A América do nosso destino, e a arte literária de Álamo Oliveira

Era a revolver o passado que Mary procurava ludibriar a morte. Passava pelos pequenos factos que lhe tinham colorido os dias e parava nas surpresas tristes que a vida também lhe dera. Voltava a sorrir e a chorar e continuava a arrepiar-se com tudo o que fora obrigada a assimilar.

Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates

Vamberto Freitas

Esta é a minha primeira leitura do romance de Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates, cuja primeira edição saiu na (extinta) Salamandra, em 1999, então dirigida e coordenada pelo Dr. Bruno da Ponte, que fez questão de publicar mais de uma centena de obras de autores açorianos, ou outras que têm os Açores como espaço referencial geográfico e histórico. Saiu num tempo em que o meu cansaço literário excluía determinadas obras, e só agora me dou conta de que a perda foi toda minha. Por certo que outros escreveram, muito e bem, sobre esta ficção fundamental no cânone do próprio autor assim como da literatura de língua portuguesa em geral, e estou a pensar no Diniz Borges (que também o viria traduzir para o inglês juntamente com Kathie Baker), e do grande texto do escritor brasileiro Luiz António de Assis Brasil, que agora serve de prefácio a esta nova edição do livro pela Companhia das Ilhas. Foi ainda traduzido para o japonês pelo lusitanista Kiwamu Hamaoka, que tem dedicado especial atenção à nossa literatura, e publicado pela Random House Kdansha, em Tóquio. Álamo Oliveira dispensa aqui qualquer apresentação como poeta, dramaturgo, ficcionista e ensaísta, a sua obra é extensa demais para que eu escolha e cite aqui alguns desses títulos. Lembrarei apenas que o seu romance de guerra Até Hoje (Memorias de Cão) é considerado por alguns críticos nacionais como uma das melhores obras do género na nossa língua, que inclui outros nomes como João de Melo, António Lobo Antunes e Cristóvão de Aguiar. Devo ainda enfatizar aqui que a temática da nossa imigração na América do Norte nunca esteve ausente da sua escrita, nem sequer do seu teatro, servindo de exemplo Manuel Seis Vezes Pensei Em Ti. Vem de longe esta atenção à nossa presença americana, particularmente no Vale de São Joaquim, na Califórnia. Toda a sua família imediata, tal como a minha, está lá desde os anos 50, fazem parte de nação peregrina que é a nossa, incluindo naturalmente os luso-descendentes, que desde há umas décadas a esta parte perpetuam a nossa memória colectiva através da sua própria escrita, e principalmente através da sua vida em comunidade, centrada nas festividades religiosas e profanas. A grandeza de Já Não Gosto De Chocolates poderá ser comparada só a Gente Feliz Com Lágrimas, talvez o mais reconhecido romance de João de Melo, e que tem a nossa experiência imigrante no Canadá no seu centro temático.

As comparações ficam necessariamente por aqui. Álamo Oliveira reinventa uma família originária da Ilha Terceira, cuja pobreza leva à sua partida para o oeste americano, onde eventualmente compra uma vacaria substancial, e que mantém em prosperidade o protagonista Joe Sylvia, a sua mulher Maria de Fátima, e mais quatro filhos, todos eles (até à partida de John para São Francisco por razões de orientação sexual numa comunidade conservadora e hipócrita), residentes na cidade de Tulare, cuja população aí e nos seus arredores conta com milhares de açorianos, na sua maioria originários das ilhas centrais do nosso arquipélago. Os olhares do narrador são simultaneamente de grande compreensão pela condição humana nesta sua outra versão e crítica a toda uma sociedade – tanto a de origem como a de adopção – cuja pobreza e injustiça envia para fora boa parte da sua população trabalhadora, e depois o Sonho Americano, que poderá dar pão mas não evita a morte solitária e a infelicidade de cada um dos seus personagens. O título do romance serve como a metáfora aglutinadora de toda a narrativa – o sabor e o cheiro americanos que tanto seduziam os mais carentes nos seus recantos ilhéus depressa se torna amargo, em certas cenas pungentes destas páginas, um símbolo odioso para quem acaba uma vida de muito trabalho mas também de muita riqueza na maior solidão numa casa da terceira idade, reduzido a uma cadeira de rodas e simplesmente desejando que a morte o apanhe o mais brevemente possível, como é o caso de Joe Sylvia, e que vai contando os seus mundos perdidos a uma assistente social mexicana, de nome Rosemary, e de profunda humanidade perante os que lhe estão dependentes.

Já Não Gosto De Chocolates é feito de analepses que vão lembrando a pobreza da vida nas ilhas e o duro quotidiano americano em busca do sucesso que ideologicamente é – era – prometido a todos que se submetessem ao trabalho constante, quantas vezes insano. Digamos que estamos perante a tragédia “demasiado humana” – o amor e a morte andam de mãos dadas, o fim de cada um tudo menos o que sonhavam para si próprios. Dão-se duas mortes no fim da narrativa, a do velho patriarca e a do seu filho homossexual, que, como já foi referido, havia partida para longe, para a grande cidade a norte que cedo se distinguiu numa cultura conservadora pela sua tolerância, pela sua abertura aos mais variados estilos de vida, pelo seu real cosmopolitismo. É um romance que combina em si todos estes dramas com o humor e a sua originalidade estilística, tal como nos aponta Assis Brasil no prefácio, que só um mestre com Álamo Oliveira manobra em linguagens marcadas por símbolos, insinuações e surpresas nas viragens inesperadas da sua narrativa. Quando se sabe da morte de John após contrair a Sida num tempo ainda em que a medicina não sabia o que fazer, a comunidade faz de conta que se trata de um castigo pelas opções de vida da vítima; Joe Sylvia, seu pai, depois do desgosto que durou anos, dá-se conta de que John foi o seu mais fiel e generoso filho. Quando o velho, já viúvo, reúne a restante família para ler o testamento final e dizer-lhes que desejava morrer numa clínica, nenhum deles se opôs, muito pelo contrário, sentiram-se aliviados com o afastamento físico do pai, as suas visitas esporádicas e sempre breves. A inteligência aguda de Sylvia não deixa nada disto passar em branco, inteiramente consciente do ambíguo significado das nossas vidas. Tinha visitado os Açores duas vezes, a última já após o 25 de Abril. Reconhecia muito poucos (tinham morrido ou emigrado, a sina açoriana), e o novo rumo do país era-lhe totalmente alheio. Emigrar é, aqui, perder a essência do nosso ser, e nunca mais conseguir um enraizamento significante, o viveiro humano permanece sempre estranho, quando não totalmente desconhecido. Do Nada para Nada, parece querer dizer-nos este romance profundamente portador, diria, de um existencialismo filosófico que nos manda procurar individualmente os nossos valores e significados de vida em qualquer comunidade, somos sempre margens das e nas grandes sociedades, para além da riqueza que, uma vez mais, temos ou não temos.

Agora – diz o narrador da última visita que Joe Sylvia e a sua mulher fizeram aos Açores, quando o seu fim já se aproximava – tinha tempo de amortecer a morte pela desbobinagem e rebobinagem do passado, Mary recordava a decepção de Joe Sylvia quando foram à ilha pela segunda vez. Para ele, as pessoas tinham enlouquecido. A revolução de Abril não cabia no seu espartilhado sentido de democracia e a liberdade não podia confundir-se com aquela euforia de palavras cujo propósito não alcançava. Mary, porém, reconhecia que a vida, na ilha, tocara os valores necessários para banir muita da pobreza que afectara a sua infância. As roupas novas que levara já só espantaram pela cor e pelo cheiro e o ice-cream que oferecia às amigas nas touradas era retribuído com outro logo a seguir. A única coisa que não entendeu – e que tanto enfurecia Joe Sylvia – era que lhes chamasse moscas de verão.”

Por outras palavras, a pelintrice portuguesa, na versão açoriana, continuava – e continua – bem viva e petulante. Muita da literatura açoriana do século passado ficava-se sempre, repito-me aqui, pela caricatura, a unidimensionalidade dos personagens imigrantes e dos seus descendentes. Álamo Oliveira é um grande escritor, e como tal a humanidade e complexidade dos seus personagens, de todos os seus personagens, permanece inteira, mesmo que sem cedências à mediocridade das suas vidas, e muito menos das suas sociedades, quer em casa quer no além-fronteiras. Este seu romance faz parte do melhor do nosso cânone literário modernista. Lê-lo é olhar o espelho que nos devolve as nossas imagens, ora distorcidas ora reveladoras de quem somos e como somos.

___

Álamo Oliveira, Já Não Gosto De Chocolates (2ª edição), Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 6 de Outubro de 2017.

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s