Da geração seguinte e do seu mundo

Acabou a época da incapacidade acidental sem castigo. Saímos da água entre suspiros nostálgicos e já não amaldiçoamos a última areia que incomoda.

Luís Filipe Borges, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído

Vamberto Freitas

Queria começar por dizer isto: Luís Filipe Borges representa para mim o melhor da geração açoriana que segue imediatamente à minha, quase toda nascida nos anos 50. Não, não vou falar da sua carreira em Lisboa, e como ele entra na minha sala, sem pedir licença de quando em quando. Vejo-o e entendo-o em primeiro lugar como um escritor açor-continental, que cultiva a crónica, primorosa, a escrita na sua mais clara expressão, cheia de sentido, humor e significado. Quando o leio-o, vejo logo o seu sorriso, o que provoca o meu. Este seu mais recente livro, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído é demasiado açoriano, português. É o nosso encontro com vários mundos, é a nossa fascinação pelos outros e pelas suas terras. É, em suma, a descoberto do Outro, ou seja, a redescoberta de nós mesmos. Em pouco digo como o conheci pela primeira e única vez na Praia da Vitória, num dos mais improváveis eventos para mim. Um velho esquerdista numa convenção do PSD não é muito comum. Mas os homens livres cultivam estas coisas, sem medo nem piedade. Foram outros tempos, e um crítico literário não cultiva preconceitos desses, ou de outra natureza – sem culpa e muito menos sem desculpas de qualquer espécie.

Reabro Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído, já todo sublinhado, páginas viradas, comentado nas margens, e tento encontrar o que mais me tocou na mente e na alma. Acompanhar o autor nas suas viagens é um passeio sem começo nem fim. Não é só a boa escrita, é a emoção sorridente, a descrição precisa, como se eu o tivesse acompanhado nas suas andanças como um açoriano do mundo. A sua prosa mete-me inveja, mas esse é um problema meu. Não há deslumbramento aqui, só surpresa e fascínio. Não tenho o seu modo de rir, mas tenho o seu modo de sentir. No estrangeiro vê e observa com grande astúcia os desconhecidos, por assim dizer, e na nossa terra-mãe vê os suspeitos do costume. Como eu gostaria de vos escrever assim. Raramente fala de si, só olha em sua só volta, e diz do que vê e pensa. Gosta de nós, e gosta dos “outros”. Umas vezes com gosto outras com desgosto. O cronista autêntico tem esta responsabilidade: não tem pontos de vista imutáveis ou definitivos na prosa, fala só do que quer e vê, sente ou não sente. Há uma e qualidade admirável na prosa de Luís Filipe Borges. Combina a seriedade absoluta com o seu modo peculiar de achar graça a quem o rodeia ou com ele convive. Um professor universitário não consegue esse privilégio da bondade, ou até da generosidade. Quem elogia quem, é que conta no dia-a-dia. Luís Filipe Borges nunca achincalha, ri com, e nunca de (como já escrevi sobre outro autor açoriano num contexto muito diferente deste), conhece a sua própria humanidade no seu melhor e pior. Faz-me lembrar aqui outros cronistas e escritores com quem me atrevo a comparar: João Pereira Coutinho (o genial autor de Conservadorismo e E Vamos ao que interessa, o distinto colunista da Folha de São Paulo), um dos “conservadores” que mais leio e aprecio, ou até Miguel Esteves Cardoso. Como homem de esquerda desde sempre, não cedo a muita gente, mas a estes sim, e com todo o prazer. Luís Filipe Borges pertence a uma geração mais ou menos da mesma área ideológica que nunca deixa de surpreender, e terem nascido na liberdade que tanto nos custou: seu irmão Alexandre Borges, Joel Neto, João Pedro Porto, entre alguns outros cujas obras não são chamadas para aqui neste momento. Só que o respeito intelectual e literário que cultivam por nós, que os precedemos na escrita e na idade e até nas mais variadas experiências académicas ou profissionais constitui a melhor homenagem que nos podiam prestar. Foi para isso que lutamos politicamente e escrevemos nos mais variados géneros O seu apego inabalável à sua terra de origem, essa homenagem que nos prestam sempre, quando nos citam ou mencionam, é de uma dignidade que me faz baixar a cabeça e dizer-lhes simplesmente obrigado, sabendo que a continuidade da nossa Tradição está mais garantida.

Entre a hospitalidade, a beleza natural, as práticas antigas – escreve Luís Filipe Borges – e a tecnologia desaparecida, ficamos todos no Pico, todos das Flores, de São Jorge, do Corvo e do Faial. Deixamos de ser cidadãos do mundo, como o outro, e queremos lá saber”.

Se incluo aqui esta breve citação sobre as suas andanças pelas nossas ilhas é porque também queria dizer que este e outros escritores da sua geração serão talvez os mais cosmopolitas por formação e experiências verdadeiramente citadinas, no bom sentido da palavra, sentem-se bem em toda a parte, mas um tema, creio, percorre quase todas as suas obras – o regresso a casa, os Açores sempre na sua alma e, até, postura na vida. Nunca em Lisboa deixam esquecer as suas origens, em conversas de televisão ou noutros meios de comunicação social, e muito menos nos seus livros. Podem, pois, imaginar como os da minha idade se sentem perante estes autores e livros. O seu respeito pela minha geração açoriana foi sempre constante, e isso é a melhor homenagem que nos poderiam prestar. A tradição literária nos Açores vem de longe, pelo menos desde o século XVI, com a publicação de Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso, e estes jovens estão a garantir a sua continuidade. Devo ainda adicionar aqui que nestes anos mais recentes muito se tem publicado aqui nos e sobre os Açores, e muitas dessas obras são de inegável qualidade literária, desde o premiado João de Melo em Lisboa a Paula Sousa Lima, residente em São Miguel, mas cujo romance O Paraíso seria finalista do grande Prémio LeYa em 2016, e naturalmente publicado pela mesma editora. Foi lançado há poucos dias na Livraria SolMar a primeira grande tese de doutoramento na Universidade dos Açores sobre a obra suprema do falecido José Martins Garcia pelo meu colega Urbano Bettencourt, sob o título O Amanhã Não Existe, ele próprio um grande ensaísta, poeta e ficcionista. Como disse um dia o florentino Pedro da Silveira, a única região ou país no mundo de população comparável à nossa e respectiva produção literária tão profícua será só a Islândia. Pedro sabia destas coisas mais do que nós todos juntos.

Luís Filipe Borges viaja pelas mais próximas e longínquas cidades estrangeiras, desde Veneza por vezes mal cheirosa e frequentando os seus recantos mais escondidos, a uma Havana que parece fora do tempo, e até da História. O seu olhar agudo nunca nos deixa de fora, parece por vezes um espião dos tempos idos: “A estátua de Hemingway ao balcão da Floridita – diz-nos casualmente – envergonha o nosso Pessoa no Chiado”. Não haverá nada simultaneamente de mais dramático e cómico do que um português a ver o mundo, como imaginamos os descobridores lusos de outrora. No ensaio “Sátira em Salermo, II”, volta à memória e à sua vivência na nossa terra. Diz de uma conversa com um sérvio, esse cidadão de um outro país para nós mais do que estranho, mas ou menos parecido com Portugal. “Está interessado – escreve uma vez mais acerca do seu interlocutor distante – na esquizofrenia portuguesa tal como a apresentei na conferência. Um país cuja comédia ainda aprende a andar, marcada pela repressão do fascismo, e que hoje é algo bipolar – oscilando apaixonadamente entre o fado e o humor”. É esta capacidade de escrita que o distingue entre todos nós, o frase limpa e curta que diz tudo o que somos e como somos.

De resto, só direi que li Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído como quem lê um romance em sequência sobre um protagonista em viagens pelos mais diversos países em continentes distantes, mas que se tornam parte de nós. As linguagens de Luís Filipe Borges combinam, deixem-me repetir, erudição, ironia e humor. Depressa esqueci o personagem público, e concentrei-me no escritor. Bem sei que ele tem outras obras, e mencionarei apenas mais uma, pelo seu título significante para qualquer leitor português, A Vida É Só Fumaça. No caso deste autor é algo mais – é o prazer do texto, é a viagem sem fim, para os mais distraídos e para os que, como eu, digerem cada palavra sua como quem digere um grande momento feito e dito em língua portuguesa, com sotaque terceirense.

____

Luís Filipe Borges, Destinos Em Falta Para O Passageiro Distraído, Lisboa, Marcador, 2017. Lido hoje na ilha do Pico, na Azores Fringe Festival.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s