Da nossa história e de outras distopias

De que servem, eu vos digo, as cóleras dos ventos e dos mares, as impassibilidades das calmarias, se os homens conseguem fazer tempestades mais tenebrosas dentro de uma casca de noz, buraco de Deus esquecido?

Ana Margarida de Carvalho, Não se pode morar nos olhos de um gato

Vamberto Freitas

     Chego tardiamente ao grande romance de Ana Margarida de Carvalho, mas as grandes obras não têm prazo de validade ou de quando devem ser abordadas em termos críticos ou ensaísticos. Não se pode morar nos olhos de um gato, o seu segundo romance que venceu o Prémio APE depois De que Importa a Fúria do Mar. Vai aqui um pequeno passo que resume toda a sua temática e reinvenção do passado e presente. O romance é um misto de formas e técnicas narrativas. Estou a ler ficção ou poesia no seu melhor? Parece o poema “The Waste Land” de T.S. Eliot, agora no mar e em outras geografias, mas naturalmente muito mais elaborado e consequente adentro no contexto da nossa literatura, um outro olhar à história trágico-marítima, e não só a portuguesa. Tenho de confessar que este é a primeira obra de ficção que leio da autora. Não interessa assim tanto, ou como me diziam os meus mestres na Califórnia ligados ao New Criticism, que depois dos anos 40 e dos sulistas que o elaboraram para responderem aos nova-iorquinos e a todos os outros arrogantes da academia nacional. Muito pouco, pouquíssimo, viria depois na teoria da literatura. Cada texto, diziam eles, vale por si próprio, esqueçam a biografia do autor ou da autora, de nada vale, fixe a sua atenção no livro que lê. Tenho duas ou três mensagens a enviar aos que aqui nos Açores, Madeira e no Continente escrevem sobre livros, em forma de “crítica” ou de “ensaio”. Primeiro, a crítica judicativa é uma perda de tempo, é doloroso ler um livro de que não gostamos, e ainda mais doloroso escrever sobre essas mesmas páginas. Segundo, a inveja e os preconceitos são absolutamente anti-literários e de igual modo uma perda de tempo. Terceiro, julgar um autor ou autora pela sua biografia ou modo de ser entre tertúlias e outras situações informais é ainda pior. Um romance ou poema ou vale por si, ou não vale, e a vida é muito curta para gastarmos as nossas horas sem desfrutar do prazer do texto. De onde vem uma ideia para um grande romance não me interessa muito. Mas quando reconheço que vem da uma história pessoal reinventada ou ordem coleciva, reconheço logo a sua legitimidade e grandeza. Foi o que me aconteceu com esta peça ficcional: grandiosa, numa linguagem límpida sem nunca deixar de utilizar a metáfora e o símbolo como significantes de um acto literário original, dando continuidade ao melhor da literatura ocidental da nossa época. Ana Margarida de Carvalho não só consegue esse feito, como o leva um pouco mais longe. Não temos aqui apenas mais uma versão da história trágico-marítima lusitana, como temos fatias-de-vida da nossa maior tragédia expansionista, que desde há muito dá também pelo nome de Brasil, que continuou até aos fins do século XIX, quando aquele país já era independente e república, mas a presença de portugueses ainda se fazia sentir, e nos mais negros termos da nossa existência comum. Leio e admiro muitos dos críticos e ensaístas portugueses, do mesmo modo que cultivo um desprezo mais ou menos cómico pelas palavras de outros – fazem comentários sem ler os livros, a não ser descrições da contracapa, escrevem muitas vezes um chorrilho de asneiras não sobre o livro, que não leram, mas pelo ódio ou antipatia que têm pelos seus autores. A ética entre eles não existe, muito menos a seriedade literária.

Não se pode morar nos olhos de gato, ou seja, na indiferença ou calculismo oportunista de certas criaturas sem alma nem sequer maldade calculada. Cada homem e mulher tem de enfrentar o seu passado, e ainda mais o seu presente, que neste romance é simultaneamente de uma crueldade atroz, ou então um destino que não vem só ao acaso, mas sim de um passado que leva à “sorte” de cada personagem. Estamos aqui num barco negreiro, mesmo após a abolição da escravatura, que sai de Salvador da Baía rumo ao Rido de Janeiro mas depressa fica parado numa calmaria extrema, enquanto lá dentro se começam a agredir uns aos outros pelo medo e pela falta de tudo, em busca de bodes expiatórios, com uma santa de pau, Nossa Senhora das Angústias, que fica pousada na proa do navio a olhar o mar, também indiferente aos seres que a rodeiam. Temos nestas páginas uma amostra da miséria humana da época, desde escravos ilegalmente transportadas ainda para venda a “criados” mais ou menos já libertos, à esposa do proprietário da frota desses barcos (em fuga na companhia de uma filha) que é o próprio marido. Após o naufrágio do navio são estes poucos que escapam numa barcaça improvisada, levando ainda consigo, entre outros ainda mais pobres mas de coração nobre, um padre oriundo de família das serranias no norte de Portugal, e que havia sido criado no esterco de uma gruta de pedra algures numa pequena vila. Cada leitor que descubra os seus nomes e o modo como sobrevivem algumas semanas numa faixa de areia entre as escarpas da rocha e o mar, cujos alimentos se reduzem a algum peixe e mariscos que conseguem captar, com uma poça de água doce que a maré cheia consegue tornar inútil com a regularidade com que a natureza ora nos dá vida ora nos ameaça com a morte. É nessa pequena “comunidade” que vemos o coração humano na sua mais acentuada bondade e maldade, metáfora perfeita da sociedade de onde provém este grupo, que poderíamos ser todos nós numa determinada época histórica, ou então em qualquer período das nossas vidas em circunstância extremas na luta pela sobrevivência. Só existe aqui o presente, as horas que passam, ou a noite a destruir o dia e o dia a destruir a noite, como em certa canção americana. A possibilidade do canibalismo anda sempre a rondar naquele pedaço de areia, mas em vez disso comem um cavalo que já havia sido mutilado nos porões do navio e de repente dá à praia dos refugiados. Tem sido raro a criação de distopias na nossa literatura moderna, mas este é um livro único tanto na sua visão da História como no modo como poetiza o melhor e o pior da nossa (des)humanidade. Todos os grandes escritores recebem influências de várias línguas e obras, e este é um romance absolutamente faulknariano: cria-se uma situação de provação extrema, e de seguida vêmo-la através dos olhos, pensamentos e relatos na voz que o narrador dá a cada um dos seus personagens. Com o leitor fica a dúvida e interrogações de vária espécie, e, uma vez mais, a finura e crueza das linguagens que tornam a narrativa num longo poema anti-épico, ou, como diria a falecida americana Rebecca Catz, que provavelmente sabia mais do que ninguém da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, um dos melhores livros anti-cruzada, o contraponto perfeito, digamos, a Camões e ao seu diálogo com os deuses em defesa dos portugueses.

     “Na cavidade da rocha, — escreve o narrador já no fim e com uma certa salvação à vista para todos – concha da arriba, altar de santa amputada, já não havia uma correnteza de pedras brança e pretas, mas um montículo em equilíbrio instável, ameaçando derrocada. Muitas mais pedras negras do que brancas. Ultimamente, Marcolino sentia Teresa distante. Uma sucessão de dias maus, a que ele perdera, havia muito, a conta. Tinha esta sensação, mas podia estar equivocado, podia ser da doença, da febre, da fome. Essa, sim, uma pedra negra a crescer no estômago, tão pesada, retumbava, convocava todos os demónios para a praia. E lembranças mal soterradas, vindas ao de cima, ao mínimo deslizamento de terra, ou a erosão do mar bastava, sempre que uma onda embatia, alguma coisa bulia dentro deles…”

Não se pode morar nos olhos de um gato, repita-se, junta um pequeno grupo náufragos nesse exíguo espaço entre a terra e o mar, todos os avisos vindos de um céu tropical que tanto queima como poderá ameaçar com as maiores tempestades e tudo engolir. Creio que este é um romance mais afirmativo da vida do que da morte, apesar da tragédia marítima que lhe dá origem. Entre as noções do Bem e o Mal, um dos mais antigos temas de toda a grande literatura, ficamos nós numa prova constante de desafio aos deuses, a vontade de viver em luta perpétua contra a possibilidade real do fim definitivo. Estes são personagens também tornados símbolos de nós todos. Estamos em zonas cinzentas das nossas almas, somos anjos tal como somos demónios. Como se repete neste romance constantemente, tornando-se num leitmotiv: “Os deuses não dormem, nós é que os sonhamos”.

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Ana Margarida de Carvalho, Não se pode morar nos olhos de um gato, Lisboa Teorema/LeYa, 2016. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 28 de Setembro de 2018.

 

 

Os Açores vistos da Califórnia por Diana Marcum

Li uma vez um estudo que distinguia quais os factores que nos trariam felicidade. Depois das questões de saúde e necessidades básicas, os investigadores acharam que não era dinheiro ou sucesso ou educação. Eles resumiram tudo a duas questões: um sentido de gratidão e dormidas tranquilas.

Diana Marcum, The Tenth Island

Vamberto Freitas

     Cada livro terá muitas leituras. Pode ser que a “informação” que este nos traga não seja nada de novo. Mas um “olhar” diferente também será sempre a originalidade das suas páginas. Quando não dizem o que esperamos ou sabemos, esse “olhar” nunca deixará de ser original, e tanto melhor. Afinal, toda a literatura é uma repetição do que sabemos desde os primórdios. Resta só ver o modo diferente como se olha um povo, uma comunidade, uma nação. Em quase toda a escrita sobre os Açores por escritores que estão fora, noto uma atitude algo estranha. A primeira geração de imigrantes acha que sabe tudo sobre as ilhas de origem. Depois, desconfiam dos da segunda ou demais gerações que escrevem já inglês. Há aqui, parece-me, um certo equívoco qualquer, pois a “realidade” terá sempre as mais diferentes interpretações. A visão dos que nunca cá viveram vem de outras fontes: memórias da família que lhes são passadas em conversa de cozinha, que lhes vêem de cartas, das fotos, e da pura imaginação. Isso não significa só a criatividade da imaginação desses escritores e poetas, significa a grandeza da geografia ancestral, ou uma descoberta ao acaso. Nunca vi um comentário igual sobre as asneiras e racismo puro de um Mark Twain em Innocents abroad dessas mesmas vozes, que chamou os faialenses de “porcos”. Esses escreveram sobre as nossas ilhas com certa hostilidade, e procuram logo o pior por falta de conhecimento. Vem tudo isto a respeito do recente livro de Diana Marcum, The Tenth Island, que aborda de modo racional e em prosa brilhante as nossas comunidades na Vale de São Joaquim, devido à seca que tem fustigado aquele estado norte-americano nestes últimos anos, essa vastíssima terra no interior central da Califórnia, e que de seguida lhe provoca duas visitas prolongadas aos Açores, principalmente à Ilha Terceira, e por uns dias a São Jorge na companhia de um velho companheiro americano. Escrevia ela então no Fresno Bee, e logo depois passou ao grande e referencial Los Angeles Times. Venceu o Pulitzer Prize por essas reportagens, e nunca mais a deixou sossegada até não conhecer em directo as ilhas distantes e misteriosas do nosso arquipélago. Poderá não me ter trazido nada de novo sobre a nossa vivência a meio mar, mas trouxe algo de mais precioso e relevante: o seu olhar exterior, o modo como nos viu, viveu e percebeu a nossa terra. Em poucos meses, Diana Marcum não foi apenas uma turista e escritora. Antes, tornou-se parte de nós. Vivendo na Serreta e arredores, nem sequer deixou de ir a lançamentos de livros, como foi o caso de Da Vida no Campo, de Joel Neto, em 2014, assim como tem conversas profundas com o grande artista terceirense Luís Gil Bettencourt sobre a natureza do amor, da arte e de outras questões humanas. Faz amizade com um bombeiro local, que lhe guia na ilha e lhe diz o que deve ver e absorver. Faz amizade com vizinhos, viaja pela ilha, tenta um sentido de pertença de quem havia chegado e faz destas ilhas como que uma segunda pátria. Raro, muito raro, nos nossos tempos. Não falo de estrangeiros entre nós há anos. Referi-mo a uma grande escritora que não deixa passar em branco os seus dias felizes numas ilhas até então desconhecidas para si, que no século XIX eram mero objecto de oportunismo, negócios de laranja ou responsabilidades diplomáticas. Esses construíram palácios, jardins, tomavam conta de cabos submarinos, e tinham escolas privilegiados para os seus filhos alemães, britânicos e americanos? Sim. Mas livros como este de puro afecto e descoberta, canto a canto, no nosso século, só este livro vem de surpresa e sem outros motivos para além da gentiliza das gentes, do cheiro e forma da natureza e da amizade pura.

A história começa de modo quase surrealista. Estava ela sentada na sua secretária de trabalho no Fresno Bee e aparece-lhe pela frente um dos fotógrafos do jornal, que lhe estende uma fotografia de um agricultor, que suponho ser da área de Tulare, a lavrar a terra nos anos da seca com uma espécie de arado de discos rolantes puxado por dois bois. Pergunta-lhe o dito fotógrafo: achas que há aqui uma história? Ela olhou e decidiu logo que sim. Foi à procura do dito cultivador da terra, e conseguiu encetar um diálogo com ele. A partir desse momento ficaram amigos ou pelo menos de confiança mútua. No seu trabalho de repórter ou escritora acaba por encetar uma incursão na nossa comunidade agrícola luso-americana, e começa a ser convidada para festas particulares em casa de um ou outro, ou para as festas comunitárias da nossa gente naqueles lados. Diana Carmum faz aqui uma confissão pouco habitual, diz que nem sabe da sua própria ancestralidade, pois os dois pais faleceram bem novos. A sua admiração pelas nossas comunidades toma tais proporções que ela decide ir conhecer as origens de tão forte gente, e vem aos Açores pela primeira vez. A sua paixão nunca mais a deixou, e cerca de sete anos depois, já a partir do ano 2014, resolve voltar, desta vez por um tempo prolongado. Compra um carro e viaja pela ilha toda, fazendo amizades, conversando com todos à sua volta, com o seu olhar sempre atento ao que nós por cá não vemos ou não queremos ver. Muitos da nossa primeira geração deveriam ter isto em mente – chegamos cá com ideias feitas, ou os referenciais da infância ou da adolescência nunca nos deixou ir além dessas nossas memórias. O visitante geralmente ocasional topa o que nunca topamos. Não percebemos o que os outros encontram pela primeira vez. Nem vizinhos, nem amigos, nem sequer lugares que antes nunca tinham sido vistos ou pensados. É isso mesmo que o estranho em terra estranha é capaz de olhar e ver, de nos dar outra interpretação ou de nos colocar universalmente entre todos os outros. Há quee diga quem emigra nunca, “sai” de cá. Isso é falso. Sai de cá, mas depois só se reencontra no regresso. O mistério da chamada “pertença” é muito mistificado, ou mitificado. Só os de fora nos completam. Seja na nossa maneira de ser, seja nos pormenorizados recantos das nossas origens. Há um complexo, repito, de que sofremos todos – sem os outros nunca saberemos quem somos. The Tenth Island é um misto de memórias e de ficção (a autora confessa que nunca consulta as suas notas e reinventa diálogos), tudo numa prosa escorreita, directa, como se de um relato jornalístico do chamado “human interest” se tratasse. Já ouvi algumas críticas a esta escrita, mas para mim é precisamente aonde reside a sua eloquência e prazer da leitura.

“Só estar aqui, tranquila, — escreve Diana Marcum num dado passo acerca da sua estadia na Ilha Terceira e recordando a sua Califórnia – fez-me dar conta que tinha passado a vida a manobrar entre as coisas-tal-como-elas-são, aceitando que a violência seria sempre uma possibilidade, nunca consciente de que existem outros lugares onde não nos sentimos assim. Por certo, o meu pai já me tinha dito isto: Os outros poderão ter outras maneiras de fazer as coisas no outro lado do rio”.

Tenho de referir aqui que Diana Marcum tem um grande amigo açoriano há muitos anos residente na Califórnia, e que no decurso das suas intenções e andanças atlânticas a foi guiando e sugerindo tanto a escolha de casas na ilha, como as idiossincrasias do seu povo. Elmano Costa é Professor de Educação na California State University, Stanislaus, na cidade de Turlock, uma das nossas mais conhecidas comunidades imigrantes naquele estado. De palavra em palavra, de frase em frase, a autora foi-se adaptando ao meio, desde Angra do Heroísmo à Praia da Vitória e a todas as freguesias que ficam pelo meio. Uma vez mais, poucos leitores encontrarão nestas páginas uma geografia desconhecida, e muito menos novidades culturais, sejam elas os já tradicionais festivais de verão ou as touradas-à-corda, que ela classifica como sendo algo de cómico e trágico. Uma leitura mais atenta trará o que de melhor nos oferece este livro, que tanto é literatura de viagens como um hino a uma outra terra só agora descoberta.

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Diana Marcum. The Tenth Island, New York, Little A. New York, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 7 de Agosto de 2018.