O Mundo e a ilha

David estava a chegar a Ponta Delgada, a principal cidade da mais populosa ilha dos Açores. Visitara vários locais no mundo, mas era o vislumbre daquela pacata urbe que o preenchia com um calor apenas transmitido por um lar.

Hélder Medeiros, A Balada do Ouro Nazi

Vamberto Freitas

Ao ler o novo romance de Hélder Medeiros, A Balada Do Ouro Nazi, Vencedor do Prémio Literário Letras em Movimento 2016, nunca tinha sentido Ponta Delgada, a vivência açoriana mais ou menos pós-moderna, como a sinto e a revejo nesta prosa. Há muito de genial nesta sua representação da vida actual, aqui e noutras partes. Tenho de dizer duas coisas sem quaisquer reticências ou qualificações: que entre os escritores de romances policiais em língua portuguesa dou preferência ao brasileiro Rubem Fonseca e, desde alguns anos, a este açoriano. Hélder nasceu aqui ao lado na freguesia de S. Roque, o lugar que adoptei para viver há mais de um quarto de século. Refiro estas circunstâncias pessoais sem grande importância para que, simplesmente, na ansiedade de grandeza que parece definir alguns ilhéus, não deixarmos de olhar para a nossa própria rua, e relembrar que lei ou história nenhuma diz que o que está para além do horizonte é que deve ser sempre bom, ou até “legítimo”. A arte literária aconteceu sempre nas mais variadas geografias, por vezes em cercos continentais muito mais isolados do que um pedaço de terra rodeada de mar por os todos. Parafraseando Pedro da Silveira, a quem roubei o título de um dos seus grandes livros de poesia para o inverter intencionalmente neste meu texto, na literatura soubemos sempre dar conta de nós, e não vou repetir mais nada sobre o cansativo tema, como também diria José Martins Garcia, que de quando em quando é trazido à baila. Não. Hélder Medeiros pertence a uma nova geração de escritores portugueses espalhados pelo continente, ilhas e até na diáspora que estão a mudar inevitável e irremediavelmente os nossos imaginários do arquipélago. A residir aqui nas ilhas, só para falar dos que mais atenção têm recebido nestes últimos anos, estão João Pedro Porto, Joel Neto e Nuno Costa Santos, que anda sempre entre o Livramento, também aqui ao lado da minha casa, e Lisboa.

A Balada do Ouro Nazi, estou em crer, confirma esse seu estatuto, e algo mais, ao lado dos melhores que entre nós estão a dar um novo fôlego à nossa literatura, ou pelo menos a levá-la para todos os lados, a quebrar o pequeno referencial que havia servido de imagens e metáforas a muita escrita nossa do passado. Para ele, como para os seus colegas, o mundo inteiro não passa de uma série de ilhas, às quais eles pertencem e vivem em directo ou à distância, sem ter de anunciar ou falar sequer do “universalismo” que tanto obceca alguns leitores e críticos portugueses, como se não soubéssemos que o coração ou a condição humana difere só no seu grau de bem-estar ou sofrimento, ou que os nossos medos e ansiedades são partilhadas por todos os outros. As ilhas em todos os oceanos têm estado sempre na melhor literatura ocidental, numa continuidade temática e estética que Édouard Glissant chamaria de “poética da relação”. Recebem os mais inesperados visitantes, e absorvem na sua cultura um pouco de todos, o seu olhar para além do horizonte um misto de saber e curiosidade, filhos e filhas saudavelmente híbridas que lhes vem desse pluralismo de relacionamentos. Só que os nossos imaginários passaram, uma vez mais, dos reflexos de ilhas pobres e que alguns supunham isoladas para os de convivência diária de línguas e tradições sem fronteiras. Se continuamos a olhar, como sempre o fizemos na nossa historicidade, para o exterior como espaços da nossa salvação em tempos de crise generalizada, a verdade é que a passagem para a esse quotidiano inclui os que já não são os “outros”, estejam eles fisicamente na ilha, ou a milhares de quilómetros. A ilha é, mais do que nunca, o mundo. Tudo o que tínhamos assumido no passado caiu com a globalização, no bom e mau sentido. O romantismo com que alguns viam o suposto isolamento dos ilhéus já não pode ser o eixo axiológico do nosso pensamento, e muito menos da nossa literatura. Fernando Aires falava-nos “numa cidade cercada”. Hélder Medeiros reinventa a Ponta Delgada dos nossos dias como sendo a cidade solitária, sentida e reconhecida imagisticamente pelo leitor que a conhece, e ainda mais, talvez, por quem não a conhece. Dentro dela, coexistem todos os personagens de qualquer outra urbe maior ou menor – os oportunistas bem formados ou encartados, a presunção de uma elite nativa que já não existe, o poeta regressado às origens mas incapaz de fugir do seu labirinto interior, um ex-polícia desiludido mas sempre atento ao seu meio, pequenos e grandes criminosos nados e criados na ilha ou de outras nacionalidades, a mulher raivosa e a amante generosa, a violência que cada um destes personagens auto-inflige a si próprio, ou então, como na trama deste belo romance, lhes é infligida por outros até à morte mais banal ou a assassínio mais requintado. Achei de grande astúcia o facto de uma série de eventos imaginados, mas de todo plausíveis, que abalam Ponta Delgada nos nossos dias, a palavra “repratriado” aparece uma só vez, e mesmo assim só para o descartar como um dos responsáveis pela violência em curso, como que num deliberado e civilizado combate a estereótipos que classificam à priori este e outros grupos, aqui e em toda a parte. Se nas nossas páginas mais antigas era o barco que partia com os nossos pobres e inconformados, é agora o inverso – o navio caminha para cá, mas nem sempre traz tudo de bom. Só que são outros de cá que colaboram, os seus motivos vindos de fraquezas pessoais e desde logo reconhecíveis pelos mais letrados, ou os que optaram por viver e enriquecer fora do sistema e da sociedade a que pertencem. O autor consegue a proeza de piscar o olho, ora com seriedade ora num riso de quem sabe que o “passado nunca morre” mas tudo se modificou ou evoluiu na nossa sociedade, o que tínhamos sob o conceito de açorianidade permanece mas crescentemente só por entre sombras ominosas nas calçadas das nossas cidade, e até nos campos da nossa ruralidade, toda a bagagem boa e má das últimas décadas aqui também descarregada.

Por certo que não vou estampar aqui qualquer pormenor deste romance, só insinuar os seus contextos e estilo muito próprio. A caminho da América vai um carregamento ilícito de ouro nazi pertencente a um aristocrata inglês que simpatizara com o regime hitleriano e o seu projecto. Isso antes de ser desviado a meio atlântico para Ponta Delgada o navio de nome Hepatica por um bando criminoso denominado Os Fantasmas de Paris, e depois em São Miguel O Carniceiro do Bosque das Crianças. A corrupção e a infiltração criminosa são generalizadas, desde o Banco de Portugal às polícias nacionais e locais. Andam todos à procura do dinheiro e do prestígio social dominante, aqui metaforizado numa secreta Ordem do Arcanjo, que vai buscar as suas fantasias ao jesuíta açoriano dos séculos XVI e XVII, Bento de Góis. Intermitentemente, o narrador vai comentando a História, e crê que o ouro nazi nada tem a ver com nacionalidade ou regime de qualquer espécie – tem tudo a ver com o poder universal do metal brilhante, que para nós a Ocidente vem de tempos imemoriais até ao Velho Testamento, a mensagem do castigo dando sempre lugar à fantasia da luxúria. Em Ponta Delgada juntam-se indivíduos açorianos e de outras nacionalidades, principalmente franceses, italianos e suecos para levar a cabo o grande roubo de ouro que havia sido roubado a outros, preparado para tudo que garantisse o seu sucesso, o sonho de se tornarem multi-bilionários, termo que entrou ultimamente em quase todas as nossas conversas políticas. Tal como no caso do “repatriado” sem nome, a nacionalidade de cada um reduz-se a um mero detalhe sem qualquer importância. Há momentos aqui de humor hilariante, como aliás seria de esperar de um autor como Hélder Medeiros. Um deles, para mim, é o poeta regressado de Lisboa à ilha e metido num gabinete bancário a olhar para folhas de excel que nada lhe dizem, e que vira cúmplice e assassino do bando, culpando todos e todos em seu redor pelo seu falhanço literário em ser reconhecido cá dentro ou lá fora.

Tinha de contextualizar em vários espaços e tradições A Balada do Ouro Nazi. Os pormenores e o prazer do texto só poderão ser retirados da suas páginas. Juntamente com os seus dois primeiros romances, Solução Primária e Elemento Alpha: A Origem, Hélder Medeiros está a cavar fundo o seu e nosso viveiro literário. Criador de personagens inesquecíveis, regressam quase todos eles do mundo para casa – mas nunca se livram dele.

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Hélder Medeiros, A Balada do Ouro Nazi, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017.

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