Da poética ancestral luso-americana

I found a ship bound for the old country, so I travel back to a past I never lived, to the life of my great grandmother, the woman who started my story/Encontrei o barco que rumava ao torrão natal, para um passado que nunca vivi, para a vida da minha bisavó, a mulher que iniciou a minha história.

Lara Gularte, Kissing the Bee

Vamberto Freitas

Kissing the Bee/Beijando a Abelha, a mais recente poesia da luso-americana Lara Gularte, é de uma grandeza desusada entre alguns outros nomes cujas obras de temática luso-descendente também já foram escritas e publicadas nestas décadas mais recentes. Não vale a pena repetir alguns desses nomes de que já falei noutros textos e recenseei ocasionalmente, mas este, repito, é um livro muito especial. Deduzo pelos contínuos chamamentos ancestrais aos antepassados de Lara Gularte, que são das ilhas do Faial, Pico e Flores, pela insistência com que a poeta se refere a estas geografias dos seus afectos e memórias. Natural do norte da Califórinia e descendente de açorianos que para lá foram a meados do século XIX, dedicados, entre outras actividades, à terra, à agricultura, todos eles enterrados em várias partes naquela parte do estado, a poeta escava constantemente tanto a história que lhe foi legada através de papéis e outros documentos, como visita as sepulturas dos seus, e sobretudo imagina como teriam sido ou não as suas vidas. Vemo-la em campo na sua presente vida de mulher mais ou menos rural mas formada numa universidade metropolitana, a California State University, em San Jose, onde reside desde sempre uma das nossas maiores e mais activas comunidades no oeste americano, como vemo-la dentro de casa olhando para fora e revisitando, despertando as suas memórias sobre aqueles que eram o seu pequeno mundo ou o seu grande mundo numa continuidade que agora só é registada, revivida, na sua poesia e prosa poética. Toda a escrita é sempre autobiográfica, ou, como diria um antigo professor meu na Califórina, se não nos “factos” definitivamente nos “sentimentos”. Lara Gularte ao escrever consistentemente sobre o passado dos seus e a saudade memorial de cada um deles passa a ser parte da nossa história colectiva, a que nos levou desde sempre a navegar e a reconstruir as nossas vidas, a criar novos mundos, a redefinir quem somos num destino histórico que tem literalmente o mundo como um palco nosso. Dito de outro modo, a sua poesia, como a de muitos dos seus colegas na América do Norte, dá continuidade a uma portugalidade ou açorianidade-outra, a língua inglesa como meio privilegiado de comunicação e arte. Na nossa Diáspora global não há nada de igual na grande literatura do além-fronteiras, e desde há séculos. Escrevem, todos eles, não necessariamente para quem com eles partilha estas memórias da terra ancestral, mas sim para leitores em geral no seu país, mas só agora chegando, finalmente, a nós aqui na geografia atlântica dos seus antepassados. Por enquanto são poucas as traduções na nossa língua, e isso permanece uma grande perda. A nova literatura já quase não tem nacionalidade, tem o mundo inteiro como objecto e sujeito em qualquer língua ou meio de comunicação. Poesia como esta é tanto americana como é portuguesa, a força das raízes, como já escrevi noutra parte, não nos permite, nunca, esquecer as origens, e muito mais tentar entende-las ou reclamar a pertença ao passado de todo um país, que neste caso é o nosso, e absorver ou já ter absorvido a sua cultura erudita e antropológica. Não será meramente acidental que estes escritores e poetas cada vez mais regressam a nós participando nos variados encontros literários, de que o programa anual Disquiet desde há muito se tornou um evento lisboeta que congrega artistas da palavra de várias origens, luso-descendentes e outros, assim como alguns dos escritores nacionais mais conhecidos.

Kissing the Bee vem na sequência de outros livros da mesma autora, Days Between Dancing, entre outros, e publica constantemente nas mais variadas revistas de prestígio literário, quer em papel, quer no digital. Identifica-se perante todos como sendo luso-americana, e também tem colaborado ao longo dos anos com algumas das nossas revistas e suplementos literários em Portugal, assim como visita de quando em quando os Açores e o Continente. Aliás, a sua poesia tanto poderá abordar a sua chegada a um recanto das ilhas como aos mais escondidos ou conhecidos recantos de Lisboa, aos quais dedica muitos dos seus versos. O seu poder poético, que toma várias formas, vem de uma linguagem simultaneamente clara e irónica, quase sempre uma elegia ao passado dos seus mortos e às imagens que lhe foram transmitidas por pais e avós muito antes de ela cá vir e nos conhecer em pessoa, cada casa, cada igreja, cada monumento mais um testemunho do seu ser e, uma vez mais, do seu sentimento de pertença e de uma saudade indefinida dos que há muito partiram mas deixaram a segurança de sabermos quem somos e como somos num mosaico humano tão diversificado como são os Estados Unidos, e muito particularmente a Califórnia natal da poeta. Ler estes seus poemas em sequência – o que raramente faço com outras obras do género – é como ler uma história inteiramente saída da sua imaginação e capacidade linguística, provocada por uma visita ou vivência na ruralidade da sua preferência, como após ler, simplesmente, uma pedra tumular de um dos seus, os que, como em “Bound”, já aqui citado em parte, a fazem querer rumar ao início de tudo neste lado do Atlântico. Para ela uma fazenda, “rancho” da sua família, não era apenas um espaço de onde se retirava o pão e a felicidade possível, uma ilha não é apenas uma ilha – são berços antigos do seu nascimento, são as terras próximas e distantes que a definem e lhe dão uma identidade binacional desejada e firme. Citá-la ou recitá-la é vermo-nos a nós próprios, como um luso-americano ou nortenho luso mudado para uma outra cidade, Lisboa, por exemplo. Em cada primeira oportunidade, rumam os que podem às origens numa tentativa de recuperar a completude do seu ser; a língua será a mesma, mas as linguagens de imediato denotam outras afinidades, outro estado existencialista. Thomas Wolfe, do modernismo romântico norte-americano, intitulou um dos seus livros You Can’t Go Home Again/Não Se Pode Regressar A Casa, e não será de estranhar que era um dos escritores anglo-americanos lido e tido em conta pelos judeus já nascidos naquele país de pais e avós imigrantes, esses escritores hoje de nome mundial que nos anos 30 iniciavam a sua própria carreira, criando uma outra mítica do seu país. Talvez não, não se possa “regressar a casa”. Só que foi sempre parte inevitável da nossa mais íntima humanidade a reinvenção da nossa própria pessoa, a geografia tornando-se nós próprios, todo o nosso interiorismo, e nunca o que nos rodeia.

Acontece que mesmo antes de eu ler esta poesia de Lara Gularte tinha acabado de ler uma espécie de memórias de Joan Didion com o título ao mesmo tempo simples e devastadoramente irónico, Where I Was From, também ela californiana (Sacramento) cedo transplantada para Hollywood e para Nova Iorque, e agora com seu livro num exercício de rever e tentar compreender por outros ângulos e história a sua terra natal à beira do Pacífico. A poesia de Kissing the Bee é algo de muito semelhante no seu impulso temático, mesmo que naturalmente através de outras formas e linguagens. “Sou estrangeiro aqui como em todo a parte”, escreveu Fernando Pessoa. Toda a literatura, atreve-mo a dizer, é isso mesmo: a busca pelo nosso ser e lugar a que poderemos chamar de casa nossa, ou então recriarmos as nossas pátrias imaginárias e interiores.

“The island she remembered was dressed in crags and calderas. She said to me in broken English that when the lava stopped boiling, fish came to the shore and begged to be caught. Her hand filled with sky, breakers flowered on the beach, stones showed their frowning faces. She helped me understand the waves, close and far. Showed me how to pass through air, pass through water, enter salt/A ilha que ela recordava era vestida de penhascos e caldeiras. Ela disse-me num inglês despedaçado que quando a lava deixava de arder os peixes voltavam à costa e imploravam para serem recolhidos. A sua mão cheia de céu, as ondas tornavam-se fortes e floriam na praia, as pedras manifestavam a sua cara zangada. Ela ajudou-me a perceber essas ondas, de perto e de longe. Mostrou-me como atravessarmos o ar, navegar as águas, entrar no sal”.

Kissing the Bee é muito mais do que isto, e os seus poemas, diga-se uma vez mais, tomam as mais variadas formas, imagens e metáforas. Todos eles contam uma história, a narrativa profunda de se ser o Outro em qualquer parte, mesmo como descendente de sucessivas gerações vindas do outro lado mar e de um imenso continente. Lamento que escritores e poetas como Lara Gularte ainda não sejam largamente conhecidos entre os leitores mais sérios ou exigentes do nosso país. Poderá acontecer um dia – e verão o quanto a nossa literatura, mesmo noutra língua, já deve aos que afinal partiram mas nunca nos deixaram.

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Lara Gularte, Kissing the Bee, The Bitter Oleander Press, Fayetteville, New York, 2018. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

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2 thoughts on “Da poética ancestral luso-americana

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