A doença como metáfora de todo um país

Respiravam todas. Contavam respirar no dia seguinte. Não tinham nenhuma moléstia que as inquietasse. Uma rapariga, esbarrando nele, deixou cair a bolsinha de mão. Ernest apanhou-a num movimento rápido e devolveu-lha; sorriram um para o outro com o mesmo embaraço simpático. Era bonita. ‘Se esta sonhasse que eu sou, ou fui, tísico…’”

Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis

Vamberto Freitas

Depois de ler este segundo romance de Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis, a minha primeira reacção foi tirar da estante aqui em casa o livro da falecida Susan Sontag, Illness As Metaphor (1997), creio que escrito pouco depois da autora ter contraído uma das doenças mais temerosas do nosso temo, que os nossos jornais costumam designar por “doença prolongada”, a palavra cancro ainda carregando uma semântica medonha, em que a morte é o primeiro pensamento que nos vem à mente, a condenação sem remédio nem retorno. No entanto, ao reler partes do livro de Sontag constatei o que me parecem duas verdades incontestáveis. Primeiro, a doença não é uma metáfora para vidas infelizes ou condenadas pelos deuses do mal. Segundo, nem todas as formas de doença, por mais que a história assim o ateste, levam ao fim de uma vida, com as devidas excepções como sempre. Illness As Metaphor traz na contracapa palavras que se aplicam por inteiro aqui. “Durante muito tempo – escreve Susan Sontag — a tuberculose era identificada como uma bactéria infeccional, e acabou com a ideia de representar um desaparecimento romântico do doente ou de um temperamento artístico sensível, e poderia ser tratada e curada. Do mesmo modo, deveremos hoje acabar com a noção de que o cancro é um sinal do fim, um castigo ou um sinal de uma personalidade reprimida, e sim uma doença reconhecida pelo que de facto é: uma doença entre tantas outras e frequentemente recepectiva de uma cura”. O novo romance de Isabel Rio Novo não me foi uma surpresa completa, pois aqui ainda há poucos anos o açoriano Nuno Costa Santos publicou também uma grande peça de ficção intitulada Céu Nublado com Boas Abertas, uma espécie de meta-ficção na qual conta a história de um avô que havia deixado na estante um manuscrito sobre a sua sorte nos Açores no princípio do século passado e acaba tuberculoso no famoso sanatório na serra do Caramulo. Não há aqui qualquer outra comparação possível. O romance de Isabel Rio Novo distingue-se de outros modos, as suas linguagens são fulminantes na sua clareza, na sua precisão, na historiografia de todo um país subdesenvolvido, que vai desde o século XIX até aos dias pós-25 de Abril, quando se inicia a história.

A originalidade de A Febre das Almas Sensíveis vem ainda de outras formas narrativas e da própria construção de personagens. A saber, uma jovem investigadora decide passar algum tempo nas ruínas do Caramulo em busca de documentos perdidos, desde cartões postais a cartas pelas quais reconstrói vidas inteiras no contexto do seu tempo e condição social. Por outras palavras, a metáfora aqui nunca deixa de existir, mas refere-se mais à sociedade do que ao doente ou doentes. Os nomes dos personagens são muitos, mas a narradora nunca deixa o leitor pendurado em incertezas ou insinuações. Quase hesito em utilizar esta designação formalista, só que a Febre das Almas Sensíveis se assemelha ao que então se chamava nos Estados Unidos “realismo romântico”, a realidade da esperança e a força de cada um ou uma de vencer perante o pior das situações pessoais ou mesmo familiares. Todos eles vivem, como creio ter escrito Jorge de Sena num poema quando contraiu também uma “doença prolongada”, a morte social antes da previsível morte física. Todos se desviam, todos pretendem certa preocupação ao longe, todos vivem no medo do seu meio ambiente e das notícias que partem de quem está gravemente doente. “Em casa, — escreve a narradora — acautelando o contágio, Natália separava a louça de Armando, destinando-lhe um prato e uma malga para uso próprio, sacudia-lhe as roupas e deixava-as apanhar o ar na varanda durante a noite”. O período mais focado no romance é precisamente a época salazarista. Isso poderá levar-me a uma conclusão contrária às palavras da eminente autora americana atrás citadas.

A Febre das Almas Sensíveis, apesar do que acabo de dizer anteriormente, pode na verdade tornar-se essa metáfora, não da doença, mas de todo o país, desde o seu tempo ficcional aqui. Faz-me lembrar – não há qualquer imitação aqui – A Montanha Mágica (1924) de Thomas Mann e do seu protagonista Hans Castorp poucos anos após a I Grande Guerra, com ele num sanatório para tísicos algures no alto da Suíça. Não é o doente que se torna metáfora, é toda a ambiência de país ou de uma sociedade e continente em guerra e na absoluta precariedade de uma certa modernidade. O período mais mencionado nesta ficção de Isabel Rio Novo é precisamente o salazarismo, e toda a sua hipocrisia quando escondia a doença que arrasava ainda o nosso país, mas a alegria da pobreza e miséria era propagandeada como uma virtude quase sagrada. Não posso deixar de lembrar que nestes meses mais recentes alguma da nova literatura portuguesa tem focado a doença e a morte como temas fundamentais. Ainda há poucas semanas recebi de Eugénio Lisboa o seu Epílogo Acta Est Fabula, a conclusão dos seus cinco volumes de memórias, só que agora em forma de diário que documenta os últimos dias da sua grande companheira de vida, a sua solidão, e ainda mais a sua descrença no suposto bem-estar da nossa terra. É dilacerante porque acaba por ser um espelho que prevê o destino de nós todos. Toda a arte Ocidental, literária ou não, vem desta tradição que remonta aos gregos antigos, a condenação dos deuses e a nossa inevitável obediência perante a sua ira. Também muito recentemente recebi um livro de memórias do Professor Francisco Cota Fagundes, jubilado da Universidade de Massachusetts, nada menos doloroso na sua perfeição linguística e formal, Viagem Pela Escuridão, que nos conta o sofrimento de um filho único que desde criança sofre de um tumor cerebral. Nenhuma desta prosa nos é deprimente na sua leitura, são-nos os tais espelhos em que da escuridão se faz luz, e consciencializa-nos do que nos espera para que nunca deixemos de viver plenamente o dia-a-dia. Como nalgumas pinturas de Picasso, o sofrimento extremo não anula a beleza da vida, muito pelo contrário. A Febre das Almas Sensíveis é tudo isso: o amor e a solidariedade de uns e a indiferença de outros, a obrigação da luta de cada sofredor sem nunca deixar de acreditar na bondade do seu destino, muito mais do que na medicina. Metáfora, sim, de todo um país. De quando em quando o narrador vai-nos relembrando que a cura da tuberculose já se encontrava ao alcance de outros naquela época, menos entre nós, pela nossa pobreza, pelas prioridades do regime. A prosa deste romance poupa nos adjectivos sem nunca perder a fulgurância de uma escrita aliciante, a tragédia convivendo com certo humor e a forte ironia passo a passo. A capa do romance é um quadro de Munch, “Separação”. Como o “Grito” do mesmo pintor numa ponte, por entre o que parece ser uma tempestade mortífera. Este também traz a representação da dúvida e da morte, mas ao lado uma mulher vestida de branco caminhando para vida. Todo este simbolismo oferece igualmente ao leitor as mais variadas interpretações do texto que vem dentro. Se um representa a espera da morte, a outra parte, uma mulher caminhando em busca de salvação. As contradições, quero interpretar assim, da nossa própria sociedade.

“Pousado – diz a a narradora sobre a rapariga que investiga os documentos do Caramulo entre as ruínas – no seu colo, o livro da lombada espessa recorda-lhe que a medicina portuguesa, até meados do século vinte, sem recursos farmacológicos para combater a tuberculose, se voltava para o reforço das únicas medidas realmente eficazes: isolamento e prevenção. O meio nacional parecia invadido por um movimento benéfico em favor da sanidade pública. As grandes questões da higiene individual e social, ventiladas nas escolas e sustentadas na investigação científica, configuravam uma espécie de cruzada de propaganda de princípios salutares, uma fase visível das transformações no modo de vida de uma sociedade que, apesar das peias que a tolhiam, queria muito progredir”.

Citei de propósito este passo positivo de uma sociedade, como todas as sociedades, marcada pelas suas contradições. Antes, durante e depois do salazarismo sabemos que as pequenas elites mais bem colocadas no nosso país nunca se interessaram pela sorte do seu povo. A autora de A Febre das Almas Sensíveis é inteligente e sabedora demais para castigar a sociedade em termos de classe ou mesmo governantes. Retrata apenas um povo deixado quase só à sua sorte, sem juízos ideológicos ou acusações de qualquer outra espécie. Só que sabe que uma classe governante tem apenas duas saídas: ou salvar a maior parte da sua gente ou ficar sem país para governar. Salazar achava que os portugueses eram alegremente pobres até que a doença em massa o ia dizimando pela enésima vez na sua história. A Febre das Almas Sensíveis não é um romance político, sem nunca deixar de projectar o país que fomos e somos. A sua arte não é acusadora, é, isso sim, reveladora de um povo a saque, e só. Mostra tão simplesmente a condição humana, os seus anjos e demónios. Um romance como este limita-se a esse discurso do lamento e choro de uma humanidade no seu sofrimento e eventual salvação. Nos tempos que correm, não podemos pedir mais de uma grande obra literária como esta. É tanto uma história do passado como um aviso ao presente. Vai perdurar nesta sua grandeza.

A autora foi finalista do Prémio Leya com o seu primeiro romance Rio do Esquecimento, e agora com A Febre das Almas Sensíveis. Já venceu vários outros prémios literários no nosso país. Escritora também de contos, doutorada em literatura comparada, lecciona várias artes ligadas naturalmente à literatura e ao cinema. Ler este seu romance foi um dos meus grandes prazeres e privilégios.

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Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis, Lisboa, Dom Quixote/LeYa, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 13 de Abril 2018.

 

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