Da linguagem como personagem, da imaginação como história

Durante a manhã, o sol percorria a cabeça, subindo pelas crinas. Ao meio-dia tocava no dorso e ao poente começava a bater-lhe na garupa, descendo lentamente pelas patas.

Teolinda Gersão, A casa da cabeça de cavalo

Vamberto Freitas

Permitam-me começar por uma confissão inevitável. Quando este romance de Teolinda Gersão, A casa da cabeça de cavalo, foi originalmente publicado em 1995 (pela D. Quixote) eu andava quase totalmente dedicado ao estudo da literatura açoriana contemporânea, e pouco depois às obras de escritores luso-descendentes na América do Norte. Muita da nossa literatura de escritores continentais passou-me ao lado, pois o tempo não chegava para tudo, muito menos para leituras atentas de outros grandes autores. Ultimamente, as reedições de muitas destas obras têm-me facilitado este regresso essencial a alguns dos livros que mais marcaram a literatura moderna portuguesa, como acontece aqui com a reedição deste romance no fim do ano passado, que na altura recebeu o Prémio APE, e recebeu justamente um rol apreciável de recensões e críticas tanto em Portugal como no Brasil, onde a autora viveu dois anos, para além de ter dado aulas em países como a Alemanha, acabando a sua carreira académica na Universidade Nova de Lisboa. Primeira observação da minha leitura: mais dos que os próprios protagonistas e personagens secundários, esta é uma peça literária em que a própria linguagem domina a atenção e a nossa leitura devoradora, numa combinação de obscurantismos metafóricas e imagísticos como nas viragens de tom, tempo ficcional, ritmo, seriedade, ironia, e sobretudo humor. A trama do romance acaba por tomar um lugar quase secundário, sem que deixe de sobressair a história de uma região e de um país que cobre séculos de vida até à contemporaneidade, em que tudo já não existe, inclusive a casa e os seus mais excêntricos habitantes aristocratas e seus servidores, com olhares momentâneos ao resto da aldeia algures no norte do país onde se situa toda esta geografia de serranias e de uma humanidade que apenas vive um quotidiano repetitivo e sem quaisquer consequências ou interesse para além da sua própria sobrevivência quieta e calada. Não queria utilizar expressões ou classificações que já se tornaram clichés, como realismo mágico, mas que esta prosa da autora toma inesperadas formas fantasmagóricas também não pode ser ignorado, tal como, de certo modo, já havia acontecido com a sua novela Passagens, no qual tanto ouvimos a voz da morta como dos que a rodeiam no seu velório, por vezes fazendo lembrar Finnegan’s Wake, de James Joyce. Aliás, A casa da cabeça de cavalo faz-me ainda pensar noutros grandes romances como Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez e A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende. Estamos aqui num Portugal mítico em que, uma vez mais, a história está ligada à fantasia pura, os costumes da comunidade em conflito com os desejos ou crenças de cada um.

A casa da cabeça de cavalo já não existe no começo do romance, a besta colada na sua parede tem a capacidade de correr pela vila, espantando e amedrontando os seus habitantes, tal a imaginação e memórias passadas de geração em geração. Praticamente toda a acção do romance passa-se portas adentro, com namoros desejados ou proibidos, com patriarcas à vigia e ameaçadores perante qualquer prevaricação. De resto, a memória colectiva aqui leva-nos a um Brasil desejado e ainda colónia aquando da chegada lá da corte de D. João VI em fuga perante a grande invasão francesa, ou então pela emigração de aristocratas indigentes, até à chegada à vila de um Francês de nome Filipe, também em fuga a qualquer coisa feita na sua terra, a mulheres que passam os dias entretidas com afazeres caseiros e vigiando os outros pelas janelas da casa senhorial à moda desses séculos passados e turbulentos. Os nomes dos personagens são tantos que se tornaria cansativo recitá-los num texto como este. Basta dizer de que um Januário tem sempre em sua frente um bloco notas, e vai tentando recriar ou não o passado da família ou do clã. Nenhum deles se safa de juízos maléficos, e o francês é olhado sempre como intruso representativo não só dos violadores, destruidores e ladrões de um Portugal sem governo e à deriva, como ingleses também denunciados como supostos aliados cuja intenção principal era pilhar o país e tomar controlo do melhor da cidade do Porto e arredores. Sim, a história e fantasia provocam na autora a maior audácia de linguagens que descrevem a casa, a vila, e por inferência o pobre país que, pelo menos na época, na passava de um aglomerado de aristocratas caídos e miseráveis de rua ou em cafés e esquinas pouco aconselháveis. “Uma rede de múltiplas vozes – escreveu João Barrento sobre a primeira edição deste romance — que emergem sem aviso prévio de um passado brumoso para entrarem num complexo jogo narrativo… O fascínio do simbolismo e a beleza da linguagem criam um universo singular e inconfundível”. Se recorro aqui a um dos nossos grandes ensaístas e críticos é porque, muito simplesmente, as suas palavras descrevem na perfeição este quase inqualificável romance de Teolinda Gersão, Barrento definindo, estou em crer, todas as qualidades e técnicas da grande literatura Ocidental.

Quando Edmund Wilson, o crítico americano que antes de ninguém apresentou aos leitores mais sofisticados do seu país o modernismo europeu a partir de Proust até James Joyce decidiu aventurar um ensaio sobre o Finnegans Wake, já aqui mencionado, seria esse talvez o mais ilegível de todos os romances saídos naquela altura. A sua interpretação não ficou nem poderia ficar pelos passos mais obscuros, que incluía palavras inventadas e frases mais do que contorcidas. Procedeu então ao que mais ninguém faria: imaginou o que o morto estava a dizer aos que o velavam e sobre o que ele outros iam dizendo ou lembrando, uma coisa ou outra. A grande arte literária tem momentos assim, cada leitor terá de decifrar os significados de cada passo narrativo ou diálogo sobre acontecimentos incertos, acontecidos ou meramente imaginados pelas vozes que nos vão contando a história de cada outro personagem ou acontecimentos colectivos dentro e fora das geografias referenciais de qualquer ficção. Acontece algo de semelhante em A casa da cabeça de cavalo: as palavras ou acções de um personagem são quase sempre relatadas por outro personagem que testemunhou ou imaginou situações que nos poderão proporcionar os mais improváveis ou mesmo falsos significados. Ficamos sempre pela fluência das linguagens, mas nunca pela sua “verdade” ou “mentira”. Michael Holland, que foi professor de literatura comparada numa faculdade californiana e um dos meus grandes mestres, para quem a nova crítica vinda dos anos 40 ainda lhe dizia alguma coisa, avisava-nos sempre que tivéssemos cuidado com a “fiabilidade” do protagonista-narrador ficcional, teríamos de decidir se ele estava a contar a história com “seriedade” ou simplesmente querendo levar o leitor a interpretações falsas, mas plausíveis. Quando os mortos falam, mais ambíguas se tornam as suas afirmações e recordações.

“No segundo degrau – diz o narrador no encerramento do romance – o mundo dos vivos ficava mais distante, esbatiam-se os contornos nítidos das coisas e percebia-se que a parede fina, de vidro ou de água, não ficava adiante, impedindo o acesso à vida, mas atrás, vedando acesso a outro lugar da morte. Nessa altura em que se atravessava a parede muita coisa se esfumava na lembrança, embora se recordassem, com grande nitidez, pormenores aparentemente sem importância, a que gostavam de apegar-se, porque sentiam que, se os esquecem-se, ficavam desligados do universo que lhes continuava a ser familiar e entravam no desconhecido”.

Estas são estórias interligadas, cada uma quase funcionando como um conto integral, e juntas tornam-se no grande romance que é A casa da cabeça de cavalo. Se lermos a ficção posterior de Teolinda Gersão, nem a sua temática nem as suas formas literárias tomaram rumos muito diferentes. Esta unidade da sua obra faz parte da grande escritora que ela é, da sua originalidade absoluta entre uma geração de notáveis escritoras portuguesas desde o século passado até aos nossos dias.

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Teolinda Gersão, A casa da cabeça de cavalo, Porto, Porto Editora, 2017.

Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 26 de Janeiro de 2018.

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