Do intelectual público no nosso tempo – III

Por algum tempo os nossos líderes, tanto os demagogos como os honestos, andam a dizer-nos que nos movimentemos para um grande projecto, nacional e privado. Walter Lippmann sugere que os Estados Unidos se comportam como uma sociedade que se pensa completa, realizada, com nada mais a construir; que somos, para o mal e para o bem, quem somos, e os únicos perigos para o nosso conforto vêm do exterior.

Gore Vidal, United States: Essays 1952-1992

Vamberto Freitas

De Gore Vidal, quase seria supérfluo falar aqui, os leitores portugueses mais atentos à literatura e pensamento norte-americanos conhecem muito bem a sua obra ensaística, a soberba prosa de crítica contundente ao Poder do seu país. Topemos apenas a sua corrosiva ironia. O seu discurso de intelectual público poderia não ser lido pela maioria dos americanos, mas em Washington sabiam muito bem quem era e o que escrevia, a partir ora da sua terra natal ora a partir da sua longa residência em Itália. A sua América passara de uma “república”, dizia, para um “império” arrogante e naturalmente dominador. Era um americano de origens mais ou menos aristocráticas, frequentador da Casa Branca no tempo de John F. Kennedy, sempre com a língua e a escrita afiadas perante o que via e ouvia. Os seus ensaios no monumental United States: Essays 1952-1992 vão muito além do puro prazer do texto – são um libelo contra esse mesmo poder marcado pela corrupção e pelo puro oportunismo político, são uma história da literatura e do lugar que o império todo poderoso do século XX impunha ao mundo, e subvertia os seus próprios ideais. Vidal não era só o grande escritor de romances históricos e ensaios geniais, era sobretudo o cidadão furioso cujo humor temperava a raiva e o desgosto que ele sentiu durante quase toda a sua vida adulta. Ler Gore Vidal e ler Edmund Wilson é como ler os dramaturgos romanos a saque mas livres num teatro do absurdo primitivo ou da comédia redentora. O seu Homage to Daniel Shays: Collected Essays (Daniel Shays liderou uma revolta armada poucos anos depois da independência contra o novo governo em Washinghton e o que eles perceberam ser já suas injustiças e políticas de desigualdade económica e financeira) não será só uma homenagem a um suposto traidor virtuoso, é uma acusação sem resposta aos que se apoderaram do país que ele amava, e em que quis ser enterrado, fazendo da sua permanência eterna um desafio sorridente e perpétuo à pátria, fazendo dessa sua imortalidade como que um outro desafio sorridente aos que ele mais detestava, e sobre os quais derramava desprezo, e derramará sempre num dos cemitérios mais visitados na capital sulista dos Estados Unidos.

A visão de um rico continente vazio – escreve Gore Vidal em 1972, no ensaio que dá o título ao livro aqui citado – ainda faz parte do inconsciente americano apesar da sua numerosa população e consequentes misérias; e esta persistente crença num céu em que cada homem pode enriquecer através do seu trabalho duro e vivência puritana é a chave para entendermos o inabalável e aparentemente inalterável ódio da maioria para com os pobres, que mantém fora da sua visão aqui em terra própria, assim como no estrangeiro”.

Não sei o que pensaria Gore Vidal da actual e estranha experiência económico-financeira em curso no seu país, mas creio que as suas palavras carregam em si um pouco comum entendidemto ideológico dos Estados Unidos, ou melhor, da mítica que nunca deixou de ser alimentada. A maioria revoltada continua a acreditar que todos os seus falhanços são provocados pelos marginalizados e oprimidos, e nunca pela classe dominante, que Vidal dizia ter só um partido político escondido ou disfarçado nas palavras democrático e republicano – o Partido da Propriedade. Tal como Edmund Wilson já aqui referido quando dizia que já não se reconhecia naquele país, Vidal faria as malas e partiria mais ou menos permanentemente para a Itália após a reeleição de Richard Nixon. Manteve casa, sempre, na sua América, e até chegou a concorrer para governador da Califórnia nos anos 80. Só que nunca cedeu na sua visão da história dos EUA, e nunca poupou a classe política ao serviço dos grandes interesses e verdadeiros “donos” do país. Entre as previsões fictícias de um Sinclair Lewis em It Can´t Happen Here (1935), e os ensaios de Homage to Daniel Shays (1972) de Gore Vidal, a única mudança foi um surrealismo aprofundado da recente eleição presidencial e a estranha figura que dela sairia vencedora.

Edward W. Said? Esse palestiniano assessor de Yassar Arafat e professor de literatura americana na Comlubia University, em Nova Iorque, falecido há poucos anos? Digamos que com o seu Orientalismo (escrito entre 1975-1976, e de que Noam Chomsky, entre outros, foi um dos seus primeiros leitores antes da publicação) transformou toda a nossa visão do “outro”, desconstruiu todo o modo e ideias com que olhávamos um outro povo, não só do Médio Oriente, mas de todas as outras geografias e culturas. A partir desse momento literário tomámos consciência do que tudo o que pensávamos não passava de uma construção essencialmente subjectiva que os escritores ocidentais, particularmente alguns autores britânicos, nos tinham escrito e imposto. A obra de um estudioso e intelectual público como Said não só nos abriu novos modos de ver e entender outros mundos e povos. Obrigou-nos a humanizarmos a nós próprios. O “outro” deixou de ser o “outro” – tornou-se a nossa própria imagem, a nossa maneira de ser e estar num grandioso mosaico humano. Orientalismo não é uma obra das nossas falsas diferenças devido a línguas e histórias que não percebíamos. Mostrou-nos a nossa comum humanidade. Não há naquelas páginas qualquer pretensiosismo cosmopolita, fala-nos da nossa comum condição humana. Não pedia a guerra, pedia a paz. Não pedia raiva ou vingança, pedia a música (ele que era também um pianista) que nos falasse as nossas linguagens comuns. Juntamente com o judeu argentino Daniel Barenboim, idealizou uma orquestra de judeus e palestinianos. Ainda estão juntos e andam por aí, actuam nos mais diversos países. Não será por mero acaso que Edward Said aparece bem no centro do recente romance Bússola, do francês Enard Mathias, uma brilhante ficção precisamente sobre as fantasias ocidentais de amores e desamores perante o Médio Oriente, no seu passado e presente.

Ao contrário dos americanos, dos franceses e dos britânicos – muito menos do que dos alemães, russos, espanhóis, portugueses, italianos, e suíços – têm uma longa tradição que chamarei aqui de orientalismo, um modo de encontro com o Oriente fundamentado num no lugar especial que esse Oriente – escreve Said precisamente na sua obra intitulada Orientalimo ocupa na experiência ocidental. O Oriente não é uma mera geografia adjacente à Europa; é também a geografia das suas mais antigas e ricas colónias, a fonte da sua própria civilização e línguas, o seu concorrente cultural, uma das mais profundas e recorrentes imagens do Outro”.

Não haverá nada de mais belo e construtivo do que todos estes discursos, acções e vontades aqui descritas. O intelectual público ainda não perdeu a sua palavra e o seu poder, para dor dos tiranos e dos seus servidores. Regresso aqui, necessariamente, a Onésimo Teotónio Almeida, com quem dei início a estes meus textos. Obrigado, não só por seres quem foste e és sempre. Obrigado pelas tuas palavras escritas quando eu na minha juventude ensaiava a minha própria reinvenção, redefinia a minha identidade luso-americana – e enfrentava desse modo a luta por uma nova vida californiana.

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Gore Vidal, United States: Essays 1952-1992, New York, Random House, 1993.

Edward W. Said, Orientalism, New York, Vintage Books Edition, 1979.

Edward W. Said na foto.

Do intelectual público no nosso tempo – II

Eu sempre me pensei um patriota e sempre tive, no passado, a preocupação de comparar favoravelmente os Estados Unidos com a Europa e com a União Soviética; mas o nosso país tornou-se agora um gigantesco poder desatinado e controlado mais e mais por burocracias cujo governo está cada vez mais difícil de justificar numa tradição de individualismo americano; e porque não posso aceitar este poder ou estes propósitos ou os seus modos de o financiar, tenho finalmente sentido que este país, quer eu continue a viver nele ou não, já não é para mim.

Edmund Wilson, The Cold War And The Income Tax: A Protest.

Vamberto Freitas

O que é para mim, hoje, um “intelectual público”, eu que sou um cidadão português a viver numa pequena ilha açoriana, docente da Universidade dos Açores, ensaísta literário, ou apenas um mero comentador de livros num jornal de circulação e influência regional? Digamos que a primeira aprendizagem vem de longe, vem de professores norte-americanos, como Michael Holland, um dos últimos new critics a princípio dos anos 70 numa faculdade californiana, mas muito especialmente de um autor que faleceu em1972, e que eu conheci só através dos seus livros, e muito cedo. Ter lido o seu póstumo Letters on Literature and Politics 1912-1979 foi mais do que uma descoberta, foi um encontro decisivo sobre a importância, sobre a elegância e sobretudo a relevância do discurso público e privado sobre a literatura como documentação de um tempo e de uma cultura no contexto histórico em que acontece. Por certo que é um discurso informal e privado, esse das suas cartas dirigidas aos mais conhecidos autores nacionais e internacionais, especialmente os britânicos. Só que as ideias, opiniões e confissões aí expressas vão muito além de um só interlocutor, dizem o que um e qualquer leitor quer ouvir e aprender: a importância da palavra e a seriedade intelectual e de cidadania. Nunca mais fui capaz de ler um livro do mesmo modo, fosse ele de prosa fictícia, de poesia ou de carácter biográfico ou autobiográfico, ensaísmo ou crítica literária pura, ou mesmo uma de mera escrita circunstancial numa periódico generalista, como a revista Vanity Fair, ou na deliciosamente elitista The New York Review of Books, ou ainda na The New Republic, revista erudita onde ele acabaria a sua carreira, lugar que só George Steiner viria a ocupar depois da sua morte. Edmund Wilson era muito mais do que um ensaísta literário, era sobretudo um cidadão em busca das origens da tragédia humana, quer fosse individual, nacional ou internacional .

A certo momento da sua carreira, especialmente a partir dos anos 40, decide que tinha já dito tudo o que queria dizer sobre o modernismo literário europeu (Axel’s Castle: A Study in the Imaginative Literature of the 1870-1930) e norte-americano (e aqui nos mais variados livros de ensaios, em que sobressaiem A Literary Chronicle: 1920-1950 e A Literary Chronicle Of The Forties), indo ainda em busca da vida e das tradições culturais de minorias dentro e fora do seu país, desde Apologies To The Iroquois, uma tribo nativo-americana do norte do estado de Nova Iorque sob ataque no seu território sagrado com a construção de projectos de suposto desenvolvimento económico, a The Dead Sea Scrolls 1944-1969, a história primitiva da cristandade através da vida dos Essênios, tentando demonstrar a dignidade, valor artístico e lugar histórico na modernidade que marginalizava e esquecia essas nações isoladas num mundo que já se anunciava perigoso e demasiado mecanizado. Viajaria ainda para as Caraíbas à procura da vida e obra dos irmãos Philipe Thoby-Marcelin e Pierre Marcelin, prefaciando a edição de língua inglesa do romance All Men Are Mad. Antes de tudo isso, nos anos 30, fica aterrorizado com a Grande Depressão, e sai pelo país fora em busca dos caídos e oprimidos, publicando de seguida uma colectânea de textos com um título pouco comum e de aviso aberto aos seus leitores – The American Earthquake. A determinada altura, nos anos 50, decide não pagar durante cinco anos nem mais um cêntimo de impostos ao governo federal pelos gastos que este fazia em armamentos para futuras guerras, e muito particularmente pelo início da sua intervenção no Vietname. É chamado pela Internal Revenue Office (IRS), condenado a pagar tudo com juros, o que, se o tivesse feito, condenava-o a uma penúria quase absoluta, e por isso foi aconselhado vivamente pelo seu advogado a abandonar para sempre o pais. Em em vez disso, Wilson escreve um dos seus mais “públicos”, polémicos e condenados livros, The Cold War And The Income Tax: A Protest. Nessa precisa altura, John F. Kennedy convida-o à Casa Branca para lhe conferir uma Medalha de Mérito e almoçar com autores nacionais e internacionais, contra uma tentativa de intervenção do FBI. Respondeu Kennedy: estou a condecorar o grande intelectual e o não “o bom cidadão”. Pouco depois, Gore Vidal recenseava o dito livro, condenando Wilson, mas ressalvando-o brilhantemente com as seguintes palavras: “Isto constitui – escreveu Gore Vidal, também na linguagem claríssima de um cidadão sem medo, e consciente das tradições fundacionais e políticas do seu país – uma acusação formidável a nós todos. Edmund Wilson é o nosso mais distinto homem de letras. Ele tem sido sempre (mesmo que os burocratas não saibam) o grande defensor cultural da América e um American Firster. Perder um homem destes é um sinal que a nossa sociedade está a entrar numa zona de sombras que, uma vez atravessada significa, acima de tudo, a derrota que os nossos pais fundadores queriam para um novo país onde a felicidade seria desejadamente procurada. Mesmo assim, o panfleto sombrio de Wilson poderá ser o abalo exacto de que necessitamos”.

Wilson, nos seus últimos dias de vida, folheava, creio, a revista Life, e dizia que já não se reconhecia nesse país, aí alegre e glamorosamente retratado. Aliás, como já escrevi noutros contextos, Wilson também viu um dos seus últimos filmes, The French Connection, arte cinematográfica de que ele nunca tinha sido fã, pois não se esquecia que o seu grande amigo F.S. Fitzgerald e colega em Princenton tinha perdido ingloriamente a vida numa Hollywood que ele, uma vez mais, nunca respeitou, e muito menos admirou. Imaginem se ele estivesse a viver a América dos nossos dias. Sobre o dito filme, a que o tinham levado a ver sem ele pedir, diria simplesmente “Bang, bang”. Nada mais.

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Edmund Wilson, The Cold War And The Income Tax: A Protest, Straus, Farrar And Company, 1963.

Do intelectual público no nosso tempo – I

É sempre um espírito em oposição, ao contrário daquele que se acomoda, que me conquista por uma noção romântica. A noção de uma vida que desafia o acto intelectual está sempre presente na dissidência contra o status quo num tempo em que a luta pelos grupos sem representação e sem privilégios parece tão desvantajosa e tão injusta numa sociedade contra eles.

Edward Said, Representations of the Intellectual.

Vamberto Freitas

Um pouco depois de aluno já com licenciatura em Estudos Latino-Americanos na California State University, Fullerton, regressei à minha Ilha Terceira poucos anos depois de ter emigrado para os Estados Unidos aos 13 anos de idade, e deparei-me numa montra de uma livraria em Angra do Heroísmo com um livro cuja capa e o próprio título me perturbavam de modo inusitado: Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia, de um autor que me era então totalmente desconhecido, de nome Onésimo Teotónio Almeida. Olheio-o fixamente. Tinha estilizado na capa algo meio ruim, como se fora uma águia norte-americana de cara severamente zangada num fundo de azul e branco, mas era o título que me incomodava, e nunca tinha visto o neologismo “LUSAlândia”. Não perdi de imediato o jogo de palavras: o “L” maiúsculo mas subjugado às iniciais inconfundíveis “USA”, e sabia muito bem o significado de “lusalândia”. Pensei de imediato que isto tudo tinha a ver também comigo, já como ser híbrido ou binacional. Só achei interessante ter a chancela coimbrã Atlântica Editora, e decidi logo que me seria um livro importante. Nessa altura eu não lia o semanário luso-americano Portuguese Times, e portanto não conhecia nada do autor dos ditos textos, pois, como disse, eu vivia na Califórnia, longe e até mesmo inconsciente ou indiferente ao que se passava com a minha gente no outro extremo do continente. Quando cheguei à minha casa algures no sul da Califórnia comecei a ler de imediato a sequência de textos que Onésimo havia coligido e organizado numa espécie de narrativa com princípio, meio e fim. Foi o tal “choque de reconhecimento” melvilleano, o reconhecimento de mim próprio através das palavras de um outro.

A partir desse momento de leitura e meditação nada seria, para mim, nunca mais, o mesmo. Muito do que eu havia pensado, sofrido e desejado estava ali escrito. O desprezo ante a ditadura que então atormentava o meu país natal, a separação da minha própria comunidade imigrante em que eu residia ou vivia ao lado, a afirmação condigna numa terra ainda estranha, mas já mais minha do que eu pensava. Era agora o conforto das palavras de quem tinha as mesmas origens e as conseguia exprimir sem complexos ou medos públicos. Não pensava ainda no conceito de “intelectual público”, mas percebia-o, e percebi ainda mais como era possível reinventar uma voz que chegasse a outros, e desejava mudar não necessariamente o mundo inteiro, mas pelo menos aquele a que pertencíamos por direito próprio e pela imposição da nossa história ou do nosso destino. Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia ocupa um dos lugares mais nobres da minha colecção pessoal aqui em casa, numa ilha açoriana, o livro que me permitiu entrar rapidamente nos jornais da minha comunidade e escrever comentários críticos sobre o que dentro dela se passava, ou ainda mais sobre o seu ambivalente relacionamento com o restante país em que estava irremediavelmente integrada. Não é muito? É uma referência, no meu caso, particular, indelével, duradoura. Não regresso a Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia com muita frequência, mas nunca o esqueço. Devo adicionar que considero o primeiro grande intelectual público da nossa incipiente modernidade nos EUA o escritor e poeta de nome Garcia Monteiro, faialense nascido em 1853 e falecido em 1913 na cidade de Cambridge, Massachusetts. Escreveria também alguns dos mais críticos e duradouros ensaios sobre a política interna do seu pais de adopção, assim como do seu Portugal natal, abordava tudo que dizia respeito à cultura literária e relações externas dos seus dois países.

Só Onésimo Teotónio Almeida, uma vez mais, faria o mesmo para a nossa geração. Bem sei que até hoje ele continua a publicar a um ritmo pouco comum entre nós, e que outras ideias e posições formam e enformam a sua vasta e diversificada obra. Acaba de sair o seu novo livro de ensaios, A Obsessão da Portugalidade. Queria apenas enfatizar aqui que um dos seus livros foi determinante no que viria depois na minha própria vida pública e publicada, tanto nas comunidades, e mais tarde em Lisboa, no Diário de Notícias, como depois aqui nas ilhas. Nos anos 80 foi ele e outros colegas que iniciariam a discussão sobre a açorianidade, e muito especialmente as suas representações na literatura escrita nas ilhas ou por ilhéus espalhados um pouco toda a parte. Não foram anos nada pacíficos entre nós, pois defender a existência de uma literatura açoriana colocava-nos em posições políticas a que nenhum de nós queria pertencer, e muito menos sofrer certos rótulos, os mais amenos dos quais, porventura, sendo acusados de “regionalistas”, “provincianos”, “separatistas”, e por outros nomes muito piores. Que a renovada defesa dessa escrita ou discursos públicos vinham de uma certa e pouco moderada esquerda residente em Lisboa e arredores, quase todos congregados em volta da revista A Memória da Água-Viva, dirigida pelo falecido J. H. Santos Barros e por Urbano Bettencourt, pouco significava entre os menos atentos, ou nacionalistas de trazer por casa. O certo é que persistimos em adoptar linguagens que, antes de mais nada, significavam quinhentos anos de separação da mãe-pátria por um mar imenso, e que essa história e geografia teriam tido as suas consequências, tanto éticas como estéticas. “A geografia, para nós, vale tanto quanto a história”, como diria, mais ou menos, Vitorino Nemésio. A verdade, hoje tão evidente, é que o próprio Poder ilhéu que nos contestava nessa altura, viria a fazer suas as nossas ideias e narrativas, frequentemente expressas nos seus diálogos e trocas com a República, em tudo que diz respeito directo às nossas reivindicações e deveres. Se há um exemplo de como alguns intelectuais públicos influenciaram o rumo e posturas de toda uma sociedade, o nosso deve permanecer como exemplo e actuação consequentes. Outros livros e autores seriam eventualmente lidos e meditados, mas dava-se nessa época continuidade ao que, pelo menos desde o século XIX, eram certas vontades e retórica açorianas. Resisto aqui falar em nomes que todo o país reclama para o seu cânone literário, mas nunca nenhum deles, os mais citados, se esqueceram alguma vez das suas origens, da sua terra de nascença – Antero de Quental, Vitorino Nemésio e Natália Correia. Estes dois últimos até se bateram em palavras e acções para que os Açores nunca o deixassem de ser, como quisessem e entendessem. Intelectuais públicos como eles foram e serão sempre exemplos de como nunca a ideologia e a sociedade que desejavam calaram ou intimidaram a sua voz pública no continente, e muito menos nas ilhas.

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Onésimo Teotónio Almeida, Da Vida Quotidiana Na LUSAlândia, Coimbra, Atlântica Editora, 1975.

Ser um estranho em casa própria

A chegada a Lisboa, a vista do cais foi um desapontamento. Tudo aquilo me pareceu feio, desarrumado, mal-amanhado.

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula II

Vamberto Freitas

Não estou certo se a palavra “pátria” aparece neste volume das memórias de Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula/MemóriasIILisboa (1947-1955), mas sei que as palavras “pelintra” e “pelintrice” abundam nesta sua magnífica prosa autobiográfica em praticamente tudo que diz respeito à vida quotidiana e intelectual do nosso país na época que vem demarcada no próprio título do livro. Antes de mais, será preciso explicar ou relembrar a alguns seus leitores que sendo este o segundo volume das suas memórias, foi o último a ser escrito, tal como nos explica o próprio autor numa nota inicial, por razões de idade e querendo ele “assegurar” os períodos mais marcantes da sua vida, desde o nascimento em Moçambique até aos diferentes períodos da sua vivência na terra natal, que terminaria como resultado do 25 de Abril de 1974, e de seguida a sua vinda definitiva para Portugal. Não vou repetir aqui o que já escrevi sobre esses seus outros momentos e incidentes numa longa viagem repartida por dois continentes e diversos países. Relembrarei só que estamos perante uma das mais originais e longas caminhadas de um português, desde a sua carreira em petrolíferas em Moçambique até a Adido Cultural na nossa Embaixada em Londres, Presidente da Comissão Nacional da Unesco, a Professor Catedrático Convidado da Universidade de Aveiro, por entre outras paragens internacionais e actividades intelectuais. Eugénio Lisboa fez das ideias e da arte literária a sua verdadeira e mais significante “pátria”, ou ainda um exemplo de como um filho relutante de um império caído teve de se movimentar para a salvação da própria família e insistência na concretização de uma realização literária. A diáspora lusitana contou sempre com alguns dos seus filhos e filhas mais distintas um pouco por toda a parte, mas Eugénio Lisboa foi dos poucos que acabaria, apesar da sua visão crítica da terra-mãe, por regressar e levar a bom porto a maior parte da sua obra literária, feita do mais sério e esclarecedor ensaísmo sobre muitos outros escritores, assim como a sua própria poesia em que sobressai A Matéria Intensa. O presente volume destas memórias é marcante de vários modos, pois relata-nos o seu primeiro embate com o que ainda era a capital do império, e depois a sua experiência “militar”, desde Mafra a Portalegre como relutante cadete e aspirante a oficial no nosso exército, aqui tratado como uma agremiação kafkiana, na altura sem guerra e provavelmente pensando-se sem inimigos à vista, até ao início, que viria poucos anos depois, da nossa última aventura sangrenta e decisiva em África.

Nunca tinha lido uma visão tão negra e deprimente da nossa terra, mas a sua prosa é de tal modo viva e genialmente estruturada que se torna arte pura – memória e imaginação que mais caracterizam um grande romance de época e de ideias, que acaba por nos lançar o “clarão” histórico de que nos falava Walter Benjamin, ou muito do que nos explica os dias que hoje vivemos, ou sofremos.

Era a primeira vez que o jovem africano de pais portugueses vinha a Lisboa, a cidade que nos diz ter imaginado dos livros, tal como já tinha imaginado Paris nas obras de outros escritores. Leitor omnívoro desde a infância, o mundo fora do Índico constituía um imaginário de pura grandeza e sofisticação em tudo que as artes retratavam ou transfiguravam. Nesse ano de 1947 encontra uma cidade que ele diz decrépita, claustrofóbica, de ruelas e bairros sujos, e acima de tudo triste. A II Guerra Mundial tinha acabado há dois anos, mas a sociedade salazarista pedia que não se falasse no “coitadinho” do Hitler, pois já tinha morrido. Quando ingressa no Instituto Superior Técnico haveria de viver uma das suas mais desesperantes experiências académicas – desde colegas de uma ignorância que ele nunca tinha presenciado nos seus estudos secundários laurentinos a professores de uma mediocridade quase indizível, ou então de uma arrogância e vinganças mesquinhas que pouco ou nada tinham a ver com a formação dos mais altos quadros técnicos do Estado ou de qualquer grande empresa cá ou nas colónias. De qualquer modo, Eugénio Lisboa continua a ler os mais diversos escritores estrangeiros, privilegiando sempre os clássicos ou os modernos franceses (Montherlant e Stendhal sempre na primeira linha), mas raramente encontra um colega que o acompanhe no seu irreprimível fervor intelectual. Passa quase todo o seu tempo a ir ao teatro, ou a comprar os livros da sua preferência que ia encontrando numa ou noutra livraria lisboeta, ou por onde passava e ficava por uns dias ali por perto. Quando chega ao quinto ano do curso é obrigado a continuar o seu treino militar em Mafra, e o que diz dessa experiência seria mais do que suficiente para qualquer polícia política de uma ditadura o encarcerar numa cela, desde a estupidez dos seus oficiais até aos treinos sem tino na artilharia daquele campo aonde D. João V tinha escravizado e gastado a fortuna maior de Portugal num “palácio”, que só séculos depois José Saramago (que Eugénio Lisboa me desculpe aqui a referência) descreveria no Memorial do Convento. O autor passa os seus dias com África na alma e na memória, a saudade vivida, que só as esporádicas visitas da família ou um ou outro reencontro com algum conterrâneo ou conhecido vai atenuando. Após uma relação mais ou menos amiga e íntima e a consequente a gravidez de uma companheira, que lhe daria o seu primeiro filho, regressa a Lourenço Marques destroçado por algum tempo, e antes de terminar a sua licenciatura.

Não queria aqui apenas resumir a parte fulcral desde volume de Acta Est Fabula, mas sim fazer perceber as razões principais que trazem o seu autor a Portugal, até então um país imaginário. Que me desculpem os meus conterrâneos continentais, mas tenho de dizer que um ilhéu açoriano lê estas páginas com uma empatia que só a portugalidade à distância permite. Do mesmo modo, este embate com o território historicamente “pátrio” provoca-nos uma sensação de “estrangeirados”, não como os que saem para o estrangeiro e depois regressam, mas sim entre os que lá nunca tinham estado. Só muito devagar, e só com a mesma língua acontece a aproximação ao país no seu todo e na sua diversidade, mesmo no contexto da pequenez territorial. Mais do que qualquer outro factor de suposta “identidade”, será talvez a literatura numa língua comum que nos permite ou oferece uma “comunidade imaginária”, um sentido de pertença.

O momento maior e, para mim, mais brilhante desta narrativa de Eugénio Lisboa é quando conhece e encontra em Portalegre pela primeira vez o escritor que ele já tinha lido minuciosamente, e cuja obra, até hoje, o levaria a escrever algumas das suas mais memoráveis e fundamentais páginas ensaísticas, – José Régio. Quer em tertúlias de café quer em visitas a sua casa, a presença e o diálogo constantes com o autor de O Jogo da Cabra Cega e Poemas de Deus e do Diabo permitiram-lhe aturar o resto dos dias em tarefas do que ele chama uma “tropa fandanga” encarregada de defender o país de uma hipotética e nunca vinda invasão castelhana. Absorvi estas páginas pelo seu humor, sarcasmo e ironia sem par nesta incomparável escrita autobiográfica. Retive destes seus momentos na presença de Régio algo muito parecido com o que eu próprio senti na presença de Eugénio Lisboa pela primeira vez, quando a escritora Teresa Martins Marques aqui há uns anos, na Costa da Caparica, me apresentou ao próprio autor de Acta Est Fabula, que já era um mestre meu sem ele saber, que eu já o tinha na conta dos que me haviam servido de exemplo em tudo que à literatura e à leitura diz respeito, um “significant other”, que me deixou quase sem palavras e receio de me espalhar com qualquer observação menos própria ou minimamente inteligente. O que Eugénio Lisboa diz desses dias com José Régio, e depois de uma vida a estudar e a comentar a sua obra, é mais do que literatura no seu pleno poder, é muito mais do que confessionalismo literário e existencial. Deveria servir de exemplo às gerações presentes que se esquecem ou nunca sequer ouviram dizer que ao seu lado estiveram e estão alguns dos melhores escritores do mundo, que não há a mínima contradição em admirá-los como parecem admirar outras referências literárias e culturais nas mais longínquas e até desconhecidas geografias. Ficariam pelo menos a saber que a chamada globalização é mais um conceito abstracto do que uma realidade, que não há como fugir a uma história, a uma língua, e sobretudo a uma Tradição que nada tem de superior ou inferior a qualquer outra, mas é a nossa.

Os cinco volumes de Acta Est Fabula ficarão, assim, como uma obra literária referencial. Vai além da mera manipulação da nossa língua. Distingue-se pelo uso da palavra exacta, da frase escorreita, da citação acertada e pertinente, da mais profunda ideia tornada clara para qualquer leitor atento. É uma fonte de sabedoria sobre como ter-se sido um português à distância e em casa, será talvez um imaginário da nossa mais vincada maneira de ser e estar no mundo. Muitos de nós saímos para uma diáspora. Outros regressaram com esses mundos para sempre presentes, e viveram Portugal simultaneamente como “pátria” ou “exílio” renovado. É o preço que pagamos pela história que fizemos, e teremos, cada vez mais, de aguentar.

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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula/Memórias-II-Lisboa (1947-1955), Guimarães, Opera Omnia, 2016.