Do riso e do choro

Não, a sério, digam lá se o maior temor não é o de que afinal de contas os rabinos têm razão? Que o inferno exista mesmo? A assistência ri sem entusiasmo, as pessoas baixam os olhos, com relutância em olhar para ele.

David Grossman, Um Cavalo Entra Num Bar

Vamberto Freitas

Quando pensamos em Israel, ou em qualquer país do Médio Oriente, raramente vamos além da sua política e do seu perpétuo estado de guerra, do terrorismo, das injustiças cometidas diariamente contra os palestinianos, das imagens de Israel a bombardear ou a ameaçar com caças potencialmente devastadores e mortíferos em Gaza, ou da ocupação ilegal de terras na Cisjordânia. O resto geralmente fica esquecido, quanto a uns e outros, especialmente a vida quotidiana dos seus cidadãos que tentam a normalização possível das suas vidas, os sonhos partilhados com toda a humanidade de dias melhores e de paz. Essa existência implica não só o desenvolvimento económico que dê o sustento à maioria daquele povo, como a criação da arte em todos os seus géneros. Vou falar aqui de um grande escritor israelita, como poderia falar de grandes outros escritores no outro lado da fronteira, como Edward W. Said, nascido no Egípto, mas palestiniano, e que antes de falecer aqui há uns anos foi assessor do também falecido Yasser Arafat e que havia sido o líder máximo da OLP, como poderia mencionar os nomes de grandes poetas como Adonis, presentemente exilado na França, e que visitou o nosso país ainda há pouco para falar da sua obra, candidato desde há anos ao Prémio Nobel.. Acabo de ler o romance Um Cavalo Entra Num Bar, de um dos grandes escritores judeus e de todo universalista, David Grossman, primeiro publicado originalmente em 2014, e agora traduzido para a nossa língua e lançado pela D. Quixote/LeYa. Grossman nasceu em Jerusalém de mãe nascida naquele país e de pai ido para lá da Polónia, cuja língua era também o iídiche, de posses humildes, ideologicamente sionista. Grossman, por outro lado, identifica-se com a esquerda do seu país e é um defensor do entendimento entre todos que partilham aquela geografia bíblica e islâmica. Grossman estudou, segundo a sua biografia, filosofia e dramaturgia, tendo-se dedicado à rádio, entre outras actividades profissionais. Na minha estante tenho mais dois livros da sua vasta obra literária, editados nos Estados Unidos quando eu ainda vivia lá: See: Under Love (que nunca li) e The Yellow Wind, um ensaio que o autor escreveu depois de atravessar a fronteira no outro lado sua cidade e ouvir o que os supostos “inimigos” tinham a dizer sobre todo o labirinto violento que se tornou o relacionamento entre judeus e os que defendem um estado único para os dois povos, ou então a divisão em dois estados definitiva e internacionalmente reconhecidos. Tem alguns outros livros traduzidos no nosso país, mas Um Cavalo Entra Num Bar, que recebeu o Prémio Man Booker Internacional em 2017, é a primeira ficção dele que leio, depois de ter lido um dos seus mais conhecidos colegas e amigos Amos Oz. Claro que não leio hebraico, e a minha avaliação de uma tradução, neste caso feita por Lúcia Liba Mucnik, é muito simples: basta-me, após ler as primeiras páginas, esquecer-me que o livro foi escrito noutra língua. Um dos primeiros mandatos éticos de uma tradução é que se seja fiel ao original, sem que isso impeça toda a criatividade linguística do tradutor ou da tradutora. Estamos perante um romance aliciante, que relega política e história para um espaço meramente sugerido, e foca-se na condição humana universalizada, nos desejo e medos do coração humano.

Um Cavalo Entra Num Bar é um romance singular na sua estrutura, só ao alcance de um grande escritor. Durante mais de 200 páginas o narrador, de nome Avishai Lazar, intercala a sua narrativa com a do comediante em palco, Dovaleh, fazendo o leitor entrar nas reacções mistas da audiência num clube nocturno, e todos aparentemente de várias condições sócio-económicas e culturais. São horas noite dentro num palco em que o standupista (a primeira vez que vez que vejo a palavra em português, a tradução de stand-up comidian), expressa através dos seus bizarros movimentos em palco e das tiradas verbais, tudo o que faz rir os seus fãs,ou então quedar-se perplexos ou até envergonhados, mudando ao longo do seu acto para a tragédia e tristeza de se estar vivo e pertencer por inteiro à sua sociedade. Com frequência nomeia a cidade onde decorre o seu acto teatral, e depreendemos que não se trata de um grande centro metropolitano, mas em que a humanidade de todos está a saque, a vivência entre o riso e o choro, por entre eventuais alusões ao estado de guerra em curso, em que até os mais jovens começam o treino militar como se de pioneiros ou escuteiros se tratasse, fora da família e sob as instruções de oficiais militares. Por outras palavras, a condição judia em tudo se assemelha a todos os outros povos em todas as geografias e nacionalidades, com chamamentos a certas figuras que ficaram na história literária pela sua capacidade de nos transmitir o absurdo, incerteza e insegurança que são as nossas vidas, Kafka é mencionado por um dos seus escritos em que só o pior nos espera ou nos pode acontecer a qualquer momento. Não entram, nem o comediante nem o seu narrador, em questões do conflito sempre presente naquele país, mas sim na normalidade e anormalidade do dia-a-dia dos o que ouvem, tomando as suas bebidas, trocando olhares ora envergonhados pelo que vêem e escutam do palco, oram rindo e sorrindo no seu momento de catarse e reconhecimento de si próprios, como se o autor fosse todos eles nas mais variadas condições e sorte de vida. Alguns vão abandonando a sala em desgosto e vergonha, outros permanecem e esperam o que der e vier dos gestos corporais e palavras do actor. Nunca este se comove nem com as palmas nem com a deserção do seu público, esta é uma noite de verdades raramente ditas, uma vez mais, a comédia e a tragédia numa espécie de diálogo que nos vem desde os poetas e dramaturgos gregos antigos. Sentados em grupo ou sós à sua mesa, bebendo ou não, olhar para o palco é como se olhassem para um espelho que os retrata ou devolve a imagem a cada um e a todos eles.

“Um momento – diz o narrador a finalizar – passa e outro. O gerente da sala olha para a direita e para a esquerda, limpa a garganta, bate com ambas as mãos nas coxas grossas e começa a levantar as cadeiras. As pessoas levantam-se e saem em silêncio sem olharem umas para as outras. Algumas mulheres fazem-lhe um sinal com a cabeça. A sua expressão é apagada. A mulher alta de cabelos grisalhos aproxima-se do palco e despede-se dele com uma inclinação da cabeça. Ao passar pela minha mesa, em direção à saída, pousa em cima um bilhete dobrado. Reparo nas rugas do sorriso à volta dos olhos rasos de lágrimas”.

Um dos críticos internacionais citados na contracapa de Um Cavalo Entra Num Bar relembra-nos o óbvio – que certas verdades só podem e são ditas nas melhores das ficções, e fala-nos ainda nas “sociedades disfuncionais” em que todos vivemos, e que outros provavelmente chamariam de “pós-modernas”. Estamos de novo no tempo em que as antigas instituições não funcionam, estamos desorientados, todos, na nossa tentativa de mera sobrevivência, em que uns falam de armamentos cada vez mais aterrorizadores em futuras guerras quentes, enquanto outros assassinam impunemente os que são considerados inimigos ou perigosos para os poderes instituídos. Este grande livro de David Grossman parece querer dizer-nos isso mesmo. “Este é um romance — diz The Guradian – para a nossa Idade de Ofensa – ofensa facilmente aceite e interminavelmente praticada”. Não conheço uma única sociedade no mundo da nossa época que não se reconheça nestas palavras do romancista, os muitos dos seus críticos e leitores. A arte celebra a vida, por certo, tal como denuncia os que subvertem e tentam dominá-la a qualquer custo para todos os outros. Atiram-nos cá para fora números que pretendem significar felicidade ou falhanço, falhanço nunca dos governantes, mas dos seus servidores, que somos quase todos os nós. A palavra artística desdiz a mentira, e sobretudo reconfirma e reafirma a nossa humanidade, a vida no seu melhor e no seu pior, na sua alegria e na sua tristeza.

É esse mesmo o poder deste romance. Basta a palavra e um gesto num palco para revermos a nossa condição como cidadãos do mundo, sempre em conflito de um modo ou outro.

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David Grossman, Um Cavalo Entra Num Bar (tradução de Lúcia Liba Mucznik), Lisboa, D. Quixote, 2018.

 

 

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