Nemésio, Intelectual Público

Às vezes penso que um facto acintoso espia os valores portugueses para os baralhar ou denegrir. Para os baralhar, sobretudo.

Vitorino Nemésio, Sob os Signos de Agora

Vamberto Freitas

Não será de admirar que a obra de Vitorino Nemésio desde há muito suscite a maior atenção nas nossas páginas nacionais e em estudos sucessivos um pouco por toda a parte. Tudo confirma Nemésio, tirando a sua presença popular na televisão também nacional, sempre foi assim, sobre isso escreveu David Mourão-Ferreira, entre alguns outros especialistas na sua obra, como o Professor Doutor António Machado Pires e o falecido José Marins Garcia. A obra de Nemésio corre agora, como sempre, outros riscos institucionais – o de pertencer a um grupo de escritores mais citados do que lidos, feito “propriedade” quase pessoal de minorias e assim permanecendo na serenidade falsa dos esquifes intelectuais em que frequentemente se tornam as publicações universitárias. Um estatuto canónico poderá ser também uma certidão de óbito literária, e no caso de Nemésio essa seria a maior das injustiças àquele que foi o nosso homem de letras por excelência, aquele para quem a escrita em todos os seus géneros foi um acto tanto intelectual como vivencial, conjugando a tradição do escritor que se dirige ao grande público e simultaneamente em diálogo permanente com o seus pares intelectuais, os pressupostos teóricos da escrita em convivência com os relatos ficcionados ou jornalísticos, a sua poesia sendo de igual modo ora uma representação da condição interior e saberes do indivíduo perante o seu tempo ora a representação passional perante as geografias dos seus afectos e memórias, assim como as variadas fases ideológicas da nação. Nemésio é efectivamente o nosso escritor total: pertence aos  escaparates públicos da literatura mais viva e deveria ser inescapável de todo e qualquer leitor não-profissional ou de carreira. Nemésio é o diálogo abrangente entre o leitor e o seu país e cultura durante a segunda metade do século passado, o nosso autor ao mesmo tempo absorvido pelo espírito do lugar e em viagem constante pelos mais escondidos recantos do mundo, desde Coimbra e Lisboa até ao Nordeste e outras partes do Brasil – e com os Açores como centro sentimental, e depois a na Sapateia Açoriana como centro político de emergência. Ler Nemésio, para a minha geração, será sempre voltar a casa.

Uma leitura ou releitura de Sob os Signos de Agora, os ensaios e outra escrita do início dos anos 30 é uma dessas impressionantes viagens nemesianas pelo mundo do pensamento a partir da literatura, da história, da política e, sim, das suas múltiplas geografias num mmento em que toda a “casa comum” europeia já ameaçava desabar, como em brve viria de facto a acontecer. Não é o professor universitário que escreve nestas páginas, é o intelectual público inteiramente comprometido com a linguagem civilizada sobre as raízes do nosso ser e do nosso particular lugar que então ocupávamos ou havíamos desde há muito ocupado no concerto das nações vizinhas e distantes, no lugar especificamente cultural que então era Portugal na Europa – lugar desconhecido de todo pelos outros, mas que Nemésio não desdenhava nem desprezava simplesmente por ser o seu lugar, por lhe ter cabido a sorte de nascer e viver e de se comover com o seu chão-pátrio. Cabe aqui, nestes Signos, um pouco de tudo que então definia os interesses e os posicionamentos de uma toda uma vida – os Açores como palco de histórias “locais” e “nacionais”, a crítica literária em volta de poetas como João de Deus sempe ampliada e enformada pelo comparativismo do intelectual a outros meios e criações, a interligação da arte e biografia, as evidentes e nem sempre evidentes metáforas nacionais na literatura e os nomes estrangeiros que já nos deviam, nessa recuada época, ser conhecida pela sua proximidade e pertinência, como no caso de Unamuno. Qualquer revisitação à diversificação e por vezes ocasional escrita de Nemésio faz ressaltar como redundantes se tornaram os termos universalista e universalidade quando a ele aplicados com a insistência de quem parece valorizar qualquer obra especificamente em relação – no afastamento e na aproximação – a imaginados ou a impostos centros de pensamento; redundantes e logo inúteis por tão óbvia ser essa a qualidade subjacente à sua postura de vida e à sua criação na ficção, poesia, ensaio ou mero comentário de ocasião, e em que centros para ele existiam e eram totalmente interiores, parte da sua natureza e educação em geral, restando, restando ao intelectual e ao escritor destes Signos perceber a humanidade em todas as suas latitudes e contingências históricas ou momentâneas. Ler Nemésio, qualquer página de Nemésio, é experimentar o que Herman Melville disse ser o choque do reconhecimento: a condição humana, apesar das suas variantes locais aqui e ali, da língua e das culturas, são de imediato entendidas e empaticamente transmitidas de enunciador para receptor. Em vão se procura a portuguesa violência verbal em Nemésio, antes deparamo-nos com a fina ironia do homem culto e generoso, do homem atento aos seus mundos circundantes e simultaneamente às vastas geografias do seu imaginário pátrio e intelectual – nessa aproximação de tudo e por tudo que seja humano, uma vivência, uma escrita onde nada lhe é alheio ou estranho: For genius, all over the world – escreveria Melville, o autor com quem Nemésio terá demasiadas afinidades temáticas, particularmente em Mau Tempo no Canalstands hand in hand, and one shock of recogniton runs the whole circle round.

Uma vez mais, ler e reler livros, por exemplo, como os Signos de Agora, é lembrar-nos de que a nossa geração não lhe pode fugir nem na escrita nem na atitude fundamental perante o nosso lugar no mundo ou simplesmente no país português; ler Nemésio na sua totalidade é reencontrar o conforto de sabermos que antes de nós aqui nos Açores alguém já nos tinha transmitido o “essencial” da nossa condição humana. João de Melo disse-me um dia que Nemésio não era o nosso pai ou sequer avô literário. Talvez, dado que o conceito de literatura nacional se dilui quase por completo e as suas leituras também vêm em maior quantidade de escritores de outras línguas e de outras geografias. Só que Nemésio foi quem nos legou directamente a visão de que ser-se português dos Açores não era de modo algum estar preso às definições e as mais das vezes discriminações do eixo político e cultural Lisboa/Coimbra, era antes estarmos atentos aos ruídos de todo o mundo, desde o pescador da Praia da Vitória ao imigrante nos EUA e outras partes, desde Unamuno a Raul Brandão. Nesse sentido, a nossa atitude actual é de pouca originalidade, foi herdade de Nemésio como de mais ninguém. Toda a sua escrita, por sua vez, tem tanto de heranças europeias como do mundo anglo-saxónico, é feita de ideias e de experiências quotidianas, a fala, a festa e o trabalho dos homens e mulheres em consonância com a citação mais intelectualizada. Nemésio mais do que tudo é um escritor e um intelectual público, logo referência alargada e consequente para além do mundo universitário, uma suposta serenidade dando lugar à paixão, como no já mencionado Sapateia Açoriana, um dos últimos livros de poemas no qual ele é capaz de resumir noções de um coração em conflito quase total, a lealdade e a traição, o amor e o corte radical com o mundo pátrio amado, o manter em equilíbrio dois pensamentos absolutamente contraditórios (como diria um escritor americano noutras circunstâncias e noutra longínqua época), nesse tão claro sinal de inteligência e grandeza de alma. Nemésio é, dentro do país português, o autor sem par do nosso pensamento e da nossa angústia a meio mar, o autor do conflito permanente que é o de ser-se português dentro e fora da Europa.

__

Uma Página Sobre Vitorino Nemésio, Curadoria/coordenação: António Machado Pires, Rio de Janeiro, Organização do Gabinete do Secretário Regional da Presidência para as Relações Externas, 2018. Este ensaio foi reescrito de um outro que publiquei em 1996. O livro será apresentado amanhã na Casa dos Açores do Rio de Janeiro. Publicado no Açoriano Oriental, 20 de Abril, 2018.

 

Anúncios

A doença como metáfora de todo um país

Respiravam todas. Contavam respirar no dia seguinte. Não tinham nenhuma moléstia que as inquietasse. Uma rapariga, esbarrando nele, deixou cair a bolsinha de mão. Ernest apanhou-a num movimento rápido e devolveu-lha; sorriram um para o outro com o mesmo embaraço simpático. Era bonita. ‘Se esta sonhasse que eu sou, ou fui, tísico…’”

Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis

Vamberto Freitas

Depois de ler este segundo romance de Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis, a minha primeira reacção foi tirar da estante aqui em casa o livro da falecida Susan Sontag, Illness As Metaphor (1997), creio que escrito pouco depois da autora ter contraído uma das doenças mais temerosas do nosso temo, que os nossos jornais costumam designar por “doença prolongada”, a palavra cancro ainda carregando uma semântica medonha, em que a morte é o primeiro pensamento que nos vem à mente, a condenação sem remédio nem retorno. No entanto, ao reler partes do livro de Sontag constatei o que me parecem duas verdades incontestáveis. Primeiro, a doença não é uma metáfora para vidas infelizes ou condenadas pelos deuses do mal. Segundo, nem todas as formas de doença, por mais que a história assim o ateste, levam ao fim de uma vida, com as devidas excepções como sempre. Illness As Metaphor traz na contracapa palavras que se aplicam por inteiro aqui. “Durante muito tempo – escreve Susan Sontag — a tuberculose era identificada como uma bactéria infeccional, e acabou com a ideia de representar um desaparecimento romântico do doente ou de um temperamento artístico sensível, e poderia ser tratada e curada. Do mesmo modo, deveremos hoje acabar com a noção de que o cancro é um sinal do fim, um castigo ou um sinal de uma personalidade reprimida, e sim uma doença reconhecida pelo que de facto é: uma doença entre tantas outras e frequentemente recepectiva de uma cura”. O novo romance de Isabel Rio Novo não me foi uma surpresa completa, pois aqui ainda há poucos anos o açoriano Nuno Costa Santos publicou também uma grande peça de ficção intitulada Céu Nublado com Boas Abertas, uma espécie de meta-ficção na qual conta a história de um avô que havia deixado na estante um manuscrito sobre a sua sorte nos Açores no princípio do século passado e acaba tuberculoso no famoso sanatório na serra do Caramulo. Não há aqui qualquer outra comparação possível. O romance de Isabel Rio Novo distingue-se de outros modos, as suas linguagens são fulminantes na sua clareza, na sua precisão, na historiografia de todo um país subdesenvolvido, que vai desde o século XIX até aos dias pós-25 de Abril, quando se inicia a história.

A originalidade de A Febre das Almas Sensíveis vem ainda de outras formas narrativas e da própria construção de personagens. A saber, uma jovem investigadora decide passar algum tempo nas ruínas do Caramulo em busca de documentos perdidos, desde cartões postais a cartas pelas quais reconstrói vidas inteiras no contexto do seu tempo e condição social. Por outras palavras, a metáfora aqui nunca deixa de existir, mas refere-se mais à sociedade do que ao doente ou doentes. Os nomes dos personagens são muitos, mas a narradora nunca deixa o leitor pendurado em incertezas ou insinuações. Quase hesito em utilizar esta designação formalista, só que a Febre das Almas Sensíveis se assemelha ao que então se chamava nos Estados Unidos “realismo romântico”, a realidade da esperança e a força de cada um ou uma de vencer perante o pior das situações pessoais ou mesmo familiares. Todos eles vivem, como creio ter escrito Jorge de Sena num poema quando contraiu também uma “doença prolongada”, a morte social antes da previsível morte física. Todos se desviam, todos pretendem certa preocupação ao longe, todos vivem no medo do seu meio ambiente e das notícias que partem de quem está gravemente doente. “Em casa, — escreve a narradora — acautelando o contágio, Natália separava a louça de Armando, destinando-lhe um prato e uma malga para uso próprio, sacudia-lhe as roupas e deixava-as apanhar o ar na varanda durante a noite”. O período mais focado no romance é precisamente a época salazarista. Isso poderá levar-me a uma conclusão contrária às palavras da eminente autora americana atrás citadas.

A Febre das Almas Sensíveis, apesar do que acabo de dizer anteriormente, pode na verdade tornar-se essa metáfora, não da doença, mas de todo o país, desde o seu tempo ficcional aqui. Faz-me lembrar – não há qualquer imitação aqui – A Montanha Mágica (1924) de Thomas Mann e do seu protagonista Hans Castorp poucos anos após a I Grande Guerra, com ele num sanatório para tísicos algures no alto da Suíça. Não é o doente que se torna metáfora, é toda a ambiência de país ou de uma sociedade e continente em guerra e na absoluta precariedade de uma certa modernidade. O período mais mencionado nesta ficção de Isabel Rio Novo é precisamente o salazarismo, e toda a sua hipocrisia quando escondia a doença que arrasava ainda o nosso país, mas a alegria da pobreza e miséria era propagandeada como uma virtude quase sagrada. Não posso deixar de lembrar que nestes meses mais recentes alguma da nova literatura portuguesa tem focado a doença e a morte como temas fundamentais. Ainda há poucas semanas recebi de Eugénio Lisboa o seu Epílogo Acta Est Fabula, a conclusão dos seus cinco volumes de memórias, só que agora em forma de diário que documenta os últimos dias da sua grande companheira de vida, a sua solidão, e ainda mais a sua descrença no suposto bem-estar da nossa terra. É dilacerante porque acaba por ser um espelho que prevê o destino de nós todos. Toda a arte Ocidental, literária ou não, vem desta tradição que remonta aos gregos antigos, a condenação dos deuses e a nossa inevitável obediência perante a sua ira. Também muito recentemente recebi um livro de memórias do Professor Francisco Cota Fagundes, jubilado da Universidade de Massachusetts, nada menos doloroso na sua perfeição linguística e formal, Viagem Pela Escuridão, que nos conta o sofrimento de um filho único que desde criança sofre de um tumor cerebral. Nenhuma desta prosa nos é deprimente na sua leitura, são-nos os tais espelhos em que da escuridão se faz luz, e consciencializa-nos do que nos espera para que nunca deixemos de viver plenamente o dia-a-dia. Como nalgumas pinturas de Picasso, o sofrimento extremo não anula a beleza da vida, muito pelo contrário. A Febre das Almas Sensíveis é tudo isso: o amor e a solidariedade de uns e a indiferença de outros, a obrigação da luta de cada sofredor sem nunca deixar de acreditar na bondade do seu destino, muito mais do que na medicina. Metáfora, sim, de todo um país. De quando em quando o narrador vai-nos relembrando que a cura da tuberculose já se encontrava ao alcance de outros naquela época, menos entre nós, pela nossa pobreza, pelas prioridades do regime. A prosa deste romance poupa nos adjectivos sem nunca perder a fulgurância de uma escrita aliciante, a tragédia convivendo com certo humor e a forte ironia passo a passo. A capa do romance é um quadro de Munch, “Separação”. Como o “Grito” do mesmo pintor numa ponte, por entre o que parece ser uma tempestade mortífera. Este também traz a representação da dúvida e da morte, mas ao lado uma mulher vestida de branco caminhando para vida. Todo este simbolismo oferece igualmente ao leitor as mais variadas interpretações do texto que vem dentro. Se um representa a espera da morte, a outra parte, uma mulher caminhando em busca de salvação. As contradições, quero interpretar assim, da nossa própria sociedade.

“Pousado – diz a a narradora sobre a rapariga que investiga os documentos do Caramulo entre as ruínas – no seu colo, o livro da lombada espessa recorda-lhe que a medicina portuguesa, até meados do século vinte, sem recursos farmacológicos para combater a tuberculose, se voltava para o reforço das únicas medidas realmente eficazes: isolamento e prevenção. O meio nacional parecia invadido por um movimento benéfico em favor da sanidade pública. As grandes questões da higiene individual e social, ventiladas nas escolas e sustentadas na investigação científica, configuravam uma espécie de cruzada de propaganda de princípios salutares, uma fase visível das transformações no modo de vida de uma sociedade que, apesar das peias que a tolhiam, queria muito progredir”.

Citei de propósito este passo positivo de uma sociedade, como todas as sociedades, marcada pelas suas contradições. Antes, durante e depois do salazarismo sabemos que as pequenas elites mais bem colocadas no nosso país nunca se interessaram pela sorte do seu povo. A autora de A Febre das Almas Sensíveis é inteligente e sabedora demais para castigar a sociedade em termos de classe ou mesmo governantes. Retrata apenas um povo deixado quase só à sua sorte, sem juízos ideológicos ou acusações de qualquer outra espécie. Só que sabe que uma classe governante tem apenas duas saídas: ou salvar a maior parte da sua gente ou ficar sem país para governar. Salazar achava que os portugueses eram alegremente pobres até que a doença em massa o ia dizimando pela enésima vez na sua história. A Febre das Almas Sensíveis não é um romance político, sem nunca deixar de projectar o país que fomos e somos. A sua arte não é acusadora, é, isso sim, reveladora de um povo a saque, e só. Mostra tão simplesmente a condição humana, os seus anjos e demónios. Um romance como este limita-se a esse discurso do lamento e choro de uma humanidade no seu sofrimento e eventual salvação. Nos tempos que correm, não podemos pedir mais de uma grande obra literária como esta. É tanto uma história do passado como um aviso ao presente. Vai perdurar nesta sua grandeza.

A autora foi finalista do Prémio Leya com o seu primeiro romance Rio do Esquecimento, e agora com A Febre das Almas Sensíveis. Já venceu vários outros prémios literários no nosso país. Escritora também de contos, doutorada em literatura comparada, lecciona várias artes ligadas naturalmente à literatura e ao cinema. Ler este seu romance foi um dos meus grandes prazeres e privilégios.

__

Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis, Lisboa, Dom Quixote/LeYa, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 13 de Abril 2018.

 

Da poética ancestral luso-americana

I found a ship bound for the old country, so I travel back to a past I never lived, to the life of my great grandmother, the woman who started my story/Encontrei o barco que rumava ao torrão natal, para um passado que nunca vivi, para a vida da minha bisavó, a mulher que iniciou a minha história.

Lara Gularte, Kissing the Bee

Vamberto Freitas

Kissing the Bee/Beijando a Abelha, a mais recente poesia da luso-americana Lara Gularte, é de uma grandeza desusada entre alguns outros nomes cujas obras de temática luso-descendente também já foram escritas e publicadas nestas décadas mais recentes. Não vale a pena repetir alguns desses nomes de que já falei noutros textos e recenseei ocasionalmente, mas este, repito, é um livro muito especial. Deduzo pelos contínuos chamamentos ancestrais aos antepassados de Lara Gularte, que são das ilhas do Faial, Pico e Flores, pela insistência com que a poeta se refere a estas geografias dos seus afectos e memórias. Natural do norte da Califórinia e descendente de açorianos que para lá foram a meados do século XIX, dedicados, entre outras actividades, à terra, à agricultura, todos eles enterrados em várias partes naquela parte do estado, a poeta escava constantemente tanto a história que lhe foi legada através de papéis e outros documentos, como visita as sepulturas dos seus, e sobretudo imagina como teriam sido ou não as suas vidas. Vemo-la em campo na sua presente vida de mulher mais ou menos rural mas formada numa universidade metropolitana, a California State University, em San Jose, onde reside desde sempre uma das nossas maiores e mais activas comunidades no oeste americano, como vemo-la dentro de casa olhando para fora e revisitando, despertando as suas memórias sobre aqueles que eram o seu pequeno mundo ou o seu grande mundo numa continuidade que agora só é registada, revivida, na sua poesia e prosa poética. Toda a escrita é sempre autobiográfica, ou, como diria um antigo professor meu na Califórina, se não nos “factos” definitivamente nos “sentimentos”. Lara Gularte ao escrever consistentemente sobre o passado dos seus e a saudade memorial de cada um deles passa a ser parte da nossa história colectiva, a que nos levou desde sempre a navegar e a reconstruir as nossas vidas, a criar novos mundos, a redefinir quem somos num destino histórico que tem literalmente o mundo como um palco nosso. Dito de outro modo, a sua poesia, como a de muitos dos seus colegas na América do Norte, dá continuidade a uma portugalidade ou açorianidade-outra, a língua inglesa como meio privilegiado de comunicação e arte. Na nossa Diáspora global não há nada de igual na grande literatura do além-fronteiras, e desde há séculos. Escrevem, todos eles, não necessariamente para quem com eles partilha estas memórias da terra ancestral, mas sim para leitores em geral no seu país, mas só agora chegando, finalmente, a nós aqui na geografia atlântica dos seus antepassados. Por enquanto são poucas as traduções na nossa língua, e isso permanece uma grande perda. A nova literatura já quase não tem nacionalidade, tem o mundo inteiro como objecto e sujeito em qualquer língua ou meio de comunicação. Poesia como esta é tanto americana como é portuguesa, a força das raízes, como já escrevi noutra parte, não nos permite, nunca, esquecer as origens, e muito mais tentar entende-las ou reclamar a pertença ao passado de todo um país, que neste caso é o nosso, e absorver ou já ter absorvido a sua cultura erudita e antropológica. Não será meramente acidental que estes escritores e poetas cada vez mais regressam a nós participando nos variados encontros literários, de que o programa anual Disquiet desde há muito se tornou um evento lisboeta que congrega artistas da palavra de várias origens, luso-descendentes e outros, assim como alguns dos escritores nacionais mais conhecidos.

Kissing the Bee vem na sequência de outros livros da mesma autora, Days Between Dancing, entre outros, e publica constantemente nas mais variadas revistas de prestígio literário, quer em papel, quer no digital. Identifica-se perante todos como sendo luso-americana, e também tem colaborado ao longo dos anos com algumas das nossas revistas e suplementos literários em Portugal, assim como visita de quando em quando os Açores e o Continente. Aliás, a sua poesia tanto poderá abordar a sua chegada a um recanto das ilhas como aos mais escondidos ou conhecidos recantos de Lisboa, aos quais dedica muitos dos seus versos. O seu poder poético, que toma várias formas, vem de uma linguagem simultaneamente clara e irónica, quase sempre uma elegia ao passado dos seus mortos e às imagens que lhe foram transmitidas por pais e avós muito antes de ela cá vir e nos conhecer em pessoa, cada casa, cada igreja, cada monumento mais um testemunho do seu ser e, uma vez mais, do seu sentimento de pertença e de uma saudade indefinida dos que há muito partiram mas deixaram a segurança de sabermos quem somos e como somos num mosaico humano tão diversificado como são os Estados Unidos, e muito particularmente a Califórnia natal da poeta. Ler estes seus poemas em sequência – o que raramente faço com outras obras do género – é como ler uma história inteiramente saída da sua imaginação e capacidade linguística, provocada por uma visita ou vivência na ruralidade da sua preferência, como após ler, simplesmente, uma pedra tumular de um dos seus, os que, como em “Bound”, já aqui citado em parte, a fazem querer rumar ao início de tudo neste lado do Atlântico. Para ela uma fazenda, “rancho” da sua família, não era apenas um espaço de onde se retirava o pão e a felicidade possível, uma ilha não é apenas uma ilha – são berços antigos do seu nascimento, são as terras próximas e distantes que a definem e lhe dão uma identidade binacional desejada e firme. Citá-la ou recitá-la é vermo-nos a nós próprios, como um luso-americano ou nortenho luso mudado para uma outra cidade, Lisboa, por exemplo. Em cada primeira oportunidade, rumam os que podem às origens numa tentativa de recuperar a completude do seu ser; a língua será a mesma, mas as linguagens de imediato denotam outras afinidades, outro estado existencialista. Thomas Wolfe, do modernismo romântico norte-americano, intitulou um dos seus livros You Can’t Go Home Again/Não Se Pode Regressar A Casa, e não será de estranhar que era um dos escritores anglo-americanos lido e tido em conta pelos judeus já nascidos naquele país de pais e avós imigrantes, esses escritores hoje de nome mundial que nos anos 30 iniciavam a sua própria carreira, criando uma outra mítica do seu país. Talvez não, não se possa “regressar a casa”. Só que foi sempre parte inevitável da nossa mais íntima humanidade a reinvenção da nossa própria pessoa, a geografia tornando-se nós próprios, todo o nosso interiorismo, e nunca o que nos rodeia.

Acontece que mesmo antes de eu ler esta poesia de Lara Gularte tinha acabado de ler uma espécie de memórias de Joan Didion com o título ao mesmo tempo simples e devastadoramente irónico, Where I Was From, também ela californiana (Sacramento) cedo transplantada para Hollywood e para Nova Iorque, e agora com seu livro num exercício de rever e tentar compreender por outros ângulos e história a sua terra natal à beira do Pacífico. A poesia de Kissing the Bee é algo de muito semelhante no seu impulso temático, mesmo que naturalmente através de outras formas e linguagens. “Sou estrangeiro aqui como em todo a parte”, escreveu Fernando Pessoa. Toda a literatura, atreve-mo a dizer, é isso mesmo: a busca pelo nosso ser e lugar a que poderemos chamar de casa nossa, ou então recriarmos as nossas pátrias imaginárias e interiores.

“The island she remembered was dressed in crags and calderas. She said to me in broken English that when the lava stopped boiling, fish came to the shore and begged to be caught. Her hand filled with sky, breakers flowered on the beach, stones showed their frowning faces. She helped me understand the waves, close and far. Showed me how to pass through air, pass through water, enter salt/A ilha que ela recordava era vestida de penhascos e caldeiras. Ela disse-me num inglês despedaçado que quando a lava deixava de arder os peixes voltavam à costa e imploravam para serem recolhidos. A sua mão cheia de céu, as ondas tornavam-se fortes e floriam na praia, as pedras manifestavam a sua cara zangada. Ela ajudou-me a perceber essas ondas, de perto e de longe. Mostrou-me como atravessarmos o ar, navegar as águas, entrar no sal”.

Kissing the Bee é muito mais do que isto, e os seus poemas, diga-se uma vez mais, tomam as mais variadas formas, imagens e metáforas. Todos eles contam uma história, a narrativa profunda de se ser o Outro em qualquer parte, mesmo como descendente de sucessivas gerações vindas do outro lado mar e de um imenso continente. Lamento que escritores e poetas como Lara Gularte ainda não sejam largamente conhecidos entre os leitores mais sérios ou exigentes do nosso país. Poderá acontecer um dia – e verão o quanto a nossa literatura, mesmo noutra língua, já deve aos que afinal partiram mas nunca nos deixaram.

__

Lara Gularte, Kissing the Bee, The Bitter Oleander Press, Fayetteville, New York, 2018. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.