Public Intellectuals and the resurgence of political dystopias

Do intelectual público no nosso tempo

É sempre um espírito em oposição, ao contrário daquele que se acomoda, que me conquista por uma noção romântica. A noção de uma vida que desafia o acto intelectual está sempre presente na dissidência contra o status quo num tempo em a luta pelos grupos sem representação e sem privilégios parece tão desvantajosa e tão injusta numa sociedade contra eles.

Edward Said, Representations of the Intellectual.

Vamberto Freitas

Ainda como aluno de licenciatura de Estudos Latino-Americanos na California State University, Fullerton, regressei à minha Ilha Terceira poucos anos depois de ter emigrado para os Estados Unidos aos 13 anos de idade, e deparei-me numa montra de uma livraria em Angra do Heroísmo com um livro cuja capa e o próprio título me perturbavam de modo inusitado: Da Vida Quotidiana na LUSAlândia, de um autor que me era totalmente desconhecido, de nome Onésimo Teotónio Almeida. Olheio-o fixamente. Tinha estilizada na capa algo meio ruim, como se fora uma águia norte-americana de cara abertamente zangada num fundo de azul e branco, mas era o título que me incomodava, e não entendia muito bem o neologismo “LUSAlândia”. Não perdi de imediato o jogo de palavras: o “L” maiúsculo mas subjugado às iniciais inconfundíveis “USA”, e lusalândia sabia muito bem o seu significado. Pensei de imediato que isto tinha a ver também comigo já como ser híbrido ou binacional. Só achei interessante ter a chancela da então editora coimbrã Atlântica Editora, e decidi logo que me seria um livro importante. Nessa altura eu não lia o semanário luso-americano Portuguese Times, fundado em 1973, e portanto não conhecia nada do autor dos ditos textos, pois, como disse, eu vivia na Califórnia, longe e até mesmo inconsciente do que se passava com a minha gente no outro extremo do continente. Quando cheguei à minha casa algures no sul da Califórnia comecei a ler de imediato a sequência de textos que Onésimo havia coligido e organizado numa espécie de narrativa com princípio, meio e fim. Foi o tal “choque de reconhecimento” melvelliano, o reconhecimento de mim próprio através das palavras de um outro.

A partir desse momento de leitura e meditação nada seria, para mim, nunca mais, o mesmo. Muito do que eu havia pensado, sofrido e desejado estava ali. O desprezo ante a ditadura que então atormentava o meu país natal, a separação da minha própria comunidade imigrante em que eu residia ou vivia ao lado, a afirmação condigna numa terra ainda estranha mas já mais minha do que eu não conseguia realizar, era agora o conforto das palavras de quem tinha as mesmas origens e conseguia agora exprimir e, sem complexos ou medos, dizê-lo publicamente. Não pensava ainda no conceito de “intelectual público”, mas percebia-o, e percebi ainda mais como era possível reinventar uma voz que chegasse a outros, e desejava mudar não necessariamente o mundo inteiro, mas pelo menos aquele a que pertencíamos por direito próprio e pela imposição da nossa história ou do nosso destino. Sei hoje que Onésimo Teotónio Almeida esquece, ou quer esquecer, esse seu livro por razões que não entendo muito bem, mas eu não o esqueço, e mantenho-o num dos lugares mais nobres da minha colecção pessoal aqui em casa, numa ilha açoriana, o livro que me permitiu entrar rapidamente nos jornais da minha comunidade e escrever critica sobre o que dentro dela se passava, ou ainda mais sobre o seu relacionamento com restante país em que estava irremediavelmente integrada. Não é muito? É uma referência, no meu caso particular, indelével, duradoura. Não regresso a Da Vida Quotidiana na LUSAlândia com muita frequência, mas nunca o esqueço. Devo adicionar que considero o primeiro grande intelectual público da nossa incipiente modernidade nos EUA o escritor e poeta de nome Garcia Monteiro, faialense nascido em 1853 e falecido em 1913 na cidade de Cambridge, Massachusetts, e que escreveria também alguns dos mais críticos e duradouros ensaios sobre a política interna do seu pais de adopção, assim como do seu Portugal natal, abordava tudo que dizia respeito à cultura literária e relações externas dos seus dois países.

Só Onésimo Teotónio Almeida, uma vez mais, faria o mesmo para a nossa geração. Bem sei que até hoje ele continua a publicar a um ritmo pouco comum entre nós, e que outras ideias e posições formam e enformam a sua vasta e diversificada obra. Acaba de sair o seu novo livro de ensaios A Obsessão da Portugalidade. Queria apenas enfatizar aqui que um dos seus livros foi determinantes no que viria depois na minha própria vida pública e publicada, tanto nas comunidades, e mais tarde em Lisboa, no Diário de Notícias, como depois aqui nas ilhas. Nos anos 80 foi ele e outros colegas que iniciariam a discussão sobre a açorianidade, e muito especialmente as suas representações na literatura escrita nas ilhas ou por ilhéus espalhados um pouco toda a parte. Não foram anos nada pacíficos entre nós, pois defender a existência de uma literatura açoriana colocava-nos em posições políticas a que nenhum de nós queria pertencer, e muito menos sofrer certos rótulos, os mais amenos dos quais, porventura, “regionalistas”, “provincianos”, “separatistas”, e por outros nomes muito piores. Que a renovada defesa dessa escrita ou discursos públicos vinha de uma certa e moderada esquerda residente em Lisboa e nos arredores, quase todos congregados em volta da revista A Memória da Água-Viva, dirigida pelo falecido J. H. Santos Barros e por Urbano Bettencourt, pouco significava entre os menos atentos, ou nacionalistas de trazer por casa. O certo é persistimos em adoptar linguagens que, antes de mais nada, significavam quinhentos separados da mãe-pátria por um mar imenso, e que essa história e geografia teriam tido as suas consequências, tanto éticas como estéticas. “A geografia, para nós, valendo quanto a história”, como diria, mais ou menos, Vitorino Nemésio. A verdade, hoje tão evidente, é que o próprio Poder ilhéu que nos contestava nessa altura, viria a fazer suas as nossas ideias e narrativas, frequentemente expressas nos seus diálogos e trocas com a República, em tudo que diz respeito directo às nossas reivindicações e direitos e deveres. Se há um exemplo de como alguns intelectuais públicos influenciaram o rumo e posturas de toda uma sociedade, o nosso deve permanecer como exemplo e actuação consequentes. Outros livros e autores seriam eventualmente lidos e meditados, mas dava-se nessa época continuidade ao que, pelo menos desde o século XIX, eram certas vontades e retórica açorianas. Resisto aqui falar em nomes que todo o país reclama para o seu cânone literário, mas nunca nenhum deles, os mais citados, se esqueceram alguma vez das suas origens à terra de nascença – Antero de Quental, Vitorino Nemésio e Natália Correia. Estes dois últimos até se bateram em palavras e acções para que os Açores nunca o deixassem de ser, como quisessem e entendessem. Intelectuais públicos como eles foram e serão sempre exemplos de como nunca a ideologia e a sociedade que desejavam calaram ou intimidaram a sua actuação pública no continente e muito menos nas ilhas.

O que é para mim, hoje, um “intelectual público”, eu que sou um cidadão português a viver numa pequena ilha açoriana, docente da Universidade dos Açores, ensaísta literário, ou apenas um mero comentador de livros num jornal de circulação e influência quiçá reduzida? Digamos que a primeira aprendizagem vem de longe, vem de professores norte-americanos, como Michael Holland, um dos últimos dos new critics a princípio dos anos 70 numa faculdade californiana, mas muito especialmente de um autor que faleceu em1972, e que eu conheci só através dos seus livros, e muito cedo. Ter lido o seu póstumo Letters on Literatura and Politics 1912-1979 foi mais do que uma descoberta, foi um encontro decisivo sobre a importância, sobre a elegância e sobretudo a relevância do discurso público público e privado sobre a literatura como documentação de um tempo e de uma cultura no contexto histórico em que acontece. Por certo que é um discurso informal e privado, esse das suas cartas aos mais conhecidos autores nacionais e internacionais, especialmente os britânicos. Só que as ideias, opiniões e confissões aí expressas vão muito além de um só interlocutor, dizem o que um e qualquer leitor quer ouvir e aprender: a importância da palavra e da seriedade intelectual e de cidadania. Nuca mais fui capaz de ler um livro do mesmo modo, fosse ele de prosa fictícia, de poesia ou de carácter biográfico ou autobiográfico, ensaísmo ou crítica pura, ou mesmo uma de mera escrita e circunstancial numa periódico generalista, desde Vanity Fair e The New York Review of Books à The New Republic, revista erudita onde acabaria a sua carreira.. Edmund Wilson era muito mais do que um ensaísta literário, era sobretudo um cidadão em busca das origens da tragédia humana, quer fosse individual, nacional ou internacional .

A certo momento da sua carreira, especialmente a partir dos anos 40, decide que tinha já dito tudo o que diria do modernismo literário europeu (Axel’s Castle: A Study in the Imaginative Literature of the !870-1930) e norte-americano (e aqui nos mais variados livros de recensões e ensaios, em que sobressaiem A Literary Chronicle: 1920-1950 e A Literary Chronicle Of The Forties) e vai ainda em busca da vida e das tradições de minorias dentro e fora do seu país, desde Apologies To The Iroquois, sob ataque no seu território sagrado com a construção de projectos de suposto desenvolvimento estadual, a The Dead Sea Scrolls 1944-1969, a história primitiva da cristandade através da vida dos Essenes, tentando demonstrar a sua dignidade e valor artístico e lugar histórico na modernidade que os marginalizava e os colocava no esquecimento e em perigo num mundo que já se anunciava perigoso e demasiado mecanizado. Viajaria ainda para as caraíbas à procura da vida e obra dos irmãos Philipe Thoby-Marcelin e Pierre Marcelin, prefaciando a edição de língua inglesa do romance All Men Are Mad. Antes de tudo isso, nos anos 30, fica aterrorizado com a Grande Depressão, e sai pelo país fora em busca dos caídos e oprimidos, publica de seguida uma colectânea de textos com um título pouco comum e de aviso aos seus leitores – The Americano Earthquake. A determinada altura, nos anos 50, decide não pagar nem mais um cêntimo de impostos ao governo federal pelos gastos que este faz em armamentos para futuras guerras, e muito particularmente pelo início da sua intervenção no Vietname. É chamado pelo IRS, condenado a pagar tudo com juros, o que, se o tivesse feito, lhe faria ficar na penúria quase absoluta, e aconselhado vivamente pelo seu advogado a abandonar para sempre o pais. Em em vez disso, Wilson escreve um dos seus mais “públicos”, polémicos e condenados livros, The Cold War And The Income Tax: A Protest. Nessa precisa altura, John F. Kennedy convida-o à Casa Branca para lhe conferir uma Medalha de Mérito e almoçar com autores nacionais e internacionais, contra uma tentativa de intervenção do FBI. Respondeu Kennedy: estou a condecorar o grande intelectual e o não “o bom cidadão”. Pouco depois, Gore Vidal recenseava o dito livro, condenando Wilson, mas ressalvando-o brilhantemente com as seguintes palavras: “Isto constitui – escreveu Gore Vidal, também na linguagem claríssima de um cidadão sem medo, e consciente das tradições fundacionais e políticas do seu país – uma acusação formidável a nós todos. Edmund Wilson é nosso mais distinto homem de letras. Ele tem sido sempre (mesmo que os burocratas não saibam) o grande defensor cultural da América e um American Firster. Perder um homem destes é um sinal que a nossa sociedade está a entrar numa zona de sombras que, uma vez atravessada, significa acima de tudo, o que os nossos fundadores queriam vir a ser um país onde a felicidade seria desejadamente procurada. Mesmo assim, o panfleto sombrio de Wilson poderá ser o abalo exactamente do que necessitamos”. Wilson nos seus últimos dias folheava, creio, a revista Life, e dizia que já não se reconhecia neste nesse país aí alegre e glamorosamente retratado. Aliás, como já escrevi noutros contextos, Wilson também viu um dos seus últimos filmes, The French Connection, arte cinematográfica de que ele não tinha sido fã, pois nunca se tinha esquecido que o seu grande amigo F.S. Fitzgerald e colega em Princenton tinha perdido a vida numa Hollywood que ele nunca respeitou, e muito menos admirou. Imaginem se ele estivesse a viver a América dos nossos dias. Sobre o dito filme, a que o tinha levado sem ele pedir, diria simplesmente “Bang, bang”. Nada mais.

De Gore Vidal, quase seria supérfluo falar aqui, os leitores portugueses mais atentos à literatura e pensamento norte-americanos conhecem muito bem a sua obra ensaística, a soberba prosa de crítica contundente ao Poder do seu país. O seu discurso de intelectual público que era o seu que poderia não ser lido pela maioria dos leitores americanos, mas em Washington sabiam muito bem quem era e quem o que escrevia, a partir ora da sua terra natal ora a partir da sua longa residência em Itália. A sua América passara de uma “república” para um “império” arrogante e dominador. Era um americano de origens mais ou menos aristocráticas, frequentador da Casa Branca no tempo de John F. Kennedy, sempre com a língua e a escrita afiadas perante o que via e ouvia. Os seus ensaios no monumental United States: Essays 1952-1992 vão muito além do puro prazer do texto – são um libelo contra esse mesmo poder marcado pela corrupção e pelo puro oportunismo político, são uma história da literatura e do ligar que o império todo poderoso do século XX impunha a mundo e subvertia os seus próprios ideais. Vidal não era só o grande escritor de romances históricos e ensaios geniais, era sobretudo o cidadão furioso cujo humor temparavaca raiva e o desgosto que ele sentia durante quase toda sua vida adulta. Ler Gore Vidal e ler Edmund Wilson é como ler os dramaturgos romanos a saque mas livres num teatro do absurdo primitivo ou da comédia redentora. O seu Homage to Daniel Shays: Collected Essays não será só uma homenagem a um suposto traidor virtuoso,, é uma acusação sem resposta aos que se apoderarão do país que ele amava, e em que quis ser enterrado, fazendo da sua permanência eterna um desafio sorridente e perpétuo à pátria , e em que quis ser enterrado, fazendo da sua permanência infinita um desafio sorridente as que ele mais detestava, e sobre os quais derramava desprezo e derrama sempre num dos cemitérios mais visitados na capital sulista dos Estados unidos.

Edward Said? Esse palestiniano assessor de Yassar Arafat e professor de literatura americana na Comlubia University, em Nova Iorque, falecido há poucos anos? Digamos que com o seu Orientalismo transformou toda a nossa visão do “outro”, desconstruiu todo o modo e ideias com víamos um outro povo, não só do Médio Oriente, mas de todas as outras geografias e culturas. A partir desse momento literário tomámos consciência do que tudo o que pensávamos não passava de uma construção falsificada que os escritores ocidentais, particularmente os britânicos nos tinham escrito e imposto. A obra de um estudioso e intelectual público como Said não só nos abriu novos modos de ver e entender. Obrigou-nos a humanizarmos a nós próprios. O “outro” deixou de ser o “outro” – tornou-se a nossa própria ….de ser e de nos vermos. Orientalismo não é uma obra das nossas falsas diferenças devido a línguas e histórias que não percebíamos. Mostrou-nos a nossa comum humanidade. Não há fala de pretensioso cosmopolitismo, fala-nos da nossa comum condição humana. Não pedia a guerra, pedia a paz. Não pedia raiva ou vingança, pedia a música (ele que era também um pianista) que nos falasse as linguagens comuns, quer as entendêssemos ou não. Juntamente com o judeu argentino Daniel Barenboim, idealizou uma orquestra de judeus e palestinianos. Ainda andam por aí, e actuam. Esse palestiniano de assessor de Assar Arafat e professor de literatura americana na Comlubia University, em Nova Iorque, falecido há poucos anos? Digamos que com o seu Orientalismo transformou toda a nossa visão do “outro”, desconstruiu todo o modo e ideias com víamos um outro povo, não só do Médio Oriente, mas de todas as outras geografias e culturas. A partir desse momento literário tomámos consciência do que tudo o que pensávamos não passava de uma construção falsificada que os escritores ocidentais, particularmente os britânicos nos tinham escrito e imposto. A obra de um estudioso e intelectual público como Said não só nos abriu novos modos de ver e entender. Obrigou-nos a humanizarmos a nós próprios. O “outro” deixou de ser o “outro” – tornou-se a nossa própria ….de ser e de nos vermos. Orientalismo não é uma obra das nossas falsas diferenças devido a línguas e histórias que não percebíamos. Mostrou-nos a nossa comum humanidade. Não há fala de pretensioso cosmopolitismo, fala-nos da nossa comum condição humana. Não pedia a guerra, pedia a paz. Não pedia raiva ou vingança, pedia a música (ele que era também um pianista) que nos falasse as linguagens comuns, quer as entendêssemos ou não. Juntamente com o judeu argentino Daniel Barenboim, idealizou uma orquestra de judeus e palestinianos. Ainda andam por aí, e actuam.

Não haverá nada de mais belo e construtivo do que todos estes discursos, acções e vontades aqui descritas. O intelectual público ainda não perdeu a sua palavra e o seu poder. Para dor dos tiranos e dos seus servidores. Regresso aqui, necessariamente, a Onésimo Teotónio Almeida, com dei início a este meu texto. Obrigado, não só por seres quem foste e és. Obrigado pelas tuas palavras escritas quando eu mais, na minha juventude, reinvenção da minha identidade e luta californiana, mais precisava delas

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Lido em “Public Intellectuals aand the reassurance of political dystopias”, Universidade dos Açores, a 31 de Maio de 2017, numa conferência à porta fechada. Algumas das traduções aqui são minha responsabilidade. Nas fotos:  Edward W. Said, Gore Vidal, Onésimo Teotónio Almeida e Edmund Wilson. Claro que foram tão-só figuras mencionadas na minha comunicação.

 

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