Uma outra América e as suas outras raparigas

capa-as-raparigas

Disse que o sítio para onde íamos tinha a ver com um modo de vida. Russell estava a ensiná-las a descobrir um caminho para a verdade…

Emma Cline, As Raparigas

Vamberto Freitas

Estamos em Julho de 1969, um pouco a norte de São Francisco e da revolução psicadélica e política em curso no bairro Haight-Ashbury, e um pouco mais a norte na famosa e única lembrança digna e duradoura ainda existente, a City Lights Bookstore, do poeta beat Lawrence Ferlingheti, esse que conjuntamente com a outra figura icónica da época social e cultural mais tremida da América, Allen Ginsberg, terão sido dos primeiros escritores daqueles lados a conhecerem e a reagirem à obra maior de Fernando Pessoa. Menciono estes factos relacionados com o romance aqui em foco, As Raparigas, de Emma Cline, para que me permitam uma breve intrusão de quem nunca teve nada a ver nem com aquelas geografias, com a filosofia de vida que dominava aquelas ruas, e muito menos ainda com a imaginária estética geral daqueles tempos.

Eu tinha emigrado para os EUA com toda a minha família aos 13 anos de idade, em 1964, e no tempo ficcional desta ficção creio ter sido o ano em que entrei numa pequena faculdade muito mais a sul, a alguma distância de Los Angeles, e vivia numa cidade chamada Chino, cuja única fama maior era sua grande prisão nos campos também rodeados de vacarias maioritariamente de imigrantes e luso-descendentes, e onde o meu pai trabalhava como um escravo. Eu via, ouvia e lia o que ia à minha volta, e fugia de tudo e de todos, um rapaz açoriano inseguro do seu lugar numa nova e estranha sociedade, mas convicto que o futuro residia nas páginas dos livros e na carreira convencional que então sonhava ser a minha um dia. Podia ouvir e admirar os Doors, com o seu estrondoso sucesso Light my fire, podia até delirar com Purple Haze, de Jimmy Hendrix (excuse me while I kiss the sky), podia ainda saber que o White Rabbit dos Jefferson Airplane (também mencionado neste romance) tinha tudo a ver com os trips da heroína ou do ácido em voga, mas eu tinha optado pelo conhecimento à distância, mesmo que em festas bem mais amenas era impossível evitar o cheiro da erva constantemente fumada, com uma lata de cerveja na outra mão.

Recordo-me do que, anos mais tarde, já numa fase de estudos pós-graduados e como professor numa boa escola secundária me diria um antigo colega: chegámos aqui mais ou menos saudáveis, não fritamos o nosso cérebro, e nunca vimos o interior de uma cadeia por razões de malfeitoria a outros. Éramos sem dúvida o outro lado da revolução: os filhos de uma classe média baixa ou remediada a aproveitar o que o Sistema nos oferecia, mas sem nunca deixarmos que uma consciência política à esquerda deixasse de nos guiar em certos valores existenciais, na visão de uma sociedade sem guerra nem fome, com mais igualdade e menos materialismo acéfalo. Los Angeles representava isso mesmo para nós nesse outro lado da barricada. Alguns sábados à noite visitávamos a Sunset ou a Hollywood Boulevard para apreciarmos as alegres andanças de uns que pregavam a paz e o amor livre, topando outros em assustadoras comas químicas nos passeios da cidade, a mesma mítica Hollywood que passava para o resto do mundo uma imagem bem diferente: ruas limpas e ladeadas de grandes casas, as palmeiras a abanar romanticamente ao vento, o suposto glamour do cinema e teatros adjuntos. Sim, sabia e conhecia essa América, mas nada com ela queria. De cabelo cortado, calças limpas e sapatos engraxados, nós é que então deveríamos parecer os freaks quadrados de uma sociedade a arder.

As Raparigas informa os seus leitores que se trata de um primeiro romance, mas não deixemos que isso influencie a leitura de cada uma das suas páginas, da sua prosa estilística algures entre memórias reinventadas e poesia pura. A sua autora é uma jovem nascida em 1989, mas já traz no currículo literário algum trabalho na The New Yorker e outra ficção publicada em revistas tão prestigiadas e exigentes como The Paris Review ou Tin House. O romance tem como referência primeira o caso de Charles Manson e as mulheres jovens que com ele viviam nas mais degradantes condições algures no norte da Califórnia, num rancho abandonado e fora de vista. A sua narradora chama-se Evie Boyd, e foi uma das sobreviventes daquela noite em Julho, em que duas famílias foram barbaramente assassinadas à faca, a sangue frio e sem qualquer remorso até aos dias de hoje, mesmo que seja referido que Suzanne, aqui o seu nome ficticio, se tenha convertido e praticado uma religiosidade cristã. O que mais deverá interessar os seus leitores, para além da prosa brilhante de Emma Cline, é uma outra originalidade adentro da tradição literária americana. A narrativa parte do presente, quando Evie já está só e vive por alguns dias na casa de um amigo juntamente com o filho e namorada desse amigo, e relembra os seus dias de fascínio, aproximação e eventual convivência com o grupo do rancho, absolutamente apaixonada por Suzanne, a que viria, numa viragem singular dos acontecimentos, a impedir que a sua admiradora participasse na carnificina de Los Angeles. Por certo que já é a mulher muito mais velha a relembrar o que então sentia aos catorze anos de idade, mas força-nos a mergulhar na nossa própria consciência e memórias, o que torna toda a estória pessoal da narradora ainda mais plausível, acreditável, a normalidade dentro da anormalidade que são os dias de qualquer adolescente numa sociedade que então encenava as mais radicais mudanças de vida interna enquanto prosseguia com a dilacerante guerra no Vietname, e perpetuava a luta ideológica entre dois blocos mundiais cujas armas poderiam obliterar para sempre boa parte da humanidade. A falsa revolta das seitas, como a de Charles Manson (de nome Russell nesta ficção) que  proliferavam na Califórnia como ervas daninhas num jardim vergado à tempestade que então parecia apocalítica, como na poesia cantada de Jim Morrison, tinha a morte como culto, a violência como vingança contra uma sociedade que exigia de cada um de nós, acima de tudo, serenidade e a força interior que permitia aos nossos pais lutar dia e noite pela vida, e a nós a persistência livresca ou intelectual para a felicidade pessoal e para o contributo possível a um novo e mais tranquilizante modo de vida, o sentido de pertença aos que escreviam e liam os livros para algo mais do que o prazer egoísta da solidão na companhia de meros personagens ou na espreita de vidas e geografias imaginárias. As Raparigas é isso, e muito mais. Creio tratar-se de um romance que ficará como um clássico de época, permitindo-nos mergulhar não só no seu momento histórico, mas sobretudo, uma vez mais, na consciência de adolescentes e dos seus “mentores” nos anos loucos e de vidas à deriva.

“Ele tinha querido – diz a narradora a dada altura, numa reavaliação do seu relacionamento com o próprio pai, a memória reavivada daqueles dias e da maneira de estar na vida de uma adolescente rebelde – alguma coisa. Como queria Suzanne. Ou a minha mãe queria Frank. Queríamos coisas e não podíamos fazer nada contra isso, porque havia a nossa vida, que tinham-nos apenas a nós mesmos, e como poderíamos alguma vez convencer-nos de que aquilo que queríamos estava errado?”.

Há qualquer coisa no tom destas linguagens, contextualizações ligadas à arte daqueles momentos e subtis chamamentos históricos que tornam a prosa de As Raparigas numa das poucas obras literárias norte-americanas da actualidade como uma peça inclinada a um regresso ao existencialismo de Jean Paul Sartre dos anos de radicalidade política e busca por uma saída tanto ideológica como pessoal. A redefinição consciente de valores que permitissem a cada indivíduo decidir o seu próprio destino, e ainda mais a sua pertença a um mundo maior no processo de rejeição total de todo um passado e na reinvenção de outro. A prosa de Emma Cline faz-me ainda relembrar as consequências da violência de O Homem Unidimensional, do alemão Herbert Marcuse, que leccionava e escrevia ali bem perto na mesma Califórnia aqui representada. Isto não é só um romance. É um testemunho entre a realidade e a ficção dos tempos que abalaram o mundo, e nos fizeram o que somos hoje, mesmo perante as claras ameaças de um regresso brutal a sociedades que nos pareciam ter aprendido com a história e a literatura que são indeléveis na nossa memória magoada.

___

Emma Cline, As Raparigas (tradução de José Vieira de Lima), Lisboa, Porto Editora, 2016.

 

 

Advertisements

2 thoughts on “Uma outra América e as suas outras raparigas

  1. pedrol Março 6, 2017 / 4:06 pm

    Gostei muito de ler a critica do Vamberto. Li este livro no fim do ano passado e gostei bastante, mais pela qualidade da escrita do que pela a originalidade da historia. PedroL

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s