Da União Soviética e do que viria depois

Claro que se trata de fragmentos da minha memória, mas não foram escolhidos com outro fim especial além daquele de mostrar a evolução de um jovem que nasce numa família de pescadores, frequenta um seminário católico, parte para a União Soviética e acaba por lá ficar quase 40 anos.

José Milhazes, As Minhas Aventuras no País dos Sovietes

Vamberto Freitas

Não houvesse mais do que as palavras que cito aqui em jeito de epígrafe, e só elas bastariam para despertar o interesse de qualquer leitor minimamente curioso sobre o destino português e as nossas “aventuras” de emigração em praticamente quase todos os países do nosso tradicional destino, a União Soviética constituindo definitivamente um caso único para além de um número relativamente reduzido dos nossos compatriotas, e suponho que quase todos eles alinhados, ou pelo menos intimamente relacionados, com o Partido Comunista Português. Este magnífico livro As Minhas Aventuras No País dos Sovietes: A União Soviética tal como eu a vivi é, adentro de um género praticado ou escrito por muitos autores internacionais que viveram situações públicas ou político-estatais pouco comuns, torna-se uma combinação de autobiografia e de memórias acerca de um tempo e de lugares profundamente vividos, em que as responsabilidades profissionais estão ligadas à vida pessoal ou familiar do seu autor. Depois, poucos de nós passaram toda uma juventude num país tão distante cultural e politicamente considerado, completando uma licenciatura numa universidade desse império enquanto se aprende a sua língua e linguagens num dia-a-dia de contínuo reajustamento a uma nova cultura e ideologia abertamente em luta permanente com boa parte do Ocidente, em busca de pão e de condições vivenciais nada fáceis, desde alojamentos e alimentação num clima totalmente oposto ao das suas condições pátrias. São estes outros factores que, a mim, só suscitam admiração e surpresa ante tanta vontade ou, quem sabe, resignação ou crença num projecto tanto pessoal como colectivo que poucos de nós aceitariam ou enfrentariam com tanta calma, por assim dizer, e integrar-se numa mundividência muito longe da nossa experiência sócio-económica e cultural em Portugal. Não posso deixar de mencionar aqui o meu fascínio por José Milhazes quando me aparecia via televisão de Moscovo, de Kiev e de outras localidades da União Soviética, de barba cumprida, de gorro enfiado até às orelhas e de casacos ultra pesados a relatar os últimos e dramáticos acontecimentos um pouco por toda a parte na então grande potência – para a maioria de nós misteriosa, e até temerosa, com a serenidade de quem está em casa ou perfeitamente confortável na Praça Vermelha. Para um telespectador ou ouvinte de rádio aqui isso era quase como rever o primeiro homem a chegar à Lua, ou a um país simultaneamente distante e estranho. Só que, depois da minha leitura deste inesperado livro percebi finalmente que as nossas andanças pelo mundo nunca foram convencionais ou de sonhos comuns – foram sempre de aventura na descoberta de um Outro, na descoberta das terras em tudo alheias que sempre nos seduziram desde a partida das primeiras naus, até hoje. As aventuras deste autor na antiga terra dos czares (que estão de volta) e de Lenine e dos seus muitos sucessores, nada de estranho nos deveria ser. Crença e coragem, força interior e capacidade intelectual e política fazem também parte do nosso ser, mesmo que a maioria opte for ficar onde nasceu, e enfrentar de caras os nossos próprios carrascos e malabaristas estatais de toda a espécie.

José Milhazes, filho de pescadores na Póvoa de Varzim, filia-se na juventude comunista e parte para Moscovo como estudante do ensino superior aos 17 anos de idade, em 1977, e só regressa ao seu pais de nascença em 2015, depois de já ter organizado a vinda para Portugal da sua esposa natural da Letónia e dois filhos, enquanto ele ficou para presenciar e relatar o que restava do antigo império soviético, o que intitula num dos capítulos desde livro, na fase de transição política “Os Malditos Anos 90”, e todo o drama violento vivido pela Federação Russa que hoje conhecemos, desde as conspirações e das contra-conspirações dos duros do regime soviético caído seguido de golpes e contra-golpes de Boris Yeltsin até à queda de Mikhail Gorbachov, e a chegada de Putin, num cenário das mais corruptas privatizações e gangsterismo de todos os tipos, com prisões, guerras civis em antigas repúblicas da União, mortes militares e actos terroristas, extrema miséria económica e ameaças de todo o género como modo de vida diárias. José Milhazes mantém-se no seu posto, e presencia em directo a Revolução Laranja em Kiev, a tomada pseudo-eleitoral e militar da Crimeia, assim como a suposta pacificação de outras repúblicas e territórios em guerra fratricidas. Pelo meio, vai convivendo a ajudando os seus vizinhos nos arredores de Moscovo, recebe e acompanha políticos portugueses em visita à potência caída, incluindo Mário Soares, Zita Seabra e outros, tudo isto enquanto lida com as suspeitas sobre o seu trabalho e ao serviço de quem. Hoje sabemos que ele era absolutamente independente, e desta leitura deduzo que a sua desilusão final vem com a queda do líder, que nunca deixou de ser comunista, Mikail Gorbachov, a sua última esperança de abertura e renovação de todo o sistema, e que manteria, pensava-se então, um comunismo de face humana. Durante este seu percurso na União Soviética percebemos que convive em perfeita harmonia com os seus vizinhos no prédio onde residia no seu apartamento com a família, mantinha as mais chegadas relações com colegas e amigos, estava na casa dos seus afectos e de longa vivência. As fotos que acompanham este livro, desde a sua juventude até aos últimos anos na Rússia, dão testemunho do alto apreço que tinha entre uns e outros, desde cidadãos comuns a todo o tipo de oficialidade. Nada comum para um filho de gente humilde no nosso país, nada comum entre a maioria que se havia refugiado no ou perseguido o sonho comunista da grande potência que um dia foi a União Soviética.

Permitam-me aqui uma nota pessoal, pela sua ironia. José Milhazes começou a sua carreira como tradutor de cinema e de outras artes e livros uma editora soviética responsável por todo o tipo de propaganda internacional, a Editora Progresso/Progress Publishers, situada naturalmente em Moscovo. No momento em que ele lá desempenhava as suas funções, eu era um jovem universitário no Orange County, no sul da Califórnia mais conservadora. De quando em quando, antes e depois de 25 de Abril, eu visitava com um outro colega e amigo açoriano a livraria do Communist Party USA, em Los Angeles, para comprar livros da literatura clássica russa, e não só, que eram enviados para lá a preços subsidiados muito baixos, de capa dura, ilustrados e magnificamente traduzidos. Foi lá que ouvi pela primeira vez o nome de Álvaro Cunhal, levando uma grande “lição” política de um velho militante por não saber quem era na altura o grande teórico comunista internacional. Tenho alguns desses cobiçados livros na minha estante aqui em Ponta Delgada, como o Selected Works in Two Volumes (1973), de Anton Chekhv, Soviet Russian Stories of the 1960’s and 1970’s, The City of the Yellow Devil, de Maxim Gorki (1972), entre alguns outros. Lembro-me ainda de visitar uma gigantesca exposição sobre a vida da União Soviética em Los Angeles, sabendo muito bem que éramos fotografados à entrada e à saída por alguns dos serviços secretos, inclusive pela polícia da própria cidade. Só me recordo disto: de ficar fascinado pela cordialidade e formação dos soviéticos que nos mostravam e explicavam cada amostra da vida soviética, nunca me esquecendo que era tudo parte propaganda e porventura parte da verdade. Até hoje recordo esses momentos como uma educação de como olhar para o Outro, que até então nunca me tinham parecido estranhos e malfeitores. Coisas da juventude, mas também coisas da nossa comum humanidade, para além de ideologias e desconcertos do mundo.

Ironia das ironias, o meu outro país de nacionalidade dupla é os Estados Unidos da América, e é governado por um Donald Trump, que recuso aqui a classificar, mas sei muito bem o que penso dele, e o medo que sinto pelo futuro desse país, onde vive praticamente toda a minha família. No caso de José Milhazes, tem Vladimir Putin. É um empate muito triste. Encontramos agora os dois nossos países de adopção nas mais abismais condições políticas. Tenho de concluir este texto com uma citação que encerra As Minhas Aventuras nos País dos Sovietes: A União Soviética tal com a vivi: “Quando se vive tão longe de Portugal, compreende-se de forma muito profunda que temos o melhor país do mundo, mas também se entende quão mal gerido ele é. É pena.”

É, sim. Só com uma grande diferença. Ainda não nos prendem à meia noite ou de madrugada, não nos assassinam, pelos menos fisicamente. O resto faremos, como sempre, à moda portuguesa – não vemos, não ouvimos, pretendemos não saber de nada. Os órgãos de informação falam sozinhos, de si para si. Temos o sol e a praia, a colorida luz de Lisboa. Só que após mais de oitocentos de História temos também a longa memória de “salteadores de estrada”, como dizia um grande poeta açoriano nas suas conversas, ainda por resolver.

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José Milhazes, As Minhas Aventuras No País Dos Sovietes: A União Soviética tal como eu a vivi (4ª edição), Lisboa, Oficina Do Livro/LeYa, 2017.

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