Da nova literatura portuguesa e outros olhares históricos

Decidiu voltar ao Faial, a esclarecer dúvidas pendentes. Tinha uma lista enorme. Se o bom Deus costumava esconder-se nos pormenores, como diria Flaubert, o mais terrível demónio também.

Joel Neto, Meridiano 28

Vamberto Freitas

Como já escrevi noutra parte, li o romance de Joel Neto, Meridiano 28: O poder redentor das grandes histórias, que quebra com tudo na literatura açoriana ou portuguesa, quando a sua originalidade nunca deixa de recordar as gerações literárias mais velhas, prestando-lhe a homenagem que um grande autor sabe que lhes deve. A grande literatura é feita assim. O novo do romance de Joel Neto chegou-me num momento muito triste da minha vida, mas fiz tudo por tudo para que a minha leitura por nada disso fosse afectada. Há uma nova grande geração de escritores portugueses, por mais que vociferem os que se têm pelos maiores, que ultrapassa tudo quanto representa a nossa literatura: a maior das vezes virada para a chamada “viagem para dentro”, nas palavras de Edward Said, como se mais mundo não houvesse apesar de Camões e Fernão Mendes Pinto. A verdade é que o nosso país esteve sempre no mundo inteiro, e mesmo fronteiras adentro sempre recebeu, de um modo ameno ou hostil, os que nos chegavam de fora, desde a sua fundação até hoje. O nosso século XX foi um exemplo vivo dessa história – fechado sobre si mesmo e ao mesmo tempo a placa giratória dos infelizes e dos mais privilegiados, especialmente durante a II Guerra Mundial. Este romance de Joel Neto muda agora a “realidade” desses anos do Casino Estoril e de Lisboa para a cidade da Horta e outras geografias dos Açores. Poderemos pensar que passamos ao lado dos grandes acontecimentos do mundo, mas isso é mais uma ilusão de ilhéus a meio mar atlântico. Meridiano 28 é uma brilhante metáfora de como o mundo nessa altura vivia a maior violência da humanidade e a convivência civilizada dos que, supostamente “inimigos”, permaneciam numa pequena ilha a tomar conta de cabos submarinos já na sua caduquez, alemães, ingleses, alguns americanos e uns tantos outros de outras nacionalidades. Enquanto a Europa ardia, eles jogavam todos os desportos, dançavam num clube faialense ainda existente, cultivavam a discórdia e o amor, homens e mulheres que mais do que uma guerra absurda queriam a paz e a convivência. Eis o mundo inteiro na sua ambiguidade, ou, como diria William Faulkner, “o coração humano em conflito consigo próprio”, ele que sabia de uma sociedade caída numa guerra perdida. Meridiano 28 não sai só da literatura portuguesa na sua “obsessão da portugalidade”, coloca-nos no meio de um grande combate pela civilização e decência humana, a amizade entre uns e outros magoada pelo curso da História e da loucura generalizada.

Meridiano 28 traz uma enorme tábua de personagens nas primeiras páginas, mas não deixem que isso vos intimide. A maior parte delas são secundárias, e todo o drama e trama deste grande romance gira em volta de quatro protagonistas. Em primeiro lugar o narrador e o escritor de toda história, de nome José Filemon, cujo parentesco misto é muito complexo mas tenta reconstruir a vida dos seus antepassados na Horta a partir de 2017. Depois temos Hansi, meio alemão e português, e Roy, inglês, e amigo deste desde a infância. Katthryn Govres é a sua mãe, e também a sua vida pessoal no Faial é complexa e dramática. O início de Meridiano 28 é de 1939, quando a Europa já estava na maior das tragédias da modernidade. É a pedido de um mais ou menos misterioso americano que havia estado naquela ilha e que falecera na sua América, e Filemon recebe possíveis pistas a mando do seu mordomo, que pede a Filemon, residente em Lisboa, que descubra a presença de um suposto agente nazi que se havia refugiado na ilha do Faial durante a guerra, algo que nunca chega a ser confirmado. A trama do romance nunca deixa de aliciar o leitor, mas acaba por ter importância relativa. O que mais nos seduz são os relacionamentos entre as várias nacionalidades em guerra à distância, sem nunca deixarem de se relacionarem ou estimarem. Eis aqui um mundo em que os indivíduos se sobrepõem às suas nações, eis um mundo em que nos Açores os relacionamentos íntimos nunca são destruídos pela raiva colectiva a pouca distância no continente europeu. A relação entre Hansi, alemão, e Roy, inglês, permanece indestrutível, e quando se separam a saudade é o que mais domina os sentimentos de um e outro. Metáfora brilhante da nossa, uma vez mais, humanidade – antes da “nação” somos nós os primeiros e mais chegados, antes da colectividade em guerra permanecemos uns com os outros em convivência em campos de desporto, sociedades recreativas, e nas escolas. Meridiano 28 faz-me lembrar, de certo modo e em muitas das suas páginas, grandes romances, como a Montanha Mágica, de Thomas Mann, e até A Oeste Nada de Novo, também do alemão Erich Maria Remarque. É na morte que conhecemos o nosso mais profundo amor. Joel Neto dá-nos algo de muito original. No país que era “neutro” e fora dos combates, num regime desonesto e de duplicidades traidoras, Meridiano 28 reinventa numa pequena ilha açoriana a presença viva de uma guerra sem tréguas, só com uma originalidade nunca vista: cidadãos dos vários países em conflito armado colocam-se na baía da Horta para assistir a submarinos e navios a afundarem-se violentamente uns aos outros, como se de um teatro nefasto e absurdo se tratasse. Nunca na literatura açoriana ou portuguesa um autor tinha tido esta audácia e imaginação artística, enquanto historicamente verídica.

Joel Neto é autor de uma já vasta obra ficcional e ensaística quase ela virada, digamos, para dentro, para a vida reinventada no nosso país e na nossa região insular. Meridiano 28 não deixa de nos dar essa continuidade temática, mas, como já foi referido, parte para ou chama si mundos mais vastos, modos de ser e estar, o confronto entre ideologias e filosofias de vida. É um romance feito de cenas dramáticas e da mais profunda ironia nas questões que levanta ao leitor mais atento. Uma dessas cenas acontece quando Hansi e Roy (antes de este partir voluntariamente para a guerra e lutar pelo seus país ancestral) decidem fazer uma penosa subida ao topo da montanha do Pico para de lá comtemplarem o oceano quieto e indiferente, como quem se queda num questionamento do que leva as nações ao suicídio mútuo quando a amizade seria o mais natural entre os seres humanos, para além das línguas e culturas a que pertencem ou em que nasceram. Entre todas as páginas memoráveis deste romance, o narrador presta homenagem, sem nunca largar a sua ironia, a outros autores açorianos e estrangeiros, como quando encena o triste lançamento de Mau Tempo no Canal na sociedade Amor da Pátria, colocando no fim Vitorino Nemésio sozinho a um canto, totalmente ultrapassado pelas conversas e atitudes das várias nacionalidades lá presentes e pela guerra em curso. Um mestre presta homenagem a outro, os dois romances situados na mesma cidade e com olhares duplos, os olhos no horizonte e do horizonte a chegada de outros no que Edouard Glissant chamaria a “poética da relação”.

“Miúdos distribuíam pão, as famílias reunidas – relembra-nos o narrador a da altura — em pequenos círculos, com as coroas do Espírito Santo pousadas ao lado. Lá em cima, na Espalamaca, os moinhos de vento rodavam a toda a velocidade, moendo o milho com que se haveria de dar de comer a toda aquela gente. Eram os Açores, bem vistas as coisas. Nunca deixara de ser assim e, se de alguma coisa se podia ter a certeza quanto àquelas ilhas, era que assim continuaria a ser”.

Meridiano 28: O poder redentor das grandes histórias vem num momento internacional que parece querer repetir o passado, a tragédia da História, como também escreveu Karl Marx, dando lugar a uma farsa, que não deixa de ser quase tão cruel e irracional como fora ainda em tempos na memória de muitos sobreviventes. O que o romance de Joel Neto mais nos deixa nas suas linguagens e estética é não deixar esquecer que as ilhas, longe das frentes de guerra, não deixam de pertencer a esses mundos mais vastos e de sofrer na sua alma as consequências da violência generalizada. Não será este impulso do romance aqui em foco que mais nos comove, mas sim os seus seres inventados, que somos todos nós, como símbolos das nossas ambiguidades, inseguranças, e sobretudo a condenação que é olhar de lado o vizinho, o amigo ou o colega, toda a sociedade sob suspeita de ser capaz de fazer o pior. Isso. Restam-nos as palavras redentoras, mesmo que nunca evitem essa repetição do passado. Os historiadores e cientistas políticos tudo explicam, mas cabe ao artista, ao escritor, entrar na consciência ou alma dos seus personagens, retratar o que números e acontecimentos em geral que nunca explicam a dor ou a alegria de estramos vivos e em comunidade, neste caso diversificada e relutantemente a distanciar-se da sua própria bondade e humanidade.

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Joel Neto, Meridiano 28: O poder redentor das grandes histórias, Lisboa, Cultura editora, 2018.

 

 

Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 29 de junho, 2018.

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