História e mítica da Califórnia, ou uma metáfora do sonho americano no seu extremo

Tal era o poder da história na qual eu me tinha criado e crescido que me invadiu este pensamento que se tornou uma revelação: o povoamento do Oeste, mesmo que inevitável, não tinha sido levado a cabo para o bem de todos, nem tinha a qualquer nível beneficiado até mesmo aqueles que se tinham apoderado das riquezas mais óbvias.

Joan Didion, Where I Was From

Vamberto Freitas

Entre os livros que acabo de ler, alguns deles de memórias de autores famosos na cultura literária norte-americana, nenhum deles me tocou tão profundamente como “Where I Was From/De Onde Eu Era”, de Joan Didion (1993), a grande escritora do Norte da Califórnia, Sacramento, a capital do grande e mais rico estado da mais rica nação do mundo. 27 anos de vivência naquela parte da América, no extremo real e metafórico da sua fronteira a oeste permite-me agora entende-la numa outra completude e condição existencialista. Não é só sobre a história de uma das mais enigmáticas geografias culturais e ideológicas dos EUA, tratando-se de uma obra sobre a condição universal, a dor de cada um de nós em qualquer parte do mundo. Cito aqui uma das suas mais lapidares e certeiras declarações, que vai ao fundo do coração humano: “There is no real way to deal with everything we lose/Não há nenhuma maneira de enfrentar tudo e todos que perdemos nas nossas vidas”. Estas suas memórias, autobiografia e história social e económica da Califórnia, fazem parte de uma das mais distintas autoras, que nasceu em 1934, e continua a viver em Nova Iorque, para onde se mudou cedo na sua carreira. Creio que poucos outros autores conhecem o seu lugar de nascença e onde viveu até à sua formação na Universidade da Califórnia, em Berkeley, como Joan Didion. A autora começa a escrever com distinção desde os seus tempos de faculdade, e ainda hoje permanece como a mais distinta estilista e consequente ensaísta e ficcionista da sua geração, em que olha com uma lupa intelectual e realista todo o seu país, e até a América Latina. Tenho muitos dos seus livros aqui na minha estante, e tenho na mente alguns dos seus mais pertinentes e criativos ensaios publicados em grandes periódicos do seu país, que já fazem parte de um vasto cânone, como The White Album, Plat It As It Lays, e especialmente Slouching Towards Bethhelem, Miami e El Salvador. Não, não os li todos, mas li boa parte deles. Na ficção, li Democracy, no qual a ironia e a mentira do seu próprio país é o tema predominante, tal como, já depois de viver nos Açores, li a sua obra incomparável de ensaios simplesmente intitulados After Henry. Ter sido, como fui, imigrante ou cidadão de dupla nacionalidade no estado da autora, a sua descoberta foi sempre para mim um momento do chamado choque de reconhecimento: que uma nativa de sete gerações numa Califórnia de absolutos contrastes me esclarecia a minha própria sorte e estilo de vida foi ou foram momentos de grande emoção e pensamento. Joan Didion não só nos apresentava as contradições da nossa vivência, sonhos que disso não passavam, uma existência em suspenso sem saída ou meta clara a atingir – avisa-nos de que a mais longínqua e indefinida fronteira americana era uma de vida e morte, de ilusões e muito particularmente de perdas irreparáveis e do esquecimento do passado e dos que nos tinham antecedido na aventura, quer tenhamos partido da Europa ou de outras geografias mais longínquas, quer tenhamos nascido no próprio território feito de minas ilusórias e do mais desenfreado capitalismo selvagem, muito do qual ironicamente iniciado e depois financiado pelos governos estaduais e federais.

O estilo de Joan Didion vem do chamado novo jornalismo dos anos 60, no qual a mistura de factos documentados se juntam à intromissão pessoal, ou no qual a autora se mete “dentro do texto”, contrastando discursos oficiais com a sua própria experiência de vida, dia-a-dia, ano após ano. Fala aqui de acontecimentos que então eu vivia de perto nos meus 27 de América, como fala dos mais estranhos momentos de violência comunitárias que eu já acompanhava ao longe aqui dos Açores. Fala de uma Califórnia que conheci e vivi de perto nas comunidades rurais de Tulare, no Vale de São Joaquim e arredores, como fala de muitas geografias que me eram íntimas, em certas cidades na Grande Área de Los Angeles onde eu vivia simultaneamente com medo e sentido de realização. Fala da Califórnia da minha alegria e das minhas aflições. Sou filho, também, das mais estáveis e até prósperas comunidades luso-americanas, mas sempre consciente de um sistema e de uma classe governante capitalista sem moral nem piedade, que havia recebido a sua infinita riqueza dos governos estaduais e federais, da qual comíamos as migalhas que caíam da mesa e nos davam a ilusão de que estávamos nos melhores dos mundos. A grande narrativa de Joan Didion começa em 1846, quando o roubo de terras e os monopólios dos caminhos de ferro tudo controlavam e amedrontavam. Até hoje. A sua história começa com a travessia continental dos desgraçados em busca de terras e pátria, e acaba com a destruição de comunidades inteiras após a retirada tanto da indústria de defesa durante a Guerra Fria até à indústria aeroespacial e ao domínio do Silicon Valley, em que ela diz que todo o Norte da Califórnia se tornou num gigantesco San Jose, a cidade quase sem fronteiras e estendida por toda a parte, no qual os açorianos, mais ou menos, ainda predominam. De “portugueses”, só fala numa página, e ainda assim para castigar o discurso de certos protagonistas do famoso romance do “socialista”, absolutamente hipótrica e de nome Jack London, pelo menos na sua ficção de The Valley of the Moon. Fala-me de Tulare, Visalia, Delano, e assim por diante. Não vejo aqui os bandidos do Pacific Railroad, ladrões de guerras subsidiadas e criminosos contra os pequenos agricultores. Vejo a minha gente açor-americana: trabalhadora e inteligente, que um dia controlou cerca de sessenta por cento da indústria da produção do leite, assim como da agricultura em geral, constituindo ainda algumas das melhores e, repito, mais estáveis comunidades da Califórnia. Só que entendo e aceito a história de Joan Didion do seu estado natal, e a sua criminalidade na distribuição de terras às grandes empresas supostamente agro-pecuárias.

“Californianos – escreve Joan Didion nestas impressionantes memórias – de um certo espírito programático durante muitos anos apresentaram estas mudanças pós-Guerra como sendo positivas, o génio maior do lugar: era convencional mencionar o sistema de autoestradas, a indústria aeroespacial, o Plano Maior da Universidade da Califórnia, o Silicon Valley, o plano massivo de desvio das águas que era financiado quando Pat Brown era governador, todo o pacote, a celebrada promessa que a Califórnia estaria dedicada a criar e a educar uma aparentemente infinita e expansiva classe-média. A mais recente atitude programática foi continuar as mesmas mudanças negativas, promessas falsas: as autoestradas que facilitam o crescimento desordenado, a indústria aeroespacial que já se foi, a Universidade da Califórnia que tem perdido professores e salas de aula e a redução de orçamentos, o Silicon Valley que aumentou os preços das casas para além das posses dos residentes não-técnicos na Califórnia, e quase todo o estado continua sem água”.

Joan Didion é, sem dúvida, uma das maiores escritores norte-americanas do nosso tempo – no melhor jornalismo e na ficção. Conhece o seu estado de origem como ninguém, filha das gerações que atravessaram todo um continente, mesmo antes da independência do país em 1776. Viveu directamente como poucos de nós a Califórnia de ponta a ponta, inclusive aquele enclave muito estranho e decadente chamado Hollywood, onde trabalhou com o seu marido, o romancista de renome John Gregory Dunne, Play-Land, Crooning e The Red White And Blue, entre alguns outros romances, que também tenho na minha estante aqui em casa, na escrita de guiões para filmes de todo o género.

Joan Didion, que eu saiba, ainda não esta traduzida no nosso país. É um outro mistério para mim.

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Joan Didion, Where I Was From, London, Harper Perennial, 2014. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

Quando o alter ego de Philip Roth se justifica perante os seus e os outros

Gostaria de pensar que, se e quando nascer o dia em que receberás o teu convite para ires a Estocolmo receber um Prémio Nobel, teremos dado um modesto contributo com a vista a despertar a tua consciência para as responsabilidades da tua vocação.

Philip Roth, O Escritor Fantasma

Vamberto Freitas

As palavras aqui citadas em forma de epígrafe são escritas numa longa carta de um juiz amigo do pai de Nathan Zuckerman, o protagonista ficcional que domina uma parte da vastíssima obra de Philip Roth, e são palavras de um dos seus mais distintos romances publicados a meia carreira do autor, em 1979, sob o título de The Ghost Writer, e que mais tarde faria parte de uma trilogia chamada Zuckerman Bound, que inclui ainda Zuckerman Unbound The Anatomy Lesson/A Lição de Anatomia (este fazendo parte da já longa colecção traduzida na nossa língua) a que juntou um longo Epilogue: The Prague Orgy, que levaria o autor até à Europa então sob o domínio da União Soviética, e em defesa aberta dos seus escritores mais perseguidos ou já no exílio, que também resultaria num outro livro de ensaios e entrevistas. Não será surpreendente que este romance aqui em foco tenha sido dedicado já na primeira edição a Milan Kundera, como agora na magnífica tradução de Francisco Agarez para D. Quixote, lançado o ano passado. Philip Roth nasceu em 1933, tendo anunciado há poucos anos que deixaria de escrever por completo, e que agora dedicar-se-ia exclusivamente à leitura, e redescobrindo o prazer do texto escrito por outros autores. O seu primeiro livro Goodbye, Columbus And Five Short Stories saiu em 1959, e nunca mais o autor deixou de ser uma das mais controversas vozes da literatura norte-americana da nossa época, provocando com igual intensidade de ira tanto os judeus como muitas mulheres, por razões mais ou menos diferentes, mas têm a ver com uma nova visão da sua sociedade, o humor e sátiras imparáveis ao serviço da criação de nada menos do que a visão sobre um novo espaço que era até então totalmente dominado pela literatura anglo-saxónica, tendo as novas vozes das primeiras gerações judias nascido apenas já na década de trinta e permanecendo até aos nossos dias. Ainda assim, muito depois de obras-primas afro-americanas, que vinham desde o tempo da escravatura até aos nossos dias. As palavras que citei têm outro propósito aqui: a ironia de Philip Roth constatar das listas do Prémio Nobel desde há muitos anos, sem nunca o ter recebido. Nem precisa. Toda a sua obra tem sido premiada ao mais alto nível por outras instituições dentro e fora dos Estados Unidos. Os suecos, diria ele mais ou menos o ano passado, não devem gostar do “sexo” na sua ficção. Os seus leitores gostam, e fizeram dele uma das vozes literárias supremas desde o século passado até ao presente. Poucos serão os escritores que atingem este estatuto de permanência e admiração, pelo menos no Ocidente e arredores mais abertos e libertos. Quando publicou um dos seus mais controversos romances em 1967, Portnoy’s Complaint/O Complexo de Portnoy, levantou tal furor na comunidade judia-americana que até levou uma comissão informal a sugerir que os seus livros não fossem mais publicados no país. Religiosidade e história estavam por detrás dessa insatisfação e raiva, mas Philip Roth nunca cedeu na sua visão de judeu americano e no seus direito artístico de despejar a sua alma e razão em sucessivas obras, que atingiriam o seu apogeu internacional nos longos romances American Pastoral/Pastoral Americana e The Conspiracy Against America/A Conspiração Contra América, hoje um dos mais lidos nos EUA devido à actual situação política, mesmo que se trate de um tempo ficcional dos anos 30/40 e do movimento pró-nazi naquele país.

O Escritor Fantasma será talvez um dos mais “calmos” romances do seu cânone pessoal, pela sua temática como pela contenção das suas linguagens. O seu narrador/protagonista, escritor conhecido, vive em Nova Iorque, mas decide visitar por uns dias um escritor/mestre, aqui de nome E. L. Lonoff e também judeu-americano, que vive no campo algures na Nova Inglaterra e casado como uma mulher de famílias patrícias e representante da classe mais antiga e dominante desde os primórdios dos Estados Unidos. “Era uma mulher – diz Zuckerman—pequena, de amáveis olhos cinzentos e suaves cabelos brancos e uma infinidade de rugas finas que sulcavam a palidez da pele. Até podia ter sido, como dizem os jocosos intelectuais, ‘a aristocrática herdeira ianqui’ de Lonoff…” Recebe inevitavelmente visitas periódicas de admiradores e admiradoras, sempre civilizadamente. “Pureza. Serenidade. Simplicidade. Reclusão”, diz logo de início Zuckerman sobre o seu ídolo, que alguns críticos identificaram como sendo o escritor de contos e romances Bernard Malamud, falecido em 1986, cujas obras se tornariam parte do cânone literário nacional, um escritor de minorias que não iam nem vão atrás das máquinas publicitárias que hoje dominam o mundo editorial um pouco por toda a parte. Zuckerman limita-se aqui a conversas serenas, a ouvir os conselhos do velho escritor que na altura tem também de visita em sua casa uma mulher muito mais nova, e que Zuckerman sendo Zuckerman, suspeita eventualmente ser amante do velho escritor, e que ele próprio, já se sabe, começa a desejar. Este é um romance de grandes ironias. Zuckerman procura a redenção depois das suas obras mais controversas, como que pede desculpe e a bênção dos mais velhos adentro do mundo ancestral, que começa como filho de imigrantes em Nova Jersey, de onde era realmente Philip Roth, a linguagem entre a sua biografia e ficção sempre muito fina e deliberadamente levando o leitor à confusão, ou melhor, despertando nesse leitor a sua imaginação. A verdade é que Philip Roth/Nathan Zuckerman também desfrutava de grande amizade entre os que haviam lançado uma nova literatura norte-americana a partir de grandes cidades metropolitanas, inclusive Chicago onde já vivia, leccionava e escrevia Saul Bellow, talvez o escritor que mais influência exerceu sobre o autor.

“Na longa e interessante conversa que mantivemos – escreve um juiz amigo do pai de Zuckerman a propósito de conto com o título de ‘Estudos Superiores’ e já manifestando o escândalo que o seu autor provocaria ante a família e outros leitores – aqui nos meus aposentos, informei-o de que tradicionalmente, ao longo dos tempos e em todos os países, o artista sempre se considerou além dos costumes da comunidade em que vivia. Grandes artistas, reza a história, são muitas vezes ferozmente perseguidos pelos temerosos e incultos, que não compreendem que o artista é uma pessoa especial que tem um contributo ímpar a dar à humanidade”.

Não, não creio que Philip Roth, através de Nathan Zuckerman, está a auto-engrandecer-se, antes pelo contrário. A ironia é outra vez um recurso seu que se dirige à ignorância e intolerância dos que, dentro da sua própria tradição ou ancestralidade judia, tentavam não esquecer o passado, mas sim criar um espaço na nova sociedade que lhes era negada, e nunca reivindicada pelos antigos antepassados que lá tinham chegado no XIX e princípio do século passado, em fuga à histórica barbaridade europeia, ao anti-semitismo irracional, à violência que atingiria o genocídio na II Guerra Mundial. Estes novos escritores judeus não ignoravam e muito menos desculpavam o sofrimento de todo um povo que era o seu. Simplesmente, sabiam que do passado, relembrando-o tanto na história como na arte, só os manteria nas margens, e o seu talento e vontade de pertença ditavam que a sua condição era o que era, e que a sua arte faria chamamentos, umas vezes subtis outras abertamente, a esse passado, mas que o seu grupo tinha de ser representado nas letras como parte íntegra da vida quotidiana, os seus sonhos de vida, as suas angústias e triunfos, agora numa outra e bem diferente geografia, seriam os temas fundamentais de uma nova literatura em língua inglesa. Por outras palavras, a escrita de Philip Roth, muito ao contrário do que era assumido, colocava essa sua comunidade de origem em Nova Jersey, Nova Iorque ou Chicago como fazendo parte da condição humana em geral, com todas as suas virtudes e até criminalidade. Foi uma literatura tão nova e radical que para sempre mudaria a cultura do país, e durante décadas até conduziria todo o debate literário, e mesmo político, no seu país de nascença e livremente adoptado pelos seus pais e avós.

Creio que O Escritor Fantasma é também sobre isto, numa leitura mais atenta, como é sobre o acto criativo em si, com mestres e discípulos, a chamada meta-literatura, ou seja a palavra artística virada para si própria como um outro tema inescapável da modernidade e da reinvenção do próprio romance.

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Philip Roth, O Escritor Fantasma (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, D. Quixote, 2017. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 23 de Março de 2018.

Do riso e do choro

Não, a sério, digam lá se o maior temor não é o de que afinal de contas os rabinos têm razão? Que o inferno exista mesmo? A assistência ri sem entusiasmo, as pessoas baixam os olhos, com relutância em olhar para ele.

David Grossman, Um Cavalo Entra Num Bar

Vamberto Freitas

Quando pensamos em Israel, ou em qualquer país do Médio Oriente, raramente vamos além da sua política e do seu perpétuo estado de guerra, do terrorismo, das injustiças cometidas diariamente contra os palestinianos, das imagens de Israel a bombardear ou a ameaçar com caças potencialmente devastadores e mortíferos em Gaza, ou da ocupação ilegal de terras na Cisjordânia. O resto geralmente fica esquecido, quanto a uns e outros, especialmente a vida quotidiana dos seus cidadãos que tentam a normalização possível das suas vidas, os sonhos partilhados com toda a humanidade de dias melhores e de paz. Essa existência implica não só o desenvolvimento económico que dê o sustento à maioria daquele povo, como a criação da arte em todos os seus géneros. Vou falar aqui de um grande escritor israelita, como poderia falar de grandes outros escritores no outro lado da fronteira, como Edward W. Said, nascido no Egípto, mas palestiniano, e que antes de falecer aqui há uns anos foi assessor do também falecido Yasser Arafat e que havia sido o líder máximo da OLP, como poderia mencionar os nomes de grandes poetas como Adonis, presentemente exilado na França, e que visitou o nosso país ainda há pouco para falar da sua obra, candidato desde há anos ao Prémio Nobel.. Acabo de ler o romance Um Cavalo Entra Num Bar, de um dos grandes escritores judeus e de todo universalista, David Grossman, primeiro publicado originalmente em 2014, e agora traduzido para a nossa língua e lançado pela D. Quixote/LeYa. Grossman nasceu em Jerusalém de mãe nascida naquele país e de pai ido para lá da Polónia, cuja língua era também o iídiche, de posses humildes, ideologicamente sionista. Grossman, por outro lado, identifica-se com a esquerda do seu país e é um defensor do entendimento entre todos que partilham aquela geografia bíblica e islâmica. Grossman estudou, segundo a sua biografia, filosofia e dramaturgia, tendo-se dedicado à rádio, entre outras actividades profissionais. Na minha estante tenho mais dois livros da sua vasta obra literária, editados nos Estados Unidos quando eu ainda vivia lá: See: Under Love (que nunca li) e The Yellow Wind, um ensaio que o autor escreveu depois de atravessar a fronteira no outro lado sua cidade e ouvir o que os supostos “inimigos” tinham a dizer sobre todo o labirinto violento que se tornou o relacionamento entre judeus e os que defendem um estado único para os dois povos, ou então a divisão em dois estados definitiva e internacionalmente reconhecidos. Tem alguns outros livros traduzidos no nosso país, mas Um Cavalo Entra Num Bar, que recebeu o Prémio Man Booker Internacional em 2017, é a primeira ficção dele que leio, depois de ter lido um dos seus mais conhecidos colegas e amigos Amos Oz. Claro que não leio hebraico, e a minha avaliação de uma tradução, neste caso feita por Lúcia Liba Mucnik, é muito simples: basta-me, após ler as primeiras páginas, esquecer-me que o livro foi escrito noutra língua. Um dos primeiros mandatos éticos de uma tradução é que se seja fiel ao original, sem que isso impeça toda a criatividade linguística do tradutor ou da tradutora. Estamos perante um romance aliciante, que relega política e história para um espaço meramente sugerido, e foca-se na condição humana universalizada, nos desejo e medos do coração humano.

Um Cavalo Entra Num Bar é um romance singular na sua estrutura, só ao alcance de um grande escritor. Durante mais de 200 páginas o narrador, de nome Avishai Lazar, intercala a sua narrativa com a do comediante em palco, Dovaleh, fazendo o leitor entrar nas reacções mistas da audiência num clube nocturno, e todos aparentemente de várias condições sócio-económicas e culturais. São horas noite dentro num palco em que o standupista (a primeira vez que vez que vejo a palavra em português, a tradução de stand-up comidian), expressa através dos seus bizarros movimentos em palco e das tiradas verbais, tudo o que faz rir os seus fãs,ou então quedar-se perplexos ou até envergonhados, mudando ao longo do seu acto para a tragédia e tristeza de se estar vivo e pertencer por inteiro à sua sociedade. Com frequência nomeia a cidade onde decorre o seu acto teatral, e depreendemos que não se trata de um grande centro metropolitano, mas em que a humanidade de todos está a saque, a vivência entre o riso e o choro, por entre eventuais alusões ao estado de guerra em curso, em que até os mais jovens começam o treino militar como se de pioneiros ou escuteiros se tratasse, fora da família e sob as instruções de oficiais militares. Por outras palavras, a condição judia em tudo se assemelha a todos os outros povos em todas as geografias e nacionalidades, com chamamentos a certas figuras que ficaram na história literária pela sua capacidade de nos transmitir o absurdo, incerteza e insegurança que são as nossas vidas, Kafka é mencionado por um dos seus escritos em que só o pior nos espera ou nos pode acontecer a qualquer momento. Não entram, nem o comediante nem o seu narrador, em questões do conflito sempre presente naquele país, mas sim na normalidade e anormalidade do dia-a-dia dos o que ouvem, tomando as suas bebidas, trocando olhares ora envergonhados pelo que vêem e escutam do palco, oram rindo e sorrindo no seu momento de catarse e reconhecimento de si próprios, como se o autor fosse todos eles nas mais variadas condições e sorte de vida. Alguns vão abandonando a sala em desgosto e vergonha, outros permanecem e esperam o que der e vier dos gestos corporais e palavras do actor. Nunca este se comove nem com as palmas nem com a deserção do seu público, esta é uma noite de verdades raramente ditas, uma vez mais, a comédia e a tragédia numa espécie de diálogo que nos vem desde os poetas e dramaturgos gregos antigos. Sentados em grupo ou sós à sua mesa, bebendo ou não, olhar para o palco é como se olhassem para um espelho que os retrata ou devolve a imagem a cada um e a todos eles.

“Um momento – diz o narrador a finalizar – passa e outro. O gerente da sala olha para a direita e para a esquerda, limpa a garganta, bate com ambas as mãos nas coxas grossas e começa a levantar as cadeiras. As pessoas levantam-se e saem em silêncio sem olharem umas para as outras. Algumas mulheres fazem-lhe um sinal com a cabeça. A sua expressão é apagada. A mulher alta de cabelos grisalhos aproxima-se do palco e despede-se dele com uma inclinação da cabeça. Ao passar pela minha mesa, em direção à saída, pousa em cima um bilhete dobrado. Reparo nas rugas do sorriso à volta dos olhos rasos de lágrimas”.

Um dos críticos internacionais citados na contracapa de Um Cavalo Entra Num Bar relembra-nos o óbvio – que certas verdades só podem e são ditas nas melhores das ficções, e fala-nos ainda nas “sociedades disfuncionais” em que todos vivemos, e que outros provavelmente chamariam de “pós-modernas”. Estamos de novo no tempo em que as antigas instituições não funcionam, estamos desorientados, todos, na nossa tentativa de mera sobrevivência, em que uns falam de armamentos cada vez mais aterrorizadores em futuras guerras quentes, enquanto outros assassinam impunemente os que são considerados inimigos ou perigosos para os poderes instituídos. Este grande livro de David Grossman parece querer dizer-nos isso mesmo. “Este é um romance — diz The Guradian – para a nossa Idade de Ofensa – ofensa facilmente aceite e interminavelmente praticada”. Não conheço uma única sociedade no mundo da nossa época que não se reconheça nestas palavras do romancista, os muitos dos seus críticos e leitores. A arte celebra a vida, por certo, tal como denuncia os que subvertem e tentam dominá-la a qualquer custo para todos os outros. Atiram-nos cá para fora números que pretendem significar felicidade ou falhanço, falhanço nunca dos governantes, mas dos seus servidores, que somos quase todos os nós. A palavra artística desdiz a mentira, e sobretudo reconfirma e reafirma a nossa humanidade, a vida no seu melhor e no seu pior, na sua alegria e na sua tristeza.

É esse mesmo o poder deste romance. Basta a palavra e um gesto num palco para revermos a nossa condição como cidadãos do mundo, sempre em conflito de um modo ou outro.

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David Grossman, Um Cavalo Entra Num Bar (tradução de Lúcia Liba Mucznik), Lisboa, D. Quixote, 2018.

 

 

A portugalidade na nossa história

 

Os textos deste livro foram escritos no estrangeiro ao longo de três décadas, ao escrevê-los, nunca me senti de fora. É bem largo o Atlântico, mas visto da Nova Inglaterra, é um oceano que parece um rio.

Onésimo Teotónio Almeida, A Obsessão Da Portugalidade

Vamberto Freitas

A obra de Onésimo Teotónio Almeida é já tão vasta que me é impossível nomear mesmo alguma parte mais significativa, e não é esse o propósito deste meu texto. Residente nos Estados Unidos desde os anos 70 e formado nos seus estudos superiores primeiro na Universidade Católica Portuguesa, depois na Brown University onde se doutorou em filosofia sobre questões de ideologia, ascenderia a Professor Catedrático na mesma instituição em 1991, onde continua a leccionar uma cadeira sobre Valores e Mundividências. Se menciono estes factos bem conhecidos pelos seus colegas e leitores mais atentos é para dizer que, uma vez mais, é-me difícil ou mesmo impossível pensar o autor como alguém que vive e desempenha as suas funções académicas noutro país que não o nosso. Ele próprio o diz de quando em quando que nunca saiu de Portugal, e muito menos ainda dos Açores, e a sua fulgurante carreira universitária, de escritor ensaístico e criativo assim o comprovam, tal como o comprovam claramente o referencial em quase todas as suas obras. Vive Portugal e a sua versão da portugalidade a cada momento da sua vida, inclusive nas suas constantes presenças no nosso país. Já o disse publicamente à sua frente, e agora escreve-o: Onésimo vive de facto em Portugal mas tem uma casa de férias na América, que visita periodicamente. O seu estatuto entre nós é tão desusado que nenhum dos termos habituais podem descrever o seu estatuto de cidadania na América: nem é propriamente imigrante, expatriado ou exilado nos significados habituais destas palavras. Toda a sua obra ficcional tem esse chamamento americano, assim como grande parte das suas crónicas publicadas em Lisboa e em jornais da nossa diáspora, mas é como se ele fosse um autor que vigia os seus personagens e geografias através de um drone, toda a sua outra obra ensaística tem Portugal ou a história das ideias ocidentais ao longo dos séculos como temas fundamentais. Bem sei que outros já o disseram, talvez de modo diferente do meu, mas o homem e a obra aí está – Onésimo vive nesse espaço que nunca deixa de ser português, e não foi sem pensar a sua própria mundividência que o levaria a criar e a definir o neologismo lUSAlândia, que ele diz ser um pequeno Portugal, ou ilha, se assim preferem, rodeada de América por todos os lados. Estes ensaios que constituem uma grande narrativa em A Obsessão Da Portugalidade são provenientes de vários encontros universitários ou de escritores, mas convergem numa impressionante unidade que tenta definir, ou pelo menos esclarecer, a ideia de portugalidade ao longo dos séculos, particularmente a partir do Marquês de Pombal até aos nossos dias, essa noção de ser-se português e como, para parafrasear aqui Jorge Sena no que creio ter sido o seu último ensaio, “Ser-se imigrante e como”, publicado pelo próprio Onésimo no primeiro número da revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters and Studies, em 1980. No entanto, e para além deste seu modo de ser e estar entre nós, nunca deixou de prestar atenção às produções literárias dos lusodescendentes na América do Norte. Onésimo Teotónio Almeida é para mim uma espécie de Fernão Mendes Pinto, mas sem as supostas mentiras, o mundo todo a seus pés sem nunca sair da sua casa lusa.

A Obsessão Da Portugalidade: Identidade, Língua, Saudade & Valores, aliás como indica o subtítulo, é uma tour de force através da nossa história, e como os defensores da tradicionalidade e os reformadores ou regeneradores se enfrentaram ao longo dos séculos, a centralidade de uma mundividência constantemente posta em causa por quem havia absorvido as ideias do Iluminismo, e isso tanto poderia vir dos que tinham tido outras experiências fora de Portugal como de residentes que também tinham assimilado a ideia do atraso barroquista do nosso país, desde os primórdios aos nossos dias. O autor combina vários campos de estudo que incluem história, filosofia (a questão da saudade e os seus múltiplos significados) e os debates já posteriores e no início de uma modernidade tardia que começa a abalar o Estado monárquico no fim do século XIX até ao marxismo que tentou dominar os primeiros tempos do 25 de Abril de 1974, e que Onésimo relembra aqui que não se passou de outra coisa senão de um regresso à ideia de utopia e à originalidade de uma certa mundividência entre todos os outros, mesmo entre os que na altura partilhavam dessa ideologia em muitos outros países a leste e nas Américas. Os nomes associados a esses diversos debates através de livros, revistas e conferências são como que uma pauta de chamada aos que, em termos intelectuais ou na rua lutaram pela manutenção do status quo, ou por mudanças de fundo e ideológicas na estrutura da sociedade portuguesa. Desde os utópicos Padre António Vieira e Fernando Pessoa da Mensagem a historiadores e pensadores da nossa modernidade, como Jorge Borges de Macedo ou ainda ensaístas como António Sérgio e Teixeira de Pascoaes (tomando posições contrárias durante toda uma carreira literária), o leitor vai-se dando conta de como na verdade nenhum de nós conseguiu ficar nunca indiferente à geografia, cultura e língua que lhe foi dado viver na sorte ou circunstâncias de vida dentro e/ou fora do país. Até a osmose entre língua e cultura é tratada aqui num ensaio para mim muito esclarecedor, “Língua e mundividência – ou como a língua reflete a cultura”. Uma passagem pelos índices onomástico e analítico é deveras avassalador na erudição e conhecimento que o ensaísta nos proporciona, e isso inclui ainda historiadores estrageiros que se têm debruçado, já na nossa época, sobre as grandes questões ou acontecimentos portugueses, como, eis aqui apenas um exemplo entre muitos outros de vários países, o norte-americano Kenneth Maxwell. Comparável a Onésimo Teotónio Almeida e a sua postura ante toda a questão da portugalidade, e falando só dos que viveram a maior parte das suas vidas nos EUA e aí produziram grande parte da sua obra literária, só José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena. Entre nós, e nascido em Moçambique, só o escritor e poeta Eugénio Lisboa. Como quase todos os portugueses com reconhecida voz pública, Onésimo Teotónio Almeida guarda o discurso crítico para os seus conterrâneos, e defende o seu país, com exemplos da história da nossa independência perante Espanha ao quotidiano criativo da nossa actualidade quando de nós fala a estrangeiros. A “obsessão da portugalidade” também aqui não deixa ninguém indiferente.

“Mas Portugal – escreve no ensaio de encerramento ‘Portugal em versão para estrangeiros’, e contrariando a nossa condição quase psiquiátrica entre a euforia e a depressão, e assim definindo-se ante o que nos parece ser um país finalmente regenerado – é uma caixinha de surpresas. Tal como a sua paisagem, que num espaço geográfico tão exíguo surpreende a cada esquina com novos ângulos, muitas vezes dando a impressão de que se mudou de país, assim é a sua gente. É só esgravatar um pouco à superfície e descobre-se uma camada jovem a mover-se num frenesi de criatividade a todos os níveis. Parece não existir um único ramo de realizações humanas – das artes e letras às ciências e tecnologias – que, dia sim dia não, não produza notícias de mais um ou uma jovem galardoada internacionalmente, de outro membro de uma equipa descobridora de um dado científico, de uma nova voz, ou de mão hábil que pintou algo inesperado, ou de um invento com grandes possibilidades de comercialização. Até no fado, a tradicionalíssima marca de música do País, não param de surgir vozes novas e transformarem-no e a tornarem essa música, desde sempre tão presa aos bairros e às vielas da velha Lisboa, em algo que no Japão ou em Nova Iorque se ouve e se aprecia por retinir uma corda da sensibilidade humana, universal”.

A Obsessão Da Portugalidade confirma e reconfirma Onésimo Teotónio Almeida como um dos grandes pensadores e escritores portugueses da nossa época. Foram outros que o disseram muito antes da saída deste seu mais recente volume de ensaios, que se tornam, uma vez mais, numa narrativa coesa do que nos fez quem somos e até onde chegámos. Sobre os seus contos já começaram a aparecer teses universitárias, como no caso de O Sonho Americano: (SAPA)TEIA AMERICANA, de Maria Teresa Maia Bento Amarelo Carrilho. Miguel Real inclui uma alongada secção sobre a sua obra ensaística no monumental O Pensamento Português Contemporâneo: O Labirinto da Razão e a fome de Deus, de 2011. João Maurício Brás também publicou um extenso volume (331 páginas) sob o título Identidade, Valores, Modernidade: O Pensamento de Onésimo Teotónio Almeida, em 2015.

No entanto, Onésimo Teotónio Almeida conseguiu sempre equilibrar a investigação académica e o diálogo entre pares com a constante intervenção jornalística, fazendo dele, sem qualquer dúvida, um dos mais consequentes intelectuais públicos do nosso país e tempo, a sua portugalidade nunca desfez a intensidade da sua açorianidade, demonstrando eloquentemente que não há qualquer contradição em ser-se português do Continente, das ilhas, ou de qualquer outra parte.

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Onésimo Teotónio Almeida, A Obsessão Da Portugalidade, Lisboa, Quetzal, 2017.