Nemésio, Intelectual Público

Às vezes penso que um facto acintoso espia os valores portugueses para os baralhar ou denegrir. Para os baralhar, sobretudo.

Vitorino Nemésio, Sob os Signos de Agora

Vamberto Freitas

Não será de admirar que a obra de Vitorino Nemésio desde há muito suscite a maior atenção nas nossas páginas nacionais e em estudos sucessivos um pouco por toda a parte. Tudo confirma Nemésio, tirando a sua presença popular na televisão também nacional, sempre foi assim, sobre isso escreveu David Mourão-Ferreira, entre alguns outros especialistas na sua obra, como o Professor Doutor António Machado Pires e o falecido José Marins Garcia. A obra de Nemésio corre agora, como sempre, outros riscos institucionais – o de pertencer a um grupo de escritores mais citados do que lidos, feito “propriedade” quase pessoal de minorias e assim permanecendo na serenidade falsa dos esquifes intelectuais em que frequentemente se tornam as publicações universitárias. Um estatuto canónico poderá ser também uma certidão de óbito literária, e no caso de Nemésio essa seria a maior das injustiças àquele que foi o nosso homem de letras por excelência, aquele para quem a escrita em todos os seus géneros foi um acto tanto intelectual como vivencial, conjugando a tradição do escritor que se dirige ao grande público e simultaneamente em diálogo permanente com o seus pares intelectuais, os pressupostos teóricos da escrita em convivência com os relatos ficcionados ou jornalísticos, a sua poesia sendo de igual modo ora uma representação da condição interior e saberes do indivíduo perante o seu tempo ora a representação passional perante as geografias dos seus afectos e memórias, assim como as variadas fases ideológicas da nação. Nemésio é efectivamente o nosso escritor total: pertence aos  escaparates públicos da literatura mais viva e deveria ser inescapável de todo e qualquer leitor não-profissional ou de carreira. Nemésio é o diálogo abrangente entre o leitor e o seu país e cultura durante a segunda metade do século passado, o nosso autor ao mesmo tempo absorvido pelo espírito do lugar e em viagem constante pelos mais escondidos recantos do mundo, desde Coimbra e Lisboa até ao Nordeste e outras partes do Brasil – e com os Açores como centro sentimental, e depois a na Sapateia Açoriana como centro político de emergência. Ler Nemésio, para a minha geração, será sempre voltar a casa.

Uma leitura ou releitura de Sob os Signos de Agora, os ensaios e outra escrita do início dos anos 30 é uma dessas impressionantes viagens nemesianas pelo mundo do pensamento a partir da literatura, da história, da política e, sim, das suas múltiplas geografias num mmento em que toda a “casa comum” europeia já ameaçava desabar, como em brve viria de facto a acontecer. Não é o professor universitário que escreve nestas páginas, é o intelectual público inteiramente comprometido com a linguagem civilizada sobre as raízes do nosso ser e do nosso particular lugar que então ocupávamos ou havíamos desde há muito ocupado no concerto das nações vizinhas e distantes, no lugar especificamente cultural que então era Portugal na Europa – lugar desconhecido de todo pelos outros, mas que Nemésio não desdenhava nem desprezava simplesmente por ser o seu lugar, por lhe ter cabido a sorte de nascer e viver e de se comover com o seu chão-pátrio. Cabe aqui, nestes Signos, um pouco de tudo que então definia os interesses e os posicionamentos de uma toda uma vida – os Açores como palco de histórias “locais” e “nacionais”, a crítica literária em volta de poetas como João de Deus sempe ampliada e enformada pelo comparativismo do intelectual a outros meios e criações, a interligação da arte e biografia, as evidentes e nem sempre evidentes metáforas nacionais na literatura e os nomes estrangeiros que já nos deviam, nessa recuada época, ser conhecida pela sua proximidade e pertinência, como no caso de Unamuno. Qualquer revisitação à diversificação e por vezes ocasional escrita de Nemésio faz ressaltar como redundantes se tornaram os termos universalista e universalidade quando a ele aplicados com a insistência de quem parece valorizar qualquer obra especificamente em relação – no afastamento e na aproximação – a imaginados ou a impostos centros de pensamento; redundantes e logo inúteis por tão óbvia ser essa a qualidade subjacente à sua postura de vida e à sua criação na ficção, poesia, ensaio ou mero comentário de ocasião, e em que centros para ele existiam e eram totalmente interiores, parte da sua natureza e educação em geral, restando, restando ao intelectual e ao escritor destes Signos perceber a humanidade em todas as suas latitudes e contingências históricas ou momentâneas. Ler Nemésio, qualquer página de Nemésio, é experimentar o que Herman Melville disse ser o choque do reconhecimento: a condição humana, apesar das suas variantes locais aqui e ali, da língua e das culturas, são de imediato entendidas e empaticamente transmitidas de enunciador para receptor. Em vão se procura a portuguesa violência verbal em Nemésio, antes deparamo-nos com a fina ironia do homem culto e generoso, do homem atento aos seus mundos circundantes e simultaneamente às vastas geografias do seu imaginário pátrio e intelectual – nessa aproximação de tudo e por tudo que seja humano, uma vivência, uma escrita onde nada lhe é alheio ou estranho: For genius, all over the world – escreveria Melville, o autor com quem Nemésio terá demasiadas afinidades temáticas, particularmente em Mau Tempo no Canalstands hand in hand, and one shock of recogniton runs the whole circle round.

Uma vez mais, ler e reler livros, por exemplo, como os Signos de Agora, é lembrar-nos de que a nossa geração não lhe pode fugir nem na escrita nem na atitude fundamental perante o nosso lugar no mundo ou simplesmente no país português; ler Nemésio na sua totalidade é reencontrar o conforto de sabermos que antes de nós aqui nos Açores alguém já nos tinha transmitido o “essencial” da nossa condição humana. João de Melo disse-me um dia que Nemésio não era o nosso pai ou sequer avô literário. Talvez, dado que o conceito de literatura nacional se dilui quase por completo e as suas leituras também vêm em maior quantidade de escritores de outras línguas e de outras geografias. Só que Nemésio foi quem nos legou directamente a visão de que ser-se português dos Açores não era de modo algum estar preso às definições e as mais das vezes discriminações do eixo político e cultural Lisboa/Coimbra, era antes estarmos atentos aos ruídos de todo o mundo, desde o pescador da Praia da Vitória ao imigrante nos EUA e outras partes, desde Unamuno a Raul Brandão. Nesse sentido, a nossa atitude actual é de pouca originalidade, foi herdade de Nemésio como de mais ninguém. Toda a sua escrita, por sua vez, tem tanto de heranças europeias como do mundo anglo-saxónico, é feita de ideias e de experiências quotidianas, a fala, a festa e o trabalho dos homens e mulheres em consonância com a citação mais intelectualizada. Nemésio mais do que tudo é um escritor e um intelectual público, logo referência alargada e consequente para além do mundo universitário, uma suposta serenidade dando lugar à paixão, como no já mencionado Sapateia Açoriana, um dos últimos livros de poemas no qual ele é capaz de resumir noções de um coração em conflito quase total, a lealdade e a traição, o amor e o corte radical com o mundo pátrio amado, o manter em equilíbrio dois pensamentos absolutamente contraditórios (como diria um escritor americano noutras circunstâncias e noutra longínqua época), nesse tão claro sinal de inteligência e grandeza de alma. Nemésio é, dentro do país português, o autor sem par do nosso pensamento e da nossa angústia a meio mar, o autor do conflito permanente que é o de ser-se português dentro e fora da Europa.

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Uma Página Sobre Vitorino Nemésio, Curadoria/coordenação: António Machado Pires, Rio de Janeiro, Organização do Gabinete do Secretário Regional da Presidência para as Relações Externas, 2018. Este ensaio foi reescrito de um outro que publiquei em 1996. O livro será apresentado amanhã na Casa dos Açores do Rio de Janeiro. Publicado no Açoriano Oriental, 20 de Abril, 2018.

 

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