Jonathan Franzen e a comédia americana

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Ninguém poderá suster com facilidade e sem falhar tal visão cómica. Mas Franzen consegue-o num grau suficiente – com inteligência, pose, precisão cirúrgica e um auto-conhecimento temperado pela auto-depreciação – justificando assim a atenção extraordinária que a sua obra lhe tem trazido até hoje.

Philip Weinstein, Jonathan Franzen: The Comedy of Rage

Vamberto Freitas

Não deve ser fácil ser Jonathan Franzen, o escritor norte-americano que ainda há pouco publicou o gigantesco caleidoscópio social sob o título de Purity, e que também foi publicado no nosso país no fim de 2015. Se a tradução da D. Quixote manteve o título original em inglês poderá ter a ver com a impossibilidade de certas semânticas em contextos culturais diferentes, mesmo que o dicionário nos dê o vocábulo equivalente e com um significado definido do mesmo modo. A busca de “pureza” num mundo “sujo” não tem necessariamente nacionalidade, mas também as mais antigas civilizações, pelo menos do velho continente europeu, já atingiram o que não se sabe bem se é um estágio de cinismo absoluto e perpétuo, ou simplesmente certos ensinamentos da História quanto a possibilidades de uma humanidade bondosa. Jean Paul Sartre trabalhou e retrabalhou a ideia existencialista de que num mundo absurdo, caótico, cabe ao indivíduo reencontrar-se consigo próprio criando e recriando os valores que o hão-de guiar vida fora, e sobretudo decidir o seu lugar na comunidade a que pertence, ou, por outras palavras, reinventar-se. Não é nada comum uma biografia crítica de um autor ainda mais ou menos novo como Franzen, mas a sua estatura entre os leitores e a crítica mundiais já o justificam, particularmente quando se trata de uma obra que se demarcou e se impôs de modo raro na literatura norte-americana. Com o romance The Corrections/As Correções Franzen passou de um escritor preocupado com a sua aceitação e reputação entre uma pequena elite cultural – The Twenthy-Seven City e Strong Motion – para um nome de imediato reconhecido no seu país. Em 2010, a revista Time, essa acreditada voz ideológica de uma classe-média que hoje não se sabe bem o que pensa ou onde se coloca no espectro político da sua sociedade, colocou Franzen na sua capa com o título de “Great American Novelist/Grande Romancista Americano”, retirando o autor da sua própria confusão quanto ao seu lugar no por enquanto provisório cânone norte-americano. Franzen reinventou-se com o seu primeiro romance dirigido tanto ao maior número possível de leitores como a uma crítica institucional ou de grande alcance nos jornais e revistas do país. Este Jonathan Franzen: The Comedy of Rage/ Jonathan Franzen: A Comédia da Fúria, que saiu por volta dos mesmos dias de Purity, traça essa “evolução” do escritor, e principalmente a muito antiga questão da relação entre literatura e sociedade, desfiando o novelo biográfico do autor e recolocando-o na transfiguração da sua ficção, toda ela escrita na indefinição de uma complexa pós-modernidade. Uma biografia crítica, suponho, significa, em primeiro lugar, de como a literatura continua a ser importante, ou mesmo consequente, para a sociedade de onde brota e a quem se dirige. Por certo que o autor aqui em foco já é mundial, e recebeu alguma atenção crítica e jornalística no nosso próprio país. Os nossos estudos e cultura literária, ao contrário do que se se pratica e lê nas sociedades anglo-saxónicas, nunca levaram em conta a importância da biografia e autobiografia na interpretação da melhor ou mais duradoura arte literária. Só que é também do fundo da experiência real ou imaginária de um escritor que sai toda a sua escrita. A sensibilidade – ou fúria, no caso presente – da sua obra só tem e poderá ter uma fonte, ele ou ela própria. A tentativa de descodificar o labiríntico interior de um ser humano consciente de si e da “realidade” em que vive ou a história o ou acaso o colocou é desde sempre o tema definidor da grande literatura.

Jonathan Franzen: The Comedy of Rage traça os momentos cruciais da vida e carreira do autor, desde os dias num subúrbio de St. Louis até ao presente, uma vida e uma carreira numa América que tem vivido e provocado as maiores transformações sociais, económicas e culturais em praticamente o mundo inteiro. Todos os títulos dos seus romances a partir da fase em que o autor decide tornar-se um escritor lido por mais alguém do que um crítico ou um professor universitário, deduzimos após a leitura desta biografia, são e não são irónicos – uma vez mais, As Correções, Liberdade, e Purity. Se o primeiro volume do que poderemos chamar uma nova trilogia na desconstrução da mítica americana significa a tentativa de os seus personagens “corrigirem” a posteriori o seu modo de ser e estar numa família da classe média bem pensante ou tradicional, em que o freudianismo das suas fúrias primordiais se alia ao desejo de quebrar com o clã que tudo nos dá e pode tirar, o segundo, Liberdade, como que aponta simultaneamente o território concreto e de alma que os aprisiona e liberta, a conformidade quotidiana entre pais, filhos e irmãos a demandar o espaço livre que cada um procura para si. Encontro na obra de Franzen essa genialidade de literatura ao mesmo tempo realista e metafórica, quase confessional na tradição poética dos anos cinquenta americanos lado a lado com uma visão que nunca deixa nem pode deixar de fora a grande sociedade em que estão integrados, a ironia de vidas que parecem contentar-se com os prazeres de coisas e cama, mas sempre em busca de um futuro livre da mentira vivencial de um sonho americano representado pela estrutura de cada família ou casamento cujas disfunções permanecem escondidas mas determinantes nos rumos seguidos por cada um. Num romance de Franzen nunca a grande sociedade está ausente – quer se trate da América, ou como em Purity, a América e boa parte do mundo agora interconectado por todos os meios e interesses de toda a natureza. Cada um destes romances parece uma extensa crónica de tempos vividos e sofridos contra a ideia ou valores de uma sociedade que poderá estar consciente das suas contradições mas em negação quanto à possibilidade de se aventurar por outros caminhos. Esse conflito genesíaco da nossa humanidade é aqui representado a partir de cada personagem ou das grandes movimentações sócio-políticas do nosso tempo. Franzen, insinua o seu biógrafo Philip Winstein, tem passos escriturais que estão algures entre um William Faulkner de O Som e a Fúria e certos escritores europeus ainda mais obscuros em formas e conteúdos, como o esquecido crítico austríaco Karl Kraus, uma das principais referências “ideológicas” e de pensamento moderno de Jonathan Franzen, a quem este dedicou um livro intitulado The Kraus Project – a fúria contra a mecanização da vida numa Europa das primeiras décadas do século passado, e o horror de Franzen ante uma actualidade quase completamente dominada pela alienação digital. Outras grandes influências na visão literária de Franzen foram alguns dos nomes mais proeminentes do pós-modernismo norte-americano, incluindo Thomas Pynchon, William Gaddis, Don DeLillo, e em primeiro plano, o seu grande e falecido amigo David Foster Wallace, ou seja, os mestres da literatura considerada “opaca” e da dita “paranóia” num mundo de conspirações, inseguranças e medos generalizados, o capitalismo como ameaça quase imparável, simbolizado frequentemente nas suas páginas, creio, no modo como devora o meio ambiente em redor de comunidades ou nos vastos e campos e montanhas do continente. Poderá ser assim visível, de certo modo, nos seus últimos três romances. Por dentro de uma prosa tão clara, de uma semântica limpa que leva o leitor a esquecer o número de páginas, ficam diversas ficções interligadas que constituem cada um desses romances. Entre os europeus, as suas leituras referenciais vão ainda desde Sófocles, particularmente (e sem surpresa) o Rei Édipo, Shakespeare, Kafka e Freud. São os impulsos contraditórios da condição humana, tal como os do seu autor no que respeita à sua própria obra, e a quem ele a dirige numa larga esfera de leitores mundiais, esses que têm à sua disposição e como oferta desde um reles site digital à mais erudita literatura da nossa e de outras tradições.

Assim mesmo – diz o académico Philip Weinstein do escritor que também foi professor universitário durante algum tempo – Franzen, o viajante global anónimo, é também o bem visível nova-iorquino. Ele escreve regularmente para as mais prestigiadas revistas da cidade; ele concede entrevista atrás de entrevista; ele quer ser conhecido… O desejo de chegar a um número sem fim de leitores seus é igual – se não aos trunfos de um baralho de cartas – ao seu desejo de permanecer invisível. Essa mesma vontade implica, ainda, um desejo rudimentar de ser amado por quem realmente ele é, e por isso corrige incansavelmente as noções erradas da sua própria identidade”.

Antes da leitura deste Jonathan Franzen: A Comedy of Rage raramente prestei alguma atenção à biografia do autor. Nunca me esqueci das palavras de alguns mestres da nova crítica americana que nos diziam para esquecermos essa vida ou história de um nome que assina uma grande obra literária, que não precisa de nada mais que as suas linguagens e estruturas narrativas para que seja, ou não, uma obra de arte que chega ao leitor na sua completude. Exageravam, não sei se muito ou pouco. Sei que ler uma biografia crítica de um autor favorito é tanto um prazer autónomo da vida e obra que conta, como lança inevitavelmente um outro clarão sobre a complexidade de um texto ficcional, especialmente quando escrito e estruturado com a genialidade de um Franzen. Há muita crítica que discorda, e Philip Weinstein não os esquece nestas suas páginas. Leitura e interpretação serão isso mesmo, para além do mais – olhar os espelhos cujas imagens, sombras e luz nos atraem ou repelem.

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Philip Weinstein, Jonathan Frazen: A Comedy of Rage, New York/London, Bloomsbury Academic, 2015. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado jornal “I”, em Lisboa, e no Açoriano Oriental, de Ponta Delgada.

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