Revisitação a Edmund Wilson: literatura e crítica americana

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Evitem os cânones académicos, pois tendem sempre manter a literatura como um acto provinciano.

Edmund Wilson, The Bit Between My Teeth

Vamberto Freitas

Segundo muitos dos estudiosos da vida intelectual norte-americana do século XX, Edmund Wilson terá sido o crítico literário e cultural talvez de maior repercussão pública no seu país desde sempre até aos nossos dias. Com efeito, Wilson é o único crítico que Harold Bloom, no seu O Cânone Ocidental, inclui como um possível ou previsível estatuto canónico nos Estados Unidos. Bloom avança com dois títulos que lhe parecem permanentes no referencial crítico e intelectual norte-americano: The Shores of Light (1952) e Patriotic Gore: Studies in the Literature of the Civil War (1962). O primeiro é uma recolha dos ensaios e recensões publicadas durante os anos 20, e o segundo o que muitos consideram ser o seu magno opus, outra recolha sistemática de ensaios que começaram a ser escritos na década de 40 e que abordam a guerra secessionista do Sul (1861-1865) através da literatura considerada “menor” (diários, cartas, contos, romances e até memórias militares) mas reveladora do verdadeiro estado de espírito imediatamente antes, durante e depois do grande conflito. Menciono aqui Patriotic Gore um pouco mais detalhadamente porque, de certo modo, é também uma obra que se integra nesta fase da escrita wilsoniana, que aqui denomino como “escrita minoritária”, que tem a ver sobretudo com a sua viragem para a investigação e divulgação em periódicos de grande tiragem e influência, como o The New Yorker, nessa fase derradeira da sua escrita, mas sempre dirigidos à “classe culta” norte-americana, de que falava o ensaísta Lionel Trilling, e depois rescritos e republicados em forma de livro, das condições políticas, culturais e literárias de determinados grupos nacionais e étnicos de preferias dentro e fora dos Estados Unidos. Por outro lado, raras são ainda hoje as referências aos estudos literários nos Estados Unidos, em recensões ou ensaios de fôlego acerca da literatura norte-americana de autores seus contemporâneos que não tenham eventualmente de lembrar a uns e relembrar a outros o quase “esmagador” estatuto intelectual do autor de Axle’s Castle e de To The Finland Station.

No início da sua carreira nos anos 20 do século passado Wilson andou no percalço luminoso de F. S. Fitzgerald, Ernest Hemingway, John Dos Passos, Dawn Powell e Dorothy Parker, entre outros da modernidade norte-americana. Edmund Wilson será um dos poucos críticos que sobrevive com pujança aos próprios escritores que ele um dia recenseou ou criticou. Poucos críticos e ensaístas (ou jornalistas, como Wilson preferia ser conhecido e se auto-denominava) da sua ou de qualquer outra geração terão tido até aos dias de hoje tantos dos seus livros em circulação activa contínua. A sua vastíssima obra de crítica e história literária e cultural – que já foi postumamente organizada e publicada por vários estudiosos que a ela se dedicam – vai desde a prosa e poesia de The Undertaker’s Garland, de 1922, até à ficção que permanecia na gaveta, e que um dia fora um grande projecto de Wilson, o romance The Higher Jazz. Entre algumas outras obras biográficas publicadas durante vários anos, saiu finalmente em 2005 a grande e autorizada biografia Edmund Wilson: A Life In Literature, do também já falecido Lewis M. Dabney. professor durante décadas no Departamento de Inglês na Universidade de Wyoming.

No que toca ao presente dos estudos sobre Wilson e a sua obra, assim como ao seu estatuto na comunidade intelectual norte-americana, dentro e fora das universidades, a obra de Wilson na sua generalidade, permanece como referência obrigatória entre algumas das figuras literárias de renome mundial, que também têm escrito sobre ele com consistência ao longo dos anos, como, por exemplo, o recentemente falecido romancista John Updike e o crítico Frank Kermode. Em 1995 celebrou-se na Universidade de Princeton, a alma mater do autor, e em certas instituições nova-iorquinas, o seu centenário com vários simpósios que incluíram a participação activa e directa de universitários especializados na sua obra, intelectuais públicos, críticos literários, e romancistas como Toni Morrison. As mais importantes intervenções desse evento viriam pouco depois a ser coligidas e publicadas em 1997 em Edmund Wilson: Centennial Reflections. Com efeito, para além de ter sido Wilson a introduzir com sistematização o modernismo literário europeu nos Estados Unidos (Proust, Joyce, Eliot e Valery, entre outros incluídos no já referido Axle’s Castle), ele viria a exercer, repita-se, a mais profunda influência e a ser por outros considerado a “consciência” maior entre os escritores modernistas americanos da sua época, e mais tarde ainda como que a principal referência dos chamados New York Intellectuals, quase todos descendentes de judeus europeus imigrados, em que se reviam particularmente o já referido Lionel Trilling e Alfred Kazin. Foi ainda uma presença relevante nos referenciais literários de escritores tão icónicos do século passado americano como Gore Vidal e Joan Didion. Wilson, depois de um longo período de marginalização preconceituosa nas universidades norte-americanas, permanece como figura verdadeiramente incontornável e provavelmente passará a ser sujeito e objecto de teses e outros estudos, ironicamente e apesar de todas as queixas de Wilson contra o mundo académico em geral. A sua obra começava já na década de 60 a receber a atenção merecida em várias universidades do país, em obras que depois seriam publicadas em editoras prestigiadas. O conflito de Wilson contra os universitários conheceria a sua fase mais dramática quando, em 1968, ele publica em dois números do The New York Review of Books (de 26 de Setembro e de 10 de Outubro de 1968) o seu hoje famoso panfleto, The Fruits of the MLA (Modern Language Association) no qual atacava o trabalho que ele considerava academicamente viciado em volta de edições críticas universitárias dos clássicos americanos, acreditando que o aparato pretensamente “científico” afastaria o leitor em vez de o aproximar da sua herança literária e cultural. The American Library, fundada em 1982, e agora especializada, um tanto ironicamente, em edições críticas mas simples e atraentes da obra completa de autores norte-americanos escolhidos, havia sido idealizada por ele próprio, e começou há poucos anos a juntar em grossos volumes algumas das suas mais significantes páginas ensaísticas, as que se tornaram efectivamente fonte inescapável da sua prosa crítica e criativa.

A obra de Wilson como discurso eminentemente público nos Estados Unidos é de tal assombro na sua abrangência e influência que sintetizá-la em Portugal hoje tornar-se-á extremamente difícil, pois ele sempre contrariou outra das tendências cimentadas pelas universidades: foi demasiado “prolífico”, até que se veja quão interligada e sequencial é de facto todo o seu projecto crítico e historicista. David Bromwich, no ensaio “Wilson´s Modernism”, retoma a ideia de Adorno que um crítico deve simultaneamente interiorizar o momento assim como, ou sobretudo, a Tradição da sua língua e cultura, enquanto corta radicalmente com todas as assunções desse tempo, rasgando outras vias intelectuais criativas. Acrescenta Bromwich: “A tendência de nos preocuparmos com a interiorização do momento (fashion) poderá levar do mesmo modo a uma exteriorização, ou seja, à necessidade compulsiva de contestação e criação do que é novo, tal como claramente acontece com ou nas teorias pós-modernistas, ou em obras executadas em obediência a essas teorias. Wilson foi um corajoso historiador da resistência do artista às modas, e parte da verdade que ele nos passou talvez seja o que mais nele hoje esquecemos”.

Se Edmund Wilson havia construído toda a sua reputação como observador e divulgador das minorias modernistas em Nova Iorque a partir dos anos 20, na precisa altura em ele ingressa nas revistas Vanity Fair, Dial e The New Republic, atravessa depois na década de 40 um longo período de indefinição, se bem que extremamente produtivo, em que vai saltitando intelectualmente como que para evitar uma “paralisia” intelectual, mas em busca já de novas perspectivas e zonas de descoberta literária e cultural. Wilson regressa eventualmente à ribalta, principalmente nas páginas de The New Yorker, na qual ingressa em 1943 como ensaísta crítico. No fim dessa década, até à sua morte em 1972, o que só se poderá chamar aqui uma espécie de antevisão do que ironicamente dominaria o pensamento universitário e institucional que tanto o haviam rejeitado e marginalizado, Wilson começava a dar sinais desse pós-modernismo a que alude Bromwich, na sua fase menos desconstrucionista e mais afirmativa, na defesa das literaturas e historicidade global das minorias de toda a ordem e em toda parte, redefinindo e interligando para sempre centros e periferias, canonicidade e marginalidade. Creio que Bromwich peca tão-só por uma omissão: Wilson foi de facto o crítico-historiador cimeiro da “resistência” a determinado momento e ante algumas modas passageiras na arte e em certo “culturalismo” redutor e, agora sim, provinciano.

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Edmund Wilson: Literary Essays And Reviews Of The 1930s & 40s, New York, The Library of America, 2007. Este é o II volume destas edições definitivas.

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Janeiro de 2017.

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