Maria Adelaide

ADELAIDE FREITAS (1949-2018):

A MENINA DO SORRISO E DA NOITE

João de Melo

A morte estava escrita na doença que a acometeu em plena maturidade: os pequenos lapsos de memória, as palavras que subitamente deixavam de existir e lhe eram devolvidas pelos alunos de Literatura Norte-Americana, na Universidade dos Açores. Realizara as provas académicas que viriam a projetá-la para a carreira docente no ensino superior: licenciatura e P.H.D. pela Southeastern Massachusetts University, mestrado pela City University of New York e doutoramento pela dos Açores com a tese Moby-Dick. A Ilha e o Mar – metáfora do carácter do povo americano (1991). Vieram dois livros de poemas: De emigração Tecido (1991) e Viagem ao Centro do Mundo (1994), e veio um labor de textos ensaísticos por ocasião de eventos e congressos (coligidos por Vamberto Freitas, seu marido, no volume Nas Duas Margens: da Literatura Norte-Americana e Açoriana, 2008), mais dois livros de ensaio (um deles exclusivamente sobre mim), um álbum de parceria com Homem Cardoso sobre o nosso Nordeste, E no princípio era a Ilha (1995) e o romance Sorriso por Dentro da Noite (2004).

Bastaria a abordagem desta ficção autobiográfica para sabermos o essencial do que se perdeu na pessoa de Adelaide Freitas: uma vida pesada de mais para uma alma tão leve, tão bela, tão solta no seu mundo de lutas ganhas e promessas interrompidas. É um livro pungente, como todos os que se escrevam sobre a infância daquele tempo na Achadinha natal, dela e minha, em contato com a adversidade quotidiana e na ausência dos afetos que mais estruturam a personalidade humana. Aí se enumeram as dores e perdas dessa mesma educação sentimental, feita a expensas próprias, desde tenra idade (entregue, ainda bebé, à avó materna, estando os pais emigrados na América), até ao regresso, anos depois, dessas estranhas figuras parentais que talvez nunca a recompensassem da ausência nem lhe devolvessem a idade de um colo de mãe e a mão quente e segura da paternidade.

Longe andava eu, seu conterrâneo e companheiro da mesma infância infeliz, de imaginar que a menina que me sorria através dos vidros de uma janela fechada, ao passar na rua dela, estava afinal cativa para sempre das suas profundas e definitivas perdas familiares. Ela que até tinha em nós a imagem de uma privilegiada na sua redoma, na casa grande da vovó! Pela vida fora, esse mesmo sorriso foi-me sendo dado na medida das nossas possibilidades: eu perdido e achado na minha nova dimensão continental, ela levada pelos bons ventos da América, de onde regressaria de vez em 1978. Foi em 1983, no lançamento em Ponta Delgada do meu livro O Meu Mundo Não é Deste Reino, que reapareceu à minha frente, de surpresa e com um exemplar na mão. “Não te lembras de mim? Sou a Adelaide!” Sim, a menina sorridente da Achadinha, a leitora entusiasta que me profetizou um futuro literário, a mestra que me leu com conhecimento de causa e sensibilidade, e fez com que Gregory Rabassa lesse e traduzisse esse meu romance na América. A literatura fez-nos viajantes de vários destinos. Os dela levaram-na à descoberta do amor e da felicidade com Vamberto Freitas, seu bordão de luz, cuja história de regresso e amparo acabou tristemente a 6 de junho de 2018 num luto que em parte também é meu: um na solidão insular, outro no deserto de a ter perdido com o coração.

 

(Lumiar, 13.6.2018)    

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