Paula Cabral na apresentação de “borderCrossings: leituras transtânticas 4”

Antes de assumir a função de porta-voz de Carlos Bessa, queria felicitar o Prof. Vamberto pela 4.ª edição de BorderCrossings.

É efetivamente um trabalho de inestimável mérito na consagração da literatura com raiz açoriana, na divulgação de novos valores e no apoio que a sua palavra de referência representa para muitos desses novos escritores.

Eu sei o que representou para mim a sua aprovação. Sinto-me igualmente reconhecida por estar aqui a partilhar este momento consigo de forma tão particular.

Um amigo comum, que muito admiramos e estimamos, Onésimo Almeida, disse-nos uma vez que o Vamberto era a única pessoa que ele conhecia que tinha uma janela com vista para o mar tapada com livros!
Não é de espantar. O Prof. Vamberto vive o mundo através dos livros.

A literatura revela o mundo, é diálogo inato, é a vida a construir-se. O próprio afirma-o:
Para mim, a literatura foi sempre um ato profundamente identitário, através da qual vemos o outro, o que nos obriga à autorreflexão de quem somos e como somos”.
Escreve, pois, sobre os livros, janelas sobre o mundo, como quem discorre sobre paisagens de mar infinito. Abrindo caminhos de leitura, as suas abordagens são parapeitos onde nos debruçamos com a confiança da referência e da orientação num mundo em que, no dizer do autor,  “ o movimento de livros e intelectuais dos mais variados países (…), é quase, felizmente, um acontecimento diário”.

Em cada autor poderá residir toda a história do nosso lugar e tempo“, defende o autor em desacordo com outras correntes da crítica, pois interessa-lhe essencialmente essa marca humana do indivíduo integrado no todo. “Toda a literatura é memória” e “a crítica é também a memória de quem a escreve”, pelo que o mar, por pouco que se aviste da sua janela, representará sempre o horizonte da memória por detrás dos inúmeros escritos transatlânticos que ainda, decerto, nos irá oferecer. Obrigada, Professor Vamberto, pela generosidade de os partilhar connosco.

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Paula Cabral no lançamento do meu livro borderCrossibgs: leituras transatlânticas $ a 17 de Novembro de 2017, a 17 de Nvembro de 2017, na Livraria Solmar em Ponta Delgada.

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VAMBERTO FREITAS — borderCrossings: leituras transatlânticas 4

 

BORDERCROSSINGS: LEITURAS TRANSATLÂNTICAS 4

 

Carlos Bessa

 

Comecemos pelo óbvio, Vamberto Freitas é um caso raro. Porquê? Porque faz da literatura um métier. Porque escreve sobre os livros de que gosta e está atento às novidades. Porque o faz num tempo em que se publica muito, mas parece ler-se pouco, como se deduz pelas baixas tiragens e também pelo tipo de livros que se publica. Porque é um reconhecido especialista em literatura contemporânea de língua inglesa produzida por luso ou açor–descendentes na América do Norte e um leitor atento do que a açorianidade produz. Por muitas outras razões que têm tudo a ver com literatura, mas também com a sua generosa maneira de ser e de ler.

Com este intróito pretende-se, pois, desde logo destacar o que nos junta hoje aqui, a publicação e apresentação de mais um tomo, o quarto, de BorderCrossings: leituras transatlânticas. Tomo em que o autor colige mais um extenso conjunto de ensaios literários e culturais, a maior parte publicados na coluna homónima que mantém no Açoriano Oriental, mas também noutros jornais.

Ensaios onde constantemente se evidenciam as operações complexas que a literatura e a leitura solicitam de nós, leitores, aliando, às especificidades estéticas, problemáticas éticas, assim como um rol de interrogações e inquietações indissociáveis do tempo e do espaço que são os nossos. Um tempo e um espaço que, precise-se, não se circunscrevem ao imediato, pois a literatura há muito nos preparou para incluirmos nessas duas dimensões aspectos como a imaginação, a diferença, a alteridade, o outro. Ora é precisamente neste ponto que creio residir um dos momentos altos de BorderCrossings, de que as suas quatro secções, intituladas “Ilhas da Diáspora, Diáspora nas Ilhas”, “Do Nosso Tempo”, “Outros Imaginários Americanos” e “Coda” são bem a prova.

 

Vamberto Freitas é há muito um exegeta destas questões e podia fazer dele as palavras que Eduardo Lourenço disse em tempos: “o problema da cultura portuguesa não é o da censura que vem do exterior ou do poder político, mas da censura que nós próprios fazemos uns aos outros”. Pois, como muito bem sabem os leitores de Vamberto, ele vai para lá do ensimesmamento, abre fronteiras, amplifica o que é nosso e lê o agora através dos livros que comenta. E, ao fazê-lo, descobre afinidades ou sublinha diferenças, ri-se ou zanga-se, confronta-se com inquietações particulares ou com questões universais. Mostra-nos que escrever nos Açores ou a partir dos Açores é tão vasto como escrever a partir de qualquer outro lugar. Recorda-nos que o que é nosso é do mundo e o que é do mundo é nosso. Ler assim é estar receptivo ao novo, é reconhecer os meandros da sedução e os labirintos da manipulação, porque a literatura também se faz entre estes pólos. Ler, como Vamberto o faz, é receber e reconhecer vozes e ecos de outras vozes, e fazê-lo com método, com rigor, com paixão. Porque hoje, como ontem, continua a partilhar connosco os autores e as obras que descobre e continua incansável no árduo trabalho de divulgar autores, de criar leitores, de aumentar o raio de acção dos escritores açorianos.

Cada tomo de BorderCrossings é não só uma viagem pelo mundo da língua portuguesa, como também pelo universo anglo-saxónico. Uma viagem cujo diário de bordo nos relata, a par das inflexões do tempo, as vicissitudes do isolamento, o anseio de evasão, as aventuras e as anedotas do entrementes, o regresso às origens ou a casa. Cada tomo de BorderCrossings constitui-se como uma narrativa que tem como ponto de partida a literatura que, em português ou inglês, reflecte, representa e reinventa a nossa experiência de vida, mormente no arquipélago, mas também nos Estados Unidos da América, no Canadá, no Brasil e até noutras paragens ou latitudes.

Vamberto é, pois, um autor ecléctico, quer no que toca a géneros, quer quanto a autores, gerações ou línguas. Um autor que pratica aquilo que poderemos designar como um verdadeiro serviço público. Que semanalmente reflecte sobre um livro, para prazer de tantos. E que o faça nos dias que correm, em que os livros já não têm nem o espaço público nem o lugar remuneratório de outrora, é algo que a todos nos enche de júbilo. Porque se Vamberto tem espaço para muitos caracteres, num tempo em que os livros são

corridos nos meios de comunicação a notas de rodapé ou a algo que se assemelha a twitters, isso acontece pelo valor que lhe é reconhecido pelos seus pares e pelos seus leitores.

E permitam-me que faça aqui um parênteses para recordar que, quando os meios de comunicação reduziram o espaço da literatura e do ensaio, muitos foram os que se regozijaram (silenciosa ou alarvemente) com o sucedido. Mas quando começar a saber-se que as elites políticas e financeiras de todo o mundo estão a ler os clássicos, estão a ler os grandes autores e os ensaístas, os filósofos e os historiadores, os poetas gregos e latinos, não se espantem da reviravolta. Veremos, então, os que hoje se auto-comprazem com a mediocridade a fazer-se esquecidos e a aparecer na linha da frente dos que acham que é necessário ler-se mais e ler-se melhor. Então poderemos dizer ainda mais alto, nós temos o Vamberto. Com ele descobrimos obras e autores. Com ele percebemos o quanto a literatura fornece chaves para a condição humana. Com ele sabemos que “quem não conhece é que é ignorante”. É preciso que alguém nos diga coisas assim tão simples para percebermos que nos livros, como em tudo o mais, há regras básicas e que se o negócio se faz com números, também se faz com minorias, porque sem minorias resta a banalidade. As minorias revivificam, acrescentam, abrem horizontes. E cada comunidade de leitores, por ínfima que seja, faz mais pela vida do que hordas de ignorantes. Abençoado Vamberto que partilha com várias comunidades de leitores as suas impressões de leitura, as suas análises atentas de obras. Somos vários os que colecionamos os seus textos e lhe agradecemos a oportunidade de os ter reunido em livro. Podemos guardar os recortes do Açoriano Oriental mas não é a mesma coisa. O livro facilita a consulta e a releitura.

Nele, no BorderCrossings, podemos saber quem são os autores luso-descendentes, quais as obras de temática açor-americana, que autores nacionais ou regionais publicaram obras de relevo. E ficamos também a par das filias do autor. Um autor que pode começar um texto assim: “Queria começar por dizer isto: Luís Filipe Borges representa para mim o melhor da geração açoriana que segue imediatamente à minha, quase toda nascida nos anos 50.” Ou seja, um leitor que é capaz de estar tão atento ao novo da literatura açoriana, como àqueles autores que ganharam já estatuto de

 

canónicos. E são muitos. Enumerá-los agora aqui seria retirar o prazer dos que já estão com o livro nas mãos. Refira-se apenas que cada autor e cada livro recenseados são analisados sem modelos prévios e sem pressupostos académicos, como se Vamberto reconhecesse à partida que cada livro é único na sua diferença, pelo que cada leitura é também única e diferente. Não há cardápio. Há sim um prazer contínuo, o de acompanhar o livro nos seus meandros e o de situar os autores nos seus lugares. Um prazer com algo anárquico, dionisíaco, para usar uma expressão grata a um poeta madeirense que faleceu há dois anos. O prazer de uma leitura crítica ou que reflecte a partir de questões levantadas por cada texto específico, modo de Vamberto evocar os seus mestres neste tipo de leitura, sejam Edmund Wilson, Michael Holland, William Koon ou até Harold Bloom.

Não menos relevante é que Vamberto Freitas, tal como Plínio, o Velho (ou Caio Plínio Cecílio Segundo), cumpre essa máxima que diz nulla dies sine linea, ou seja, nem um dia sem ler ou escrever pelo menos uma linha. De facto, para os grandes leitores e para os grandes escritores, a escrita é algo afim da vida. É a grande batalha que se trava contra o mundo e a sua natureza finita.

Vamberto, como justamente se assinala no fim deste BorderCrossings, foi distinguido pelo Congresso dos Estados Unidos da América e pelo Tulare County Board of Supervisors pelo seu trabalho em prol da literatura e da divulgação de autores de ambos os continentes, americano e europeu. Está, portanto, de parabéns. Duplamente de parabéns. Pelos prémios e por mais este interessante volume de leituras.

E eu queria deixar aqui o meu vivo agradecimento por ter feito questão que eu partilhasse com ele e com todos os presentes este momento, a alegria de estar perante uma vasta e sábia comunidade de leitores, a quem endereço um bem-haja.

 

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Vamberto Freitas, borderCrossings: leituras transatlânticas 4, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017. Este texto foi lido na apresentação do meu novo livro “borderCrossings: leituras transatlântica 4”, na Livraria SolMar no dia 17 de Novembro de 2017.

 

Dos nossos tempos e das nossas vidas

Habituado, que estou, aos índices de humidade mais elevados e às temperaturas mais amenas se S. Miguel, confesso-vos que já é difícil aguentar com as altas temperaturas e com o ar seco de verão na interioridade continental onde nasci e cresci.

Aníbal C. Pires, Toada do mar e da terra

Vamberto Freitas

Aqui há algum tempo tive o prazer e a honra de prefaciar e apresentar O Outro Lado: palavras livres como o pensamento (2014), alguma da poesia de Aníbal C. Pires. Evitei propositadamente algumas palavras, especialmente “político” e “política”, assim como qualquer menção a ideologia ou opções partidárias. Não que a literatura esteja livre de ideologia, que diz, sempre, algo não só sobre o estado de alma do seu autor, como, directa ou indirectamente insinua a natureza da sociedade, a sua historia, o seu tempo. Este não é o primeiro livro de prosa do autor (que mencionarei mais à frente), mas nestas páginas ser-me-ia impossível, e até desonesto, aludir às posições cívicas tomadas e partilhadas por um autor consciente de toda a problemática da sua sociedade, e que não hesita nem na crítica, na sugestão de posições, de soluções, ou pelo menos não hesita na tentativa de abrir um diálogo com os seus leitores sobre o quotidiano que vivem e as possibilidades de um outro futuro. Certas palavras aqui, portanto, são inevitáveis e muito bem-vindas, por entre alguns textos de cariz abertamente poético e de celebração à chamada “vida em ilha”, como um dia me mencionou uma alta figura de um dos primeiros governos regionais do nosso arquipélago. Ante de mais, devo confessar que o próprio titulo de crónicas e ensaios em Toada do mar e da terra remete-me de imediato para um outro autor progressista do nosso cânone literário, o falecido Dias de Melo, com quem suspeito por parte de Aníbal C. Pires afinidades memoriais sócio-económicas, e sobretudo culturais. Este é um primeiro volume, que data dos anos 2003-2008, e este facto é para mim de grande significado, pois foram o início dos meus próprios anos de chumbo devido a “catástrofes” familiares de doença e as subsequentes sequelas que ainda hoje permanecem – e vão permanecer – em mim. Ler sobre o que vivia e pensava, e seria depois uma das figuras políticas açorianas durante esses anos é como ler e dar-me consciência pela primeira vez do que ia à minha volta, do que enfrentava a minha sociedade. Não deve haver nada de mais “egoísta” do que a doença, quando nos força a virar-nos totalmente para dentro, pouco ou mais nada fazendo sentido para além das agonias pessoais, ou o sofrimento indescritível de quem amamos. Ler Toada do mar e da terra foi para mim ainda mais do que isso: foi ler um dos nossos melhores colunistas da imprensa regional, com as suas linguagens de clareza inequívoca, intelectualmente honestas, de uma grande riqueza lexical – e depois as destemidas posições que nos apresenta sem nunca insinuar numa só frase o desrespeito pelos que com ele discordam, ou então travavam duras lutas políticas dentro e fora das estruturas partidárias.

De seguida, queria lembrar que Aníbal C. Pires é natural do interior de Portugal, mas encontra-se a viver nos Açores há muitos anos, onde tem exercido com distinção o professorado no ensino público da região (São Miguel), e durante os anos mais recentes foi deputado pela CDU na Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Esta pouca informação biográfica tem só um objectivo neste meu escrito – relembrar que ser-se açoriano pouco tem a ver com o lugar de nascença ou mesmo de ancestralidade. Muito mais do que isso, será um estado de espírito que invade quem connosco decide viver e enfrentar o destino a partir de pequenas ilhas a meio atlântico, olhando para sempre o resto do país ou do mundo na condição de “ilhéu” universalizado pela sua experiência e contacto diário com as mais longínquas geografias. Nas palavras da epígrafe que uso aqui, numa tentativa de resumo de tudo que vos desejo comunicar sobre este livro, Aníbal C. Pires diz quase tudo. Visitar as origens de nascença, alguns dos seus mais próximos que lá ficaram para sempre, nunca deixará de ser um imperativo pessoal e uma outra viagem de saudade, mas o seu verdadeiro lar português fica neste lado do Atlântico. Aguentar outro clima é naturalmente possível, mas todo o nosso ser clama pelo “território do coração”, pela convivência com a família, com os amigos, com os colegas, com a luta diária pela pequena sociedade Coisa estranha da minha parte ante este poeta e escritor. Nunca penso nele, nem nas nossas conversas algo frequentes, e muito menos na sua escrita, como militante político, antes no activo e agora provavelmente só nos bastidores. Não estarei só. Na apresentação que fiz da já aqui referida poesia, perante uma grande audiência no Coliseu Micaelense, olhava para todos e via gente de todo os partidos políticos, desde os mais conservadores de direita aos mais radicais de esquerda, numa demonstração saudável do respeito mútuo e da apreciação da arte para além das questões momentâneas da política ou do combate parlamentar. Se olhássemos a grande literatura pela perspectiva ideológica dos melhores autores do mundo, garanto-vos que as nossas leituras seriam muitíssimo mais reduzidas, perderíamos o melhor que a humanidade nos oferece, as visões infindáveis da nossa condição, dos nossos desesperos, dos nossos desejos e sonhos, perderíamos a capacidade de tentar perceber a vida dos “outros” e do modo como enfrentaram e sobrevivam bem ao nosso lado, quer na mesma rua da nossa residência e afectos quer nos mais desconhecidos lugares do planeta, da sua originalidade em modos de vida que em quase tudo diferem dos nossos, menos a condição primordial da humanidade. Andamos todos em busca da felicidade e da eliminação do sofrimento num mundo que nunca foi, apesar de tudo e de saberes maiores, pacífico e solidário. Toada do mar e da terra traz-nos até ao presente numa crónica de 2007, intitulada “Por uma Cidadania Plena”.

“Portugal não foi. Portugal é um país de emigrantes. Mas Portugal, fruto do desenvolvimento e das transformações sociais, culturais, políticas e económicas que se verificaram depois da Revolução de Abril de 1974 e da sua integração europeia, ganhou capacidade de atração, ou melhor, aumentou essa capacidade de atrair imigrantes. Porque receber cidadãos estrangeiros, sempre recebeu. Cidadãos provenientes das mais diversas origens e com motivações igualmente, distintas. Mas se a história portuguesa é feita de constantes partidas e chegadas, hoje, mais que no passado, as chegadas, não pelo seu número, mas, pelo seu impacto social e económico e, sobretudo pela situação internacional decorrente dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, assumem uma atenção e preocupação redobrada”.

Aí está. A visão de Aníbal C. Pires em Toada do mar e da terra faz-me lembrar a “poética da relação” do grande escritor francófono Édourd Glissant, natural da ilha de Martinica, nas Caraíbas. Li a versão em língua inglesa de Poetics of Relation, em que ele propõe que as ilhas nunca foram lugar de isolamento, mas sim de encontros, absorvendo constantemente os que nos vêm de fora, e sobretudo confirma não as nossas diferenças, mas o que nos une para além de línguas, sotaques e um ou outro modo de ser. É o que temos nestas belas páginas do autor de Toada do mar e da terra, a vida múltipla de um povo, e sobretudo o seu olhar constante para além do horizonte. Não se trata só aqui do relacionamento entre nove ilhas há mais de 500 anos em busca do seu encontro fraterno e sócio-económico. Sobretudo, de como os Açores têm e terão sempre de desenvolver ainda mais os seus relacionamentos com o exterior, tanto nas suas partidas históricas para todos os cantos do mundo, como agora num mais vasto recebimento dos seus convidados, que começam a visitar-nos e a conhecer-nos em números nunca vistos.

Toada do mar e da terra, pelas datas em cada crónica, faz-me recuperar alguns anos da minha desatenção, como aliás já mencionei. É isto que nos deve proporcionar a história, e ainda mais a história comentada, fazendo-nos adquirir novas perspectivas, mesmo que divergentes ou controversas, despertando o nosso pensamento e um melhor entendimento de nós próprios, do nosso lugar e do nosso tempo. Nem só o passado nos define. A consciência de termos sido é também a consciência de quem somos, ou gostaríamos de ser. A propósito, Aníbal C. Pires publicou ainda em 2009 a sua tese de mestrado intitulada significantemente Imigrantes nos Açores: Representações dos Imigrantes Face às Políticas e Práticas de Acolhimento e Integração.

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Aníbal C. Pires. Toada do mar e da Terra/volume I 2003-2008, (ilustrações de Ana Rita Afonso), Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017. Parte deste texto foi retirado do prefácio ao presente

Habituado, que estou, aos índices de humidade mais elevados e às temperaturas mais amenas se S. Miguel, confesso-vos que já é difícil aguentar com as altas temperaturas e com o ar seco de verão na interioridade continental onde nasci e cresci.

Aníbal C. Pires, Toada do mar e da terra

Vamberto Freitas

Aqui há algum tempo tive o prazer e a honra de prefaciar e apresentar O Outro Lado: palavras livres como o pensamento (2014), alguma da poesia de Aníbal C. Pires. Evitei propositadamente algumas palavras, especialmente “político” e “política”, assim como qualquer menção a ideologia ou opções partidárias. Não que a literatura esteja livre de ideologia, que diz, sempre, algo não só sobre o estado de alma do seu autor, como, directa ou indirectamente insinua a natureza da sociedade, a sua historia, o seu tempo. Este não é o primeiro livro de prosa do autor (que mencionarei mais à frente), mas nestas páginas ser-me-ia impossível, e até desonesto, aludir às posições cívicas tomadas e partilhadas por um autor consciente de toda a problemática da sua sociedade, e que não hesita nem na crítica, na sugestão de posições, de soluções, ou pelo menos não hesita na tentativa de abrir um diálogo com os seus leitores sobre o quotidiano que vivem e as possibilidades de um outro futuro. Certas palavras aqui, portanto, são inevitáveis e muito bem-vindas, por entre alguns textos de cariz abertamente poético e de celebração à chamada “vida em ilha”, como um dia me mencionou uma alta figura de um dos primeiros governos regionais do nosso arquipélago. Ante de mais, devo confessar que o próprio titulo de crónicas e ensaios em Toada do mar e da terra remete-me de imediato para um outro autor progressista do nosso cânone literário, o falecido Dias de Melo, com quem suspeito por parte de Aníbal C. Pires afinidades memoriais sócio-económicas, e sobretudo culturais. Este é um primeiro volume, que data dos anos 2003-2008, e este facto é para mim de grande significado, pois foram o início dos meus próprios anos de chumbo devido a “catástrofes” familiares de doença e as subsequentes sequelas que ainda hoje permanecem – e vão permanecer – em mim. Ler sobre o que vivia e pensava, e seria depois uma das figuras políticas açorianas durante esses anos é como ler e dar-me consciência pela primeira vez do que ia à minha volta, do que enfrentava a minha sociedade. Não deve haver nada de mais “egoísta” do que a doença, quando nos força a virar-nos totalmente para dentro, pouco ou mais nada fazendo sentido para além das agonias pessoais, ou o sofrimento indescritível de quem amamos. Ler Toada do mar e da terra foi para mim ainda mais do que isso: foi ler um dos nossos melhores colunistas da imprensa regional, com as suas linguagens de clareza inequívoca, intelectualmente honestas, de uma grande riqueza lexical – e depois as destemidas posições que nos apresenta sem nunca insinuar numa só frase o desrespeito pelos que com ele discordam, ou então travavam duras lutas políticas dentro e fora das estruturas partidárias.

De seguida, queria lembrar que Aníbal C. Pires é natural do interior de Portugal, mas encontra-se a viver nos Açores há muitos anos, onde tem exercido com distinção o professorado no ensino público da região (São Miguel), e durante os anos mais recentes foi deputado pela CDU na Assembleia Legislativa Regional dos Açores. Esta pouca informação biográfica tem só um objectivo neste meu escrito – relembrar que ser-se açoriano pouco tem a ver com o lugar de nascença ou mesmo de ancestralidade. Muito mais do que isso, será um estado de espírito que invade quem connosco decide viver e enfrentar o destino a partir de pequenas ilhas a meio atlântico, olhando para sempre o resto do país ou do mundo na condição de “ilhéu” universalizado pela sua experiência e contacto diário com as mais longínquas geografias. Nas palavras da epígrafe que uso aqui, numa tentativa de resumo de tudo que vos desejo comunicar sobre este livro, Aníbal C. Pires diz quase tudo. Visitar as origens de nascença, alguns dos seus mais próximos que lá ficaram para sempre, nunca deixará de ser um imperativo pessoal e uma outra viagem de saudade, mas o seu verdadeiro lar português fica neste lado do Atlântico. Aguentar outro clima é naturalmente possível, mas todo o nosso ser clama pelo “território do coração”, pela convivência com a família, com os amigos, com os colegas, com a luta diária pela pequena sociedade Coisa estranha da minha parte ante este poeta e escritor. Nunca penso nele, nem nas nossas conversas algo frequentes, e muito menos na sua escrita, como militante político, antes no activo e agora provavelmente só nos bastidores. Não estarei só. Na apresentação que fiz da já aqui referida poesia, perante uma grande audiência no Coliseu Micaelense, olhava para todos e via gente de todo os partidos políticos, desde os mais conservadores de direita aos mais radicais de esquerda, numa demonstração saudável do respeito mútuo e da apreciação da arte para além das questões momentâneas da política ou do combate parlamentar. Se olhássemos a grande literatura pela perspectiva ideológica dos melhores autores do mundo, garanto-vos que as nossas leituras seriam muitíssimo mais reduzidas, perderíamos o melhor que a humanidade nos oferece, as visões infindáveis da nossa condição, dos nossos desesperos, dos nossos desejos e sonhos, perderíamos a capacidade de tentar perceber a vida dos “outros” e do modo como enfrentaram e sobrevivam bem ao nosso lado, quer na mesma rua da nossa residência e afectos quer nos mais desconhecidos lugares do planeta, da sua originalidade em modos de vida que em quase tudo diferem dos nossos, menos a condição primordial da humanidade. Andamos todos em busca da felicidade e da eliminação do sofrimento num mundo que nunca foi, apesar de tudo e de saberes maiores, pacífico e solidário. Toada do mar e da terra traz-nos até ao presente numa crónica de 2007, intitulada “Por uma Cidadania Plena”.

“Portugal não foi. Portugal é um país de emigrantes. Mas Portugal, fruto do desenvolvimento e das transformações sociais, culturais, políticas e económicas que se verificaram depois da Revolução de Abril de 1974 e da sua integração europeia, ganhou capacidade de atração, ou melhor, aumentou essa capacidade de atrair imigrantes. Porque receber cidadãos estrangeiros, sempre recebeu. Cidadãos provenientes das mais diversas origens e com motivações igualmente, distintas. Mas se a história portuguesa é feita de constantes partidas e chegadas, hoje, mais que no passado, as chegadas, não pelo seu número, mas, pelo seu impacto social e económico e, sobretudo pela situação internacional decorrente dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, assumem uma atenção e preocupação redobrada”.

Aí está. A visão de Aníbal C. Pires em Toada do mar e da terra faz-me lembrar a “poética da relação” do grande escritor francófono Édourd Glissant, natural da ilha de Martinica, nas Caraíbas. Li a versão em língua inglesa de Poetics of Relation, em que ele propõe que as ilhas nunca foram lugar de isolamento, mas sim de encontros, absorvendo constantemente os que nos vêm de fora, e sobretudo confirma não as nossas diferenças, mas o que nos une para além de línguas, sotaques e um ou outro modo de ser. É o que temos nestas belas páginas do autor de Toada do mar e da terra, a vida múltipla de um povo, e sobretudo o seu olhar constante para além do horizonte. Não se trata só aqui do relacionamento entre nove ilhas há mais de 500 anos em busca do seu encontro fraterno e sócio-económico. Sobretudo, de como os Açores têm e terão sempre de desenvolver ainda mais os seus relacionamentos com o exterior, tanto nas suas partidas históricas para todos os cantos do mundo, como agora num mais vasto recebimento dos seus convidados, que começam a visitar-nos e a conhecer-nos em números nunca vistos.

Toada do mar e da terra, pelas datas em cada crónica, faz-me recuperar alguns anos da minha desatenção, como aliás já mencionei. É isto que nos deve proporcionar a história, e ainda mais a história comentada, fazendo-nos adquirir novas perspectivas, mesmo que divergentes ou controversas, despertando o nosso pensamento e um melhor entendimento de nós próprios, do nosso lugar e do nosso tempo. Nem só o passado nos define. A consciência de termos sido é também a consciência de quem somos, ou gostaríamos de ser. A propósito, Aníbal C. Pires publicou ainda em 2009 a sua tese de mestrado intitulada significantemente Imigrantes nos Açores: Representações dos Imigrantes Face às Políticas e Práticas de Acolhimento e Integração.

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Aníbal C. Pires. Toada do mar e da Terra/volume I 2003-2008, (ilustrações de Ana Rita Afonso), Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2017. Parte deste texto foi retirado do meu prefácio ao presente livro.

Da crónica como poesia, da poesia como memória

Por causa de um texto que me foi pedido sobre Ponta Delgada, dou passos amargos no chão da cidade. Como se da alma caíssem lágrimas feridas e o caminho fosse, apenas, o recorte de uma lembrança.

Emanuel Jorge Botelho, 30 Crónicas

Vamberto Freitas

Primeira afirmação: escrevo sobre parte da obra de Emanuel Jorge Botelho, agora a 2ª edição do em dois volumes do que ele decide chamar de “crónicas”, desde os anos 80, poesia e escrita-outra. Se digo “escrita-outra” é porque a classificação de formas e géneros que não consigo distinguir. Os versos da sua dita prosa criativa, formalmente ambígua (no melhor sentido da palavra), são, uma vez mais, quase inclassificáveis, como suponho ser toda a grande literatura moderna, ou mesmo de todos os tempos em que a palavra foi grafada de vários modos. Emanuel Jorge Botelho não é um escritor qualquer, é dos melhores manipuladores da nossa língua em qualquer parte a que já nos habituamos a chamar de lusofonia. Que o faz a partir de uma pequena ilha açoriana, tanto melhor, só demonstra que a grande literatura não tem geografia nem circunstâncias especiais. Sai do artista a palavra significante em qualquer parte, com ou sem divulgação especial, com ou sem a palavra supostamente decisiva dos “críticos” ou “ensaístas, institucionais ou independentes. Raramente a grande escrita é reconhecida no seu próprio tempo, e muito menos ainda no seu próprio lugar ou país. James Joyce sabia, suponho, tal como William Faulkner o sabia, entre tantos outros e em toda a parte. Faz parte da ironia da própria arte, faz parte da nossa desatenção e tendência para as modas do momento ou, ainda pior, para atenção que prestamos às máquinas publicitárias, especialmente da pós-modernidade, nas grandes cidades onde se localizam as editoras e periódicos de voz supostamente de autoridade inquestionável. As ironias que marcam a obra do micaelense Emanuel Jorge Botelho são muitas, e todas a seu favor. Dos mais “açorianos” de todos os escritores açorianos é ele que nunca escreve certas palavras que delimitam a sua geografia e, no entanto, é ele que mais intensamente a vive, tornando a ilha o mundo inteiro, e o mundo inteiro a sua ilha. Rua a rua, prédio a prédio, personagem a personagem, vida real e a vida imaginada, passado nunca esquecido, perda a perda, quer de entes queridos amigos chegados ou mentores escolares, a sua poesia e “prosa” é uma de memória indelével e de alma aberta, que nenhum leitor poderá deixar de se rever, de se repensar, de se reinventar mesmo, nos seus recantos perdidos e reencontrados sob outras formas e modos de vida. Dito de outra maneira, o mais açoriano de todos os escritores açorianos poderá só ter Vitorino Nemésio como figura comparável, na poesia ou no acto artisticamente universal. Só com uma grande diferença: Nemésio vivia a saudade ao longe e um tanto sentimental. Emanuel Jorge Botelho vive a saudade no meio da sua cidade de nascença e vivência quotidiana. Desde sempre, e até hoje. De Nemésio temos o cheiro a mero sentimentalismo à distância. A do autor aqui em foco, Emanuel Jorge Botelho, vive a sua ilha diariamente nas ruas que foram suas, e já não são. A “verdade” da palavra faz toda a diferença. A arte literária não tem nada de ser “honesta”. A verdade da palavra não tem nada de corresponder ao momento da sua criação. Só tem de ser autêntica, a “autenticidade” de que nos falava o nova-iorquino Lionel Trilling. É o que temos nesta incomparável obra do autor de 30 Crónicas (em dois volumes), e de inúmeros livros de poesia pura.

Pela enésima vez peço ajuda a Edmund Wilson numa tentativa de entrar dentro desta fabulosa escrita de Emanuel Jorge Botelho. Wilson acreditava (erradamente, como o tempo veio a comprovar) que a prosa modernista acabaria por absorver a poesia até então só entendida em forma de versos. Só que não errou na recorrência mais diversa, entre os melhores autores do seu e do nosso tempo, à poetização da palavra em prosa. Emanuel poderá chamar o que quiser, em termos de género, à literatura que produz desde há muito, mas estas 30 Crónicas são algo muito mais do que isso. Foram publicadas originalmente como tal no extinto quinzenário Terra Nostra, e já então por esse meio eu lia-o com outro espírito e interpretação. São como que poemas em verso livre, todos eles com um determinado fio condutor, e um tom elegíaco a gente amada desaparecida, aos lugares da sua infância, ao sentido mais profundo de pertença a uma pequena cidade açoriana que virava um continente imenso de vida e afazeres, e todos os continentes se tornavam, parafraseando um filósofo de cá, a “casa do seu ser”. Nada e ninguém lhe escapava na felicidade ou na tristeza do momento ou do que ficou para sempre no seu sangue, no seu modo de ser e estar, quer no passado quer nos dias presentes. São as “crónicas” das suas perdas, de um mundo sem retorno, mas que nele vive o seu olhar sobre as coisas e as gentes. Poderá falar de uma vizinha costureira, simplesmente, mas torna-a uma personagem inesquecível, busca e encontra a sua humanidade, com a qual o leitor se identifica sem complexos nem sentimentos absurdos do riso sem razão ou da lágrima sentimental. Ler a descrição de uma rua que já nada tem do seu tempo de infância e juventude, é como passearmo-nos numa cidade que nunca conhecemos, mas que se torna parte de nós. Essa Ponta Delgada de outrora não era apenas uma pátria que nos dá vida – é todo um universo que desperta a nossa imaginação e nos dá um outro sentido de saudade, em que o remorso das perdas convive com a alegria dos que nos rodeavam e protegiam, faziam de nós algo mais do que seres isolados, irrequietos, alienados, marcados por ódios e invejas provindas de nunca vermos o outro como nosso par ou vizinho e que comunga da nossa sorte na vida. A palavra não dita tem tanto poder significante como a que ele escreve, inserida numa prosa poética tão curta como vasta. Numa entrevista que lhe fiz nos idos de 1993, dizia-me algo de semelhante, e a que recorro agora.

“O intimismo é uma conquista solitária ou, pelo contrário, uma síntese sitiada, da solidariedade?

Quando pouso (ouso pousar…) os punhos no papel, sei que os tenho fechados, e que estou sozinho.

Mas desconheço por completo, se estarei só”.

Esse “intimismo” de que nos fala está sempre guardado nos seres e nos lugares que lhe deram vida, e sobretudo significado de vida, nos seus dias perdidos. Mantém uma memória viva das suas irremediáveis perdas, mas que continuam presentes no seu “silêncio”. Algumas das páginas mais contundentes não só se dirigem à família que o rodeia no seu quotidiano, mulher, filhos e até os bichos que se passeiam nos quartos da sua casa, como muito especialmente à recordação do olhar do seu falecido pai. Recria nestas páginas o seu companheirismo em cenas inesquecíveis. Ir à praia com ele diariamente pelas seis e pouco da tarde, e sentar-se na areia a vê-lo dar os mergulhos da saúde, e mais tarde lembrar que a sua carreira exemplar de carteiro seria menosprezada por uma comissão de gente que entendeu reduzir-lhe a quantia da reforma a que tinha direito pela sua dedicação e profissionalismo. Di-lo, como sempre, em pouquíssimas palavras, mas abre-nos o retrato de todo um país doente e injusto desde sempre. A primeira parte da sua dedicatória neste segundo volume das “crónicas” não deixa dúvidas a ninguém: “em memória de José Maria Botelho, o meu pai”. Para um poeta e prosador como Emanuel Jorge Botelho, que tem o mundo inteiro na mente e na alma, não deixa de ser irónico, ou então o mais honesto de todos os nossos escritores. Somos os nossos mais chegados antepassados, e a nossa terra o chão de todos os afectos e memórias, a terra que nos define e nos proporciona a nossa mais profunda identidade. Nenhum escritor será do mundo antes de ser da sua casa e do seu “território do coração”, como diria outro escritor numa outra língua.

Por fim, diga-se que os dois volumes sob o título de 30 Crónicas são ilustrados pelo não menos genial Urbano, cuja biografia e vida artística vêm anotadas nas últimas páginas. O melro preto pousado ou em voo está em perfeita sintonia com esta escrita da terra açoriana e do espaço sem fim com símbolos predominantes. Ler Emanuel Jorge Botelho e olhar a beleza desta edição é um reencontro com nós próprios, com tudo o que nos traz memória e vida vivida. É raro na nossa literatura encontrar tanta beleza e verdade.

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Emanuel Jorge Botelho, 30 Crónicas (com ilustrações de Urbano), Ponta Delgada, Letras Lavadas/Artes e Letras, 2017.