Sonhos americanos de agora e de sempre

São o carinho e a memória que demarcam a sinceridade deste livro, o seu carácter e o seu denso significado… Este livro é escrito por uma democrática selecção de autores, não se limita a escritores profissionais, mas nasce de gente vinda das mais diversas facetas da vida.

Frank X. Gaspar, na introdução a Untamed Dreams: Faces Of América

Vamberto Freitas

Antes de falar sobre este livro como um dos mais belos títulos que eu li nestes últimos tempos, Untamed Dreams: Faces Of América/Sonhos à Solta: Rostos da América, organizado por Francisco Henrique Dinis e José do Couto Rodrigues, não posso nem quero deixar de dar os parabéns, na pessoa de Tony Goulart, picoense imigrado nos EUA há muitos anos, pela iniciativa que foi a fundação de uma editora que tem como objectivos principais motivar a investigação nos mais variados campos da nossa vida naquela sociedade. Portuguese Heritage Publications of California é dirigida por indivíduos ligados a várias associações comunitárias, e o seu catálogo já contém um número substancial de títulos em todos os géneros, desde história, ficção e poesia, assim como algumas biografias e autobiografias., abrangendo os mais variados temos: baleação, agricultura, indústria lacticínia, e Festas do Espírito Santo, esses ritos religiosos e profanos celebrados anualmente em todos os aglomerados de maioria açoriana, e talvez o evento que mais coesão traz ao nosso povo naquelas vastas paragens, promovendo a cultura ancestral entre os luso-descendentes, e desse modo permitindo sobretudo a continuidade da nossa cultura, da nossa memória histórica, mesmo que em língua inglesa e por outras formas de actuação e estilos de vida. Olho para essa lista editorial e fico espantado com o número de autores, uma lista longa de mais para que eu possa destacar nomes e títulos, uns mais conhecidos do que outros, e que inclui ainda escritores residentes nas ilhas mas viram algumas das suas obras mais pertinentes para o tema da imigração traduzidas e divulgadas entre todos os leitores da nossa diáspora americana. Para entendermos inteiramente a audácia de tal projecto bastará lembrar a todos que tudo isto é feito sem subsídios oficiais, o que não exclui, como me diria um dos seus responsáveis, a ocasional distribuição gratuita por escolas e bibliotecas numa boa parte do estado da Califórnia, e não só. Raramente estes livros chegam ao arquipélago, e isso passa a ser indesculpável – são essenciais para os nossos próprios investigadores e escritores, fazem parte do cânone literário e cultural português, com especial relevo para as ilhas dado que a grande parte dos nossos imigrantes no oeste americano é de origem açoriana. Só que entre esses nomes e obras estão também presentes autores e bem-feitores de origem continental. Pelo menos deixo aqui os rótulos das colecções que venho mencionando neste texto: Heritage Collection, Colecção Décima Ilha (onde encontramos também os livros de poesia), Pioneer Collection, Fiction Collection e Children’s Collection. Não, não é pouco. O que me leva, uma vez mais, a apelar aos responsáveis pelos diversos sectores oficiais do Governo Regional dos Açores a tomar a iniciativa de fazer chegar a nós, às nossas instituições de ensino a todos os níveis, todo este rico arquivo da nossa história e criatividade no além-fronteiras, na lonjura do Pacífico, que nunca nos esquece ou ignora, que sempre perpetuou voluntária e orgulhosamente a nossa memória colectiva dentro e fora do território nacional. Por uma questão de pura justiça intelectual, não posso deixar de mencionar as inúmeras edições de autores luso-americanos e açorianos, no original ou em tradução, das editoras Gávea-Brown Publications (Brown University) e Tagus Press at UMass Darthouth. Foi a partir de todos eles que muitos dos nossos autores nos Estados Unidos foram publicados e tornaram-se parte do que já é a nossa Tradição Literária.

A crescente dupla nacionalidade dos filhos e netos da primeira geração imigrada quase torna sem significado a expressão“território nacional”. Untamed Dreams: Faces Of America leva-nos dos primórdios da nossa emigração para a América, os que nadavam furiosamente até aos barcos baleeiros no Corvo e noutras ilhas aos que partiam via Pan American, de Santa Maria, e os que ainda hoje dão um salto em busca da sua sorte. A imagem primeira que sobressai deste livro é como um pequeno povo, numericamente falando, construiu algumas das mais prósperas e bem organizadas comunidades no oeste americano. Não se trata só de trabalhadores em busca do ouro no século XIX, mas ainda dos que hoje estão colocados nos mais distintos e importantes sectores do estado mais rico da nação mais rica do mundo. Não falo aqui nem de nacionalismo nem de sobrevalorização do chamado “sucesso” novo-mundista. Falo da coragem e determinação de um povo ilhéu que nunca se deixou intimidar pela mais avançada e sofisticada economia e sociedade do Ocidente. De um extremo de um estado como a Califórnia, dos baleeiros de San Diego em tempos idos aos nossos contemporâneos nos mais diversos ramos de vida e actividade económica a norte, desde o Vale de São Joaqueim no centro interior ao Sillicon Valley e San José e arredores, falo dessa audácia e desse destemor na sua permanência e formação numa complexa sociedade multi-étnica e cultural. Agricultura, invenção da mais avançada indústria lacticínia planetária, de bem-feitores comunitários, uma vez mais, através de associações de seguradoras até aos professores universitários, a comunidade portuguesa na América é de uma organização e segurança estrutural como muito poucas outras. Os primeiros aventureiros açorianos, quase sempre sem entender uma frase completa em inglês, até aos seus descendentes de segunda e demais gerações criaram uma vida sem par na Diáspora, sem nunca esquecer e muito menos trair as suas origens. Estão neste livro uma boa parte exemplificativa do que acabo de dizer. O homem de botas altas a trabalhar a terra dando lugar aos que, em inglês, celebram, memorizam, dignificam essa história. Untamed Dreams: Faces Of America desmente muitos dos mitos que rodeiam a nossa presença na América. Pais analfabetos e uns poucos outros com formação formalista mandaram para os estudos, a todos os níveis, os seus filhos e filhas. O resultado está mais do que à vista: cientistas, empresários, escritores e poetas marcam o seu lugar na grande tradição intelectual da América, que a maioria dos europeus ainda faz e prega que não existe, os vaidosos medíocres de um continente sem rumo nem ideias a olhar com desdém os fazedores de tudo. Frank X. Gaspar, nascido em Providence de famílias piscatórias é hoje um poeta publicado pela grande revista The New Yorker. Katherine Vaz, grande escritora das melhores editoras nova-iorquinas e já traduzida no nosso e noutros países, segue os passos de um pai de nome August Mark Vaz, nascido na Califórnia, crescido na Agualva, da Ilha Terceira, e que anda hoje me é uma referência no seu livro sobre a história da nossa emigração no Pacífico, Lara Gularte traça as suas origens até aos caçadores do ouro em tempos muito recuados nalguma da melhor poesia publicada em língua inglesa, e Millicent Borges Accardi, de pai italiano e mãe açoriana, desenvolve uma poética quase sem precedentes entre nós, se esquecermos por um instante um George Monteiro, nascido na Costa Leste americana de pais continentais, e que desbravou antes de todos nós este território da imaginação e arte. Nem por um segundo esqueço, e muito menos ignoro, os que em língua portuguesa poetizaram, sublimaram, a nossa vivência naquelas partes. As suas palavras são um espelho claríssimo, o qual deveríamos todos espreitar, e revermo-nos nas suas imagens e metáforas. Este é um livro em língua inglesa, e o seu lugar espera novas traduções. Os que nos vão seguir terão a obrigação de conhecer as suas origens, e são nessas páginas que reside para sempre parte do seu ser e sorte.

Então uma só vida – escreve Katherine Vaz sobre o seu recentemente falecido pai, que para além do ensino e da escrita, também pintava quadros – poderá ser uma lição paternal única, a salvação de uma pequena criatura como eu, um espaço desenhado, uma insistência em que deveremos sonhar a vida a cores, uma rosa que brota do nada e se torna milagrosa. August Mark Vaz escreveu os seus livros sobre a sua adorada herança açoriana, mas foi-tão só a sua existência que, para mim, musicou a melhor nota de como devemos agarrar e refazer o mundo. Viajo sempre com um dos seus quadros inacabados, uma rapariga abraçada a uma bandeira portuguesa e a chorar”.

Untamed Dreams: Faces Of America passa a ser uma das nossas mais eloquentes fontes sobre a vida quotidiana e da imaginação do nosso povo na distante Callifórnia. Curiosamente, foi António Ferro, que após uma viagem àquele país nos anos 20, e em que ele insistiu, muito antes de muitos, em visitar essas nossas comunidades, escreveria em termos muito semelhantes no seu singular Novo Mundo Mundo Novo (1930) sobre como os portugueses precisavam de espaços livres e grandiosos para exercer o seu talento e coragem no trabalho quotidiano, quer fosse em terras cultivadas, quer fosse nas mais criativas profissões e instituições a que se dedicavam. Viu, como vemos neste livro agora, a capacidade de reinventarmos o nosso ser e modo de estar. Era e é um Portugal cuja modernidade só agora começa a ser vivida na nossa geografia natal. É isto e muito mais que nos espelha este livro.

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Untamed Dreams: Faces Of America (organizado por Francisco Henrique Dinis e José do Couto Rodrigues), San José, Portuguese Heritage Publications of California, 2017. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 27 de Outubro, 2017.

Revisitação à obra de Eduardo Mayone Dias e a nossa imigração na Califórnia

Provindo de um ambiente escasso de experiências vitais diferentes, o típico emigrante português nos Estados Unidos encerrra-se no seu pequeno casulo de preocupações materiais, enquista-se na sua comunidade linguístico-cultural e receia contactos com outros grupos ou evita-os mesmo por dificuldade com comunicação verbal ou conceptual.

Eduardo Mayone Dias, Miscelânia Lusalandesa

Vamberto Freitas

Para os que não o conhecem aqui nas ilhas: Eduardo Mayone Dias nasceu em Lisboa em 1927, e após a sua licenciatura na Universidade de Lisboa, depressa partiria para o estrangeiro, primeiro para o México e depois para os EUA em 1961, onde se viria doutorar na Universidade do Sul Da Califórnia em Literaturas Hispânicas, de seguida iniciando a sua carreira na Universidade da Califórnia, Los Angeles, a leccionar língua e literatura portuguesas. Este texto é tirado de um prefácio que escrevi para o seu livro Miscelânia Lusalandesa, publicado em Lisboa pelas Edições Cosmos em 1997. Acaba de apresentar em Artesia, uma cidade nos arredores de Los Angeles onde vivem milhares de açorianos, e à qual ele sempre manteve uma relação de grande afecto e que agora lhe prestou homenagem no passado dia 8 de Outubro pela recente publicação Memórias De Um Burocrata Invisível: Autobiografia e Algo Mais, da autoria de Eduardo Alberto De Oliveira Rocha. Não o li ainda mas não podia adiar estas minhas palavras, pois referia-me já então à sua bibliografia debruçada sobre a nossa imigração e vida em toda a parte. Foi um dos meus mentores através da sua escrita em livros e jornais, e nunca hesitava em convidar os seus amigos à casa onde sempre viveu no centro da grande metrópole. Há dívidas que nunca se pagam, não é possível retribuir certas dádivas. O trabalho de Mayone Dias, de que Miscelânia Lusalandesa é apenas uma leve mas viva amostra, à semelhança de Coisas da Lusalândia, também publicado no nosso país, constitui uma raridade sobre a vida dos portugueses no além-fronteiras. Acompanhou sempre de perto a caminhada da imigração portuguesa na América. Poderia muito bem ter optado exclusivamente pela torre de marfim que uma instituição como a Universidade da Califórnia oferece aos seus docentes. Sempre entendeu ele, no entanto, que a presença cultural portuguesa nos EUA deveria ir além das conferências universitárias sobre os ditos vultos do nosso mundo e incluir a actualidade de todo um povo que começou a chegar lá a fins do século XIX, aquando da lendária Corrida ao Ouro. Foi assim que a “Portufórnia” – o curioso e diversificado mundo dos portugueses na Califórnia – se tornou, creio, a mais estudada e divulgada parcela da nossa diáspora, e que hoje tem muita gente a dar continuidade a esse trabalho, especialmente através de edições da própria Portuguese Heritage Publications of California, com sede em San José, a cidade no coração do Silicon Valley.

Miscelânia Lusalandesa é constituído pela série de estudos, crónicas e comentários acerca da nossa visa californiana de ontem e de hoje, anteriormente publicados em vários periódicos de Portugal e da nossa imigração, integra uma obra unificada pela sua temática, mas que tem tomado formas bem diferentes. Para Mayone Dias, eis aí uma faceta da sua discreta “revolta” contra o tal nicho universitário fechado. O estudo de qualquer grupo humano, por mais inconsequente que pareça em termos político-culturais, não necessita de desculpas ou justificações. Somos todos, quer como indivíduos quer como comunidade em qualquer canto deste mundo, espelhos vivos da nação – ou, como neste caso americano, das nações – a que pertencemos. Todas as suas intervenções neste campo tentam essencialmente responder a questões que são de máxima importância, indispensáveis a um entendimento, o mais completo possível, de quem somos nesse mosaico de gentes que continua a ser a América. Desde o Havai de tempos idos, onde estão sepultados também ossos portugueses e onde ainda hoje alguns tentam reavivar a sua memória ancestral lusa nos mais escondidos lugarejos daquelas ilhas e da Califórnia, Mayone Dias, quase só, insiste em perceber o que é ser-se português transplantado em viveiros radicalmente diferentes das nossas origens. “A Presença Portuguesa no Havai”, por exemplo, traça com todo o rigor académico do historiador a chegada àquelas ilhas de um grupo ido da Madeira e dos Açores para trabalhar nas plantações da cana de açúcar, descreve minuciosamente a sua sobrevivência étnica até a tempos recentes, aponta aí o que pode acontecer a outros que não se rejuvenescem através da chegada contínua de novos imigrantes – o seu apagamento quase total como entidade nacional devido à assimilação inevitável das gerações nos grandes meios que os rodeiam. Do mesmo modo, “Baleeiros Portugueses na América” conta a epopeia dos primeiros imigrantes açorianos que chegaram à América há mais de 100 anos e se foram enraizando até desenvolverem, juntamente com outras etnias, a rica agricultura e indústria lacticínia da Califórnia. O livro Açorianos na Califórnia (1997), por sua vez, é um conjunto de entrevistas feitas ao longo dos anos a “pioneiros” ainda de boa memória e a outros mais novos sobre o que foi e ainda é a vida das nossas comunidades. A obra de Eduardo Mayone Dias, como já disse, de tudo contém um pouco. Debruça-se sobre aspectos da vida imigrada tão variados como uma série de abordagens que vão desde os portugueses de San Diego que participaram pela América na II Guerra Mundial com os seus barcos da grande pesca à crise que eventualmente haveria de atravessar essa comunidade devido ao declínio da indústria piscatória norte-americana, a comentários e coloridos “instantâneos” que nos apanham nos momentos tragicómicos inerentes à condição de “estranhos em terra estranha”, a investigações e análises da escrita de imigração que sempre produzimos desde as nossas primeiras aventuras a oeste, tudo o que poderá explicar e permanecer na memória das gerações vindouras..

A esta quase incrível persistência e dedicação à história e registo da presença portuguesa na Califórnia, juntam-se qualidades como uma natural capacidade de empatia que Mayone Dias sempre demonstrou pelo grupo e, ao mesmo tempo, a ausência de qualquer condescendência ante o que ele entende ser defeitos ou meras fraquezas colectivas nossas. As nossas comunidades açor-californianas estão dispersas por todo o estado, separadas pela geografia e pelo seu desenvolvimento autónomo. Existem centros de operários e comerciantes (San José e arredores de Artesia na Grande Los Angeles), assim como centros rurais onde naturalmente predominam a agricultura e lactcínios, Na maioria de origem açoriana, as diferenças e divisionismos trazidos das ilhas esbatem-se mesmo neste diversificado rumo sócio-económico. Pertence quase toda a primeira geração à grande vaga emigratória que foi retomada nos anos 50 e 60, tendo estancado, como se sabe, em tempos recentes. Foi precisamente este grupo que encetou vigorosamente uma autêntica regeneração sócio-cultural à beira do Pacífico. Reergueram-se sociedades comunitárias, agudizou-se entre todos o interesse e respeito pela cultura e tradições ancestrais, começou-se a insistir, mesmo que sem grandes repercussões no meio americano, no reconhecimento pela obra total e contínua das nossas comunidades desde os primeiros tempos na Califórnia. É considerando este período histórico – o próprio 25 de Abril abalou em vários sentidos a nossa imigração – e os outros antecedentes que se deve perceber os dramas e comédias tanto em Miscelânia Lusalandesa como em inúmeras outras colectâneas da sua vasta obra.

Miscelânia Lusalandesa faz parte dessa grande obra-espelho de todo um povo. Ficará nos nossos arquivos para sempre, e aí relembrar e ensinar levemente a quem queira saber de um Portugal geograficamente reduzido mas de onde saiu um povo heterogéneo e que foi capaz de se reinventar quando colocado nos mais longínquos e estranhos recantos do nosso mundo. Traz-nos, é certo, apenas uma parcela do mundo lusíada e uma que nunca teve o lugar merecido na História da nação. No entanto, os factos e a reavaliação das nossas realidades vão-se impondo com esforços como este. Os milhões de portugueses que saíram do nosso país não poderão permanecer para sempre como fontes de remessas e objecto de um ou outro discurso governamental em datas já tornadas banais, não devem ser apenas um ocasional apêndice da retórica política nessas ocasiões.

Junto aqui a minha voz à de outros (Diniz Borges em particular, a quem Eduardo Mayone Dias já entregou parte do espólio) que têm reclamado o reconhecimento da obra do autor pelo Governo e Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Seria um acto de pura justiça, um gesto digno e oficial de gratidão a quem não só produziu uma obra superior sobre os açorianos na Califórnia, como foi um mestre de toda uma geração, a minha, no incentivo e apoio às nossas próprias tentativas de dinamizar as nossas comunidades para uma melhor integração na grande sociedade norte-americana.

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Eduardo Mayone Dias, Miscelânia Lusalandesa, Lisboa, Edições Cosmos, 1997. Parte deste texto foi retirado do prefácio que escrevi para este livro no ano da sua publicação. A foto foi tirada em Artesia, a 8 de Outubro, aquando da homenagem que esta nossa comunidade lhe prestou. Publicado  no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 20 de Outubro de 2107.

As outras américas que não vivi

Como tantos cidadãos do mundo, devo aos Estados Unidos uma medida da minha educação liberal e do meu otimismo ontológico. E também da minha consciência libertária.

Clara Ferreira Alves, Cenas Da Vida Americana

Vamberto Freitas

Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, uma recolha de ensaios de Clara Ferreira Alves, ergue-se como um dos melhores livros sobre o grande país mítico a oeste das nossas memórias e obsessões políticas, culturais e imperialistas, esta última palavra fazendo lembrar Gore Vidal, que assim o denominava e que conhecia as suas origens nacionais e o papel internacional do país melhor do que ninguém. Tenho o dever de colocar as minhas cartas na mesa. Vivi na Califórnia, primeiro no Vale de São Joaquim e depois na Grande Los Angeles, cerca de 27 anos. Não conheço, nunca conheci, todas as “américas” que Clara Ferreira Alves viveu e interpelou nas suas constantes visitas desde a década de 70 até aos nossos dias, viajando de costa a costa, permanecendo em pequenas e grandes cidades, conversando e observando o que chamamos a América cosmopolita à beira do Atlântico e do Pacifico, e depois a América profunda das pradarias e das pequenas cidades sem rumo nem vida, sem consciência do passado e muito menos sem ideia do futuro. Dormiu e acordou numa Nova Iorque sem noite nem dia e entre as multidões do mundo arrastadas pelo Sonho Americano, viu a América da ferrugem e da decadência provavelmente irreversível dos que a globalização atirou para a rua ou para as casas à beira do colapso e da miséria generalizada. Não, nunca conheci essa América nos subúrbios sul-californianos onde vivi, estudei e leccionei, sem o mínimo desejo de sequer ir a Los Angeles, a minutos de distância, a não ser num ou noutro sábado à noite em Hollywood, mas só para ver a Sunset Boulevard como quem vai a um parque de diversões e olhar para os freaks que batiam em pandeiros pseudo-religiosos, pregavam o fim do mundo ou estavam deitados no passeio bêbados e drogados. Não tenho saudades algumas, a não ser da minha família e de amigos mais íntimos. Estes olhares de Clara Ferreira Alves não são de uma mera visitante ocasional, vêm de dentro para fora, vêm de quem sente a inteira pertença e sorte dos Estados Unidos como se lhe fora uma segunda pátria, e creio que é mesmo.

Bem sei que Nova Iorque é a cidade da autora, mas para mim era um lugar distante e pouco desejável. Das duas ou três vezes que a visitei, na companhia da minha mulher Adelaide, que lá tinha estudado e sofrido a vida numa cave discreta, só tenho duas ou três recordações memoráveis. O vasculhar nos alfabarristas à procura de primeiras edições da obra de Edmund Wilson, um musical na Broadway com Jerry Lewis, e sobretudo uma visita ao apartamento do recentemente falecido Gregory Rabassa, o melhor e mais famoso tradutor de literaturas hispânicas (One Hundred Years of Solitude, de Gabriel Garcia Marques, por exemplo) e portuguesas (João de Melo e António Lobo Antunes, entre uns poucos outros), e que havia sido professor da Adelaide na City University of New York, depois mais nada, odiando ver o sol aos quadradinhos por entre os arranha céus. Lembro-me de um apagão de Inverno e do que disseram os texanos, meus vizinhos naquelas partes: Let the bastards freeze in the dark. Só isso. Sou um homem, como já disse, dos calmos subúrbios, relva cortada e tosquiada todos os sábados, como um dos personagens menores num dos contos de Raymond Carver a regar o seu jardim e a mexericar a vida dos vizinhos. Um dia saí do meu bairro da classe média remediada rumo à escola onde era professor, e entrei nas ruas do outro lado onde morava a riqueza. Recuou da sua garagem de luxo um Mercedes azul escuro guiado por uma loira, mas cujo autocolante dizia simplesmente: Another shitty day in paradise, o humor de quem tudo tem sem nunca deixar de sentir o vazio existencial no paraíso, ou na Terra de Deus, como alguns se referem à Califórnia. Clara Ferreira Alves tem toda a razão em sentir o tédio e o asco por tanta ordem limpa, especialmente em Palo Alto e Arredores, quando se refere à Califórnia “perfeita” fora de São Francisco e outros centros sujos e de dinamismo humano. Só que em Cenas da Vida Americana vejo e sinto o resto do grande continente. Deixei de viver e ver a América pessoalmente e em directo no tempo de George Bush, pai. Ela continuou a ver e a viver tudo de lá, até aos nossos dias. Muito me ensina, e ainda mais desperta a minha memória. Disse à autora aqui há dias que ia brigar com ela por causa dessas páginas sobre o grande estado a oeste que foi e será sempre a minha outra pátria. Decidi mudar de rumo, e brigar comigo próprio por tanto ter ignorado, ou então fazia que não via ou queria.

Clara Ferreira Alves não deve, pela minha a parte, ser classificada politicamente, nem isso tem qualquer importância no contexto do ora sereno ora contundente Cenas Da Vida Americana. Só que a sua relação com os Estados Unidos é muito longa. Ela escreve sobre a grande nação como alguém que sente pertencer por inteiro aos destinos desse outro país. Faz-me lembrar, no entanto, as atitudes da Nova Esquerda/New Left, da qual eu venho e ainda hoje com a qual me identifico, apesar de também me identificar com uma outra esquerda socialista democrática que nos antecedeu, e que era a minha desde os tempos de faculdade, o crítico e ensaísta Irving Howe e a revista Dissent que ele dirigia e editava uma referência permanente. Para ela, o seu relacionamento com esse seu outro país da imaginação e de afectos é um de amor e ódio, a sua admiração pela sua cultura em geral, o seu modo se ser e estar lado a lado ao seu ódio a alguma da sua política interna e externa. O que mais admiro neste seu livro é o seu conhecimento da arte suprema americana, desde os escritores canónicos à musica e artes plásticas. A capa do seu livro diz tudo. O “Nighthawks”, de Edward Hopper, a solidão humana no que se depreende ser uma grande ou pequena cidade, a busca do amor e da cumplicidade possível no negrume da noite e na luz interior de um Café. Clara Ferreira Alves vê aqui todo o esplendor artístico da América, com a dor indefinível de um país-continente, a incerteza que desafia e amedronta a todos no dia seguinte. São as cenas de uma humanidade em busca de si própria, em busca de um silêncio fora do barulho de uma sociedade sem sossego, o mosaico completo e constituído literalmente por todas as nações do planeta. A autora viaja durante anos não só para as cidades metropolitanas, mas também rumo aos mais escondidos, esquecidos e miseráveis recantos dessa mesma América, e cada conversa parece uma prece aos deuses que fazem dos EUA um espaço tanto de todas as possibilidades como de todas as derrotas. Pouco me interessa no seu livro, em certas páginas, a ilusão de se querer moldar o mundo à imagem de Nova Iorque ou da suposta liberdade de um grande império. Fico pelas suas convivências, conversas e afinidades com os americanos que ela encontra nas suas perpétuas caminhadas e que fornecem o ethos do sofrimento interno e das batalhas estrangeiras, desde o Médio Oriente à América Latina. Prefiro as suas passagens por museus, livrarias, teatro e cinema. É por aí que ela me mostra o que eu nunca tinha visto ou pensado nesse meu outro país e pátria. Quando menciona o nome de um escritor, nos seus contextos múltiplos, diz-me tudo e ensina-me algo que eu desconhecia. Isto não é um livro de “crónicas”, é um conjunto de ensaios, como já referi atrás, menores ou maiores, que nos dão um retrato, não de todo agradável, mas de todo plausível nas observações de gente e símbolos, sensível na sua empatia, acreditável na sua dureza realista. A sua visita a Detroit é avassaladora, antológica, a decadência absoluta e mortífera, e depois o optimismo e a criatividade da reconstrução humana e económica, deixando sobressair o melhor do país: a sua energia e capacidade de renovação após as mais variadas catástrofes impostas pele natureza ou pelo próprio sistema.

Raramente – escreve a autora – se ouve um discurso de vitimização ou culpabilização. Apesar da privação e do sacrifício, do sofrimento, o ethos americano impede a nostalgia e o rancor. Ninguém culpa os industriais, os trabalhares, a segregação, os bancos, os maus governantes, a corrupção… O caminho é para a frente”.

Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, tal como indica o título, contém textos a partir dos anos 80 até aos nossos dias. Lido em sequência, oferece-nos ou propõe visões das facetas e acontecimentos internos e externos mais dramáticos na história do país, especialmente o envolvimento do país no incendiado Médio Oriente e o alto preço humano e estratégico que os americanos continuam a pagar. De resto, o que ela diz de Trump, do longo processo eleitoral que o levou até à Casa Branca, fica para outros leitores deste magnífico livro. De página a página é como ler uma obra do chamado novo jornalismo de décadas passadas, é um “romance” que toma a acontecimentos reais como tema, o seu fio condutor sendo a própria “voz” da autora, como um Truman Capote ou um Norman Mailer faria noutros contextos e lugares. É esta a América que não vivi ou conheci durante toda a minha vida nos bairros assépticos do meu destino durante quase 30 anos, o país onde vivi a minha adolescência, onde me formei e me tornei professor do ensino secundário oficial da Califórnia. Digo-o sem quaisquer complexos ou vergonha – estas foram para mim páginas de ensino, mais o tal prazer do texto na grande arte da escrita em qualquer uma das suas formas ou género.

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Clara Ferreira Alves, Cenas Da Vida Americana: De Reagan A Trump, Lisboa, Clube do Autor, 2017. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 13 de Outubro, 2017.

A América do nosso destino, e a arte literária de Álamo Oliveira

Era a revolver o passado que Mary procurava ludibriar a morte. Passava pelos pequenos factos que lhe tinham colorido os dias e parava nas surpresas tristes que a vida também lhe dera. Voltava a sorrir e a chorar e continuava a arrepiar-se com tudo o que fora obrigada a assimilar.

Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates

Vamberto Freitas

Esta é a minha primeira leitura do romance de Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates, cuja primeira edição saiu na (extinta) Salamandra, em 1999, então dirigida e coordenada pelo Dr. Bruno da Ponte, que fez questão de publicar mais de uma centena de obras de autores açorianos, ou outras que têm os Açores como espaço referencial geográfico e histórico. Saiu num tempo em que o meu cansaço literário excluía determinadas obras, e só agora me dou conta de que a perda foi toda minha. Por certo que outros escreveram, muito e bem, sobre esta ficção fundamental no cânone do próprio autor assim como da literatura de língua portuguesa em geral, e estou a pensar no Diniz Borges (que também o viria traduzir para o inglês juntamente com Kathie Baker), e do grande texto do escritor brasileiro Luiz António de Assis Brasil, que agora serve de prefácio a esta nova edição do livro pela Companhia das Ilhas. Foi ainda traduzido para o japonês pelo lusitanista Kiwamu Hamaoka, que tem dedicado especial atenção à nossa literatura, e publicado pela Random House Kdansha, em Tóquio. Álamo Oliveira dispensa aqui qualquer apresentação como poeta, dramaturgo, ficcionista e ensaísta, a sua obra é extensa demais para que eu escolha e cite aqui alguns desses títulos. Lembrarei apenas que o seu romance de guerra Até Hoje (Memorias de Cão) é considerado por alguns críticos nacionais como uma das melhores obras do género na nossa língua, que inclui outros nomes como João de Melo, António Lobo Antunes e Cristóvão de Aguiar. Devo ainda enfatizar aqui que a temática da nossa imigração na América do Norte nunca esteve ausente da sua escrita, nem sequer do seu teatro, servindo de exemplo Manuel Seis Vezes Pensei Em Ti. Vem de longe esta atenção à nossa presença americana, particularmente no Vale de São Joaquim, na Califórnia. Toda a sua família imediata, tal como a minha, está lá desde os anos 50, fazem parte de nação peregrina que é a nossa, incluindo naturalmente os luso-descendentes, que desde há umas décadas a esta parte perpetuam a nossa memória colectiva através da sua própria escrita, e principalmente através da sua vida em comunidade, centrada nas festividades religiosas e profanas. A grandeza de Já Não Gosto De Chocolates poderá ser comparada só a Gente Feliz Com Lágrimas, talvez o mais reconhecido romance de João de Melo, e que tem a nossa experiência imigrante no Canadá no seu centro temático.

As comparações ficam necessariamente por aqui. Álamo Oliveira reinventa uma família originária da Ilha Terceira, cuja pobreza leva à sua partida para o oeste americano, onde eventualmente compra uma vacaria substancial, e que mantém em prosperidade o protagonista Joe Sylvia, a sua mulher Maria de Fátima, e mais quatro filhos, todos eles (até à partida de John para São Francisco por razões de orientação sexual numa comunidade conservadora e hipócrita), residentes na cidade de Tulare, cuja população aí e nos seus arredores conta com milhares de açorianos, na sua maioria originários das ilhas centrais do nosso arquipélago. Os olhares do narrador são simultaneamente de grande compreensão pela condição humana nesta sua outra versão e crítica a toda uma sociedade – tanto a de origem como a de adopção – cuja pobreza e injustiça envia para fora boa parte da sua população trabalhadora, e depois o Sonho Americano, que poderá dar pão mas não evita a morte solitária e a infelicidade de cada um dos seus personagens. O título do romance serve como a metáfora aglutinadora de toda a narrativa – o sabor e o cheiro americanos que tanto seduziam os mais carentes nos seus recantos ilhéus depressa se torna amargo, em certas cenas pungentes destas páginas, um símbolo odioso para quem acaba uma vida de muito trabalho mas também de muita riqueza na maior solidão numa casa da terceira idade, reduzido a uma cadeira de rodas e simplesmente desejando que a morte o apanhe o mais brevemente possível, como é o caso de Joe Sylvia, e que vai contando os seus mundos perdidos a uma assistente social mexicana, de nome Rosemary, e de profunda humanidade perante os que lhe estão dependentes.

Já Não Gosto De Chocolates é feito de analepses que vão lembrando a pobreza da vida nas ilhas e o duro quotidiano americano em busca do sucesso que ideologicamente é – era – prometido a todos que se submetessem ao trabalho constante, quantas vezes insano. Digamos que estamos perante a tragédia “demasiado humana” – o amor e a morte andam de mãos dadas, o fim de cada um tudo menos o que sonhavam para si próprios. Dão-se duas mortes no fim da narrativa, a do velho patriarca e a do seu filho homossexual, que, como já foi referido, havia partida para longe, para a grande cidade a norte que cedo se distinguiu numa cultura conservadora pela sua tolerância, pela sua abertura aos mais variados estilos de vida, pelo seu real cosmopolitismo. É um romance que combina em si todos estes dramas com o humor e a sua originalidade estilística, tal como nos aponta Assis Brasil no prefácio, que só um mestre com Álamo Oliveira manobra em linguagens marcadas por símbolos, insinuações e surpresas nas viragens inesperadas da sua narrativa. Quando se sabe da morte de John após contrair a Sida num tempo ainda em que a medicina não sabia o que fazer, a comunidade faz de conta que se trata de um castigo pelas opções de vida da vítima; Joe Sylvia, seu pai, depois do desgosto que durou anos, dá-se conta de que John foi o seu mais fiel e generoso filho. Quando o velho, já viúvo, reúne a restante família para ler o testamento final e dizer-lhes que desejava morrer numa clínica, nenhum deles se opôs, muito pelo contrário, sentiram-se aliviados com o afastamento físico do pai, as suas visitas esporádicas e sempre breves. A inteligência aguda de Sylvia não deixa nada disto passar em branco, inteiramente consciente do ambíguo significado das nossas vidas. Tinha visitado os Açores duas vezes, a última já após o 25 de Abril. Reconhecia muito poucos (tinham morrido ou emigrado, a sina açoriana), e o novo rumo do país era-lhe totalmente alheio. Emigrar é, aqui, perder a essência do nosso ser, e nunca mais conseguir um enraizamento significante, o viveiro humano permanece sempre estranho, quando não totalmente desconhecido. Do Nada para Nada, parece querer dizer-nos este romance profundamente portador, diria, de um existencialismo filosófico que nos manda procurar individualmente os nossos valores e significados de vida em qualquer comunidade, somos sempre margens das e nas grandes sociedades, para além da riqueza que, uma vez mais, temos ou não temos.

Agora – diz o narrador da última visita que Joe Sylvia e a sua mulher fizeram aos Açores, quando o seu fim já se aproximava – tinha tempo de amortecer a morte pela desbobinagem e rebobinagem do passado, Mary recordava a decepção de Joe Sylvia quando foram à ilha pela segunda vez. Para ele, as pessoas tinham enlouquecido. A revolução de Abril não cabia no seu espartilhado sentido de democracia e a liberdade não podia confundir-se com aquela euforia de palavras cujo propósito não alcançava. Mary, porém, reconhecia que a vida, na ilha, tocara os valores necessários para banir muita da pobreza que afectara a sua infância. As roupas novas que levara já só espantaram pela cor e pelo cheiro e o ice-cream que oferecia às amigas nas touradas era retribuído com outro logo a seguir. A única coisa que não entendeu – e que tanto enfurecia Joe Sylvia – era que lhes chamasse moscas de verão.”

Por outras palavras, a pelintrice portuguesa, na versão açoriana, continuava – e continua – bem viva e petulante. Muita da literatura açoriana do século passado ficava-se sempre, repito-me aqui, pela caricatura, a unidimensionalidade dos personagens imigrantes e dos seus descendentes. Álamo Oliveira é um grande escritor, e como tal a humanidade e complexidade dos seus personagens, de todos os seus personagens, permanece inteira, mesmo que sem cedências à mediocridade das suas vidas, e muito menos das suas sociedades, quer em casa quer no além-fronteiras. Este seu romance faz parte do melhor do nosso cânone literário modernista. Lê-lo é olhar o espelho que nos devolve as nossas imagens, ora distorcidas ora reveladoras de quem somos e como somos.

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Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates (2ª edição), Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 6 de Outubro de 2017.