Da modernidade desfeita rumo à sua desconstrução

Se queria um livro para o futuro, que avisasse os homens dos perigos da desordem para o futuro, receava que a projecção para dali a quarenta anos se transformasse num aviso extemporâneo, receava que se não visasse uma data anterior, aí talvez já não houvesse Terra nem homens, tal como a conhecemos e somos…

Lídia Jorge, Estuário

Vamberto Freitas

     Uma das frases mais certeiras que vem na capa deste novo romance de Lídia Jorge, Estuário, descreve perfeitamente toda a sua obra: “…Lídia Jorge dá rosto à modernidade para dela desocultar os seus efeitos escondidos”. Creio que poucos dos seus leitores e mesmo críticos poderiam em tão poucas palavras sintetizar a sua temática persistente desde O Dia dos Prodígios até à obra presente e destes nossos tempos mais do que atribulados, de transição histórica rumo aos temerosos e desconcertantes acontecimentos vividos praticamente no mundo inteiro. O mais básico na leitura de um grande romance é nunca procurar respostas e muito menos explicações para a condição humana vivida em qualquer época, fica-se por nos apresentar outras vidas com toda a sua estranheza, as que nunca deixam de ser nossas também, para além do lugar que ocupamos numa determinada sociedade e tempo, o estado social ou financeiro dos seus personagens quase sempre uma questão secundária. Os escritores das nossas preferências, desde o realismo do século XIX até ao ultrapassado pós-modernismo do nosso presente, levaram-nos constantemente ao interiorismo tanto de aristocratas e outros da classe dominante em diversos sistemas como nos levaram à alma dos mais pobres ou deserdados. O privado torna-se o público, ou vice-versa. Estuário tem como referência principal uma Casa Grande do Largo Do Corpo Santo no Porto, e na qual vivem três gerações de uma família de bem, que tem como patriarca Manuel Galeano, rodeado de filhos e filhas, cada um e cada uma enfrentando a infelicidade do seu lugar dentro e fora de casa. Família próspera de armadores em decadência que parece sem retorno, o símbolo maior deste romance são os seus dois navios, Horizonte e Batalha, os que restam de uma frota maior, agora ancorados num país africano à espera do impossível, convertidos para transportarem água para outros pontos do mundo onde o deserto nega a vida e mesmo a sobrevivência. Num Portugal do século XXI, África continua uma espécie de refúgio e esperança para um povo que lá foi derrotado ainda há poucas décadas, mas não deixa de olhar aquele continente banhado em sangue e raiva de ser a sua velha esperança de salvação, ou algo mais. De todos os personagens e protagonistas deste romance, é Edmundo Galeano que sobressai por diversas razões, cada clã decadente tem a sua luz. Tinha saído da faculdade e retirou-se logo para auxiliar num campo de refugiados, Dadaab, a cuidado da CARE no Quénia, onde perdeu três dedos da mão direita, regressando com a intenção de escrever um livro futurista que avisasse a breve chegada de um futuro sem futuro, de um mundo que caminhava a passos largos para a autodestruição ou esquecia um tempo de grandiosidade. Emanuel Galeano, como explica a autora numa espécie de posfácio, tinha a Ode Marítima de Fernando Pessoa como ponto de partida ou influência angustiada, como também diria Harold Bloom. A única vez que a “nova” Europa é mencionada vem como queixa dos seus regulamentos e limitações castradoras. África aparece-nos ao longe. Temos aqui um Portugal supostamente regenerado mas perdido no que diz respeito à União Europeia e talvez ao resto do mundo.

Inevitavelmente, no país que é o nosso e nele cabe todos os mundos, desde o mais primitivo ao mais moderno, uma grande família vive os seus últimos dramas por entre a comédia e tragédia, com desentendimentos, desejos de vida que vão desde quem tem por única missão escrever um livro ou de saber quem é o verdadeiro pai do seu filho, por entre cenas de carinho, má cara, desconfiança e alienação psiquiátrica. Estamos aqui num velho e novo Portugal, e no qual a noção de pertença reduz-se agora à salvação de cada um, todos na sua infelicidade muito privada, com os mais antigos sem já nada entenderem ou com que se identificar, a não ser com memórias de todo irrelevantes para os dias presentes. O título do romance, Estuário, é também um símbolo e uma metáfora – as águas doces de um rio romântico chegam inevitavelmente ao mar maior, onde nada e ninguém representa seja o que for, onde o perigo de afundamento espreita em cada onda, como os barcos meio encalhados num país distante e sem qualquer noção nos que nele atracam, do que pretendem ou para onde irão eventualmente se não morrerem nas costas do continente da nossa maior infelicidade e desejo perpétuo. Batalha e Horizonte, uma vez mais, é o resumo perfeito da história de toda uma nação. Lídia Jorge tem tido sempre o passado e presente de Portugal como os seus temas principais. A grande literatura, de qualquer país ou língua, tem uma geografia reconhecida, mas o coração humano, as obsessões e delírios de cada um dos seus personagens nunca têm um momento de paz, ou sequer serenidade no seu desejo de partidas e chegadas. Uma Casa Grande não representa aqui estabilidade ou felicidade, antes representa a vontadde de fuga para todos, menos para os velhos ou já sem vida activa. Não há aqui rejeição do que já foi, há o desejo do que poderia ter sido ou o desgosto do falhanço, seja em termos profissionais e de paixão por um outro. Sílvio, um dos filhos distantes de Manuel Galeano, é um advogado que já nem consegue ler ou decidir sobre os casos que deve resolver no seu escritório. Charlote disputa a paternidade do seu filho entre um amante e outro. Estão, todos eles, no cruzamento de uma sociedade e mundo que já ninguém entende, ou entende como se fora o mistério de um universo que arde e queima, estremece e abate tudo em sua volta. Entretanto, não julguem este um romance de pessimismo ou negação da vida, muito pelo contrário. Perante tudo e todos à sua volta, cada um procura o seu lugar num mundo de Nada e de Ninguém. Não é a sociedade que se salva, são os que nela perduram ou, como diria William Faulkner que percebia dos caídos e derrotados, “perseveram” ante as mais atrozes realidades.

“Mas agora, naquela noite chuvosa que havia viajado até ao coração da história da gente concreta e humilde – pensava Edmundo Galeano para o seu livro sobre tudo isto – que vivia em redor da casa do Largo do Corpo Santo, Edmundo Galeano tinha os olhos repletos das suas vidas, e por mais que quisesse amar figuras colectivas, longínquas e abstractas, voando sobre a Terra desfeita para recriarem uma nova pátria, os rostos que lhe eram familiares surgiam na sua frente e ocupavam por inteiro o cenário da terceira parte. Do apocalipse da segunda, ele via apenas aqueles que no seu livro, se o escrevesse, seriam sobreviventes. Caminhando ao longo do passeio desfeito aqui e ali pela enxurrada, o espaço liberto de gente, e as brancas embarcações imóveis, amalhadas nos cais, Edmundo confundia no seu livro os regeneradores com os salvados, e via claramente quem haveria de sobreviver. Na terceira parte do seu livro, salvam-se aqueles que lhe tinham passado por perto, independentemente do bem e do mal, da comédia e da tragédia que haviam interpretado”.

Ignoremos aqui a pseudo-terminologia da crítica ou do ensaísmo literário, como meta-ficção, que a minha geração teve de engolir nas faculdades nos anos 60-70, numa tentativa de tornar a interpretação literária num acto supostamente “científico”. Como diria muito acertadamente José Saramago, o autor é o narrador, em cada personagem, para além das suas ambíguas qualidades humanas, estamos todos nós. O romance que Edmundo Galeano, invenção fictícia, pensa querer escrever, mas não o faz, é o grande romance que Lídia Jorge escreveu. Toda a sua obra literária é uma sequência do nosso ser e viver, em termos temáticos e estilísticos. A grandeza de uma literatura é feita deste modo.

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Lídia Jorge, Estuário, Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2018. Publicado no Açoriano Oriental de 24 de Agosto, 2018-

Luís Costa Ribas: Um jornalista português nos Estados Unidos

Assim são os Estados Unidos. O quartel general-general da humanidade, com pessoas de todas as opiniões políticas, todas as religiões, todas as etnias, com vastos exemplos ao longo da sua história e do melhor e do pior que existe no ser humano, do mais sublime ao mais nojento.

Luís Costa Ribas, Uma Vida em Directo

Vamberto Freitas

     Ironicamente, este passo que cito em epígrafe vem por outras palavras diferentes num livro de Edmund Wilson sobre a tomada do poder soviético de Vladimir Lenine nos primeiros anos da revolução em Moscovo (The headquarters of humanity), quando ainda o eminente crítico norte-americano se identificava com o marxismo em prática, e via na “nova” sociedade” uma solução para uma humanidade oprimida e explorada em quase todo o mundo, inclusive no seu. Só que Wilson não falava “no mais sublime ao mais nojento”, simplesmente acreditava na revolução que supostamente libertaria a humanidade de milénios de injúrias e violências de toda a espécie. Claro que Luís Costa Ribas não alude a nada que se pareça e muito menos acredita no que simplesmente descrevia o crítico americano sobre uma outra época bem distante, e que acabaria derrotada em todos os sentidos. Uma Vida em Directo: 38 anos de Aventuras da Casa Branca a Timor-Leste, o seu primeiro livro, é outro e bem diferente, um misto de memórias pessoais e profissionais, e que nos dá conta de como um jornalista que começa humildemente em Lisboa em semanários como o Tempo e a Rádio Renascença (na sua fase bem conservadora e controlada) acaba em Washington em 1984 na Voz da América, para depois se tornar um dos mais acreditáveis correspondentes de vários órgãos de informação em Lisboa, desde a TSF, Público e SIC (entre outros meios de comunicação), numa convivência pouco comum no que ele chama “a mesa redonda” na capital norte americana, em que interagem políticos ao mais alto nível, desde o Congresso até à Casa Branca, jornalistas e agentes lobistas de todo o poder económico-financeiro daquele país. Só comecei a ouvir e a ver na rádio e televisão o Luís Costa Ribas a partir de 1991, quando regressei para sempre ao nosso país. De imediato, reconheci que estava perante um repórter credível e muito bem informado e formado sobre tudo o que passava nesse meu outro país: continuava eu a ler e a ouvir noticiários americanos, e sabia e reconhecia muito bem a sua presença, e ainda muito mais a sua informação que outros ignoravam ou faziam por esquecer. Havia uma diferença muito significativa: ele nunca se deixava ficar pela fala oficial dos poderosos, e dava-nos constantemente uma outra perspectiva do que acontecia, do que se dizia ou pretendia dizer, contornava o que hoje se chama, na linguagem de um Donald Trump, de fake news. Ido de um pequeno país como o nosso, conseguia e consegue sempre contornar os serviços de supostas relações púbicas que nos tentam convencer que o dia é noite e a noite o dia. Vivi na América 27 anos, em Orange County e na Grande Los Angeles, mas não conheço uma ínfima parte do que ele conhece, desde a natureza do Poder no país aos maquinismos de decisões que tanto podem tornar o nosso mundo num espaço de paz como de guerra mundiais. Muito viajou ele dentro e fora da capital americana, muito descobriu ele desde a Ásia, Africa, América Latina e Caraíbas. Testemunhou guerras fratricidas, viu fomes devastadoras e outos sofrimentos extremos, cidades inteiras caídas pela força das armas ou pela força da Natureza, ouviu mentiras e todo o tipo de chicana política nesses palcos internacionais sempre em disputa. Raros, muito raros, são os livros narrativos de correspondentes de grandes jornalistas portugueses no estrangeiro.

Tenho de abrir aqui um parênteses, ideologicamente pouco agradável para alguns eventuais leitores, mas essencial na minha leitura deste livro de Luís Costa Ribas. O outro único correspondente “estrangeiro” cujas memórias eu li ainda há pouco tempo foi o As Minhas Aventuras No País Dos Sovietes: A União Soviética tal como eu a vivi, de José Milhazes. A verdade é que não só muito aprendi sobre um país e as suas várias culturas, que desconhecia e desconheço ainda hoje quase por completo (a não ser através de livros de vários géneros) como percebo entre este e o livro de Luís Costa Ribas ironias gritantes. Um está situado num país que era comunista até há poucos anos, o outro no que era então o seu adversário absoluto. Hoje, as semelhanças são quase gritantes: Milhazes, comunista quase toda a sua vida, abandona a Federação Russa por discordância com um líder que outrora fora dos serviços secretos da sociedade em que ele acreditou até a certa altura na sua carreira, e Luís Costa Ribas enfrenta um novo governo numa sociedade democrática cujos líderes politicamente maioritários baixam a cabeça a certo autoritarismo de outra espécie, fazendo lembrar o romance de Sinclair Lewis, ironicamente intitulado It Can’t Happen Here (traduzido recentemente no nosso país com o título de Isso não pode acontecer aqui, e também publicado pela D. Quixote/LeYa). Não vou repetir o que já escrevi sobre o livro de Milhazes, mas queria relembrar que Uma Vida em Directo termina com dúvidas inquietantes sobre o destino da mais antiga e até há pouco estável democracia do Ocidente, que se tornou uma fonte de nervosismo ou inquietação para Luís Costa Ribas e milhões de cidadãos. Resta-lhe, sem qualquer dúvida, a crença na força das instituições enraizadas dos Estados Unidos, mas o seu trabalho tem de avaliar constantemente o que é verdade e mentira, quem manda ou quem, em última instância, decide. Isto não difere muito de uma ditadura disfarçada, ou de um líder com saúde mental ou problemas psiquiátricos. Para um correspondente de meios de comunicação estrangeiros, mesmo que ele seja cidadão de nacionalidade dupla, com filhos inteiramente americanos (tal como eu), não deve ser fácil. Conheço muito bem o estatuto de se ser cidadão americano nascido noutro país, e a desconfiança que isso já provocava em anos muito mais amenos. Ri quando ele escreve que o confundem por vezes como sendo “árabe” ou “latino-americano”, dentro e fora dos Estados Unidos. Só espero que aguente como o grande jornalista que é, pois atrás de um tempo vem outro tempo. Para Portugal, tê-lo como correspondente no centro do Poder é demasiado importante. Nem que seja só para lembrar também aos próprios americanos onde fica o nosso país ou que somos um dos seus mais antigos aliados desde a sua independência. Os políticos lusodescendentes (até mesmo Devin Nunes, um dos maiores apoiantes de Trump) sabem disso, e sabemos nós. Quando o ouço na nossa televisão sei que estou a ouvir a verdade, ou a possível parte dela. Aguente o desafio.

“Os Estados Unidos – escreve o autor já em jeito de conclusão — são um desafio a definições simplistas. Na região de Boston vivem dezenas de cientistas portugueses, a maior concentração de génios lusitanos fora de terras lusas (ou até talvez dentro), que morrem de saudades do seu país, mas não são capazes de regressar a Portugal e lá trabalhar. Não conseguem conceber sair da terra das oportunidades. Como eles, senti-me e vivi dividido durante muito anos. Mas há uma potente força centrípeta americana que me fascina e impede de sair. Disse, há anos, ao site português Coração Luso que, se pudesse levar coisas portuguesas para os Estados Unidos, [levava] a nossa comida e a convivência com os amigos. Dos Estados Unidos para Portugal, [levava] a pontualidade e a eficácia”.

Li Uma Vida em Directo: 38 Anos De Aventuras Da Casa Branca A Timor-Leste (que vem prefaciado por António Ramalho Eanes e com um posfácio de Rogério Alves) poucos dias depois de ler Jogos de Raiva, de Rodrigo Guedes de Carvalho, neste caso uma obra de ficção que aborda a temática do papel desempenhado pelos vários meios de comunicação social, mas muito especialmente certas redes sociais e o “novo” jornalismo televisivo em Portugal. Tanto um como outro conhecem a fundo a dinâmica em curso de como a cativação de audiências leva ao sensacionalismo e frequentemente ao descarado atropelo da ética que deveria enformar a sua profissão, absolutamente indispensável a uma sociedade democrática, aberta, mais justa. Se a ficção tem o poder e a liberdade de tentar penetrar o interiorismo de cada personagem maior, de o colocar no contexto mais vasto que o rodeia ou que nasce da sua história pessoal ou familiar, um livro de memórias como este de Luís Costa Ribas tem de se cingir aos “factos” e variadas “interpretações” e ao que o jornalista vê e ouve em cada uma das suas missões. Leva o leitor não só às mais distantes geografias como o faz entender muito melhor os meandros do Poder nos seus mais dramáticos momentos, permite-nos entrar em bastidores que de outro modo a maioria de nós nunca conheceria e muito menos suspeitaria de como uma negociata, a qualquer nível, pode levar-nos a todos a uma guerra ou desfrutar por mais algum tempo o luxo da paz e de alguma prosperidade, a mesma que provoca raivas e as mais mortíferas violências, até já mesmo no chamado Ocidente. Isto, sim, faz parte do grande e melhor jornalismo e das melhoras narrativas.

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Luís Costa Ribas, Uma Vida em Directo: 38 Anos de Aventuras Da Casa Branca a Timor-Leste, Lisboa, Oficina do Livro/LeYa, 2018.  Publicado no Açoriano Oriental, 17 de Julho de 2018.

Dois grandes poetas em conversa

         Que ninguém lhes toque/se as não sabe amar/como os vivos amam, Violently.

                 Let no one touch them/if he does not know how to love/as the living love,Violently.

Pedro da Silveira e George Monteiro, “Palavras/Words”, Poems In Absentia

 

Vamberto Freitas

     Reler poemas de Pedro da Silveira pela mão de George Monteiro é como estarmos presente numa conversa íntima entre dois artistas sem que eles nunca dêem pela nossa presença ao lado. Disse-me um dia uma conhecida escritora luso-descendente que mesmo quando não nos lemos mutuamente a nossa escrita inevitavelmente se encontrará nas suas metáforas e imagens, pois ou olhamos a mesma “realidade” ou a memória da nossa ancestralidade é comum, o passado uma partilha indelével se bem que sempre subjectiva por parte de cada um que a viveu e recorda. É impossível olharmos o mesmo objecto, relembrar essa história ou esse passado comum sem pelo menos nos encontrarmos nalguns detalhes ou momentos mais marcantes e significantes. Permitam-me afirmar desde já que, para mim, George Monteiro é de longe o luso-americano de ancestralidade continental mais açoriano entre nós. Para além de ser o Professor Emérito do Departament for Portuguese and Brazilian Studies, da Brown University, a literatura açoriana nunca lhe foi alheia, a ela fez e faz constantes chamamentos, num gesto literário e intelectual que ele por certo considera parte indelével de toda a sua própria herança lusa no país americano. Ele próprio é um poeta de largos recursos formais e temáticas universalmente abrangentes, o seu The Coffee Exchange, com ilustrações de capa e interior pelo falecido artista açoriano Rogério Silva, noutras páginas uma homenagem ao poeta de todas as nossas identidades e angústias filosóficas, “Almada’s Pessoa”, tal como o seu próprio Double Weaver’s Knot é esse conjunto de imagens e metáforas poéticas em busca de respostas sobre o ser e o estar, de como se pertence a duplos mundos, a múltiplas lealdades emotivas, e muito mais. Tenho ainda de dizer aqui sem rodeios que George Monteiro é um dos meus mestres noutra área que tem ocupado boa parte da minha vida crítica – é ele o primeiro e mais consistente estudioso e ensaísta da literatura luso-descendente, é ele que nos abriu caminho em direcções que nos anos 70 ainda nos eram ou alheias, ou sem a certeza de que na academia e fora dela teríamos muito mais a dizer ou a considerar num contexto universitário que por toda a parte nos ignorava, ou fazia que não existíamos. Tudo isto, juntamente com o seu grande amigo e colega na mesma Brown University e no já mencionado centro de estudos que depressa estaria sempre sob a sua influência e trabalho incessante, eventualmente promovido a Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, agora abordando outras áreas lusófonas de geografias dispersas e internacionalmente reconhecidas e essenciais. Em 1980 apareceria o primeiro número sob a direcção editorial de Onésimo Teotónio Almeida, a revista Gávea-Brown: A Bilingual Journal of Portuguese-American Letters and Studies, que incluía já um conto seu, “Criação”. A sua atenção sistemática às literaturas da nossa diáspora e mundo lusófono em geral, não só se intensificava, como a escrita açoriana, dentro e fora do arquipélago, passava a ser uma das suas fontes na procura, uma vez mais, da beleza da nossa arte literária e das múltiplas questões que rodeavam as nossas identidades de tronco comum em toda parte. No caso de Pedro da Silveira e de George Monteiro, pois, muito mais os une do que essa fatalidade de um passado ligado a esses mundos de afectos e memórias sem fronteiras, mesmo nos tempos de luta cerrada em várias frentes intercontinentais pelo reconhecimento de um Portugal literário multifacetado, mas que se desconhecia na sua existência a meio Atlântico, esse feito de ilhas rodeadas de mar – e de terra por todos os lados no continente a oeste da velha e auto-centrada Europa.

Se nestes poemas de Pedro da Silveira temos alguns dos que sempre pensei constituirem o seu mais famoso livro, A Ilha e o Mundo, sem dúvida que um deles, “Ilha/Island”, que o próprio George Monteiro traduziu e publicou na colectânea que reúne vários poetas açorianos e outros às ilhas ligados por diversas afinidades, The Sea Within, precisamente numa edição da chancela Gávea-Brown, em 1983, corroborando o que já disse nas palavras anteriores, quanto ao seu interesse pela literatura açoriana em geral. Serão talvez os cinco versos mais citados pela minha geração :

Só isto:

O céu fechado, uma ganhoa.

pairando. Mar. E um barco na distância:

olhos de fome a adivinhar-lhe, à proa,

Califórnias perdidas de abundância

*

Only this:

Closed sky, hovering heron. Open sea.

A distant boat’s hungering prow

eyeing forever those bountiful Californias.

 

Deve ser mera coincidência que um dos nossos maiores poetas de sempre nasceu e viveu por alguns anos na mais afastada ilha do arquipélago, a mais próxima da América, uma das mais limitadas nos seus recursos de sobrevivência materialista, e por isso mesmo a mais paradigmática, creio, da sorte histórica dos Açores. Se a poesia de Pedro da Silveira é um resume inigualável da melhor arte literária açoriana já no seu modernismo cosmopolita, nas suas formas mais ou menos livres, e ainda mais na sua temática que combina a condição existencialista e intimista do seu autor com a fúria simultaneamente de registo dos condicionalismos da nossa precariedade de vida e do consequente protesto, o seu andamento real e metafórico entre todas as fronteiras verdadeiras e imaginárias tornam-no a poderosa referência, talvez mesmo génese de tudo que se escreveria a seguir. A ironia da sua poesia é também a ironia do seu destino literário. Não tenho dúvidas que passará a ser melhor conhecido e lido entre os que agora têm a possibilidade de absorver a sua poesia em inglês do que no resto do nosso país, que dos Açores lembra pouca mais do que o anti-ciclone, e assim mesmo sem saber muito bem o que isso quer dizer em termos meteorológicos. Só que Pedro da Silveira não é apenas um poeta “açoriano” – representa como poucos uma cultura e sorte nacionais, que por acaso têm as suas ilha como imagem e metáfora de todo um país, que diz ser do mar ou para ele virado mas já esquecido da aventura e do que seriam a suas vivas e sentidas consequências.

     Poems in Absentia/Poemas Ausentes não é só um título de apartamento, ou de quem partiu e parte – é um resumo magnífico de tudo o que significa, de tudo quanto transmite a nossa mais profunda e inquieta condição. As traduções de George Monteiro não são apenas as de quem conhece profundamente as duas línguas e a história humana a elas associadas. Os certeiros significados, a sua beleza sonora e rítmica, as suas imagens ora exactas ora aproximadas são de quem também as viveu e vive, são as de quem mantém na memória familiar o horizonte no seu olhar fixo, a partir da terra ou do mar, como mistério e, sobretudo, como possibilidade de fuga. Para além do mais, George Monteiro conhece perfeitamente essa outra obsessão identitária da nossa poesia, o ter de explicar ao resto da nossa própria nação quem fomos e somos, onde e como vivemos. Ter sido um americano hifenizado, mesmo outrora nos tempos em que isso era como que esquecido ou propositadamente ignorado, trá-lo de novo, na sua língua natal, ao nosso íntimo encontro.

Não creio que haverá palavras em Poems in Absentia que melhor transmitam a relação entre um poeta e outro, entre Pedro da Silveira e George Monteiro, entre toda a polissemia de cada palavra e versos em duas línguas, o português de um e o inglês interpretativo de outro. “As Palavras/Words”, ou como dizem: “Que ninguém lhes toque/Let no one touch them”. Leiam-nas, recitem-nas. A partir delas, que abrem esta maravilhosa coletânea de traduções de alguma da nossa mais significante poesia, a viagem acabará sempre num outro regresso muito mais rico à Ítaca de nós todos.

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Pedro da Silveira, Poems In Absentia/Poemas Ausentes (tradução de George Monteiro) de um livro a sair brevemente nos EUA na Tagus Press da Universidade de Massachusetts, Dartmouth, e da Universidade de Brown. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 3 de Agosto de 2018.