salazar, A Escada De Istambul, Lisboa, Oficina do Livro/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 26 de Dezembro, de 2016.

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