Calvino na América

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Devo dizer que a mim o American way of life não me desagrada, se por isso entendermos um ideal de eficiência, no trabalho produtivo e no gozar a vida.

Italo Calvino, Um Otimista na América

Vamberto Freitas

Que esta viagem à América de Italo Calvino ficou inédita durante tantos anos, ao que parece por vontade própria do seu autor, não me espantou assim tanto por razões explicáveis de quem tem lido ao longo dos anos outros autores estrangeiros que visitaram e escreveram sobre os Estados Unidos. A própria capa traz a informação que Calvino começou a escrevê-lo logo em 1960, mas não diz quando o terminou. A edição original foi publicada em 2004, e agora no nosso país. Não seria a primeira vez, como se sabe, que isto acontece com um grande escritor de fama mundial em relação à sua obra, que por vontade própria decidira que ficasse num espólio de silêncio. O próprio autor considerava que estas suas páginas não eram bem literatura de viagens, no seu sentido clássico, ou mesmo jornalístico, concluindo, é de crer, que não tinham assim tanto de original, nem na prosa nem no seu embate pessoal com a realidade americana. Numa primeira ou ligeira leitura assim também poderá parecer a muitos de nós, mas um autor como este nunca poderia deixar de nos transmitir algo de novo e inesperado acerca do mítico país da nossa modernidade, tanto pela sua capacidade intelectual e de observador implacável, como pelo seu humor constante e abertura a tudo quanto é novo, como ainda especialmente pelo seu estatuto de cidadão na altura – passara só dois anos depois do seu abandono do Partido Comunista Italiano, agora, supõe-se, livre dos mais arraigados dogmas ou lealdades partidárias. Por outro lado, atente-se no período de tempo que ele passa no grande continente a oeste: alguns meses entre 1959-60, ou seja, no auge da Guerra Fria, que em pouco tempo levaria o mundo à beira de uma catástrofe nuclear devido a Cuba, o tempo em que a América internamente conhece um grande salto para a prosperidade e sociedade de consumo total, já não admitindo qualquer desafio à sua hegemonia no Ocidente.

Italo Calvino recebeu uma bolsa da Ford Foundation para percorrer livremente os Estados Unidos durante seis meses, quando já era conhecido por uma obra que começa a ser publicada em 1947, e ele próprio associado à grande editora italiana da época, Einaudi, mas não deixa de ser curiosa esta estadia do autor em todo o país, encontrando-se, como ele próprio dá conta nos seus textos, com intelectuais e professores universitários, recebido pelas mais diversas instituições, e até por figuras que hoje são parte da História do país, como Martin Luther King, Jr. e o seu número dois, Ralph Abernathy, chegando mesmo a entrar nas suas igrejas e a participar nalgumas reuniões públicas, mas relata tudo numa prosa bastante hesitante e ambígua. Vai de Nova Iorque a Los Angeles, e depois às maiores cidades do sul profundo, declarando, para mim surpreendentemente, Savannah, no estado da Georgia, “a mais bela cidade dos Estados Unidos”. Em São Francisco aproveita, e isto é uma das maiores curiosidades literárias desta prosa americana de Calvino, para desancar outra vez nos então emergentes escritores beat, sem nunca mencionar um só nome, considerando-os pouco mais do que jovens ricos mimados e a viver o vazio da sua proprio prosperidade, desafiando a sociedade pelos seus estilos de vida e prosa aparentemente rebelde. Alguns anos mais tarde, Charles Bukowski diria quase o mesmo destes seus companheiros de estrada e da escrita, e em termos muito mais duros, em ambos os casos levando os seus leitores à risada quer gostassem ou não dessa outra literatura. Quando Calvino começa a escrever este livro, Allen Ginsberg, essa figura hoje também mítica da rebeldia americana, já tinha publicado em 1956 o seu poema “Howl”, que de certo modo passou a fazer parte indissociável da herança artística de uma Nova Esquerda, essa que pouquíssimos anos depois quase faria estourar na rua os EUA. Seja como for, são estas e outras tiradas do autor de O Visconde Cortado ao Meio e d’O Barão Trepador que fazem da nossa leitura uma contínua surpresa, ou uma leitura feita com a perplexidade de quem nunca esperaria por parte de um escritor como Italo Calvino certas atitudes perante a sociedade capitalista por excelência. Por várias vezes Calvino alude à concorrência com a União Soviética, mas quase sempre em tom baixo, como quem se vê obrigado a não esquecer o outro lado do grande debate ideológico então em curso e que, uma vez mais, ameaçava o mundo inteiro. “Desde sempre – escreve ele a dada altura – tem existido e existe, tanto para os russos como para nós e decerto para muitos outros povos, uma América de utopia que funciona como mito ativo, de um nível de vida a alcançar. Nos Estados Unidos, onde as coisas estão sempre mais à frente do que as ideias, onde as forças produtivas e a técnica conseguem modelar a civilização mais diretamente e com menos obstáculos e atrasos, configuram-se realidades que são como imagens de um mundo futuro”. Palavras de todo inesperadas de um alinhado marxista, senão arrependido por certo num ajuste de contas com velhas lealdades e antigas opções políticas. Antes de falar em “nós”, fala nos “russos”, o que pode ser interpretado sob duas perspectivas: os russos são parte de nós, e desde sempre desejavam essa sociedade representada pela América “mítica”, ou então mesmo durante a sua viagem era o grande concorrente hostil dos EUA que ele queria desfazer ou amarrar ao projecto global orquestrado na altura por Washington.

Talvez sejam palavras como estas que fazem de Italo Calvino esse autor europeu sem par, e comparado quase sempre a um outro fantasista do cânone literário mundial, Jorge Luís Borges. Um Otimista na América é por si só um título já de semântica carregadíssima. A América que Calvino descreve aqui é a América que eu conheci como adolescente e depois como adulto, e reconheço-me quase por inteiro nestas realidades, mas um autor como Calvino teve responsabilidades que um cidadão comum não tinha nem poderia ter. De página a página levanta a sua taça ao que vê e acha que entende, esquecendo que em muito pouco tempo depois o país revia toda a sua política interna, tentando integrar os que historicamente permaneciam nas suas margens, especialmente os afro-americanos e todos os outros grupos étnicos, inclusive os luso-americanos que passaram a desfrutar de um ensino que resgatava a sua própria ancestralidade lusa. Dei, no entanto, gargalhadas de concordância quando Calvino, logo nos seus primeiros dias de América, vai a um café “italiano”, que se pensava chique em Nova Iorque, e ri com a sua decoração pomposa e de bustos supostamente romanos, falando ainda de como aí se servia os mais variados cafés que nada tinham a ver com a tradição no outro lado Atlântico. Um povo híbrido recria civilizações a seu belo prazer. O texto sobre imigrantes italianos e italiano-descendentes é antológico, de uma precisão cirúrgica, e aplica-se quase palavra por palavra à maior parte da emigração para os Estados Unidos durante a primeira metade do século XX. Relembra-nos das suas origens “agro-pastoril”, e que teriam emigrado de regiões de um sul só “há poucos decénios anexadas ao Estado italiano”, a língua que falavam era mais um dialecto do que o italiano convencional, fazendo com que durante décadas não soubessem comunicar nem na sua língua nem em inglês. “Aqueles – afirma ele – que mais do que todos e por mais tempo sofreram o desenraizamento são os italianos”. Outro exagero, no seu pouco escondido entusiasmo pela reinante classe média anglo-saxónica. Que diriam a isto os italianos das gerações já lá nascidas, os que nessa altura e sobretudo a partir dos anos 70 se tornariam grandes referências do cinema americano e das artes em geral? Fala ainda do “isolamento” de certa esquerda americana, e sempre num tom resguardado quanto ao seu estatuto na grande sociedade, relembrando, pelo menos estes, “homens que passaram através de processos, investigações, ostracismos e humilhações… Entre os homens de esquerda dos Estados Unidos muitos são filhos de imigrados, americanos de segunda geração. É impressionante como nestes críticos da América nunca assoma a nostalgia de uma outra pátria, nem que seja só como termo de comparação…”. Pois não, a América era e é a sua pátria, e lutavam, como ainda hoje lutam, pela “América mítica” de que ele próprio nos fala noutra parte.

De resto, Um Otimista na América poderá vir a ser, se já não é, uma das mais claras apologias do modo vida americano naquela época, escrito por um europeu que também se tornaria uma referência literária universal. Tenho na minha estante um bom número de autores portugueses que fizeram o mesmo, mas num registo bem diferente, e creio que por motivos nada semelhantes. Não resisto a comparar este livro de Italo Calvino é um outro livro publicado em 1963, na azáfama intelectual de então que envolvia a defesa paga da “democracia” no Ocidente, tal como a entendemos: Brazil On The Move, do modernista referencial norte-americano John Dos Passos, também antigo esquerdista que se havia convertido à ala mais direita do Partido Republicano. Ao contrário de Calvino, o autor de Manahattan Transfer fez questão de publicar sem demora os seus entusiasmados textos, tanto na imprensa americana como em forma de livro.

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Italo Calvino, Um Otimista na América (tradução de José Colaço Barreiros), Lisboa, D. Quixote, 2016. Publicado no jornal “I” (Lisboa) e no Açoriano Oriental (Ponta Delgada).

 

 

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