Da linguagem como personagem, da imaginação como história

Durante a manhã, o sol percorria a cabeça, subindo pelas crinas. Ao meio-dia tocava no dorso e ao poente começava a bater-lhe na garupa, descendo lentamente pelas patas.

Teolinda Gersão, A casa da cabeça de cavalo

Vamberto Freitas

Permitam-me começar por uma confissão inevitável. Quando este romance de Teolinda Gersão, A casa da cabeça de cavalo, foi originalmente publicado em 1995 (pela D. Quixote) eu andava quase totalmente dedicado ao estudo da literatura açoriana contemporânea, e pouco depois às obras de escritores luso-descendentes na América do Norte. Muita da nossa literatura de escritores continentais passou-me ao lado, pois o tempo não chegava para tudo, muito menos para leituras atentas de outros grandes autores. Ultimamente, as reedições de muitas destas obras têm-me facilitado este regresso essencial a alguns dos livros que mais marcaram a literatura moderna portuguesa, como acontece aqui com a reedição deste romance no fim do ano passado, que na altura recebeu o Prémio APE, e recebeu justamente um rol apreciável de recensões e críticas tanto em Portugal como no Brasil, onde a autora viveu dois anos, para além de ter dado aulas em países como a Alemanha, acabando a sua carreira académica na Universidade Nova de Lisboa. Primeira observação da minha leitura: mais dos que os próprios protagonistas e personagens secundários, esta é uma peça literária em que a própria linguagem domina a atenção e a nossa leitura devoradora, numa combinação de obscurantismos metafóricas e imagísticos como nas viragens de tom, tempo ficcional, ritmo, seriedade, ironia, e sobretudo humor. A trama do romance acaba por tomar um lugar quase secundário, sem que deixe de sobressair a história de uma região e de um país que cobre séculos de vida até à contemporaneidade, em que tudo já não existe, inclusive a casa e os seus mais excêntricos habitantes aristocratas e seus servidores, com olhares momentâneos ao resto da aldeia algures no norte do país onde se situa toda esta geografia de serranias e de uma humanidade que apenas vive um quotidiano repetitivo e sem quaisquer consequências ou interesse para além da sua própria sobrevivência quieta e calada. Não queria utilizar expressões ou classificações que já se tornaram clichés, como realismo mágico, mas que esta prosa da autora toma inesperadas formas fantasmagóricas também não pode ser ignorado, tal como, de certo modo, já havia acontecido com a sua novela Passagens, no qual tanto ouvimos a voz da morta como dos que a rodeiam no seu velório, por vezes fazendo lembrar Finnegan’s Wake, de James Joyce. Aliás, A casa da cabeça de cavalo faz-me ainda pensar noutros grandes romances como Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez e A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. Estamos aqui num Portugal mítico em que, uma vez mais, a história está ligada à fantasia pura, os costumes da comunidade em conflito com os desejos ou crenças de cada um.

A casa da cabeça de cavalo já não existe no começo do romance, a besta colada na sua parede tem a capacidade de correr pela vila, espantando e amedrontando os seus habitantes, tal a imaginação e memórias passadas de geração em geração. Praticamente toda a acção do romance passa-se portas adentro, com namoros desejados ou proibidos, com patriarcas à vigia e ameaçadores perante qualquer prevaricação. De resto, a memória colectiva aqui leva-nos a um Brasil desejado e ainda colónia aquando da chegada lá da corte de D. João VI em fuga perante a grande invasão francesa, ou então pela emigração de aristocratas indigentes, até à chegada à vila de um Francês de nome Filipe, também em fuga a qualquer coisa feita na sua terra, a mulheres que passam os dias entretidas com afazeres caseiros e vigiando os outros pelas janelas da casa senhorial à moda desses séculos passados e turbulentos. Os nomes dos personagens são tantos que se tornaria cansativo recitá-los num texto como este. Basta dizer de que um Januário tem sempre em sua frente um bloco notas, e vai tentando recriar ou não o passado da família ou do clã. Nenhum deles se safa de juízos maléficos, e o francês é olhado sempre como intruso representativo não só dos violadores, destruidores e ladrões de um Portugal sem governo e à deriva, como ingleses também denunciados como supostos aliados cuja intenção principal era pilhar o país e tomar controlo do melhor da cidade do Porto e arredores. Sim, a história e fantasia provocam na autora a maior audácia de linguagens que descrevem a casa, a vila, e por inferência o pobre país que, pelo menos na época, na passava de um aglomerado de aristocratas caídos e miseráveis de rua ou em cafés e esquinas pouco aconselháveis. “Uma rede de múltiplas vozes – escreveu João Barrento sobre a primeira edição deste romance — que emergem sem aviso prévio de um passado brumoso para entrarem num complexo jogo narrativo… O fascínio do simbolismo e a beleza da linguagem criam um universo singular e inconfundível”. Se recorro aqui a um dos nossos grandes ensaístas e críticos é porque, muito simplesmente, as suas palavras descrevem na perfeição este quase inqualificável romance de Teolinda Gersão, Barrento definindo, estou em crer, todas as qualidades e técnicas da grande literatura Ocidental.

Quando Edmund Wilson, o crítico americano que antes de ninguém apresentou aos leitores mais sofisticados do seu país o modernismo europeu a partir de Proust até James Joyce decidiu aventurar um ensaio sobre o Finnegans Wake, já aqui mencionado, seria esse talvez o mais ilegível de todos os romances saídos naquela altura. A sua interpretação não ficou nem poderia ficar pelos passos mais obscuros, que incluía palavras inventadas e frases mais do que contorcidas. Procedeu então ao que mais ninguém faria: imaginou o que o morto estava a dizer aos que o velavam e sobre o que ele outros iam dizendo ou lembrando, uma coisa ou outra. A grande arte literária tem momentos assim, cada leitor terá de decifrar os significados de cada passo narrativo ou diálogo sobre acontecimentos incertos, acontecidos ou meramente imaginados pelas vozes que nos vão contando a história de cada outro personagem ou acontecimentos colectivos dentro e fora das geografias referenciais de qualquer ficção. Acontece algo de semelhante em A casa da cabeça de cavalo: as palavras ou acções de um personagem são quase sempre relatadas por outro personagem que testemunhou ou imaginou situações que nos poderão proporcionar os mais improváveis ou mesmo falsos significados. Ficamos sempre pela fluência das linguagens, mas nunca pela sua “verdade” ou “mentira”. Michael Holland, que foi professor de literatura comparada numa faculdade californiana e um dos meus grandes mestres, para quem a nova crítica vinda dos anos 40 ainda lhe dizia alguma coisa, avisava-nos sempre que tivéssemos cuidado com a “fiabilidade” do protagonista-narrador ficcional, teríamos de decidir se ele estava a contar a história com “seriedade” ou simplesmente querendo levar o leitor a interpretações falsas, mas plausíveis. Quando os mortos falam, mais ambíguas se tornam as suas afirmações e recordações.

“No segundo degrau – diz o narrador no encerramento do romance – o mundo dos vivos ficava mais distante, esbatiam-se os contornos nítidos das coisas e percebia-se que a parede fina, de vidro ou de água, não ficava adiante, impedindo o acesso à vida, mas atrás, vedando acesso a outro lugar da morte. Nessa altura em que se atravessava a parede muita coisa se esfumava na lembrança, embora se recordassem, com grande nitidez, pormenores aparentemente sem importância, a que gostavam de apegar-se, porque sentiam que, se os esquecem-se, ficavam desligados do universo que lhes continuava a ser familiar e entravam no desconhecido”.

Estas são estórias interligadas, cada uma quase funcionando como um conto integral, e juntas tornam-se no grande romance que é A casa da cabeça de cavalo. Se lermos a ficção posterior de Teolinda Gersão, nem a sua temática nem as suas formas literárias tomaram rumos muito diferentes. Esta unidade da sua obra faz parte da grande escritora que ela é, da sua originalidade absoluta entre uma geração de notáveis escritoras portuguesas desde o século passado até aos nossos dias.

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Teolinda Gersão, A casa da cabeça de cavalo, Porto, Porto Editora, 2017.

Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 26 de Janeiro de 2018.

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VAMBERTO FREITAS: os olhos atentos da nossa escrita

Álamo Oliveira

Vamberto Freitas publicou, há poucos dias, o livro 4 de borderCrossingsleituras transatlânticas IV. Os seus leitores já não estranham que este ensaísta os vá contemplando com dádivas tão necessárias de se ter e ler. Na verdade, os quatro livros são a arrumação de um criterioso trabalho de escrita que incide sobre a escrita dos outros. A ficção narrativa e a ensaística que, de alguma forma, refletem a açorianidade na sua dispersa, mas importante posição geográfica, bem como a escrita anglo-americana, que deu a Vamberto Freitas saberes e vivências socioculturais marcantes, aparecem, nestes quatro livros, com transatlântica persistência crítica. Isto é: os textos incluídos foram, primeiramente publicados em jornais e revistas em separado, embora, quando agrupados, ganhem a coerência de um tratado, aqui entendido pela unidade de critérios analíticos que assentam em princípios teóricos criticamente aceites. Porém, as análises feitas por Vamberto Freitas não se espartilham no rigor matemático das teorizações, bastas vezes antagónicas, apesar de, muitas vezes, terem sido conquistadas em debates académicos de prestígio. Os seus textos surgem sob uma linguagem clara, direta, apelativa, relevando sempre a ideologia prevalecente, a capacidade discursiva e a estruturação da obra analisada. Vamberto Freitas expressa-se de forma a fazer com que o leitor aceite a importância de determinado livro, criando aliciantes, mas justificando sempre e com rigor os motivos das suas sugestões de leitura.

A muitos, parecerá que Vamberto Freitas nunca escreve nada de negativo sobre um livro ou um leitor. Não é assim. Quem tem seguido os seus textos encontra exemplos que chamam a atenção para a mediocridade, sendo até mais exigente sempre que está em referência um autor que tem a obrigação de saber e de conhecer melhor sobre o que escreve. Claro que ele, para além de gozar de uma independência académica e cultural reconhecida publicamente, faz as suas escolhas de leitura e, destas, volta a escolher o que quer analisar escrevendo.

Sobre os escritos ensaísticos de Vamberto Freitas, escreveram um naipe notável de opiniões, também elas críticas, conceituadas, justas e deferentes. Leia-se Teresa Martins Marques, Eugénio Lisboa, Carlos Bessa, Urbano Bettencourt, Aníbal C. Pires, Diniz Borges, Onésimo Teotónio Almeida, entre outros, têm borderCrossings 4 como ponto de atenções. São três textos de autores exigentes e de créditos firmados nas Letras portuguesas.

Ao referenciar criticamente autores anglo-americanos, Vamberto Freitas alia os escritores luso-americanos, informando que estes não podem temer comparações (quase sempre inevitáveis) com escritores de outras proveniências geoculturais quanto à qualidade literária. A denominada Literatura étnica nos Estados Unidos tem merecido uma atenção muito especial por parte de V. Freitas, salientando os problemas decorrentes da integração sociocultural, com chamadas pertinentes para os da diáspora açoriana.

Pelas ilhas, onde escasseiam leitores e espaços de divulgação da paradoxal abundância editorial, Vamberto Freitas continua a militar, quase isoladamente, na escrita e na publicação dos textos críticos sobre os livros que vai lendo, divulgando, sobretudo, o que tem vindo a sair dos prelos de autoria ou de interesse açorianos.

A disciplinada persistência de Vamberto Freitas na publicação dos seus textos críticos tem permitido que autores e livros sejam conhecidos em muitos outros espaços, nomeadamente nos Açores e Continente português, nos Estados Unidos da América e do Brasil. Os escritores açorianos (e não só) devem-lhe a generosa divulgação de centenas e centenas de livros que, de outra forma, nem se conheceria a sua existência.

Finaliza-se com a calendarização, também ela muito regular, de borderCrossing – leituras transatlânticas, a saber: livro 1 data de 2012; livro 2, 2014; livro 3, 2016; livro 4, finais de 2017.

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Publicado no “Açoriano Oriental Artes & Letras”, número 29, de 22 de Janeiro de 2018.

 

 

BorderCrossings: Leituras Transatlânticas

SANTOS NARCISO

Leituras Transatlânticas são o retrato de que há sempre fronteiras para atravessar e o único passaporte é o desejo de deixar conhecimento onde muitos conhecimentos não podem chegar. Escrevi isto há mais ou menos um ano. E hoje volto a repetir, depois de ler mais um volume – já o IV – do BorderCrossings, de Vamberto Freitas.

Como muito bem escrevem José Ernesto Resendes, Gerente da Nova Gráfica/Publiçor/Letras LAVAdas e José Andrade, até há pouco Director Editorial da Letras LAVAdas, Vamberto Freitas orgulha e prestigia, ainda mais, a carteira de autores desta chancela editorial. E não é para menos! Como já afirmei diversas vezes, Vamberto Freitas é um Apóstolo da Literatura. Sem fronteiras, no sentido literal, essencialmente quando se trata de Literatura Açoriana, Portuguesa e Americana, das duas costas dos Estados Unidos, passando pelo Canadá e indo até ao Brasil.

Mais ainda: ele afirma-se pela literatura e pela sociedade, ou como a arte reflecte o quotidiano das nossas vidas, e sobretudo como os escritores deste tempo reagem a um período de transição histórica que atinge tanto o indivíduo como a comunidade em que está inserido, ou as vidas transfiguradas ou espelhadas na prosa, poesia ou no ensaísmo com que nos identificamos, ou que nos desafia a compreender outros modos de ser e estar. E é neste “pela literatura e pela sociedade” que Vamberto Freitas afirma, com a frontalidade que se lhe conhece, a determinação da sua escrita e daquilo que espera das suas leituras: Se não há nada a dizer ou a representar, não haverá forma que salve qualquer escrito! Porque, esclarece, o experimentalismo literário já se tornou (quase) uma noção anacrónica e suspeita.

Para quem lê as dezenas de ensaios, crónicas e recensões espalhadas pelas três centenas e meia de páginas deste BorderCrossings IV há algo que ultrapassa a vasta cultura literária, a capacidade de entender os outros e a sua escrita e o domínio dos assuntos que apresenta e comenta. Vamberto Freitas surpreende – ou, se calhar, não – pelo coração e pela dimensão afectiva com que escreve. E vou citar um só caso, que podia multiplicar por dezenas: A páginas 99 desta edição há um título assim – Quando lemos quem amamos!
Nem precisei de mais para perceber. E li aquelas quatro páginas, uma duas e três vezes. Porque ali está o Vamberto, eterno menino das Fontinhas, com todo o coração a falar para a sua Adelaide – Sei que sou a sua Memória. Se todo o livro é bom, este capítulo é sublime e vale mais do que toda esta magnífica obra, porque o tal Instante suspenso nos toca e nos transporta ao mundo de quem sabe estar no mundo. Por isso mesmo sinto e partilho a alegria de Vamberto Freitas quando anuncia que a primeira edição em inglês do Sorriso Por Dentro da Noite, de Adelaide Freitas, sai na Primavera nos EUA pela Universidade de Masssachusetts (Dartmouth) e pela Brown University. E faço minhas as palavras e razões de Álamo Oliveira: ela foi (é) uma brilhante escritora açoriana da Língua portuguesa; a mais sublime: ela foi (é) sempre um sorriso por dentro da vida”.

Voltando a estas Leituras Transatlânticas IV, curioso é referir a esquematização do livro dividido em três partes e uma coda, esta constituída por uma interessante conversa com Rui Dores e um ensaio sobre Intelectuais públicos no nosso tempo. Na primeira parte do livro tudo gira à volta das Ilhas na Diáspora e da Diáspora nas Ilhas, enquanto a segunda encerra diversos ensaios Do Nosso tempo e a na terceira parte, não menos fascinante, somos convidados a uma viagem a Outros Imaginários Americanos.

Muitos textos reunidos em mais este volume que foi apresentado, em Novembro, por Urbano Bettencourt e Carlos Bessa, no espaço de eleição de Vamberto Freitas, a Artes e Letras, Livraria Leya, foram publicados na coluna que o escritor mantém no Açoriano Oriental ou foram proferidos em encontros seminários e sessões culturais e académicas em que tem participado. Contrariamente aos que dizem e escrevem que este tipo de livros não têm muitos leitores, eu creio que acontece – ou devia acontecer – precisamente o contrário. Nem todos os que se interessam pela literatura, pelas questões literárias ou pela produção literária têm hipótese e possibilidade de estar nos muitos acontecimentos que neste sector cultural se desenrolam e muito menos têm ocasião de ler e seguir o que vai sendo editado. E muitas vezes, o academismo e elitismo com que as coisas são apresentadas criam como que uma redoma, onde os mesmos se olham e contemplam. Livros como estes borderCrossings que Vamberto vai apresentando são o sair dessa redoma e são um ar fresco da cultura posta ao serviço da sociedade. E o seu autor nem se deve preocupar muito com o facto de serem pouco ou muito vendidos. Aqui deve funcionar a lógica de que a mesa está posta e com suculentas refeições. O apetite maior ou menor, pertence a cada um! E uma coisa é certa: Vamberto Freitas tem o dom de fazer com que cada texto lido seja sempre aperitivo para a leitura seguinte. É um dom de quem é professor. E ele próprio admite isto. Ainda no passado dia 31 de Dezembro de 2017, numa grande entrevista concedida à jornalista Carla Dias, do jornal Correio dos Açores, o mesmo jornal onde durante cinco anos Vamberto Freitas produziu o inesquecível SAC – Suplemento Açoriano de Cultura e a sua coluna Mar Cavado que em 1998 daria um livro com o mesmo nome, com chancela da Salamandra, dizia ele que para se escrever em qualquer país parte-se especialmentede duas profissões: o jornalismo e o ensino. Ainda hoje, ver um artigo meu assinado num jornal local me traz mais satisfação do que num jornal nacional. Isso para mim é um estimulante constante de nunca parar.

E este “nunca parar” tem muito fundo, porque na vida de Vamberto Freitas, nas actuais circunstâncias derivadas da doença de Adelaide Freitas, escrever é um acto de solidão, como ele próprio reconhece na mesma entrevista: Um dia perguntaram-me porque é que leio tanto e escrevo tanto. Faço isso porque passo a maior parte da minha vida sozinho e na mesma casa onde as coisas aconteciam de outra maneira e eu quero que essas coisas continuem a acontecer, como uma homenagem a ela. Eu não tenho um único livro, talvez só o primeiro porque não a conhecia, que não seja dedicado a ela. Porque eu estou a escrever muitas vezes e penso o que diria a Adelaide deste parágrafo.

Também daqui, neste abraço, e nestas Leituras do Atlântico, o que posso dizer que é que quero que Vamberto continue, até porque, agora, tem responsabilidades acrescidas. Em Maio de 2017 foi distinguido pelo Congresso Americano pelo trabalho desenvolvido em prol da literatura norte-americana, imigrante e lusodescendente. No mesmo ano recebeu também o diploma de reconhecimento da cidade de Tulare o que confirma o mérito internacional do reconhecimento autonómico que já lhe havia sido prestado em 2015, pelos Açores. E, com o espírito que lhe é próprio, os galardões nunca serão para Vamberto Freitas, passaportes para a fama, que bem merece, mas estímulo para o trabalho com que nos vai continuar a brindar.

Parabéns, Vamberto! E foi de propósito que quis que este teu livro fosse a matéria da minha primeira página Leituras do Atlântico escrita já neste ano de 2018.

E vou repetir aqui o que já escrevi: BorderCrossings é mais do que cruzar fronteiras: é uma cruzada sem fronteiras!

 

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Publicado no semanário “Atlântico Expresso” de 8 de Janeiro, 2018.

 

Vamberto Freitas — Literatura e culturas

Uma leitura que se faça deste IV volume de borderCrossings–leituras transatlânticas, um livro   tão heterogéneo ou tão diverso (para utilizar o termo de E. Glissant), tem de seleccionar algumas linhas de força e socorrer-se delas de modo a construir um quadro suficientemente abrangente do seu sentido (ou sentidos) e também da sua dinâmica interna.

É do conhecimento comum a proveniência dos textos reunidos neste volume: a página ou coluna de título homónimo que VF mantém semanalmente no Açoriano Oriental: uma página de crítica ou ensaio literário que constitui uma espécie de oásis e parêntesis num espaço público e comunicacional em que o literário se veio rarefazendo

Neste contexto, essa presença semanal (e ainda o suplemento mensal que VF e Álamo Oliveira fazem sair no mesmo jornal) constitui um acto de persistência ou de teimosia, daquela teimosia do poema nemesiano em que o fio de água continua a cair sobre a rocha, «na esperança de um cântaro desponte» e ela se torne útil. E isto abre caminho a um primeiro modo de ver este livro: em termos directos ou indirectos o que ele traduz é ainda a crença optimista no poder da literatura, a convicção de que ela pode desempenhar um papel social, um papel que se exerce sempre a nível individual num primeiro momento (enquanto escrita e objecto de leitura).

Mesmo sendo uma «contra-afirmação do mundo» (G. Steiner), ou talvez mesmo por sê-lo, a literatura tem a capacidade de interrogar o mundo e desvendar os seus labirintos mais secretos, que são primordialmente os do homem, as suas perplexidades, fantasmas e contradições, e de, no mesmo passo, levar-nos a aprofundar o conhecimento e os mecanismos da desumanização e da barbárie, mas também da generosidade e da entrega (e sem necessidade de se confundir tudo isto com a prescrição de um qualquer código de conduta estética para uso de filiados e devotos).

Essa atitude ou modo de abordar a literatura não é, no entanto, dissociável de uma presença textual em que se ancora e radica, ou seja, a figura de Edmund Wilson («o maior crítico americano», escreveu recentemente Pedro Mexia no Expresso). Em capítulo exclusivo sobre o crítico literário ou em simples referências avulsas ao longo do livro, aí fica registada a centralidade de E. Wilson na definição de um modo de entender a literatura nas suas relações com o seu tempo histórico e social e, simultaneamente, na descrição do que deva ser o discurso crítico no seu papel de mediador entre o texto e o leitor. Um breve excerto ajudará  a explicitar essa filiação no pensamento de E. Wilson: «Ter lido o seu póstumo Letters on Literature and Politics 1912-1972 foi mais do que uma descoberta, foi um encontro decisivo sobre a importância, sobre a elegância e sobretudo a relevância do discurso público e privado sobre a literatura como documentação de um tempo e de uma cultura no contexto histórico em que acontece.» (p. 346; sublinhados meus).

Ora, o que borderCrosssings IV nos deixa é precisamente essa presença de culturas várias e de olhares diferenciados sobre o mundo actual, seja o olhar do próprio VF, seja o dos autores por ele convocados e objecto do seu discurso ensaístico. As diferentes secções em que se encontra organizado o livro assinalam, de facto e em primeiro lugar, uma atenção às diversas escritas do mundo, numa dispersão correspondente à pluralidade de interesses pessoais do autor e proporcional à natureza do mosaico cultural e literário que é o do nosso dia a dia. Essa organização constrói, por outro lado, uma imagem de conjunto das representações que essas escritas nos deixam de um mundo caótico e complexo, feito de descentramentos sucessivos e de novos recentramentos, num processo de instabilidade constante em que as formas culturais e os imaginários se entrechocam e interpenetram, se adaptam e refazem, e que E. Glissant designa por crioulização.

Neste sentido, a primeira secção do livro é particularmente elucidativa, enquanto chama atenção para a re-leitura trans-atlântica, isto é, americana, de um imaginário açoriano que, parecendo ainda ser o mesmo, é já uma coisa outra na escrita da segunda e terceira gerações de imigrantes, que o receberam por transmissão, não por experiência directa, e o reformulam no interior de outra língua e de outra cultura. É apenas um exemplo mais óbvio, para falar do resto, afinal.

Aqui ficam, portanto, estas anotações gerais sobre um livro a ler demoradamente, na sequência dos três anteriores e que, em conjunto, representam ainda um repositório daquilo que de essencial se tem publicado nos Açores ou sobre os Açores e sem perder de vista o que por outros lados se vai dizendo sobre a nossa particular condição humana neste tempo perigoso que nos vai sendo dado viver.

Parafraseando, em síntese, um título de E. Glissant, poderia dizer que o livro de Vamberto Freitas é mais um contributo para um ensaísmo do diverso.

 

Urbano Bettencourt

Ponta Delgada, 17.11.2017

 

 

 

Da literatura e de uma vida vivida

Na pulsação do espaço/e no espasmo do silêncio/a sobreposição dos sentidos!/No fundo…/um espírito intacto,/comovido.

Adelaide Freitas, De Emigração Tecido

Vamberto Freitas

Quando me olhas com ternura, quando te digo uma só palavra e ouço a tua tentativa de me dizeres algo, sei que estás comigo e sei que estás em mim. A tua doença devora o teu corpo, mas regressas sempre à tua cama aqui em casa. A tua amiga “AP” faz-te um carinho e aperta a tua mão, e tu não queres nunca deixar que ela se vá, que te abandone. Saboreavas, quando ainda te era possível, as tuas comidas com gosto, e quando te levam à sala principal dos nossos livros, vemos o sorriso em ti, como olhas as flores na tua varanda e reages com a alegria que sobressai da tua cara e conforto das tuas companhias. Por vezes dormes serenamente, outras em grande agitação, nunca sei se de dores ou sonhos. Sei isto: quando nos aproximamos ficas calma. Muitas vezes as tuas cuidadoras dizem-me que estás de olhos abertos e só dormes quando te dou o beijo da noite e do amor. Depois volto à nossa sala cheia de estantes com as tuas fotos e livros, olho serenamente, por vezes falo contigo, sempre como se estivesses a meu lado, e eu mandar-te piadas políticas – a literatura que fizeste é outra questão e falarei dela em linhas mais à frente. Não foste só uma distinta Professora Associada na Universidade dos Açores, especializada, uma das primeiras entre todos em Portugal, em literatura norte-americana, com o teu Moby Dick: A Ilha E O Mar – Metáforas Do Carácter Do Povo Americano. Foste uma colaboradora política que ajudou a fundar e depois dirigiste com mão segura e consciência aberta o então Instituto de Acção Social nos Açores, para quem os mais pobres e vulneráveis foram a tua missão durante cinco anos. Adoro ver a tua foto num Congresso do PSD, aos microfones, cheia de vida e de garra, de convicções, nas quais obviamente acreditavas e sobre as quais agias diariamente. Passo por ti nessas imagens, e só digo que vocês, laranjinhas, arranjaram muito bem, particularmente quando certo líder chamou a Portugal a uma denominada troika, que eles, os europeus, sem qualquer vergonha na cara, haviam adotado de uma expressão perfeitamente russa. Depois vejo-te numa outra foto em Nova Iorque comigo, com a mulher de João de Melo, carinhosamente chamada de Tita. Nada em nós morreu, amor, viverá tudo para sempre enquanto tu estiveres aí e eu aqui. Não, eles não sabem nada da tua doença. Sei eu e as mulheres que estão a teu lado todos os dias. Sabemos que tens uma vida, e agimos como tal. Em tudo. Não falas connosco, mas falamos sempre contigo. Escondo as minhas lágrimas porque sei que te comoveriam ainda mais. Quando dormes serenamente, eu fecho o meus olhos e tento dormir um pouco. Acordo e beijo-te outra vez. Depois apetece-me dizer aos arrogantes e cheios de si que encontro todos os dias aqui e ali: façam o favor de visitar as urgências no hospital para vermos o quanto não valemos. Quando um desses tristes me diz que a tua “não é uma vida”, eu respondo quase sempre de modo indelicado: Não, a Adelaide tem uma vida, é a vida que tem, e a nossa obrigação é zelar por ela. Quando te internam por uns dias, o teu quarto vazio é a minha dor e a minha saudade. Sem a tua presença a nossa casa fica vazia, sem sentido, nem rumo, sem o mínimo significado.

Vivemos anos intensos, cheios de vida, de risos e choros. Não tenho saudades de nada –sem ti. Nem sequer de sair da ilha, já vi todos os museus que queria ver, todas as catedrais que foram erguidas por escravos em toda a Europa, todas as ruas que as classes dominantes ordenavam, todos os hotéis da classe média e todas as suas lojas. De universidades, nem falar, muito menos dos seus pedantes e falsos sabedores. Só tenho saudades tuas. Ter saudades de quem está ao nosso lado, e a olhar-me, é a maior crueldade de sempre. Releio os teus livros, a tua prosa crítica fulminante, a tua poesia, ficção e ensaio. Tenho saudades de quando me davas um texto para ler antes de o publicares, e tenho ainda mais saudades de quando eu estava a escrever, e caladamente te colocavas atrás de mim sem eu dar por isso, e depois tocavas no me ombro e dizias: Vamberto, isso é violento, não és tu, a tua alma não é essa. Eu respondia só que escrevia o que queria e entendia. Voltavas ao teu espaço de trabalho, eu relia, e sabia que tinhas razão. Mudava logo certas palavras e apreciações menos agradáveis. Hoje volto a reler, e só vejo sabedoria, elegância e generosidade da tua parte. Muitos escreveram sobre a tua obra, aqui nos Açores, no Continente, e em vários outros países, especialmente nos Estado Unidos e no Brasil. A tua tese, uma vez mais, aborda sem medos ou complexos o mais canónico de todos os romances canónicos norte-americanos. Nunca me falavas disso, mas eu não esqueço. A tua prosa continua a ser a maior referência minha. Quando se ama a escritora que eras não posso nunca esquecer, não posso nunca de deixar aprender contigo.

“O mar — escreves nessas páginas — já não é, como nos tempos clássicos, um perigo assombrado, violento, aterrorizador… À maneira do período anglo-saxónico, um símbolo natural da vida espiritual. Não representa, como em Shakespeare, o sofrimento; nem é sagrado, nem protector: de força impessoal, através da qual o homem media a sua coragem ou medo, institui-se como situação real a ser apreendida no medonho e no belo que reúne, impondo-se como objecto estético a ser fruído. O seu perigo, movimento e força excitam, a sua solidão e profundeza abissais inspiram respeito, a sua beleza faz pasmar de encanto aqueles que a contemplam”. Isto é de uma escritora a falar do mar como se fosse rodeado de ilhas como a nossa, onde é em terra que paira o terror e não nas águas profundas à nossa volta.

Depois da tortura bela que foi a escrita da tua prosa doutoral, sentiste o resto, a necessidade da poetização do teu passado e presente. Estava para vir a tua poesia e prosa ainda mais maravilhosa, emotiva, razão e coração sem os protocolos da academia. Veio a poesia De Emigração Tecido, João de Melo e a Literatura Açoriana, Viagem Ao Centro do Mundo, Regresso a Casa: Uma Proposta de Intervenção Social, em que, ainda no Governo Regional dos Açores, advogavas que os velhos e doentes deveriam ficar em casa a cuidado dos seus e o com o apoio sem favores do Estado, e depois o romance (para nós profético) Sorriso Por Dentro Da Noite. “Na força expressiva – escreve Ana Marques Gastão no Diário de Notícias – do seu verbo, na fluidez da frase, na discreta modulação do ritmo, na clareza da narrativa conseguida sem grande artifício, no esboçar das personagens, umas psicologicamente mais densas, outras menos, Adelaide Freitas dá-nos um romance que, na ductilidade que oferece, uma história de sangue e ternura no movimento e vida interiores”. Não haverá escritor que não desejasse estas palavras, e foram apenas algumas entre outras de nomes como Álamo Oliveira, Diniz Borges, Luiz António de Assis Brasil, Onésimo Teotónio Almeida e Fernanda Rodrigues Garcia. Por fim, os teus ensaios de Nas Duas Margens: da Literatura Norte-Americana e Açoriana. Quero que saibas que nada disto será esquecido, nem por mim nem sequer pelos menos atentos, pois a minha voz nunca se calará, a todo o custo e contra toda a ignorância ou desmemória, entre os que muito te devem e que deveriam respeitar o teu contributo ao bem-estar da sociedade açoriana, e ainda mais à nossa literatura.

Cruzas os teus, nossos, dois mundos como poucos o fizeram, pelo menos neste lado do Atlântico. Portugal e a América não eram para ti meras abstrações e muito menos as chamadas “comunidades imaginárias”. Foram o teu território, vivido e sofrido diariamente, em directo ou ao longe. Foi, sempre, a tua Viagem ao Centro do Mundo. Como já escrevi tanta vez, se és o meu passado e presente, eu serei sempre a tua memória. Resides permanentemente em mim. A tua obra literária e a tua dedicação, mesmo partidária, mas nunca dogmática, aos Açores e ao seu povo é a maior das minhas heranças. Como tenho a certeza que são também parte da história do país de onde nos foi dado nascer, assim como ao país no outro lado do mar onde hoje residem, vivem e morrem alguns dos nossos mais queridos familiares, amigos e colegas.

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Foto de Adelaide Freitas no princípio dos anos 90, durante uma intervenção sua num congresso do PSD/Açores, aqui em Ponta Delgada.

Vida e morte numa sociedade à deriva

Bem sei que a epígrafe acima é longa, mas a verdade é que poucos romances me tocaram de maneira tão pessoal como directa. Também tenho a perfeita consciência que uma peça literária (ou qualquer forma ou género de arte) deve ser lida e apreciada com o distanciamento de quem observa atentamente os infindáveis mundos e vidas aí retratadas. Quando escrevi aqui há tempos sobre o mais recente romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, O Pianista de Hotel, abri de seguida este seu outro romance publicado em 2005, e que já ia na 11ª edição em 2009, tendo a levar-me a concluir que haveria uma continuidade temática e formal muito próxima da minha experiência de vida durante os últimos anos. Só o título A Casa Quieta tornou-se-me inquietante, e depois de o folhear tomei consciência que doença, solidão e perdição de vidas reinventadas nestas suas páginas eram os seus temas predominantes, e que seriam uma espécie de espelho pessoal, tão claro como naturalmente contorcido. As palavras que citei aqui pareciam uma descrição perfeita da minha própria casa, com os seus quartos vazios e o silêncio de uma mulher prostrada já sem consciência de si, de mim, e provavelmente de tudo que a rodeia. Harold Bloom escreveu no seu recente The Daemon Knows, e volto a reproduzir as suas palavras mais contundentes, agora neste outro contexto: “Toda a crítica é memória, e o único método crítico sou seu”. Esta é uma leitura muito pessoal da minha parte. Se um ensaísta da estatura de Bloom o diz em relação ao acto interpretativo, um romance como este não me é só memória. Mais do que isso, parece-me uma espécie de “autobiografia”, e o aconchego ao texto ficcional torna-se inevitavelmente um gesto tão intelectual como emotivo, mas não sentimentalista no pior significado da palavra. A Casa Quieta, nas suas múltiplas vozes na primeira pessoa concedidas pelo protagonista de nome Salvador (arquitecto de profissão, que nunca construiu uma casa própria) aos seus vários personagens, às mulheres e aos homens que lhe estão simultaneamente perto e longe, quer no seu interiorismo quer nos seus modos de vida, torna-se numa narrativa joyceana que combina o mais puro realismo com fugas de imaginação poética sobre a sua condição presente com os momentos mais marcantes do seu passado enquanto Mariana (professora) definha num quarto até à sua morte. Quando o romance abre em 2005, ela já está ausente, sem terem deixado filhos, só uma vida existencialista que ia sendo pensada e desenvolvida ao acaso e perante a ameaça sempre presente da morte. Por mais que estas minhas palavras poderão levar um eventual leitor a pensar, não se trata de uma ficção deprimente ou que nega o valor da vida, as suas próprias vidas e tudo que constitui o seu e o nosso dia-a-dia. A arte literária não necessita de passar mensagens – deve colocar-nos perante nós próprios, e ainda mais perante os outros que olham, vêem e entendem as coisas de modos diferentes, mesmo que permaneçam na mesma sociedade e perante dilemas semelhantes, a condição humana nas suas mais inesperadas circunstâncias, mas que em nada difere de uns para outros.

A Casa Quieta tem como referencial fora de portas Lisboa, ou melhor, um país à deriva, cada um no seu nicho interior e solitário, as multidões passam despercebidas, ou então olham-se com toda a indiferença, um motorista zangado apita a outro em aviso numa cidade, agora sim, irrequieta. O pai de Salvador e sogro de Mariana torna-se numa espécie de outro protagonista ausente de si próprio, que também foi arquitecto, acaba sozinho, como todos os outros aqui. Este não é um “romance de ideias”, é um romance que vai ao mais profundo interiorismo do nosso ser, de personagens que se cruzam sem se falar nem olhar-se em elevadores, frequentam restaurantes da moda ou prestigiados e que lhes fornecem em gestos de mero reconhecimento de quem lhes paga os seus pratos favoritos numa rotina sem sentido e muito menos carinhosa. Dos parágrafos narrativos passamos a poemas (que não o parecem, mas são) ou frases avulsas, mas que nunca perdem o seu significado no contexto da história. Como diriam certos teóricos brasileiros da literatura, estamos aqui, página a página, num imparável “fluxo de consciência”, por vezes sem sabermos se estamos no presente ou no passado. A legibilidade desta prosa, no entanto, é sempre claríssima. Por entre a consciência da dor e da perda nunca perdemos de vista o destino inevitável, o fim de tudo, o nada do nada, o não-significado de cada uma destas vidas, ou sentido trágico da nossa existência tal como já o entendiam os gregos antigos.

Aqui há tempos li The Nearest Thing To Life, um conjunto de ensaios sobre ficção e outros temas das nossas vidas de James Wood, crítico-mor do The New Yorker. Aconselhava a outros: mete-te dentro dos textos sobre os quais escreves. É sexta-feira à noite, e eu estou a ler A Casa Quieta estou na minha casa, sim, “quieta”, ouvindo só a respiração da minha companheira deitada, ora tranquila ora agitada, no seu quarto, e rodeada das mais várias lembranças de si e de nós. Isso não é, nesses momentos, um livro de ficção, é a minha vida, a minha companhia dialogante no seu silêncio sem remissão. Não tenho jornais por perto na minha secretária, não os desejo, muito menos a televisão ruidosa e quase sempre fútil e cheia de cores que nada têm a ver com o meu estado de alma. Olho o vasto oceano da minha janela, e regresso logo depois ao romance que tenho entre mãos. Fico a saber que não estou só na minha sorte, nas minhas ausências, repito, sem regresso possível. Sei que estas outras vidas vividas ou imaginados de A Casa Quieta sou eu próprio, ou quase o que penso ser ou o que estou a viver. Volto a dar mais um beijo terno na testa da minha companheira depois de fechar o livro e tentar dormir sem pesadelos. Quando a arte nos toca assim, estamos dentro do texto, como diria o já citado James Wood, estamos na companhia de quem nos fala em directo, de quem nos mostra como até nestes momentos a beleza de estarmos vivos é a nossa própria força contra o sofrimento dos outros.

“Tu eras. E – diz o narrador a dada altura – passo a citar. Uma voz ao fundo do corredor assim que ouvias as minhas chaves na mesinha de vidro. Eras as luzes acesas. Eras a fechadura a rodar mil vezes. Para um lado e para o outro mais mil vezes, a fechares o mundo lá fora, até suspeito que os vizinhos. Suspeitavam que tínhamos ponte levadiça e fossos com jacarés… Tu eras. Passo a citar. Nós. Ainda há pouco vi que já não somos mais. Sou um homem de pé num hall de entrada que sabe que escusa de tirar o sobretudo, descalçar. Os sapatos que me magoam. Tu eras as luzes acesas. Eras uma casa à minha espera. Ainda há pouco cheguei, poisei as chaves e a minha casa já não é a minha casa ou pelo menos. Já não importa, não és”.

A Casa Quieta é um desses romances que me faltava depois de toda uma vida inteira a ler. Não há gratidão de um leitor devido a qualquer autor. Há a grande sorte e a alegria de o ter descoberto num determinado livro e momento. Foi este o meu caso aqui. Foi-me “doloroso” lê-lo. Só que toda a grande literatura provoca isso em nós. Vou regressar às suas páginas. A beleza das palavras têm por vezes este poder sem igual – rever-nos uma vida, e o leitor pensar-se como um dos seus personagens.

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Rodrigo Guedes de Carvalho, “A Casa Quieta”, Lisboa, 2009. Publicado a 12 de Janeiro de 2018..

Do amor, do ódio e da nossa desumanidade

No dia 10 de Julho de 1941, em Jedwabne, pequena cidade do nordeste da Polónia, um grupo de cidadãos, na sua maioria cristãos, reuniram à força os seus vizinhos judeus na praça principal e, num festim de violência conduziram-nos até um celeiro que incendiaram, queimando vivas centenas de pessoas, incluindo muitas crianças.

João Pinto Coelho, Os Loucos Da Rua Mazur

Vamberto Freitas

Leio o novo romance de João Pinto Coelho, Os Loucos Da Rua Mazur (Prémio LeYa 2017), com a Polónia como referencial geográfico e humano, em primeiro plano, antes e durante a II Guerra Mundial. Vem no seguimento do seu primeiro grande romance, Perguntem a Sarah Gross (2015), que também tem a Polónia como fundo referencial durante a II Guerra Mundial e o Holocausto como sorte de uma distinta família daquele país que havia regressado da América às origens logo depois da I Grande Guerra. Já nesse seu romance João Pinto Coelho demonstrou não a raiva ou a paixão contra nacionalidades, mas sim a sua quase não compreensão de tanta crueldade inerente ao ser humano. Entre essa Europa e os Estados Unidos demonstrou com toda a ironia de um grande escritor a sua perplexidade ante a nossa capacidade de morte e amor nos mais extremos da crueldade e do bem-querer ao próximo. Não, não será só esta outra narrativa fabulosa de Os Loucos da Rua Mazur, fundamentada na História e na imaginação do próprio autor que me volta a surpreender. São as suas linguagens, a estrutura perfeita da sua prosa a vários tempos e geografias europeias, o seu equilíbrio na descrição entre o Bem e o Mal, “o coração humano em conflito consigo próprio”. Grande narrador, este, que tem a coragem de sair de temas mais do que velhos na nossa pátria, e que nos traz genialmente a condição humana nos seus piores e melhores momentos. Dá continuidade aos séculos da miséria, fazendo-nos lembrar, sem nunca nada disso mencionar, as matanças e fogueiras do Rossio. Amor e ódio, uma vez mais, o ser humano em todas as suas contingências e contradições da alma e da razão. A epígrafe que dá início a este meu texto resume perfeitamente a história aqui recontada, e vem numa nota final do livro como testemunho verdadeiro do que aconteceu naquela pequena cidade dividida em dois bairros separados entre cristãos e judeus, algures no nordeste da Polónia, perdida entre densas florestas e praticamente fora de contacto com o resto do país e do mundo. Abre com o primeiro e o último capítulos em Paris, intercalando os acontecimentos no pequeno povoado nos anos entre 1934, quando ainda os seus habitantes nem imaginavam o que viria em poucos anos da Alemanha e da União Soviética, e 1941, quando sob o olhar alemão a chacina dos judeus pelos seus vizinhos cristãos quase se torna uma festa numa chamada Praça do Mercado, e acaba no inferno autêntico, num celeiro nos seus arredores.

A estrutura do romance movimenta-se entre esses tempos e os primeiros anos que começam em 2001, onde está a ser escrito o romance dentro da própria narrativa, e que relata finalmente o que os seus três protagonistas haviam vivido e sofrido, safando-se do grupo em ira e na irracionalidade de séculos entre a cristandade e o judaísmo em praticamente toda a Europa central e de leste desde tempos imemoriáveis. Creio que a primeira consideração de qualquer leitor atento a um romance que combina toda a violência documentada já em milhares de volumes de História e arte pura das suas linguagens é que nenhum dos seus narradores fictícios leva a culpas cegas de um ou outro grupo, falam do que viram e viveram agora a um distanciamento de tempo suficiente para que a dor de estarmos vivos sobressair ou impor-se a qualquer ódio entre uns e outros. Se eu fosse polaco e cristão não sentiria que se trata nem de um ajuste contas literário, e muito menos de um libelo anticristão ou nacionalista, mas sentiria a obrigação de um mea culpa absolutamente devida aos judeus como país, tal como e muito especialmente a Alemanha e a União Soviética. Poucos povos europeus estarão livres da mesma tragédia ou da mesma convivência, que poderá ser insegura mas que tenta não repetir o passado. Entretanto, chego à última página deste grande romance e custa-me resistir a analisá-lo adentro do contexto de uma certa Europa de hoje que vem manifestando de novo toda a intolerância, preconceitos e raivas do passado, não só perante os judeus como perante outros cidadãos, hoje refugiados entre nós. Um romance, ou qualquer peça de arte nos mais variados géneros, não tem nem deve ser um aviso, e este, estou em crer, não o é. Desperta a nossa memória, isso sim, inevitavelmente. Os seus três protagonistas são de nome Yankel, judeu, Erik, cristão, e Shionka, filha de uma mãe cigana, e que perde a voz na sua infância. A ternura e amor entre os três na Polónia antes e depois da chegada dos assassinos do seu povoado é de uma originalidade raramente vista na nossa literatura, ou em qualquer outra. Os três conseguem sobreviver à matança na sua aldeia, e conseguem chegar a uma outra Europa. Yankel é cego mas torna-se um livreiro numa livraria sua em Paris e simbolicamente rodeado de relógios que fazem lembrar a passagem do tempo mas não da tragédia “demasiado humana”, como diria um dos grandes filósofos alemães antes da loucura total, e que escreveu que ser anti-semita era um sinal de idiotice absoluta. Erik chega à Bélgica, muda de nome e torna-se um escritor de referência, e Shionka passa a ser Viviene, que recupera a fala na sua nova liberdade e dignidade, e torna-se editora e amante do agora autor chamado Paul Lestrange, que está a morrer e procuram os dois o velho amigo e íntimo companheiro Yankel em Paris para completar o romance, tudo o que tinham vivido na Polónia. São três dos mais estranhos personagens em literatura portuguesa, e, no entanto, são símbolos da perdição de nós todos, em guerra ou em paz. Não conseguimos fugir da, ou negar a sua profunda humanidade, a sua amizade, os seus ciúmes, as suas infâncias, as sortes de vida tão diferentes como comuns. Depressa esquecemos os seus carrascos, os que em toda a parte, tanto num lado como no outro da sua aldeia (que se torna símbolo do mundo inteiro), e em que uma reduzida e arrogante elite em tudo manda e pretendem decidir. Fica-nos na memória, acima de tudo, a coragem da sobrevivência, e os laços indestrutíveis entre três amigos-amantes que não só dão continuidade à vida como nos relembram do inferno como parte do nosso quotidiano. João Pinto Coelho – e resisto a comparar grandes escritores – mostra-nos a crueldade de sociedades derrotadas na guerra, e nessa queda a crueldade que se segue entre uns e outros. Os Loucos Da Rua Mazur pode aludir a uma comunidade isolada em tempos que gostaríamos de esquecer, mas é sobretudo uma metáfora do mundo em que nós próprios vivemos hoje, e em toda a parte. Desde a Europa às Américas e a todos os outros continentes vivemos tempos de grandes incertezas e ameaças. Não conheço outro romance, pelo menos na nossa língua, que tenha a coragem de ligar um passado ainda recente aos nossos dias, e que ameaça o regresso da morte e da desgraça. Tal como nestas páginas de prosa histórica e realista e de poetização pouco comum, o romance de João Pinto Coelho parece um quadro semelhante a “Guernica”, de Picasso – a nossa agonia não tem fim à vista, e a sua natureza ou origem totalmente inexplicáveis.

O que virá a seguir deste singular autor, não tenho a mínima ideia, nem me cabe a mim sugerir e adivinhar. Sei que se ele seguisse este romance com a heróica revolta do Gueto judeu em Varsóvia durante a selvajaria alemã constituiria uma trilogia perfeita, e sem igual na nossa literatura. Ser um autor português desta grandeza é ser um autor europeu do mesmo nível. Em Portugal, andamos sempre obcecados com a nossa própria história. Só que o nosso destino, a partir da descolonização africana, foi um regresso ou entrada pela primeira vez na vida do continente europeu a que pertencemos por inteiro e por direito. O destino judaico neste mesmo espaço tem tudo a ver connosco, mesmo quando o nosso próprio Estado tentava virar a cara durante a II Guerra Mundial, e negava as suas responsabilidades. O anti-semitismo tem tudo a ver com o nosso destino. São romances como este que nos deveriam lembrar dos nossos próprios crimes – e eventualmente redenção. Os Loucos Da Rua Mazur é tanto uma história polaca como portuguesa, e sobretudo de tantos outros países na vizinhança. É uma obra maior – na sua arte e na sua memória.

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João Pinto Coelho, Os Loucos Da Rua Mazur, Lisboa, LeYa, S. A., 2017.