Da raiva que nos assalta, da vida em suspenso

  1. Nos momentos felizes esquecemos sempre pedrinhas que vão reaparecer, com toda a certeza, quando o caldo entornar.

    Rodrigo Guedes de Carvalho, Jogos de Raiva

    Vamberto Freitas

         Raramente falo das capas dos livros que leio, sabendo muito bem que quase sempre definem, ou pretendem definir, a temática principal da sua prosa, ficcional ou não. Esqueçam as temáticas que condicionam a prosa neste novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, Jogos de Raiva. É mais um grande romance sobre o nosso mais profundo ser, e o nosso “não” ser. É “sobre” a condição humana universal na versão portuguesa, e não só, dos nossos dias. A sua capa é simples, mas na parte de baixo vem o símbolo face oculta do Facebook, com a sua frase com ainda sem menos sentido, “Em que estás a pensar?”. Eu cultivo esse outro meio de comunicação, e raramente estou a pensar em nada, só a mexericar o que vai pelo mundo, e não só entre os meus “amigos” inscritos ou de ocasião. Esta nova ficção do autor parte dessa cómica ironia e depois avança para o jornalismo televisivo actual aqui no nosso país e noutras partes, mas muito pouco tem a ver com essas questões pouco transcendentes ou mesmo relevantes. Jogos de Raiva, no entanto, por certo que tem também a ver com isso: a capacidade de qualquer idiota poder literalmente falar com o mundo inteiro sem nada dizer ou adiantar a qualquer pensamento relevante, ou então entra pela difamação pura. Essa parte do romance tem mais a ver com diversão do que com o que o vai na alma dos seus protagonistas de três gerações, interagindo uns com os outros por questões de vida e morte, de saúde e sorte, de gostos e desgostos. Retrata toda uma humanidade a saque. Escritores mais ou menos falhados, médicos que já não crêem na cientificidade da medicina, inclusive psiquiatras que estão ainda piores mentalmente do que os seus pacientes e que já não acreditam em curas ou milagres, herdeiros em fuga de casas grandes situadas no Porto à procura de uma vida nas artes ou no amor em Lisboa ou aonde aparecer, jornalistas de sucesso que acabam com a cabeça sob uma espada islâmica algures sem dó nem piedade, sendo a Síria aqui a geografia do indizível terror presente. A maior grandeza deste romance é que tudo o que nos acontece todos os dias da época em que vivemos é plausível e está nas notícias minuto e minuto. Trata-se de um outro e bem claro retrato artístico de um Portugal e mundo à deriva. Escrito por quem é ou vindo de quem vem, tem a arte de um grande escritor e de um praticante e observador diário de todas estas profissões e obsessões nossas. A sua linguagem clara e sem pretensões metafóricas lembra-nos a de um Raymond Carver, que nunca escreveu um único romance, mas nos seus contos dava-nos conta de toda uma sociedade sem nunca dela falar directamente. O que vai no interiorismo de cada personagem define perfeitamente o meio que nos rodeia. Não há um único personagem em Jogos de Raiva que nos seja esquecível, em cada um deles estamos todos, leitores. A grande arte é feita assim. Não é de estranhos, mas dos que connosco partilham o dia-a-dia, para além do seu lugar na sociedade, do que fazem ou deixam de fazer, de como amam ou odeiam, de como falham ou encontram a sua felicidade.

    Há um romance dentro deste Jogos de Raiva com o título de O Fantoche. É um romance medíocre dentro de uma prosa genial. Quem pensa que isto é feito literário fácil também pensará que é fácil a um romancista escrever precisamente sobre os dias que vive. Philip Roth disse um dia que a sua imaginação lhe falhava quando lia a primeira página de um jornal diário. A “realidade” aí ultrapassava, em termos surrealistas, tudo o que um escritor poderia imaginar. A destruição das Torres Gémeas em Nova Iorque, aliás várias vezes mencionadas nestas páginas, é um dos possíveis exemplos. Nem escritores, nem sequer Hollywood. Portugal está aqui, e em modos necessariamente muito diferentes em todo o seu “esplendor” e “miséria”.

    Não vale a pena nomear aqui todos os nomes dos protagonistas. Basta falar de Francisco José, o patriarca da Casa Grande no Porto, Maria Clara, Nuno Maria e Ana Teresa (filha africana adoptada em criança por Francisco José na guerra em Moçambique), e um filho de nome Santiago, que nunca ninguém descobre se é autista ou com outros problemas mentais, e que deambula pelos jardins nos seus aposentos familiares. A psiquiatra e os médicos são personagens menores, menos na sua ignorância ou incertezas. O narrador de Jogos de Raiva não tem complacências perante nada e ninguém, limita-se a contar a história de uma filha de sucesso que não acaba bem. Estamos num Portugal que vem desde os primórdios e está agora na sua decadência absoluta. Vemo-los em restaurantes finos na capital, vemo-los um pouco por toda a parte, mas algo está a decair inexoravelmente. A morte ronda entre tudo e todos. Estamos num Portugal pós-moderno, em que nem arte nem jornalismo conseguem transmitir a tragédia. O narrador, perante tudo isto, nunca perde o seu sentido de humor. Como quem diz: esta é a nossa condição humana, ninguém lhe pode fugir. Esqueçam, se lhes for possível, a profissão do autor que nos aparece quase todos os dias nas nossas salas. Estamos perante um escritor que conhece muito bem o que faz todos os dias, mas isso pouco interessa. É do romancista supremo que deveremos pensar e que devemos ler. Tenho-o de confessar: já raramente vejo televisão, não consigo ouvir as palavras dos políticos e de outros, não consigo sequer ver ou ouvir quem admiro e que se tem por figura “nacional”. Em Jogos de Raiva tenho o grande privilégio de ler, uma vez mais, o escritor, e nada mais. Este romance de Rodrigo Guedes de Carvalho diz naturalmente mais do nosso país do que todas as intermináveis “notícias”. Bem sei que a narrativa defende, de quando em quando, o que o jornalismo relata, ou o que passa por jornalismo no nosso país, e que supostamente temos de saber. Jogos de Raiva tem a ver com isto tudo. Sei. Só que dispenso quase tudo o resto, menos o que sai da grande literatura. Nova Iorque está sob ataque? O país está a arder? Mais um jornalista tem o pescoço cortado, desta vez um português? Não há como aguentar isto fora da arte. É isso que este livro me oferece. Alívio nas linguagens, sair do que temos por “realidade”. É o mais estranho do mundo que vivemos, e nada neste romance foge a esse temeroso espectáculo.

    “No livro – diz o narrador do romance que Francisco José, escritor mais ou menos falhado, está a escrever – não há qualquer referência a um espanhol que foi visitar o avô ao hospital e lhe desligou a máquina que o mantinha vivo porque precisou de carregar o telemóvel, era a única tomada no quarto, ele explicou que foi com a melhor das intenções, precisava, precisava de carregar a bateria para mandar uma foto à mãe a dizer que o velhinho estava bem, de facto reparou que na foto o rosto do avô estava azul, mas pensou que era do filtro que tinha escolhido na câmara”.

    Jogos de Raiva é feito, permitam-me repetir, de ironias. Até fala mal dos críticos que falam bem de escritores. Como quem espera que falem mal deste romance. Surpresa. Não se pode falar mal de quem escreve assim. O críticos judicativos que o façam, só que raramente percebem de literatura séria. Tenho que dizer que conheço muito pouco de Rodrigo Guedes de Carvalho, a não ser como escritor. Para vos dizer a verdade, o resto pouco me interessa, para vos dizer também que não me comove mais nada. Um escritor para mim é um escritor, o resto que faz nem não conheço nem tenho a mínima curiosidade. Este é o terceiro romance que leio deste autor, cheguei a ele tarde, li O Pianista de Hotel, e depois o doloroso A Casa Quieta, num momento muito particular da minha vida, que ainda não passou por completo, e levará algum tempo a passar. Só que lhe agradeço os momentos de leitura que me proporcionou nestes meses mais recentes.

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    Rodrigo Guedes de Carvalho, Jogos de Raiva, Lisboa, LeYa/D.Quixote, 2018. Publicado na página “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 27 de Julho, 2018.

Do amor, do ódio e do mistério

Não, também desejo o diferente e o novo, como tu. A ideia do sexo perturba-me um bocado, talvez. Se pensares bem, tudo aquilo é brutal e um pouco desumano. O prazer existe, não tenho dúvidas, mas ainda não me sinto preparada.

Rita Ferro, Um amante no Porto

Vamberto Freitas

     Que Rita Ferro, autora de uma das mais vastas e variadas obras da literatura portuguesa contemporânea, inventa um dos personagens mais misteriosos e complexos da nossa literatura é um feito literário inusitado e audaz. Que ao amor e perplexidade entre uma mulher matura e um homem ainda de maior idade, que é do e vive no Porto e ela em Lisboa, não me deixa em nada surpreso, mas tudo o resto constitui um trama sem igual na nossa literatura. Só não me agradou a narradora fazê-lo nascer 1951, a mesma idade deste seu leitor. Amante, possível criminoso, cavalheiro e canalha, indiferente a uma mulher linda e sensual e ocasionalmente em busca dos prazeres de cama, ele mentiroso, escondendo um passado de certo “privilégio” e misérias de todo o tipo foi-me mais do que fascinante: falou-me da complexidade da nossa humanidade e de vidas escondidas em segredos tanto amenos como temerosos. De seu nome Álvaro Faria de Castro e ela de nome Zara, cria-nos uma história, como se diz na contracapa, “sobressaltada e passional”, e depois de uma obsessão que parece psiquiátrica da sua amante para conhecer os segredos do seu namorado ou amante, sempre distante e de meias palavras obscuras. Um amante no Porto não é apenas sobre mais um português banal e previsível, é sobre medonhas histórias escondidas e sentimentos meio honestos meio falsos, os de qualquer um de nós em qualquer parte. Um homem esconde boa parte da sua vida, uma mulher nunca se cansa enquanto não descobre o passado inteiro do amante que dorme com ela de quando em quando. É a diferença entre os géneros, passe o pensamento politicamente incorrecto. O amor, verdadeiro ou menos do que isso, não tolera mentiras, e isto é o centro narrativo do romance de Rita Ferro. Álvaro tanto é um relutante amante como é um patife. De resto, atravessa os anos de chumbo da ditadura salazarista, recebe a “educação” de gente como eu recebia, passa calado e só nas suas ruas da cidade natal, cultiva as suas amizades, e depois um dia em Paris, ocasionalmente, conhece a Zara num banal passeio no metro em Paris, e inicia com palavras mansas as descidas a um inferno mais ou menos ameno e banal, mas totalmente ligado a quem viveu um Portugal desonesto e hipócrita. A actual literatura portuguesa tem sido decididamente liberta da sua muito antiga “obsessão da portugalidade”. O que agora lemos é outra e bem diferente arte literária. Personagens portuguesas em busca de si próprias, do seu mais íntimo ser, e não, necessariamente, dos outros que partilham o seu espaço dito nacional. É o regresso à alma e ao nosso coração, e a terra nenhuma. O que diz Álvaro Faria de Castro, uma vez mais, é sempre suspeito, meias verdades e meias mentiras. Quem se deita com ele e pensa que o ama nunca poderá deixar as suas suspeitas sem resposta. O que Zara vai descobrindo tanto a fascina como a aterroriza.

A capa do romance Um amante no Porto não deixa de ser perturbante nas nossas visões contraditórias. Temos de costas um homem de certa idade, de chapéu largo e claro, casaco e sapatos pretos: o retrato perfeito tanto de um criminoso mafioso como de um português da sua época. A capa de um livro raramente deixa de ser uma certa interpretação do seu conteúdo, por mais que se diga que não se pode julgar um livro por aí. Pode-se, sim. Representa a figura enigmática que a sua protagonista tenta desvendar, com ou sem sucesso, mas fica sempre a incerteza e a dúvida. O “amor” ou o “prazer” nunca excluem a inocência absoluta. Ao longo da narrativa temos linguagens de grande afecto e raiva. A tragédia humana é também isso. Sentimentos que nos desequilibram, distâncias que nos separam (ele vive num esconderijo do Porto e ela em Lisboa). Os encontros são esporádicos, mas raramente pacíficos. A minha cama é só de sexo, ou é também de amor? Ninguém larga ninguém. Quem esteve na tua vida? Que fizeste nos teus anos de isolamento? Que fazem essas pistolas escondidas em casa? Mataste alguém, ou são de mera herança ou de colecção? A tua única filha está sempre distante, e eu não entendo bem porquê. Quem és tu, e quem sou eu? O romance de Rita Ferro é um mar de perguntas, e nunca de afirmações definitivas. A arte literária é sempre de questionamentos, de angústias e sofrimento. Os passos de Álvaro na capa parecem vagarosos, sem destino nem razão. Que nos apaixonamos por homens (ou mulheres) destes é a condição humana de nós todos, e a grande irracionalidade do nosso ser. Só que não podemos fugir a esta sorte ou (in)fortúnios. Os amores felizes, alguns, acontecem na vida real, sabemos. Na arte séria raramente existem. Pensemos em Madame Bovary ou em Anna Karenina. A paixão é sempre mortífera, desde os gregos antigos até Gustave Flaubert e Leon Tolstói noutras línguas e a Eça de Queirós na nossa. Um Amante no Porto perpetua esta tradição, a do coração humano em turbulência constante.

A prosa de Rita Ferro, à semelhança de outros novos escritores em toda a parte, torna toda a leitura num prazer enorme do texto, poupa nos adjectivos e oferece-nos uma prosa de força claríssima, que consegue combinar um realismo puro com a poetização das linguagens nunca sentimentalistas mas plenas de simbolismo e metáforas significantes. Na verdade, os modernistas experimentalistas da modernidade, que datam dos anos 20, são mais do que cansativos. Todos os que dizem ler seus romances ou poemas, tenho para mim, que quase ninguém vai de página a página nas suas obras pretensiosas e totalmente obscuras, na verdade ilegíveis, como, por exemplo, Ulisses (1922), e depois Fignnegans Wake, (1939) de James Joyce. Quem tem uma história para contar, conta-na, como fez William Faulkner, Ernest Hemingway, F. S. Fitzgerald, John Dos Passos, e quase todos os outros que os seguiram até aos nossos tempos. O suposto experimentalismo literário não será só anacrónico, como é inútil e sem significado. Ainda nos anos 70 alguns chamados “pós-modernistas” tentaram o mesmo. Ninguém se lembra deles, ou da maior parte deles. Tenho alguns nas minhas estantes, mas só como dever literato e para me dar conta de como não nos quero reler.

“Até na natureza, junto a um rio, uma montanha, uma floresta, precisamos de saber que estreleja, por trás de toda aquela harmonia convincente, a ameaça iminente de uma catástrofe, de um ciclone, de uma avalanche, que desmascarem toda aquela coerência e desromantizem a verdade: a natureza não é só mãe, é madrasta, existindo caos em toda aquela ordem admirável, e, mais do que caos, uma imprevisibilidade permanente”.

É esta a prosa clara de uma escritora que não se esconde atrás de nada. Tentei não mencionar aqui os seus distintos antepassados, mas não resisto. Rita Ferro vem de uma educação e formação como poucos entre nós. Há uns bons anos escrevi sobre o melhor livro alguma vez publicado sobre a América por um português no auge do seu impulso modernista, Novo Mundo Mundo Novo, uma série de reportagens em forma de diário publicadas Diário de Notícias, e em 1930 em livro, quando esse seu avô era já amigo de Fernando Pessoa e da nossa mais histórica revista Orpheu, amigo ainda, entre muitos outros, do açoriano Armando Côrtes-Rodrigues. António Ferro (os fanáticos de esquerda não me incomodam nada neste sentido) quando visita os EUA, é o primeiro grande intelectual português lisboeta a escrever brilhantemente não só sobre uma outra América do jazz, do cinema, da academia, e sobretudo sobre as nossas comunidades imigrantes, maioritariamente açorianas naquele país, de leste a oeste, com uma admiração e respeito até então nunca vistos, declarando-os filhos na nação, sem quaisquer outras qualificações geográficas ou culturais. Rita Ferro é filha de António Quadros e a sua irmã é a responsável máxima pela sua Fundação, guardando alguns dos mais importantes documentos da nossa história. Como escritora, Rita Ferro só presta homenagem a este seu passado, que é também todo nosso.

Um amante no Porto é mais do que um romance sobre um amor despedaçado e trágico. É sobre toda uma época do nosso país, que vai dos recuados anos 50 até à nossa actualidade.

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Rita Ferro, Um amante no Porto, Lisboa. D. Quixote/LeYa, 2018.

Publicado na minha na página “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 13 de Julho de 2018.