Ser um estranho em casa própria

A chegada a Lisboa, a vista do cais foi um desapontamento. Tudo aquilo me pareceu feio, desarrumado, mal-amanhado.

Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula II

Vamberto Freitas

Não estou certo se a palavra “pátria” aparece neste volume das memórias de Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula/MemóriasIILisboa (1947-1955), mas sei que as palavras “pelintra” e “pelintrice” abundam nesta sua magnífica prosa autobiográfica em praticamente tudo que diz respeito à vida quotidiana e intelectual do nosso país na época que vem demarcada no próprio título do livro. Antes de mais, será preciso explicar ou relembrar a alguns seus leitores que sendo este o segundo volume das suas memórias, foi o último a ser escrito, tal como nos explica o próprio autor numa nota inicial, por razões de idade e querendo ele “assegurar” os períodos mais marcantes da sua vida, desde o nascimento em Moçambique até aos diferentes períodos da sua vivência na terra natal, que terminaria como resultado do 25 de Abril de 1974, e de seguida a sua vinda definitiva para Portugal. Não vou repetir aqui o que já escrevi sobre esses seus outros momentos e incidentes numa longa viagem repartida por dois continentes e diversos países. Relembrarei só que estamos perante uma das mais originais e longas caminhadas de um português, desde a sua carreira em petrolíferas em Moçambique até a Adido Cultural na nossa Embaixada em Londres, Presidente da Comissão Nacional da Unesco, a Professor Catedrático Convidado da Universidade de Aveiro, por entre outras paragens internacionais e actividades intelectuais. Eugénio Lisboa fez das ideias e da arte literária a sua verdadeira e mais significante “pátria”, ou ainda um exemplo de como um filho relutante de um império caído teve de se movimentar para a salvação da própria família e insistência na concretização de uma realização literária. A diáspora lusitana contou sempre com alguns dos seus filhos e filhas mais distintas um pouco por toda a parte, mas Eugénio Lisboa foi dos poucos que acabaria, apesar da sua visão crítica da terra-mãe, por regressar e levar a bom porto a maior parte da sua obra literária, feita do mais sério e esclarecedor ensaísmo sobre muitos outros escritores, assim como a sua própria poesia em que sobressai A Matéria Intensa. O presente volume destas memórias é marcante de vários modos, pois relata-nos o seu primeiro embate com o que ainda era a capital do império, e depois a sua experiência “militar”, desde Mafra a Portalegre como relutante cadete e aspirante a oficial no nosso exército, aqui tratado como uma agremiação kafkiana, na altura sem guerra e provavelmente pensando-se sem inimigos à vista, até ao início, que viria poucos anos depois, da nossa última aventura sangrenta e decisiva em África.

Nunca tinha lido uma visão tão negra e deprimente da nossa terra, mas a sua prosa é de tal modo viva e genialmente estruturada que se torna arte pura – memória e imaginação que mais caracterizam um grande romance de época e de ideias, que acaba por nos lançar o “clarão” histórico de que nos falava Walter Benjamin, ou muito do que nos explica os dias que hoje vivemos, ou sofremos.

Era a primeira vez que o jovem africano de pais portugueses vinha a Lisboa, a cidade que nos diz ter imaginado dos livros, tal como já tinha imaginado Paris nas obras de outros escritores. Leitor omnívoro desde a infância, o mundo fora do Índico constituía um imaginário de pura grandeza e sofisticação em tudo que as artes retratavam ou transfiguravam. Nesse ano de 1947 encontra uma cidade que ele diz decrépita, claustrofóbica, de ruelas e bairros sujos, e acima de tudo triste. A II Guerra Mundial tinha acabado há dois anos, mas a sociedade salazarista pedia que não se falasse no “coitadinho” do Hitler, pois já tinha morrido. Quando ingressa no Instituto Superior Técnico haveria de viver uma das suas mais desesperantes experiências académicas – desde colegas de uma ignorância que ele nunca tinha presenciado nos seus estudos secundários laurentinos a professores de uma mediocridade quase indizível, ou então de uma arrogância e vinganças mesquinhas que pouco ou nada tinham a ver com a formação dos mais altos quadros técnicos do Estado ou de qualquer grande empresa cá ou nas colónias. De qualquer modo, Eugénio Lisboa continua a ler os mais diversos escritores estrangeiros, privilegiando sempre os clássicos ou os modernos franceses (Montherlant e Stendhal sempre na primeira linha), mas raramente encontra um colega que o acompanhe no seu irreprimível fervor intelectual. Passa quase todo o seu tempo a ir ao teatro, ou a comprar os livros da sua preferência que ia encontrando numa ou noutra livraria lisboeta, ou por onde passava e ficava por uns dias ali por perto. Quando chega ao quinto ano do curso é obrigado a continuar o seu treino militar em Mafra, e o que diz dessa experiência seria mais do que suficiente para qualquer polícia política de uma ditadura o encarcerar numa cela, desde a estupidez dos seus oficiais até aos treinos sem tino na artilharia daquele campo aonde D. João V tinha escravizado e gastado a fortuna maior de Portugal num “palácio”, que só séculos depois José Saramago (que Eugénio Lisboa me desculpe aqui a referência) descreveria no Memorial do Convento. O autor passa os seus dias com África na alma e na memória, a saudade vivida, que só as esporádicas visitas da família ou um ou outro reencontro com algum conterrâneo ou conhecido vai atenuando. Após uma relação mais ou menos amiga e íntima e a consequente a gravidez de uma companheira, que lhe daria o seu primeiro filho, regressa a Lourenço Marques destroçado por algum tempo, e antes de terminar a sua licenciatura.

Não queria aqui apenas resumir a parte fulcral desde volume de Acta Est Fabula, mas sim fazer perceber as razões principais que trazem o seu autor a Portugal, até então um país imaginário. Que me desculpem os meus conterrâneos continentais, mas tenho de dizer que um ilhéu açoriano lê estas páginas com uma empatia que só a portugalidade à distância permite. Do mesmo modo, este embate com o território historicamente “pátrio” provoca-nos uma sensação de “estrangeirados”, não como os que saem para o estrangeiro e depois regressam, mas sim entre os que lá nunca tinham estado. Só muito devagar, e só com a mesma língua acontece a aproximação ao país no seu todo e na sua diversidade, mesmo no contexto da pequenez territorial. Mais do que qualquer outro factor de suposta “identidade”, será talvez a literatura numa língua comum que nos permite ou oferece uma “comunidade imaginária”, um sentido de pertença.

O momento maior e, para mim, mais brilhante desta narrativa de Eugénio Lisboa é quando conhece e encontra em Portalegre pela primeira vez o escritor que ele já tinha lido minuciosamente, e cuja obra, até hoje, o levaria a escrever algumas das suas mais memoráveis e fundamentais páginas ensaísticas, – José Régio. Quer em tertúlias de café quer em visitas a sua casa, a presença e o diálogo constantes com o autor de O Jogo da Cabra Cega e Poemas de Deus e do Diabo permitiram-lhe aturar o resto dos dias em tarefas do que ele chama uma “tropa fandanga” encarregada de defender o país de uma hipotética e nunca vinda invasão castelhana. Absorvi estas páginas pelo seu humor, sarcasmo e ironia sem par nesta incomparável escrita autobiográfica. Retive destes seus momentos na presença de Régio algo muito parecido com o que eu próprio senti na presença de Eugénio Lisboa pela primeira vez, quando a escritora Teresa Martins Marques aqui há uns anos, na Costa da Caparica, me apresentou ao próprio autor de Acta Est Fabula, que já era um mestre meu sem ele saber, que eu já o tinha na conta dos que me haviam servido de exemplo em tudo que à literatura e à leitura diz respeito, um “significant other”, que me deixou quase sem palavras e receio de me espalhar com qualquer observação menos própria ou minimamente inteligente. O que Eugénio Lisboa diz desses dias com José Régio, e depois de uma vida a estudar e a comentar a sua obra, é mais do que literatura no seu pleno poder, é muito mais do que confessionalismo literário e existencial. Deveria servir de exemplo às gerações presentes que se esquecem ou nunca sequer ouviram dizer que ao seu lado estiveram e estão alguns dos melhores escritores do mundo, que não há a mínima contradição em admirá-los como parecem admirar outras referências literárias e culturais nas mais longínquas e até desconhecidas geografias. Ficariam pelo menos a saber que a chamada globalização é mais um conceito abstracto do que uma realidade, que não há como fugir a uma história, a uma língua, e sobretudo a uma Tradição que nada tem de superior ou inferior a qualquer outra, mas é a nossa.

Os cinco volumes de Acta Est Fabula ficarão, assim, como uma obra literária referencial. Vai além da mera manipulação da nossa língua. Distingue-se pelo uso da palavra exacta, da frase escorreita, da citação acertada e pertinente, da mais profunda ideia tornada clara para qualquer leitor atento. É uma fonte de sabedoria sobre como ter-se sido um português à distância e em casa, será talvez um imaginário da nossa mais vincada maneira de ser e estar no mundo. Muitos de nós saímos para uma diáspora. Outros regressaram com esses mundos para sempre presentes, e viveram Portugal simultaneamente como “pátria” ou “exílio” renovado. É o preço que pagamos pela história que fizemos, e teremos, cada vez mais, de aguentar.

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Eugénio Lisboa, Acta Est Fabula/Memórias-II-Lisboa (1947-1955), Guimarães, Opera Omnia, 2016.

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