A portugalidade na nossa história

 

Os textos deste livro foram escritos no estrangeiro ao longo de três décadas, ao escrevê-los, nunca me senti de fora. É bem largo o Atlântico, mas visto da Nova Inglaterra, é um oceano que parece um rio.

Onésimo Teotónio Almeida, A Obsessão Da Portugalidade

Vamberto Freitas

A obra de Onésimo Teotónio Almeida é já tão vasta que me é impossível nomear mesmo alguma parte mais significativa, e não é esse o propósito deste meu texto. Residente nos Estados Unidos desde os anos 70 e formado nos seus estudos superiores primeiro na Universidade Católica Portuguesa, depois na Brown University onde se doutorou em filosofia sobre questões de ideologia, ascenderia a Professor Catedrático na mesma instituição em 1991, onde continua a leccionar uma cadeira sobre Valores e Mundividências. Se menciono estes factos bem conhecidos pelos seus colegas e leitores mais atentos é para dizer que, uma vez mais, é-me difícil ou mesmo impossível pensar o autor como alguém que vive e desempenha as suas funções académicas noutro país que não o nosso. Ele próprio o diz de quando em quando que nunca saiu de Portugal, e muito menos ainda dos Açores, e a sua fulgurante carreira universitária, de escritor ensaístico e criativo assim o comprovam, tal como o comprovam claramente o referencial em quase todas as suas obras. Vive Portugal e a sua versão da portugalidade a cada momento da sua vida, inclusive nas suas constantes presenças no nosso país. Já o disse publicamente à sua frente, e agora escreve-o: Onésimo vive de facto em Portugal mas tem uma casa de férias na América, que visita periodicamente. O seu estatuto entre nós é tão desusado que nenhum dos termos habituais podem descrever o seu estatuto de cidadania na América: nem é propriamente imigrante, expatriado ou exilado nos significados habituais destas palavras. Toda a sua obra ficcional tem esse chamamento americano, assim como grande parte das suas crónicas publicadas em Lisboa e em jornais da nossa diáspora, mas é como se ele fosse um autor que vigia os seus personagens e geografias através de um drone, toda a sua outra obra ensaística tem Portugal ou a história das ideias ocidentais ao longo dos séculos como temas fundamentais. Bem sei que outros já o disseram, talvez de modo diferente do meu, mas o homem e a obra aí está – Onésimo vive nesse espaço que nunca deixa de ser português, e não foi sem pensar a sua própria mundividência que o levaria a criar e a definir o neologismo lUSAlândia, que ele diz ser um pequeno Portugal, ou ilha, se assim preferem, rodeada de América por todos os lados. Estes ensaios que constituem uma grande narrativa em A Obsessão Da Portugalidade são provenientes de vários encontros universitários ou de escritores, mas convergem numa impressionante unidade que tenta definir, ou pelo menos esclarecer, a ideia de portugalidade ao longo dos séculos, particularmente a partir do Marquês de Pombal até aos nossos dias, essa noção de ser-se português e como, para parafrasear aqui Jorge Sena no que creio ter sido o seu último ensaio, “Ser-se imigrante e como”, publicado pelo próprio Onésimo no primeiro número da revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters and Studies, em 1980. No entanto, e para além deste seu modo de ser e estar entre nós, nunca deixou de prestar atenção às produções literárias dos lusodescendentes na América do Norte. Onésimo Teotónio Almeida é para mim uma espécie de Fernão Mendes Pinto, mas sem as supostas mentiras, o mundo todo a seus pés sem nunca sair da sua casa lusa.

A Obsessão Da Portugalidade: Identidade, Língua, Saudade & Valores, aliás como indica o subtítulo, é uma tour de force através da nossa história, e como os defensores da tradicionalidade e os reformadores ou regeneradores se enfrentaram ao longo dos séculos, a centralidade de uma mundividência constantemente posta em causa por quem havia absorvido as ideias do Iluminismo, e isso tanto poderia vir dos que tinham tido outras experiências fora de Portugal como de residentes que também tinham assimilado a ideia do atraso barroquista do nosso país, desde os primórdios aos nossos dias. O autor combina vários campos de estudo que incluem história, filosofia (a questão da saudade e os seus múltiplos significados) e os debates já posteriores e no início de uma modernidade tardia que começa a abalar o Estado monárquico no fim do século XIX até ao marxismo que tentou dominar os primeiros tempos do 25 de Abril de 1974, e que Onésimo relembra aqui que não se passou de outra coisa senão de um regresso à ideia de utopia e à originalidade de uma certa mundividência entre todos os outros, mesmo entre os que na altura partilhavam dessa ideologia em muitos outros países a leste e nas Américas. Os nomes associados a esses diversos debates através de livros, revistas e conferências são como que uma pauta de chamada aos que, em termos intelectuais ou na rua lutaram pela manutenção do status quo, ou por mudanças de fundo e ideológicas na estrutura da sociedade portuguesa. Desde os utópicos Padre António Vieira e Fernando Pessoa da Mensagem a historiadores e pensadores da nossa modernidade, como Jorge Borges de Macedo ou ainda ensaístas como António Sérgio e Teixeira de Pascoaes (tomando posições contrárias durante toda uma carreira literária), o leitor vai-se dando conta de como na verdade nenhum de nós conseguiu ficar nunca indiferente à geografia, cultura e língua que lhe foi dado viver na sorte ou circunstâncias de vida dentro e/ou fora do país. Até a osmose entre língua e cultura é tratada aqui num ensaio para mim muito esclarecedor, “Língua e mundividência – ou como a língua reflete a cultura”. Uma passagem pelos índices onomástico e analítico é deveras avassalador na erudição e conhecimento que o ensaísta nos proporciona, e isso inclui ainda historiadores estrageiros que se têm debruçado, já na nossa época, sobre as grandes questões ou acontecimentos portugueses, como, eis aqui apenas um exemplo entre muitos outros de vários países, o norte-americano Kenneth Maxwell. Comparável a Onésimo Teotónio Almeida e a sua postura ante toda a questão da portugalidade, e falando só dos que viveram a maior parte das suas vidas nos EUA e aí produziram grande parte da sua obra literária, só José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena. Entre nós, e nascido em Moçambique, só o escritor e poeta Eugénio Lisboa. Como quase todos os portugueses com reconhecida voz pública, Onésimo Teotónio Almeida guarda o discurso crítico para os seus conterrâneos, e defende o seu país, com exemplos da história da nossa independência perante Espanha ao quotidiano criativo da nossa actualidade quando de nós fala a estrangeiros. A “obsessão da portugalidade” também aqui não deixa ninguém indiferente.

“Mas Portugal – escreve no ensaio de encerramento ‘Portugal em versão para estrangeiros’, e contrariando a nossa condição quase psiquiátrica entre a euforia e a depressão, e assim definindo-se ante o que nos parece ser um país finalmente regenerado – é uma caixinha de surpresas. Tal como a sua paisagem, que num espaço geográfico tão exíguo surpreende a cada esquina com novos ângulos, muitas vezes dando a impressão de que se mudou de país, assim é a sua gente. É só esgravatar um pouco à superfície e descobre-se uma camada jovem a mover-se num frenesi de criatividade a todos os níveis. Parece não existir um único ramo de realizações humanas – das artes e letras às ciências e tecnologias – que, dia sim dia não, não produza notícias de mais um ou uma jovem galardoada internacionalmente, de outro membro de uma equipa descobridora de um dado científico, de uma nova voz, ou de mão hábil que pintou algo inesperado, ou de um invento com grandes possibilidades de comercialização. Até no fado, a tradicionalíssima marca de música do País, não param de surgir vozes novas e transformarem-no e a tornarem essa música, desde sempre tão presa aos bairros e às vielas da velha Lisboa, em algo que no Japão ou em Nova Iorque se ouve e se aprecia por retinir uma corda da sensibilidade humana, universal”.

A Obsessão Da Portugalidade confirma e reconfirma Onésimo Teotónio Almeida como um dos grandes pensadores e escritores portugueses da nossa época. Foram outros que o disseram muito antes da saída deste seu mais recente volume de ensaios, que se tornam, uma vez mais, numa narrativa coesa do que nos fez quem somos e até onde chegámos. Sobre os seus contos já começaram a aparecer teses universitárias, como no caso de O Sonho Americano: (SAPA)TEIA AMERICANA, de Maria Teresa Maia Bento Amarelo Carrilho. Miguel Real inclui uma alongada secção sobre a sua obra ensaística no monumental O Pensamento Português Contemporâneo: O Labirinto da Razão e a fome de Deus, de 2011. João Maurício Brás também publicou um extenso volume (331 páginas) sob o título Identidade, Valores, Modernidade: O Pensamento de Onésimo Teotónio Almeida, em 2015.

No entanto, Onésimo Teotónio Almeida conseguiu sempre equilibrar a investigação académica e o diálogo entre pares com a constante intervenção jornalística, fazendo dele, sem qualquer dúvida, um dos mais consequentes intelectuais públicos do nosso país e tempo, a sua portugalidade nunca desfez a intensidade da sua açorianidade, demonstrando eloquentemente que não há qualquer contradição em ser-se português do Continente, das ilhas, ou de qualquer outra parte.

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Onésimo Teotónio Almeida, A Obsessão Da Portugalidade, Lisboa, Quetzal, 2017.

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4 thoughts on “A portugalidade na nossa história

  1. Luiz Antonio de Assis Brasil Março 10, 2018 / 2:35 am

    Cumprimentos ao Vamberto Freitas por esta resenha, a qual veio encher meu dia; cumprimento-o pela fluência frasal e originalidade interpretativa de uma obra que vem somar-se à brilhante carreira literária de Onésimo T. Almeida. [E parabéns, também, à Quetzal, ora que investe nos autores açorianos].

  2. Luís Henriques Março 12, 2018 / 10:11 pm

    Lendo este texto, apetece-me ler este livro, ou não fosse o crítico um profundo conhecedor da obra do autor. Ficará para a próxima vez que passar pela SolMar. O interesse reside, como é óbvio no tema central – portugalidade – que movimentos jovens recentemente têm associado “nova”. Julgo que Onésimo será um bom pensador a ler sobre isto.
    Um abraço,

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