História e mítica da Califórnia, ou uma metáfora do sonho americano no seu extremo

Tal era o poder da história na qual eu me tinha criado e crescido que me invadiu este pensamento que se tornou uma revelação: o povoamento do Oeste, mesmo que inevitável, não tinha sido levado a cabo para o bem de todos, nem tinha a qualquer nível beneficiado até mesmo aqueles que se tinham apoderado das riquezas mais óbvias.

Joan Didion, Where I Was From

Vamberto Freitas

Entre os livros que acabo de ler, alguns deles de memórias de autores famosos na cultura literária norte-americana, nenhum deles me tocou tão profundamente como “Where I Was From/De Onde Eu Era”, de Joan Didion (1993), a grande escritora do Norte da Califórnia, Sacramento, a capital do grande e mais rico estado da mais rica nação do mundo. 27 anos de vivência naquela parte da América, no extremo real e metafórico da sua fronteira a oeste permite-me agora entende-la numa outra completude e condição existencialista. Não é só sobre a história de uma das mais enigmáticas geografias culturais e ideológicas dos EUA, tratando-se de uma obra sobre a condição universal, a dor de cada um de nós em qualquer parte do mundo. Cito aqui uma das suas mais lapidares e certeiras declarações, que vai ao fundo do coração humano: “There is no real way to deal with everything we lose/Não há nenhuma maneira de enfrentar tudo e todos que perdemos nas nossas vidas”. Estas suas memórias, autobiografia e história social e económica da Califórnia, fazem parte de uma das mais distintas autoras, que nasceu em 1934, e continua a viver em Nova Iorque, para onde se mudou cedo na sua carreira. Creio que poucos outros autores conhecem o seu lugar de nascença e onde viveu até à sua formação na Universidade da Califórnia, em Berkeley, como Joan Didion. A autora começa a escrever com distinção desde os seus tempos de faculdade, e ainda hoje permanece como a mais distinta estilista e consequente ensaísta e ficcionista da sua geração, em que olha com uma lupa intelectual e realista todo o seu país, e até a América Latina. Tenho muitos dos seus livros aqui na minha estante, e tenho na mente alguns dos seus mais pertinentes e criativos ensaios publicados em grandes periódicos do seu país, que já fazem parte de um vasto cânone, como The White Album, Plat It As It Lays, e especialmente Slouching Towards Bethhelem, Miami e El Salvador. Não, não os li todos, mas li boa parte deles. Na ficção, li Democracy, no qual a ironia e a mentira do seu próprio país é o tema predominante, tal como, já depois de viver nos Açores, li a sua obra incomparável de ensaios simplesmente intitulados After Henry. Ter sido, como fui, imigrante ou cidadão de dupla nacionalidade no estado da autora, a sua descoberta foi sempre para mim um momento do chamado choque de reconhecimento: que uma nativa de sete gerações numa Califórnia de absolutos contrastes me esclarecia a minha própria sorte e estilo de vida foi ou foram momentos de grande emoção e pensamento. Joan Didion não só nos apresentava as contradições da nossa vivência, sonhos que disso não passavam, uma existência em suspenso sem saída ou meta clara a atingir – avisa-nos de que a mais longínqua e indefinida fronteira americana era uma de vida e morte, de ilusões e muito particularmente de perdas irreparáveis e do esquecimento do passado e dos que nos tinham antecedido na aventura, quer tenhamos partido da Europa ou de outras geografias mais longínquas, quer tenhamos nascido no próprio território feito de minas ilusórias e do mais desenfreado capitalismo selvagem, muito do qual ironicamente iniciado e depois financiado pelos governos estaduais e federais.

O estilo de Joan Didion vem do chamado novo jornalismo dos anos 60, no qual a mistura de factos documentados se juntam à intromissão pessoal, ou no qual a autora se mete “dentro do texto”, contrastando discursos oficiais com a sua própria experiência de vida, dia-a-dia, ano após ano. Fala aqui de acontecimentos que então eu vivia de perto nos meus 27 de América, como fala dos mais estranhos momentos de violência comunitárias que eu já acompanhava ao longe aqui dos Açores. Fala de uma Califórnia que conheci e vivi de perto nas comunidades rurais de Tulare, no Vale de São Joaquim e arredores, como fala de muitas geografias que me eram íntimas, em certas cidades na Grande Área de Los Angeles onde eu vivia simultaneamente com medo e sentido de realização. Fala da Califórnia da minha alegria e das minhas aflições. Sou filho, também, das mais estáveis e até prósperas comunidades luso-americanas, mas sempre consciente de um sistema e de uma classe governante capitalista sem moral nem piedade, que havia recebido a sua infinita riqueza dos governos estaduais e federais, da qual comíamos as migalhas que caíam da mesa e nos davam a ilusão de que estávamos nos melhores dos mundos. A grande narrativa de Joan Didion começa em 1846, quando o roubo de terras e os monopólios dos caminhos de ferro tudo controlavam e amedrontavam. Até hoje. A sua história começa com a travessia continental dos desgraçados em busca de terras e pátria, e acaba com a destruição de comunidades inteiras após a retirada tanto da indústria de defesa durante a Guerra Fria até à indústria aeroespacial e ao domínio do Silicon Valley, em que ela diz que todo o Norte da Califórnia se tornou num gigantesco San Jose, a cidade quase sem fronteiras e estendida por toda a parte, no qual os açorianos, mais ou menos, ainda predominam. De “portugueses”, só fala numa página, e ainda assim para castigar o discurso de certos protagonistas do famoso romance do “socialista”, absolutamente hipótrica e de nome Jack London, pelo menos na sua ficção de The Valley of the Moon. Fala-me de Tulare, Visalia, Delano, e assim por diante. Não vejo aqui os bandidos do Pacific Railroad, ladrões de guerras subsidiadas e criminosos contra os pequenos agricultores. Vejo a minha gente açor-americana: trabalhadora e inteligente, que um dia controlou cerca de sessenta por cento da indústria da produção do leite, assim como da agricultura em geral, constituindo ainda algumas das melhores e, repito, mais estáveis comunidades da Califórnia. Só que entendo e aceito a história de Joan Didion do seu estado natal, e a sua criminalidade na distribuição de terras às grandes empresas supostamente agro-pecuárias.

“Californianos – escreve Joan Didion nestas impressionantes memórias – de um certo espírito programático durante muitos anos apresentaram estas mudanças pós-Guerra como sendo positivas, o génio maior do lugar: era convencional mencionar o sistema de autoestradas, a indústria aeroespacial, o Plano Maior da Universidade da Califórnia, o Silicon Valley, o plano massivo de desvio das águas que era financiado quando Pat Brown era governador, todo o pacote, a celebrada promessa que a Califórnia estaria dedicada a criar e a educar uma aparentemente infinita e expansiva classe-média. A mais recente atitude programática foi continuar as mesmas mudanças negativas, promessas falsas: as autoestradas que facilitam o crescimento desordenado, a indústria aeroespacial que já se foi, a Universidade da Califórnia que tem perdido professores e salas de aula e a redução de orçamentos, o Silicon Valley que aumentou os preços das casas para além das posses dos residentes não-técnicos na Califórnia, e quase todo o estado continua sem água”.

Joan Didion é, sem dúvida, uma das maiores escritores norte-americanas do nosso tempo – no melhor jornalismo e na ficção. Conhece o seu estado de origem como ninguém, filha das gerações que atravessaram todo um continente, mesmo antes da independência do país em 1776. Viveu directamente como poucos de nós a Califórnia de ponta a ponta, inclusive aquele enclave muito estranho e decadente chamado Hollywood, onde trabalhou com o seu marido, o romancista de renome John Gregory Dunne, Play-Land, Crooning e The Red White And Blue, entre alguns outros romances, que também tenho na minha estante aqui em casa, na escrita de guiões para filmes de todo o género.

Joan Didion, que eu saiba, ainda não esta traduzida no nosso país. É um outro mistério para mim.

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Joan Didion, Where I Was From, London, Harper Perennial, 2014. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

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