Da literatura e de uma vida vivida

Na pulsação do espaço/e no espasmo do silêncio/a sobreposição dos sentidos!/No fundo…/um espírito intacto,/comovido.

Adelaide Freitas, De Emigração Tecido

Vamberto Freitas

Quando me olhas com ternura, quando te digo uma só palavra e ouço a tua tentativa de me dizeres algo, sei que estás comigo e sei que estás em mim. A tua doença devora o teu corpo, mas regressas sempre à tua cama aqui em casa. A tua amiga “AP” faz-te um carinho e aperta a tua mão, e tu não queres nunca deixar que ela se vá, que te abandone. Saboreavas, quando ainda te era possível, as tuas comidas com gosto, e quando te levam à sala principal dos nossos livros, vemos o sorriso em ti, como olhas as flores na tua varanda e reages com a alegria que sobressai da tua cara e conforto das tuas companhias. Por vezes dormes serenamente, outras em grande agitação, nunca sei se de dores ou sonhos. Sei isto: quando nos aproximamos ficas calma. Muitas vezes as tuas cuidadoras dizem-me que estás de olhos abertos e só dormes quando te dou o beijo da noite e do amor. Depois volto à nossa sala cheia de estantes com as tuas fotos e livros, olho serenamente, por vezes falo contigo, sempre como se estivesses a meu lado, e eu mandar-te piadas políticas – a literatura que fizeste é outra questão e falarei dela em linhas mais à frente. Não foste só uma distinta Professora Associada na Universidade dos Açores, especializada, uma das primeiras entre todos em Portugal, em literatura norte-americana, com o teu Moby Dick: A Ilha E O Mar – Metáforas Do Carácter Do Povo Americano. Foste uma colaboradora política que ajudou a fundar e depois dirigiste com mão segura e consciência aberta o então Instituto de Acção Social nos Açores, para quem os mais pobres e vulneráveis foram a tua missão durante cinco anos. Adoro ver a tua foto num Congresso do PSD, aos microfones, cheia de vida e de garra, de convicções, nas quais obviamente acreditavas e sobre as quais agias diariamente. Passo por ti nessas imagens, e só digo que vocês, laranjinhas, arranjaram muito bem, particularmente quando certo líder chamou a Portugal a uma denominada troika, que eles, os europeus, sem qualquer vergonha na cara, haviam adotado de uma expressão perfeitamente russa. Depois vejo-te numa outra foto em Nova Iorque comigo, com a mulher de João de Melo, carinhosamente chamada de Tita. Nada em nós morreu, amor, viverá tudo para sempre enquanto tu estiveres aí e eu aqui. Não, eles não sabem nada da tua doença. Sei eu e as mulheres que estão a teu lado todos os dias. Sabemos que tens uma vida, e agimos como tal. Em tudo. Não falas connosco, mas falamos sempre contigo. Escondo as minhas lágrimas porque sei que te comoveriam ainda mais. Quando dormes serenamente, eu fecho o meus olhos e tento dormir um pouco. Acordo e beijo-te outra vez. Depois apetece-me dizer aos arrogantes e cheios de si que encontro todos os dias aqui e ali: façam o favor de visitar as urgências no hospital para vermos o quanto não valemos. Quando um desses tristes me diz que a tua “não é uma vida”, eu respondo quase sempre de modo indelicado: Não, a Adelaide tem uma vida, é a vida que tem, e a nossa obrigação é zelar por ela. Quando te internam por uns dias, o teu quarto vazio é a minha dor e a minha saudade. Sem a tua presença a nossa casa fica vazia, sem sentido, nem rumo, sem o mínimo significado.

Vivemos anos intensos, cheios de vida, de risos e choros. Não tenho saudades de nada –sem ti. Nem sequer de sair da ilha, já vi todos os museus que queria ver, todas as catedrais que foram erguidas por escravos em toda a Europa, todas as ruas que as classes dominantes ordenavam, todos os hotéis da classe média e todas as suas lojas. De universidades, nem falar, muito menos dos seus pedantes e falsos sabedores. Só tenho saudades tuas. Ter saudades de quem está ao nosso lado, e a olhar-me, é a maior crueldade de sempre. Releio os teus livros, a tua prosa crítica fulminante, a tua poesia, ficção e ensaio. Tenho saudades de quando me davas um texto para ler antes de o publicares, e tenho ainda mais saudades de quando eu estava a escrever, e caladamente te colocavas atrás de mim sem eu dar por isso, e depois tocavas no me ombro e dizias: Vamberto, isso é violento, não és tu, a tua alma não é essa. Eu respondia só que escrevia o que queria e entendia. Voltavas ao teu espaço de trabalho, eu relia, e sabia que tinhas razão. Mudava logo certas palavras e apreciações menos agradáveis. Hoje volto a reler, e só vejo sabedoria, elegância e generosidade da tua parte. Muitos escreveram sobre a tua obra, aqui nos Açores, no Continente, e em vários outros países, especialmente nos Estado Unidos e no Brasil. A tua tese, uma vez mais, aborda sem medos ou complexos o mais canónico de todos os romances canónicos norte-americanos. Nunca me falavas disso, mas eu não esqueço. A tua prosa continua a ser a maior referência minha. Quando se ama a escritora que eras não posso nunca esquecer, não posso nunca de deixar aprender contigo.

“O mar — escreves nessas páginas — já não é, como nos tempos clássicos, um perigo assombrado, violento, aterrorizador… À maneira do período anglo-saxónico, um símbolo natural da vida espiritual. Não representa, como em Shakespeare, o sofrimento; nem é sagrado, nem protector: de força impessoal, através da qual o homem media a sua coragem ou medo, institui-se como situação real a ser apreendida no medonho e no belo que reúne, impondo-se como objecto estético a ser fruído. O seu perigo, movimento e força excitam, a sua solidão e profundeza abissais inspiram respeito, a sua beleza faz pasmar de encanto aqueles que a contemplam”. Isto é de uma escritora a falar do mar como se fosse rodeado de ilhas como a nossa, onde é em terra que paira o terror e não nas águas profundas à nossa volta.

Depois da tortura bela que foi a escrita da tua prosa doutoral, sentiste o resto, a necessidade da poetização do teu passado e presente. Estava para vir a tua poesia e prosa ainda mais maravilhosa, emotiva, razão e coração sem os protocolos da academia. Veio a poesia De Emigração Tecido, João de Melo e a Literatura Açoriana, Viagem Ao Centro do Mundo, Regresso a Casa: Uma Proposta de Intervenção Social, em que, ainda no Governo Regional dos Açores, advogavas que os velhos e doentes deveriam ficar em casa a cuidado dos seus e o com o apoio sem favores do Estado, e depois o romance (para nós profético) Sorriso Por Dentro Da Noite. “Na força expressiva – escreve Ana Marques Gastão no Diário de Notícias – do seu verbo, na fluidez da frase, na discreta modulação do ritmo, na clareza da narrativa conseguida sem grande artifício, no esboçar das personagens, umas psicologicamente mais densas, outras menos, Adelaide Freitas dá-nos um romance que, na ductilidade que oferece, uma história de sangue e ternura no movimento e vida interiores”. Não haverá escritor que não desejasse estas palavras, e foram apenas algumas entre outras de nomes como Álamo Oliveira, Diniz Borges, Luiz António de Assis Brasil, Onésimo Teotónio Almeida e Fernanda Rodrigues Garcia. Por fim, os teus ensaios de Nas Duas Margens: da Literatura Norte-Americana e Açoriana. Quero que saibas que nada disto será esquecido, nem por mim nem sequer pelos menos atentos, pois a minha voz nunca se calará, a todo o custo e contra toda a ignorância ou desmemória, entre os que muito te devem e que deveriam respeitar o teu contributo ao bem-estar da sociedade açoriana, e ainda mais à nossa literatura.

Cruzas os teus, nossos, dois mundos como poucos o fizeram, pelo menos neste lado do Atlântico. Portugal e a América não eram para ti meras abstrações e muito menos as chamadas “comunidades imaginárias”. Foram o teu território, vivido e sofrido diariamente, em directo ou ao longe. Foi, sempre, a tua Viagem ao Centro do Mundo. Como já escrevi tanta vez, se és o meu passado e presente, eu serei sempre a tua memória. Resides permanentemente em mim. A tua obra literária e a tua dedicação, mesmo partidária, mas nunca dogmática, aos Açores e ao seu povo é a maior das minhas heranças. Como tenho a certeza que são também parte da história do país de onde nos foi dado nascer, assim como ao país no outro lado do mar onde hoje residem, vivem e morrem alguns dos nossos mais queridos familiares, amigos e colegas.

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Foto de Adelaide Freitas no princípio dos anos 90, durante uma intervenção sua num congresso do PSD/Açores, aqui em Ponta Delgada.

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