Crime e castigo dos inocentes durante a ditadura salazarista

O que Carlos Ildefonso Tomé não sabia era que esse mesmo exemplar do Diário de Lisboa iria ter importância decisiva no seu futuro.

Carlos Tomé, Um Perigoso Leitor De Jornais

Vamberto Freitas

Permitam-me começar por dizer que este é o primeiro livro de ficção de Carlos Tomé que leio, se bem que lia atentamente aqui há uns bons anos as suas crónicas na revista dominical do Açoriano Oriental, e já cultivava então a minha admiração pela sua prosa limpa e curta sem nunca defraudar os seus leitores quanto à relevância dos seus temas em foco. Autor sempre atento à História e ao seu próprio envolvimento na vida dos nossos tempos, este seu novo romance Um Perigoso Leitor De Jornais foi uma das melhores surpresas da literatura açoriana de temos recentes. Se digo literatura açoriana claro que também, como sempre, quero dizer literatura portuguesa, até porque o seu tema é a injustiça, arbitrariedade e o sofrimento tanto dos militantes como dos inocentes durante os piores anos do regime salazarista, nestas páginas todo ele situado na cidade de Ponta Delgada, e depois no Castelo de São Baptista em Angra do Heroísmo, em “celas” tão demoníacas como cruéis, denominadas de Poterna. O tempo ficcional desta narrativa política e ideológica vai de 1937 a 1940, mas quero realçar que se trata de uma obra literária que ultrapassa essas questões no retrato que nos devolve da nossa própria humanidade e desumanidade, particularmente na criação de alguns personagens inesquecíveis. Aliás, são poucos os escritores entre nós que conseguem fugir das ideias e focar-se no interiorismo dos seus seres inventados ou reinventados, como é definitivamente o caso de Um Perigoso Leitor De Jornais. A última nota deste romance, curta e escrita em itálico, não deixará dúvidas a ninguém. Trata-se de uma espécie de biografia romanceada, sem o sentimentalismo ou pregação de um neorrealismo que dominou a nossa literatura há umas poucas décadas. Na verdade, a trama política dá lugar aqui a descrições que por vezes parecem quadros das vidas naquela época, e de todos os estratos sociais, com o seu protagonista micaelense como excepção predominante, que vai permanecer como um vivo símbolo da pobreza, da seriedade, da aceitação do seu lugar na comunidade, mas sem que nada dessa realidade o proteja da perseguição cega de uma ditadura que actuava permanentemente na desconfiança e paranóia. É o perfeito contraponto – particularmente quando ainda alguns tentam afirmar a benevolência do regime em relação a outros do mesmo continente europeu e em vários países que nos levariam ao holocausto e a um inferno que queimou milhões de seres humanos.

Que houve aturada investigação histórica para este romance, não tenho qualquer dúvida, por melhor que seja o conhecimento do autor do passado da sua família e o seu instinto de jornalista-escritor. Do mesmo modo, as suas conotações ideológicas estão claríssimas para qualquer leitor, a defesa da liberdade está implícita no tratamento dos que o regime entendia como inimigos, ou meros colaboradores desses dissidentes, todos os que não alinhavam activamente com o chamado Estado Novo. Dito isto, tenho agora de afirmar que poucos escritores entre nós têm a capacidade de construir personagens e protagonistas tão inesquecíveis, pela capacidade do autor em fazer o que a crítica americana diz ser bringing out character, ou seja, deixar que entremos no seu interiorismo emocional ou em qualquer outro estado de ser e estar num dado momento do seu percurso de vida. Carlos Ildefonso Tomé é um humilde carteiro na cidade de Ponta Delgada, com nove filhos e uma esposa para sustentar dia-a-dia, criando juntamente com eles nos seus serões da noite açoriana daquele tempo pequenos soldados de chumbo para certos colecionadores. É leitor de jornais locais, e a dada altura topa que de quando em quando entrega o Diário de Lisboa, que chega sempre num nome que não corresponde ao habitante de certo endereço. Começa a questionar quem recebe o jornal, que sabe muito bem cujo verdadeiro nome difere do que vem na badana colocada em Lisboa, e ameaça deixar de entregar o jornal por pensar que se trata de uma ilegalidade que lhe pode trazer problemas com os seus superiores. Por outras palavras, Carlos Ildefonso Tomé não se envolve ou sequer discute política, é um cidadão que convive como pode e sabe numa sociedade amordaçada. Só que o habitante de nome falso não pode nem quer deixar de receber um outro jornal que vem escondido dentro do periódico permitido pelo governo de António Oliveira Salazar e a sua primeira polícia política, PVDE (antecedente da não menos tenebrosa PIDE), a que tinha olhos e ouvidos em todos os recantos do país, não fora o tempo da mais feroz guerra civil ali no outro lado da fronteira, e toda a Península Ibérica e as suas possessões ameaçadas pelo mais feroz dos exércitos sob a aliança do Eixo.

Dentro do jornal que o carteiro entrega vem escondido o Avante!, voz oficial, como todos sabemos, do Partido Comunista Português, e o verdadeiro nome do seu destinatário aqui em Ponta Delgada chama-se António Faria, jovem, discreto, e sem qualquer mandato para “recrutar” novos militantes. Tem de o confessar a Carlos Ildefonso Tomé, que se vê agora numa situação muito ambígua pelo respeito que parece cultivar pelo cidadão em causa. Em sucessivas conversas, o carteiro pede e aceita ler alguns números antigos da publicação comunista, o que lhe traz uma outra e radicalmente diferente versão da realidade, folhas que o expõem a uma retórica até então completamente desconhecida pela sua radicalidade oposicionista interna e pelos seus relatos de acontecimentos históricos na batalha entre espanhóis na defesa da república, que incluía comunistas pró-soviéticos, contra os fascistas liderados pelo General Francisco Franco. Após uma delação local, são inevitavelmente todos presos, uns enviados para Angra do Heroísmo, outros para o campo de concentração do Tarrafal em Cabo Verde, construído, relembra-nos aqui o narrador, segundo os que já existiam nos países esmagados pelo regime de Berlim. O dilema do carteiro Carlos Ildefonso Tomé fica redobrado, pois também desde há muito que recebe o Diário de Notícias, jornal histórico publicado em New Bedford e enviado por uma irmã sua lá residente. A prosa de Carlos Tomé é de uma clareza e linearidade exemplares, toda ela dividida em pequenos capítulos, que mais parecem contos autónomos mas interligados e levando o leitor à totalidade da história de ficção biográfica, deixando sempre que símbolos e metáforas despertem as mais variadas interpretações. Nem sequer alguns dos colaboradores do regime acreditavam na sua missão. A “vida em ilha”, como um dia me diria um alto dirigente político açoriano, requeria certo palavreado, e, quando necessário, boca calada perante a brutalidade oficializada, tal como em Peniche ou em Caxias, por exemplo.

“O polícia – diz a o narrador no momento da má sorte do carteiro – continuou a falar, sempre no mesmo tom de quem quase pede desculpa. Carlos é que deixou de o ouvir, atingindo a brutalidade pela certeza de que lhe estava a acontecer irremediável. Sentia-se desfalecer, as pernas mal aguentando o peso do corpo, e a cabeça parecia-lhe estar deslocada, pairando no meio da espécie de neblina que lhe invadira o campo de visão. Sabia estar na Rua do Lameiro, já terminando a distribuição daquele dia, e ainda lhe parecia ouvir o polícia com aquele ‘Boa tarde, senhor Tomé’ tão constrangido quanto anacrónico”.

Carlos Tomé é um dos escritores menos falados entre nós, por razões que nem eu sei explicar, e muito menos justificar. Sei que esta é a sua terceira obra de ficção, e uma delas foi mesmo estudada periodicamente na Universidade de Brown, nomeadamente o seu romance de “guerra” Morreremos Amanhã (2007). Tem ainda A Noite dos Prodígios e outras histórias (2002). Para além de jornalista aposentado e reconhecido por várias entidades, a sua vida profissional foi uma das mais distintas entre nós, tendo recebido a honra de Cidadão Honorário de Porto Alegre, Brasil, e a Medalha da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Muito do seu trabalho tem sido premiado aqui e ao longe. Falta-nos agora, falta-me a mim, pelo menos, ler o resto da sua obra, e sobretudo dar-lhe o lugar merecido ao lado dos nossos melhores escritores açorianos.

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Carlos Tomé, Um Perigoso Leitor De Jornais, Ponta Delgada, Artes e Letras, 2017.

 

 

 

De mim e do meu trabalho – II

True criticism recognizes itself as a mode of memoir… I believe there is no critical method except myself.

Harold Bloom, The Daemon Knows

Vamberto Freitas

 

 

Aqui está o borderCrossings: leituras transatlânticas IV. Segue as mesmas linhas temáticas de sempre – literatura e sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste mesmo tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas e espelhadas na prosa, poesia e no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar. Literatura não é sociologia, sabemos, por detrás dos “factos” estudados, no entanto, estão as narrativas que penetram fundo nos seres reinventados, nos personagens que da realidade passam a um palco de dramatização do riso e do choro, que é a condição humana. Para mim, a literatura foi sempre um acto profundamente identitário, através da qual “vemos” o outro, o que nos obriga à auto-reflexão de quem somos e como somos. O experimentalismo literário já se tornou (quase) uma noção anacrónica, e suspeita. Se não há nada dizer ou a representar, não haverá forma alguma que salve qualquer escrito. As palavras contam histórias, e essas histórias não perdem a sua complexificação quando escritas em linguagens claras, depuradas, e nas quais a metáfora e o símbolo universalizam, ou devem universalizar, o ser humano em qualquer geografia ou circunstância histórica. No centro da minha intervenção desde há muito que estão também as literaturas açoriana e luso-descendente, na América do Norte, ambas vindas ou intimamente associadas a duas grandes tradições culturais e literárias – a portuguesa e a do Novo Mundo, inclusive os chamados escritores canónicos bem mais conhecidos, mas não mais importantes para quem quer conhecer as suas próprias origens, a ancestralidade que nos colocou nos variados mundos do nosso destino, ou aos quais chegámos em busca de uma sobrevivência digna, ou vontade de ultrapassar os nossos próprios horizontes. Vitorino Nemésio, uma das nossas referências maiores, acertou por inteiro quando afirmou que “para nós a geografia vale tanto quanto a história”. Não conseguimos até hoje a projecção que desejamos, e porventura merecemos? As “margens” já não me incomodam minimamente, e acho inútil e até degradante insistir nessa suposta legitimação vinda de outros. Quem não conhece é que é ignorante, não os que sabem de si, e também dos outros. No mundo lusófono, os açorianos e os seus descendentes – esses que escrevem em Inglês, mas têm o longínquo passado dos seus avós como chamamento persistente e desejado – não devem nada a ninguém a leste das ilhas ou do grande continente a oeste, que é a sua primeira pátria. Por isso, incluí na primeira secção deste livro as duas vertentes indissociáveis da nossa literatura, a açoriana,e a luso-americana e, sempre que possível, a luso-canadiana.

De resto, estarão aqui as minhas abordagens às mais variadas obras de ficção, poesia e ensaio que, em língua portuguesa, são essenciais a uma mais alargada contextualização das realidades que vivemos numa contemporaneidade já sem fronteiras limitativas para a nossa imaginação ou sentimento de pertença a espaços e a culturas que ainda há poucas décadas residiam só na nossa imaginação, por certo, mais míticas do que reais, como nos casos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no Brasil, que já recordei aqui nalguns textos referentes a obras de jovens escritores brasileiros. Vivemos desde sempre, e intensamente, a nossa história nacional, essa que esporadicamente foi decidida a partir das ilhas açorianas, e, por sua vez, cada decisão tomada em Lisboa sempre teve, tem e terá imediato impacto directo nas nossas vidas a meio atlântico. Somos parte integrante da Nação, mas, como açorianos, não pertencemos de todo ao seu imaginário. Porém, quanto a literatura e escritos-outros, o nosso contributo tem sido imenso – desde Antero de Quental e outras conhecidas figuras dos séculos XIX e XX, até a um rol cada vez mais conhecido de escritores e poetas nossos contemporâneos. Se entre eles encontrarem um ou outro livro de autores vindos de outras línguas, é porque falar de nós sem termos consciência do nosso lugar no resto do mundo seria, no mínimo, estranho. A verdade é que hoje o movimento de livros e intelectuais dos mais variados países por todas as capitais, ou nos mais variados eventos literários e culturais, é quase, felizmente, um acontecimento diário.

Não me seria possível escrever sem me dirigir à literatura norte-americana, parte primeira da minha formação na Universidade Estadual da Califórnia, em Fullerton. Presto aqui homenagem a dois dos meus grandes mestres que leccionaram na minha alma mater: William Koon, pela introdução, e depois estudo profundo, da literatura sulista, e não só, redefinindo o que é “regionalista” ou “nacional” numa cultura moderna e pluralista, como é a dos Estados Unidos; Michael Holland, um dos últimos new critics na academia americana nos primeiros anos da década de 70, formado que era em literatura europeia, dizendo-me repetidamente que quase toda a teoria da literatura que então despontava nos departamentos de línguas e literaturas por toda a parte era um waste of time/tempo perdido, e saber ler e interpretar qualquer texto, de qualquer género, requer apenas sensibilidade crítica e estética, procedendo ele depois à definição do que torna um texto uma peça de arte, ou outra coisa. Michael exagerava brilhantemente — achava que o close-reading, com a sua atenção ao tempo ficcional, ao tom da linguagem ou à sua ironia ou não, ao andamento rítmico da narrativa (leiam sempre em voz alta, quando vos for possível, aconselhava ainda ele, para não perderem a musicalidade bela de um bom texto), ao ponto de vista do narrador ou da narradora, a sua fiabilidade na história que nos conta, era a única chave essencial à desconstrução ou descodificação de um texto. Não havia muito mais a levar em conta – esqueçam a biografia de um autor, o texto ou valia por si, ou não valia nada, o nome do autor apenas um nome, absolutamente dispensável para além de o podermos identificar e arrumar na estante. De acordo com tudo – menos neste último ponto. Em cada autor poderá residir toda a história do nosso lugar e tempo. Edmund Wilson, que dizia detestar a nova crítica, tornar-se-ia a minha referência inescapável quanto a biografismo e historicismo na percepção ou interpretação de uma peça literária. Um olhar de cada extremo para o meio da ponte, o equilíbrio possível, suspenso na dúvida ou na interrogação, que qualquer leitura aprofundada requer. Por outro lado, a literatura tem de ser algo mais do que “forma” ou mero acto “estético”.

Para mim não há beleza sem significado, não há beleza sem o olhar humano, sem a perspectiva de quem recebe palavras, imagens e sons. Creio que era Jorge de Sena quem dizia que uma foto espacial, sem qualquer indício da presença do humano, não lhe interessava minimamente. Poderá ser um modo discutível de colocar a questão, mas a verdade é que toda a nossa exploração do Universo parece ter esse o primeiro e último objectivo – encontrar sinais de vida, de qualquer vida, nessa distância galáctica. A literatura é esse registo de como vivemos e sobrevivemos, sobretudo em comunidade, parte de um todo simultaneamente como sujeitos activos e decisivos e como indivíduos cujas obrigações incluem decididamente a “obediência” a regras de convivência e justiça entre todos os que connosco partilham os nossos espaços, cada vez mais, como já referi, sem fronteiras de qualquer espécie. A crítica é também a memória de quem a escreve, o registo de como vemos e vivemos o nosso tempo transfigurado na literatura mais séria, numa tradução mais ou menos livre da epígrafe que aqui vai tirada de um texto de Harold Bloom. Toda a literatura é memória.

É isso a essência do que tento fazer nestas páginas semanalmente. A vida é curta e preenchida de mais para que eu gaste um segundo com livros sem qualidade estética ou relevância temática, ou simplesmente livros que não me dizem seja o que for adentro dos meus interesses ou preocupações sócio-culturais e políticas, o que, para mim, é o todo, ou o quase todo, de uma sociedade. Entretenha-se quem quiser com jogos de palavras vazias, com acrobacias formais tão ao gosto de certas teorias da literatura – e sabemos aonde nos levaram estas, dentro e fora dos seus contextos institucionais.

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Vamberto Freitas, bordercrossings: leituras transatlânticas IV, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017.

Parte deste texto serviu de prefácio ao meu volume BorderCrossings: leituras transatlânticas III, publicado em Março de 2016, e agora, em forma mais longa, a este IV volume do livro.

 

 

De Álamo Oliveira e da grande literatura

De caminho foi pensando na inutilidade do seu martírio intelectual. Afinal, havia o Camões que era o mestre da Língua, o Vicente dos autos e das farsas, o Eça da imoralidade romanesca, o Pessoa da arca mais milagrosa que a do ilusionista, o Nemésio da açorianidade.

Álamo Oliveira, Pátio D’Alfândega meia noite

 

Vamberto Freitas

Acaba se ser publicada a 2ª edição do romance Pátio D’Alfândega meia noite de Álamo Oliveira, pela Companhia das Ilhas, sobre a direcção de Carlos Alberto Machado, romance que tinha sido publicado em Lisboa pela editora Vega em 1992. A prosa deste autor açoriano oferece-nos grande brilhantismo ficcional e um certo historicismo, ora revisitado ora reinventado, de todo apto a refazer e a redizer “realidades” velhas de séculos. Desde há algum tempo está de volta em Portugal o romance dito de ideias, se é que alguma vez ele possa desaparecer. Toda a literatura, em graus variáveis, já se sabe, é esse interminável jogo entre facto e ficção. É também na habilidade artística de cada escritor que reside a diferença entre a escrita que perdura no tempo e a que não deveria nunca sequer ser lida – a diferença, nada menos, entre o saber mitificar a memória histórica e colectiva de um povo, criando o próprio escritor novos mitos e iniciando miticidades, assim como o mero estilismo na construção de frases antes ocas, frias e naturalmente vazias. Cada leitor terá a sua lista de livros a que nunca mais voltará, sabendo muito bem porquê. Este, estou em crer, não será um deles. Existe algo mais em Pátio D’Alfândega meia noite, e que, em ficções anteriores deste mesmo autor, havia sido só sugerido – a metaficção como tema inteiramente desenvolvido, e aqui servindo-se a várias vozes para se refazer ou, uma vez mais, redizer o passado, longínquo ou mais recente. Jericó é Angra do Heroísmo, todos saberão. No entanto, tudo o resto, contado e recontado pelos protagonistas Patachão e o Poeta Porreirinho, este que deixou um romance inédito e o outro que tenta interpretá-lo e editá-lo após a morte do seu amigo, é uma festa de história revisionista, de sismos e de ciúmes, de aristocratas e de plebeus, de xenofobia e de universalismo, de fantoches e fantasmas, de céus, de infernos e do pátio D’Alfândega – o lugar onde uma cidade e uma certa população se passeava e se dava conta, séculos fora, que no além existia um mundo e (insinua agora o escritor) a ilha que era e é apenas outro canto desse universo total.

Um livro saído de qualquer escritor com obra feita deve ser – devia ser sempre – um marco nesse original percurso artístico, e este, por certo, vai gozar desse estatuto. Todo este romance está estruturado à volta de um crime e da reconstrução de Jericó após um violento sismo. O romance dentro deste romance, o que foi deixado pelo Poeta Porreirinho, é aparentemente uma tentativa de se recontar como toda uma cidade, na fúria que é a sobrevivência de um povo ante violentos avisos da natureza atlântica e a genética ganância de quem em tudo manda e desmanda, se auto-convence da sua virtude e percebe a sua continuidade histórica. Das páginas legadas por esse autor desaparecido e das que o seu amigo vem tentando pôr em ordem para uma publicação, que nunca chega a acontecer, a realidade-realidade é apreendida só em pedaços desconexos e a-históricos enquanto suas excelências sabem muito bem que a realidade ficcional é a mais completa – e logo perigosa. Nestes múltiplos diálogos está a dissecação das tramas, obsessões e memória colectiva da dita comunidade. Um fantasma estrangeiro (um holandês que àqueles portos arribou como náufrago e que se apaixonaria pela cidade e por uma das suas freiras) desce à terra para com o Poeta Porreirinho ir comparando notas com o passado e presente. O resto, repita-se, é uma festa de humor, sarcasmo e das mais lapidares frases.

“Ele vi-a – diz o narrador acerca de Patachão, o protagonista que tenta desvendar o romance do Poeta Porreirinho, e neste caso específico, a mãe deste, que também figurava na prosa póstuma do seu amigo – como que emergindo em todos os tempos, heroína anti-convencional e resplandecente, desdenhando dos castelhanos nos fins dos séculos XVI, debochando, no século seguinte, com um pirata na rua Baixinha, comendo favas de molho d’unha, rifando numa tasca de Santo Espírito a sorte numa noite bem passada, enquanto um liberal se cura de sífilis na Misericórdia do hospital. Ela veio desses tempos esquisitos e mal sabidos vencendo todas as batalhas da vida, até que desaguou no banco verde do Pátio D’Alfândega, velha, gorda e suja, dormitando pachorrenta ao som da música do seu transistor. Sujidade, gordura e velhice é tudo quanto basta para ser pitoresco. Como glória última, lutou pela liberdade com valentia aristocrática, dando ao diabo a virgindade com um major sidonista. Tão afrontoso desfecho não ficaria impune numa cidade de igrejas e de casas senhoriais.”

A rebeldia feminina açoriana poderá acontecer – e acontece – de vários modos, mas tem sido na ficção que esse libertador acto se vem enquadrando em toda a história social muito mais viva do que geralmente temos consciência – desde Vitorino Nemésio e Mada lena Férin a Álamo Oliveira. Aliás, este vivo diálogo com a história, que é essencialmente Pátio D’Alfândega meia noite, vai ainda além disso e constantemente alude a outras figuras culturais nossas, a partir de Gaspar Frutuoso do século XVI às gerações dos nossos tempos. Romance também alegórico, interliga dias, semanas, meses, anos e séculos para nos brindar com o “facto” de que tudo e todos permanecem o mesmo, a história de Jericó simultaneamente uma de pasmaceira e vivacidade, de ladrões e de santos. Por outras palavras, a humanidade em toda a sua simplicidade e complexidade, vista por mais este contributo a um riquíssimo corpo literário português que se chama literatura açoriana.

Desta circularidade e desejo de fuga, características tão marcantes da escrita açoriana, o espírito do lugar é como que outra viva voz deste romance, tornando-o (o próprio lugar) protagonista, terra, mar e céu determinando comportamentos e pensamentos, também. Açorianidade e, ao mesmo tempo, historicismo e mítica lusitana. O homem das ilhas, enfim, ocupando inteiramente o seu espaço num universo que ele sabe estar longe, mas que é seu.

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Álamo Oliveira, Pátio D’Alfândega meia noite (2ª edição), Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2017. Este texto foi retirado e reescrito de um ensaio meu publicado em 1992, e que agora é o prefácio desta edição do romance de Álamo Oliveira.

De uma América amedrontada e perigosa

 O grande ator Buzz Windrip falou apaixonadamente, sem nunca soar grotesco ou feroz. Não tinha gestos extravagantes; limitava-se, como Gene Debs muito tempo, a esticar um dedo indicador ossudo que parecia espetar-se em cada um dos ouvintes e cativar os seus corações.

Sinclair Lewis, Isso não pode acontecer aqui

Vamberto Freitas

Em 1935, a América sob a mais violenta depressão económica e social da sua história, prepara-se para reeleger Franklin D. Roosevelt, o que não acontece nesta ficção de It Can’t Happen Here/Isso não pode acontecer aqui, de Sinclair Lewis, que acaba de ser traduzido no nosso país. Lewis receberia Prémio Nobel em 1930 da literatura daquele país. Romance, este aqui em foco, esquecido do autor de Main Street e Babbitt? Nem tanto. De quando em quando, reproduzem-se publicamente aqui e ali um ou outro dito ou passo das suas páginas, numa tentativa de aviso, ou simplesmente para não se deixar esquecer a “outra” história, a que está fora dos compêndios escolares e universitários, escritos por académicos bem-pensantes ou aprisionados pela mítica da história nacional. Seja como for, a ideia deve ficar bem vincada aqui: até mesmo numa das mais bem-sucedidas e antigas democracias a preocupação com o impulso totalitário nunca está ausente, a conquista da liberdade deverá ser uma luta permanente. Os escritores, como “cronistas” das suas sociedades, têm recorrido desde sempre à ficção, à “mentira”, por assim dizer, para chegar às mais prováveis e profundas verdades. É neste contexto que deveremos ler ou reler Isso não pode acontecer aqui, e é sobretudo tendo em conta o contexto político destes dias por todos “inesperados” na América que o deveremos também ler como reflexão que vá além do ruído constante dos telejornais ou conversas afins nas televisões, que dominam o debate público e toda a propaganda dos que giram em volta do chamado arco do Poder naquela e em muitos outros países na Europa e no além-fronteiras. Está-se na América deste romance, agora tornado profético – como se estava na Europa nos anos entre as duas Grandes Guerras – em que os génios da economia e dos mercados mergulharam a sua sociedade na escuridão quase absoluta, levando milhões à miséria e ao desespero. Sinclair Lewis olhava em sua volta naquela época, e já escutava a retórica tanto dos opressores como dos oprimidos, estes últimos esfomeados num chão sem pão. Isso não pode acontecer aqui tem como protagonista Doremus Jessup, o proprietário e director de um pequeno jornal, Daily Informer, da também pequena vila Fort Beulah, no estado de Vermont. Neste lado do Atlântico já se vive e morre sob Hitler e Mussolini, e certas forças norte-americanas não desdenham da aparente “estabilidade”, do crescente “emprego”, da repressão ante os grupos historicamente suspeitos, aqui os judeus de então assim como todas as outras minorias étnicas e sociais, tal como os negros e outros de cor no outro do Atlântico.

Por detrás do novo “estado corporativo” americano, estão os banqueiros e industriais, que as forças extremistas, principalmente o próprio partido democrático de Roosevelt, dizem querer controlar e até castigar, mas as suas palavras encobrem o outro lado da mentira – serão eles os beneficiários da nova ordem, pois são eles que controlam o dinheiro nos “mercados”, e serão eles a distribui-lo entre os que vão, nas urnas, apoderar-se do Estado. Hitler havia sido eleito, e chegado ao poder com a cumplicidade da burguesia alemã. Na América, um Berzelius Windrip consegue ser eleito, e depressa põe em prática o que havia escondido nas palavras do seu livro intitulado Zero Hour, em que o seu “patriotismo” vinha do mesmo modo adornado pelas declarações avulsas, sem nexo, sem pensamento desenvolvido e ponderado, beatas e patrióticas tanto da elite tradicional como das massas mais ou menos indigentes e caídas. O palco está montado para que, através de um congresso submisso e de todo controlado, a ditadura corporativista seja fundada, por entre os vivas generalizados de uma população massacrada e de um poder financeiro-industrial sedento do seu lugar sem leis nem regras, tudo em nome da “prosperidade” e “liberdade”. Emprego em subida, crime limpado nas ruas pelas milícias denominadas Minute Men, uma polícia tipo Gestapo, aqui de nome Corpos numa abreviação de Estado Corporativista, encarrega-se da repressão e assassínio político e dos campos de concentração e de trabalhos forçados. O proposto muro separando os EUA e o México agora proposto representa o quê? O prefaciador de uma edição americana recente de Isso não pode acontecer aqui, Michael Meyer, afirma que o romance teve impacto imediato no seu tempo Não é de crer que tenha sido entre a maioria dos leitores mais eruditos ou bem informados, mas sim tão-só entre os que percebiam que a retórica oficial da intolerância saída de Washington tornava a situação no seu país explosiva e politicamente perigosa. Depois de um certo alheamento ideológico dos escritores modernistas dos fulgurantes anos 20 (o seu cansaço vinha também de muitos deles terem participado e sobrevivido magoados à Primeira Grande Guerra), apareciam agora alguns que já não podiam ignorar o que um sistema sem regulação ou qualquer moralidade provocava e criava.

A luta contra o jornalista Doremus Jessup e da resistência à grande Imprensa séria denunciam com igual fervor os comunistas e os fascistas, situam-se na tradição do liberalismo de esquerda americano, acreditando firmemente num individualismo e cidadania cívico-humanista, uma sociedade em que todos seriam iguais perante a lei, e não terá sido por mero capricho literário que Sinclair Lewis dá voz no seu romance a algumas mulheres que contrariavam então a acomodação das donas de casa, crentes e praticantes de uma religiosidade puritana, como dá voz a outros militantes e cidadãos então sob ataque e historicamente excluídos da vida pública. O romance termina sem resolução a votos para que os cidadãos seus apoiantes “fossem prósperos, nos bolsos e na mente”, e que só era brutal com certas situações demasiado parecidas com a presente situação, repita-se, vivida na América , mas a liderança da resistência parte para o Canadá, numa alusão deliberada à história de refúgio que aquele país tem oferecido aos seus vizinhos a sul (tal como hoje), desde a Revolução de Setecentos aos escravos libertados antes e durante a Guerra da Secessão e para lá mandados em comboios clandestinos patrocinados pelos Abolicionistas. Algumas décadas depois, o mesmo país receberia os resistentes exilados da guerra do Vietname.

“Dia após dia, exigia cada vez mais ‘sins’ de todos à sua volta, e sempre mais convincentes. Como podia prosseguir com a sua difícil missão se nunca o encorajavam, interrogava-se. Suspeitava que qualquer pessoa que não alimentasse o seu ego (desde Sarason ao estafeta interno) conspirava contra ele. Aumentava continuamente o número de guarda-costas e, com igual frequência, desconfiava dos seus guardas atuais e dispensava-os. Certa vez chegou mesmo a disparar sobre dois deles. Portanto, em todo o mundo não tinha nenhum companheiro, exceto o seu antigo assessor, Lee Sarason, e talvez Hector Macgoblin, com quem podia falar à vontade… Sentia-se desacompanhado quando queria livrar-se das obrigações do despotismo juntamente com os seus sapatos e o seu novo e belo casaco”.

Como apontam alguns críticos, este poderá não ser o melhor romance de Sinclair Lewis, em termos estritamente literários ou formais, mas é por certo um dos mais relevantes e proféticos para os nossos dias. Em certas páginas, quase esquecemos que estamos a ler uma ficção norte-americana, e pensamos de imediato na Europa de outros tempos, na retórica que, uma vez mais, inunda boa parte da política, e não só a “extremista” ou “populista”.

Isso não pode acontecer aqui relembra-nos que, sim, poderá acontecer outra vez, até porque, enquanto na América, só na ficção daquela época, mesmo enquanto a raiva aos afro-americanos e a outras minorias estava no auge, e acontecia na realidade entre nós, o passado e o presente estão frescos na nossa memória e nos nossos presentes medos. Não foi também sem mais nem menos que o filósofo holandês Rob Riemen publicou há uns poucos anos um livro assustadoramente intitulado O Eterno Retorno do Fascismo. Falava da Europa em que vivemos actualmente, e antes das vitórias da extrema direita nas recentes eleições europeias. A América, parece, vai agora por um caminho semelhante, o do medo e de certo autoritarismo manifestado em sucessivas “Ordens Executivas” saídas da Casa Branca. Restam os tribunais e um sistema sólido e consciente da sua própria história.

A literatura é acima de tudo memória. É fonte de prazer, mas também deverá ser fonte de informação e pensamento. Ninguém lê ou olha para um quadro sem pensar no contexto em que se integra, ou até na sociedade que o inspirou. Nesse sentido, a literatura deveria ter as suas consequências – não necessariamente como previsão do futuro, mas sim como aviso contra a repetição do passado.

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Sinclair Lewis, Isso não pode acontecer aqui (tradução de José Roberto) , Lisboa, D. Quixote. 2017. Esta recensão foi em parte retirada de uma outra que eu já tinha publicado em 2014, ainda antes da campanha presidencial norte-americana.