De nós e da nossa diáspora

A presença portuguesa nos EUA tem uma longa tradição de registos que vão da história à literatura, da etnografia à sociologia. A literatura estende-se da mais artesanal, em edições de autor, à mais erudita, e a imprensa, já centenária, constitui um espólio muito rico e fonte inesgotável de dados importantes.

Onésimo Teotónio Almeida, O Peso do Hífen: Ensaios sobre a experiência luso-americana.

Vamberto Freitas

Não poderei esconder aqui, nem deverei, a minha íntima relação desde há muitas décadas com muita imprensa açoriana, toda ela sempre com espaço dedicado à nossa diáspora, desde a América do Norte e, um pouco menos, ao Brasil. Sobre quem nos lê dentro do arquipélago, ou na própria ilha em que o Açoriano Oriental é publicado, teremos alguma ideia, por mais vaga que seja. Creio que a maioria dos cidadãos minimamente informados sobre a nossa vida pública não dispensam diariamente o seu jornal, ou jornais. Todas as manhãs vejo nos cafés leitores a partilharem o jornal da casa, uns meramente folheando-o de página a página, outros concentrados numa das suas variadas seccões. Por mais importância que tenham as redes sociais no nosso dia-a-dia, a verdade é que uma sociedade não dispensa a informação que os profissionais, dentro e fora da redacção, vão recolhendo, investigando e depois filtrando-a nos seus pontos essenciais para um público anónimo mas que, por certo, faz parte dos que directa ou indiretctamente influem nos rumos que a política ou os negócios públicos vão tomando e que influem particularmente os que estão responsáveis pelo equilíbrio da vida comunitária a todos os níveis, desde a produção de bens à redistribuição de riqueza através dos mais variados programas ou leis implementadas. Um jornal sério não será necessariamente só um “vigia” do Poder e dos seus agentes, mas é o transmissor de tudo o que pode ou deverá mudar as nossas vidas para melhor, ou pior. Nesse sentido, um meio de comunicação social como o Açoriano Oriental tem obrigações acrescidas: está localizado na maior e mais poderosa cidade do arquipélago, vive ao lado do poder executivo, é vizinho do Campus principal da Universidade dos Açores, é publicado diariamente na cidade que recebe a maior parte dos visitantes às ilhas, quer venham como meros turistas ou ainda mais em negócios que movimentam toda a economia e finanças da nossa região.

Nenhuma destas palavras pretende menorizar a imprensa escrita, falada ou vista desta e de outras ilhas. Simplesmente relembro que lado a lado à sua longa tradição que carrega como o mais antigo jornal português, estas responsabilidades clamam todos os dias por ética de escrita e de cidadania no seu mais puro sentido – dizer sempre a verdade, repensar as suas opiniões, quer sejam expressas ou assinadas num gabinete editorial colectivo quer venham de um ou outro colaborador ou colaboradora. As suas páginas estiveram sempre em defesa da liberdade, mesmo em épocas de constrangimentos políticos ou de Estado, nunca poderá ser um espaço aberto para quem pense que tem o direito a uma voz pública numa publicação tão antiga e dignificada. O ódio ou a “fulanização” seja de quem for em termos pejorativos nunca serão ou deveriam ser permitidos.

Veio todo este prefácio a propósito do lugar do Açoriano Oriental na sua sociedade, no seu próprio espaço imediato ou à sua porta, e o seu papel e as suas responsabilidades e relacionamentos com nossa vasta diáspora espalhada um pouco por toda a parte. Será redundante repetir em detalhe que só através do seu site o jornal é lido nas mais longínquas paragens do globo, algo que é verificável pelo número de visitantes que se manifestam em todas as suas secções. Apesar das primeiras gerações de língua portuguesa estarem cada vais reduzidas numericamente, algo de novo começa a manifestar-se. No que me diz respeito pessoalmente como colaborador literário e cultural, sei muito bem do que falo. O Açoriano Oriental não será o primeiro grande jornal ilhéu a publicar com regularidade uma coluna literária que nunca ignora o que os escritores, poetas e ensaístas luso-descendentes escrevem e publicam. A reacção é sempre a mesma: de gratidão e orgulho. Sempre que deles ou das suas obras falamos, reagem directamente como se lhes tivéssemos oferecido a oportunidade de um regresso emotivo e intelectual às suas origens, à sua ancestralidade já velha de séculos. É o outro lado positivo da globalização: a reafirmação de identidades pessoais e culturais dos que convivem literalmente com o mundo inteiro, mas que só poderão contribuir algo de novo para um mundo de diversidades e múltiplas maneiras de ser e estar apresentando-se como filhos e filhas de uma geografia e história muito próprias. Não quero de modo algum utilizar este espaço para falar de mim, mas é o meu trabalho neste jornal que quero salientar, e muito especialmente lembrar as repercussões que tem tido nestes anos mais recentes. Com a abertura e a publicação do suplemento Açoriano Oriental Artes & Letras aqui há uns três anos a presença do jornal entre as classes mais cultas da nossa diáspora vem num crescendo que só nos pode orgulhar. Um exemplo, que creio ilustrar o que acabo de escrever: o poeta Michael Spring, descendente de mãe picoense e pai nativo-americano vinha publicando a sua magnífica poesia em revistas de papel e digitais americanas nunca suspeitando que era lido por gente da terra dos seus antepassados açorianos. Quando sobre ele comecei a escrever, a surpresa foi tão grande e o sentimento tão profundo que o levara a escrever-me que agora até lhe apetecia adicionar o nome “Garcia” na sua assinatura. Ele e outros já foram publicados neste jornal, por vezes mesmo só em inglês, outras em versões traduzidas ou bilingues. No caso de Spring, fez com que ele visitasse pela primeira vez as nossas ilhas o verão passado, e agora fala-me em “saudade” da terra, da necessidade que passou a sentir em estar entre nós. Quando recebe o Artes & Letras, em papel ou por outras vias, é como se recebesse um pedaço da terra-mãe, que é agora também a sua, uma terra-mãe constantemente lembrada nos confins do estado de Oregon, onde reside e escreve. Poderia adicionar muitos outros nomes, mas este serve para demonstrar o relacionamento que o Açoriano Oriental tem com os seus leitores tanto das primeiras como das demais gerações luso-descendentes.

Não partilho a ideia de que os jornais em papel vão desaparecer, como nenhum outro meio de comunicação desapareceu no processo evolutivo que é o das nossas sociedades globais. Um jornal faz parte da identidade da sua cidade, e Ponta Delgada conta com três grandes diários – não esqueçamos os também históricos Correio dos Açores e Diário dos Açores – que lhe dão voz, corpo e alma. Já escrevi em alguns jornais e revistas continentais, mas nunca por um minuto os considerei mais importantes do que este. Os leitores do Açoriano Oriental são tão inteligentes e críticos como serão os de qualquer outra grande ou pequena cidade. É a partir destas páginas que tenho chegado ao mundo, que tenho tentado honrar as nossas tradições culturais, e mais ainda fazer que os que estão longe fiquem cada vez mais perto e parte de nós, sejam esses leitores açorianos ou não. A sua longa e digna história, creio, garante que o futuro não o deixará cair no labirinto sócio-político e cultural em que se torna todos os dias a aldeia global. Escrever nas suas páginas tornou-se-me um dever, tão literário como cívico. Enquanto os seus responsáveis acharem que esta e outras presenças valorizam as suas páginas, nunca deixarei de dar o meu contributo a uma das mais eficazes vozes da vida pública açoriana.

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Parte deste ensaio foi originalmente publicado na edição comemorativa do aniversário de 182 anos de existência do ,Açoriano Oriental, a 18 de Abril, 2017.

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