Quando o alter ego de Philip Roth se justifica perante os seus e os outros

Gostaria de pensar que, se e quando nascer o dia em que receberás o teu convite para ires a Estocolmo receber um Prémio Nobel, teremos dado um modesto contributo com a vista a despertar a tua consciência para as responsabilidades da tua vocação.

Philip Roth, O Escritor Fantasma

Vamberto Freitas

As palavras aqui citadas em forma de epígrafe são escritas numa longa carta de um juiz amigo do pai de Nathan Zuckerman, o protagonista ficcional que domina uma parte da vastíssima obra de Philip Roth, e são palavras de um dos seus mais distintos romances publicados a meia carreira do autor, em 1979, sob o título de The Ghost Writer, e que mais tarde faria parte de uma trilogia chamada Zuckerman Bound, que inclui ainda Zuckerman Unbound The Anatomy Lesson/A Lição de Anatomia (este fazendo parte da já longa colecção traduzida na nossa língua) a que juntou um longo Epilogue: The Prague Orgy, que levaria o autor até à Europa então sob o domínio da União Soviética, e em defesa aberta dos seus escritores mais perseguidos ou já no exílio, que também resultaria num outro livro de ensaios e entrevistas. Não será surpreendente que este romance aqui em foco tenha sido dedicado já na primeira edição a Milan Kundera, como agora na magnífica tradução de Francisco Agarez para D. Quixote, lançado o ano passado. Philip Roth nasceu em 1933, tendo anunciado há poucos anos que deixaria de escrever por completo, e que agora dedicar-se-ia exclusivamente à leitura, e redescobrindo o prazer do texto escrito por outros autores. O seu primeiro livro Goodbye, Columbus And Five Short Stories saiu em 1959, e nunca mais o autor deixou de ser uma das mais controversas vozes da literatura norte-americana da nossa época, provocando com igual intensidade de ira tanto os judeus como muitas mulheres, por razões mais ou menos diferentes, mas têm a ver com uma nova visão da sua sociedade, o humor e sátiras imparáveis ao serviço da criação de nada menos do que a visão sobre um novo espaço que era até então totalmente dominado pela literatura anglo-saxónica, tendo as novas vozes das primeiras gerações judias nascido apenas já na década de trinta e permanecendo até aos nossos dias. Ainda assim, muito depois de obras-primas afro-americanas, que vinham desde o tempo da escravatura até aos nossos dias. As palavras que citei têm outro propósito aqui: a ironia de Philip Roth constatar das listas do Prémio Nobel desde há muitos anos, sem nunca o ter recebido. Nem precisa. Toda a sua obra tem sido premiada ao mais alto nível por outras instituições dentro e fora dos Estados Unidos. Os suecos, diria ele mais ou menos o ano passado, não devem gostar do “sexo” na sua ficção. Os seus leitores gostam, e fizeram dele uma das vozes literárias supremas desde o século passado até ao presente. Poucos serão os escritores que atingem este estatuto de permanência e admiração, pelo menos no Ocidente e arredores mais abertos e libertos. Quando publicou um dos seus mais controversos romances em 1967, Portnoy’s Complaint/O Complexo de Portnoy, levantou tal furor na comunidade judia-americana que até levou uma comissão informal a sugerir que os seus livros não fossem mais publicados no país. Religiosidade e história estavam por detrás dessa insatisfação e raiva, mas Philip Roth nunca cedeu na sua visão de judeu americano e no seus direito artístico de despejar a sua alma e razão em sucessivas obras, que atingiriam o seu apogeu internacional nos longos romances American Pastoral/Pastoral Americana e The Conspiracy Against America/A Conspiração Contra América, hoje um dos mais lidos nos EUA devido à actual situação política, mesmo que se trate de um tempo ficcional dos anos 30/40 e do movimento pró-nazi naquele país.

O Escritor Fantasma será talvez um dos mais “calmos” romances do seu cânone pessoal, pela sua temática como pela contenção das suas linguagens. O seu narrador/protagonista, escritor conhecido, vive em Nova Iorque, mas decide visitar por uns dias um escritor/mestre, aqui de nome E. L. Lonoff e também judeu-americano, que vive no campo algures na Nova Inglaterra e casado como uma mulher de famílias patrícias e representante da classe mais antiga e dominante desde os primórdios dos Estados Unidos. “Era uma mulher – diz Zuckerman—pequena, de amáveis olhos cinzentos e suaves cabelos brancos e uma infinidade de rugas finas que sulcavam a palidez da pele. Até podia ter sido, como dizem os jocosos intelectuais, ‘a aristocrática herdeira ianqui’ de Lonoff…” Recebe inevitavelmente visitas periódicas de admiradores e admiradoras, sempre civilizadamente. “Pureza. Serenidade. Simplicidade. Reclusão”, diz logo de início Zuckerman sobre o seu ídolo, que alguns críticos identificaram como sendo o escritor de contos e romances Bernard Malamud, falecido em 1986, cujas obras se tornariam parte do cânone literário nacional, um escritor de minorias que não iam nem vão atrás das máquinas publicitárias que hoje dominam o mundo editorial um pouco por toda a parte. Zuckerman limita-se aqui a conversas serenas, a ouvir os conselhos do velho escritor que na altura tem também de visita em sua casa uma mulher muito mais nova, e que Zuckerman sendo Zuckerman, suspeita eventualmente ser amante do velho escritor, e que ele próprio, já se sabe, começa a desejar. Este é um romance de grandes ironias. Zuckerman procura a redenção depois das suas obras mais controversas, como que pede desculpe e a bênção dos mais velhos adentro do mundo ancestral, que começa como filho de imigrantes em Nova Jersey, de onde era realmente Philip Roth, a linguagem entre a sua biografia e ficção sempre muito fina e deliberadamente levando o leitor à confusão, ou melhor, despertando nesse leitor a sua imaginação. A verdade é que Philip Roth/Nathan Zuckerman também desfrutava de grande amizade entre os que haviam lançado uma nova literatura norte-americana a partir de grandes cidades metropolitanas, inclusive Chicago onde já vivia, leccionava e escrevia Saul Bellow, talvez o escritor que mais influência exerceu sobre o autor.

“Na longa e interessante conversa que mantivemos – escreve um juiz amigo do pai de Zuckerman a propósito de conto com o título de ‘Estudos Superiores’ e já manifestando o escândalo que o seu autor provocaria ante a família e outros leitores – aqui nos meus aposentos, informei-o de que tradicionalmente, ao longo dos tempos e em todos os países, o artista sempre se considerou além dos costumes da comunidade em que vivia. Grandes artistas, reza a história, são muitas vezes ferozmente perseguidos pelos temerosos e incultos, que não compreendem que o artista é uma pessoa especial que tem um contributo ímpar a dar à humanidade”.

Não, não creio que Philip Roth, através de Nathan Zuckerman, está a auto-engrandecer-se, antes pelo contrário. A ironia é outra vez um recurso seu que se dirige à ignorância e intolerância dos que, dentro da sua própria tradição ou ancestralidade judia, tentavam não esquecer o passado, mas sim criar um espaço na nova sociedade que lhes era negada, e nunca reivindicada pelos antigos antepassados que lá tinham chegado no XIX e princípio do século passado, em fuga à histórica barbaridade europeia, ao anti-semitismo irracional, à violência que atingiria o genocídio na II Guerra Mundial. Estes novos escritores judeus não ignoravam e muito menos desculpavam o sofrimento de todo um povo que era o seu. Simplesmente, sabiam que do passado, relembrando-o tanto na história como na arte, só os manteria nas margens, e o seu talento e vontade de pertença ditavam que a sua condição era o que era, e que a sua arte faria chamamentos, umas vezes subtis outras abertamente, a esse passado, mas que o seu grupo tinha de ser representado nas letras como parte íntegra da vida quotidiana, os seus sonhos de vida, as suas angústias e triunfos, agora numa outra e bem diferente geografia, seriam os temas fundamentais de uma nova literatura em língua inglesa. Por outras palavras, a escrita de Philip Roth, muito ao contrário do que era assumido, colocava essa sua comunidade de origem em Nova Jersey, Nova Iorque ou Chicago como fazendo parte da condição humana em geral, com todas as suas virtudes e até criminalidade. Foi uma literatura tão nova e radical que para sempre mudaria a cultura do país, e durante décadas até conduziria todo o debate literário, e mesmo político, no seu país de nascença e livremente adoptado pelos seus pais e avós.

Creio que O Escritor Fantasma é também sobre isto, numa leitura mais atenta, como é sobre o acto criativo em si, com mestres e discípulos, a chamada meta-literatura, ou seja a palavra artística virada para si própria como um outro tema inescapável da modernidade e da reinvenção do próprio romance.

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Philip Roth, O Escritor Fantasma (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, D. Quixote, 2017. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 23 de Março de 2018.

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