De Carlos Cordeiro e de nós

A metrópole tem certas generosidades consideráveis com as colónias. Assim, com os Açores – que não são uma colónia, mas que pela distância, pelo abandono, pela separação de interesses, têm toda a fisionomia colonial… Portugal para com os Açores é inesgotável – de desembargadores!

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre

Vamberto Freitas

I

     Num ensaio que escrevi para o livro História, Pensamento E Cultura: Estudos em Homenagem a Carlos Cordeiro falei essencialmente de como ele se tinha posicionado ao longo dos seus anos na Universidade dos Açores entre e perante a nossa geração de estudiosos e defensores da cultura e literatura açorianas, falei do seu trabalho incansável quer como ensaísta de grande fôlego e ainda participante nos mais variados encontros sobre estas questões. Deixou-nos um legado intelectual nesta área de estudos quase única na Universidade dos Açores. Com ele e o Urbano Bettencourt mantive sempre um diálogo aberto, nunca deixando que as nossas opções ideológicas impedissem um inabalável respeito mútuo, ainda ouço a sua voz forte a rir em momentos de humor e até auto-crítica.

A minha saudade dele tem muito a ver com o facto de ele ter sido uma das primeiras pessoas e colegas que me acolheu desde a minha participação nos já míticos encontros literários da Maia, aqui em São Miguel, e depois do meu regresso definitivo aos Açores, agora na companhia da Adelaide. Lembro-me desses gestos do Carlos porque vivemos numa cultura de desconfiança quando alguém vem de fora, ou então optou por uma vida familiar fora do convencionalismo de pequenas sociedades como nossa. Sempre nos apoiou nesse começo de vida, convidando-nos para um jantar em sua casa e na presença de toda a sua família, visitava-nos no Pópulo quando o tempo lhe permitia, sempre disponível para a troca de informação e opiniões em volta das temáticas que aqui já referi. Foi ele a primeira pessoa que me mostrou boa parte da ilha aquando dos encontros da Maia, e sempre com aquela boa disposição e orgulho de quem amava a sua terra mas mantinha uma visão muito alargada em tudo que dissesse respeito a nós açorianos da diáspora americana e brasileira. Sinto muito a sua falta, uma espécie de desamparo com o seu desaparecimento físico, mas terei sempre os seus escritos como companhia e referência perpétua. Baixo a cabeça, e agradeço a todos os deuses esses anos de fulgurância intelectual, e sempre com a participação apaixonada da minha Adelaide. Considero essas memórias, primeiro das pessoas que foram e depois a sua obra, um dos maiores privilégios que nem todos têm a sorte de viver. Somos todos agora, os seus amigos e colegas, quem manterá sempre a sua presença nas nossas vidas, somos a consciência deles na sua rica passagem por este mundo. Obrigado, Carlos.

II

     Na sequência desta homenagem a um grande amigo e colega, gostaria de dizer – repetir – algo mais. O nosso aparente complexo de inferioridade ante o restante país é de todo injustificável, e vai contra os factos da nossa história ao longo de mais de cinco séculos. Não recuemos mais, só iremos ao fim do século XIX e a todo o século XX, ficando com o mundo da arte literária. Já imaginaram a literatura portuguesa sem os açorianos mais distintos entre nós? Antero de Quental era tão universal e português que escolheu a sua terra de nascença para morrer. Não vou falar do primeiro presidente da república ou de outros na política, do jornalismo e das artes em geral. Que o façam os nossos historiadores, e têm-no feito, mesmo que lidos ou notados a nível nacional só em certas circunstâncias. A verdade é que sem o contributo constante dos nossos melhores escritores (e faltarão aqui alguns) a literatura portuguesa seria muito menos do é que hoje. Só para mencionar uns poucos, que poderiam ter sido legítimos candidatos ao Nobel, se bem que as grandes letras de uma cultura e língua não dependem em nada de um prémio atribuído em Estocolmo. Falemos dos que ou já pertencem ao nosso cânone literário antes de essa confirmação de grandeza existir, ou de alguns mais novos que se identificam com a minha geração na escrita criativa ou na crítica literária pública. Só na nossa época Portugal conta com Vitorino Nemésio e Natália Correia, que poderiam ter sido legítimos candidatos ao Nobel. Alguns outros, vivos e mortos, que menciono só parcialmente para não provocar rancores, são também de um outro alcance artístico nas nossas letras. Podem incluir estes e outros autores e poetas nesta lista algo curta, de grandes escritores e poetas, com ou sem prémios de qualquer espécie, como um Roberto de Mesquita, João de Melo, José Martins Garcia, J. H. Santos Barros, Emanuel Félix, Pedro da Silveira, Borges Martins, Carlos Bessa, Garcia Monteiro, Eduíno de Jesus, Luiz Fagundes Duarte, Renata Botelho, Madalena Férin, Leonardo Sousa, Manuel Tomás, Daniel de Sá, João Pedro Porto, Joel Neto, Marcolino Candeias, Nuno Costa Santos, Victor Rui Dores, Ivo Machado, Norberto Ávila, Cristóvão de Aguiar, Urbano Bettencourt, Manuel Machado, Rui-Guilherme de Morais, Emanuel Jorge Botelho, Álamo Oliveira, Eduíno de Jesus, Dias de Melo, Fernando Aires, Vasco Pereira da Costa, Diniz Borges, Francisco Cota Fagundes, José Manuel Dias de Melo, José Francisco Costa, Paula de Sousa Lima, Madalena San- Bento, Adelaide Freitas, Ângela Almeida, Judite Jorge, Fátima Borges, Maria Luísa Soares, Leonor Sampaio da Silva e Gabriela Funk. Merecem, todos eles e elas, muito mais reconhecimento a nível nacional do que têm recebido para além de uns poucos mas dos mais prestigiados intelectuais e outros estudiosos da literatura do nosso país sem fronteiras. São estes apenas os que conheço em profundidade, e não vou aos grandes escritores antes deles. Se Lisboa não fosse o centro editorial e publicitário do nosso país, quase ditatorial nestas questões, muito haveria ainda a dizer do eixo supostamente “cultural” Lisboa-Coimbra, e felizmente agora o Porto. Os outros nunca existem e nunca existiram. Na diáspora temos alguns dos mais importantes pensadores da portugalidade expandida no mundo, como Onésimo Teotónio Almeida, mas também ele e outros parecem excluídos dos grandes prémios literários. Isso vai sempre para os que vivem no outro lado da rua ou do bairro genial à beira Tejo. É só aparecer numa página ou num ecrã as palavras “Açores”, “açorianos” ou “açorianidade” para levantar todo o tipo de suspeitas nessa outra margem da nossa nação. Somos demasiado “ilhéus” na nossa escrita. Eles, mesmo que não saibam disso, são demasiado “lisboetas” para alguns nós, quando deveríamos ser apenas e só portugueses.

Actualmente, alguma da mais sofisticada escrita entre nós aqui destes lados conta com todo o apoio da nossa Imprensa. Foi-nos sempre mais do que evidente que seríamos nós a tratar da nossa própria identidade no contexto do país, ou cairíamos num poço de ignorância pura, e sempre em preconceitos que resultam dessa mesma ignorância. Por lá, mandam-nos baixar a bola, a fasquia, porque os novos leitores de jornais supostamente pouco sabem de literatura. Não tenho tanta certeza disso, não assumo nada sobre o que eu e todos os outros na realidade não conhecem. Poderão essas novas gerações simplesmente já não se identificarem com as nossas linguagens, mas ninguém tem provas definitivas que não lêem, ou são mais indiferentes do que foram muitos de todas as gerações ao mundo das artes em geral.

III

     Toda a grande escrita universal parte de ume geografia específica, de uma cultura, de uma língua, de uma História própria, e ainda intensamente das diásporas de cultivam uma identidade própria e indelével, esses que não têm nem consideram fronteiras de qualquer espécie. Raramente em Portugal se sabe valorizar a nossa riqueza literária e cultural praticamente no mundo inteiro. Ao contrário desses outros “metropolitanos” lusos de que já falei, o nosso arquipélago desde há muito que criou estruturas próprias de debate e divulgação de como somos e vivemos, de como chegámos aqui e sobrevivemos há mais de quinhentos anos. Não pedimos desculpa a ninguém, nem aceito que a se justifiquem perante os outros. Quem não conhece é que está em falta, não nós. Se levantamos suspeitas, ceptícismo ou descrença quando nos encontram de quando em quando nas mais variadas páginas ditas “nacionais”, corrijam a sua estreiteza de visões ou entendimento.

Estamos “longe” e fora da vista, bem sei. Mas quem diz ou se quer “universal” nunca poderá ignorar o vizinho ao lado, muito menos os seus compatriotas e a sua luta pela dignidade num pequeno país que nunca soube apreciar a sua própria riqueza humana em toda a parte, e os seus contributos à vida criativa ou, uma vez mais, identitária. A literatura é isso, e só isso. O resto são pretensões que acabam por nos diminuir a todos. Sim, quando leio um escritor do continente, leio-me a mim próprio ou revejo-me nas suas personagens e temática. Tal como quando leio um “estrangeiro” de qualquer país ou língua. Só assim vemos como vivem ou pensam todos os outros, que somos nós em qualquer outra parte ou tradição.

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A primeira parte deste comentário foi publicada num suplemento do Correio dos Açores em homenagem a Carlos Cordeiro, Professor da Universidade dos Açores, e recentemente falecido. No Açoriano Oriental de 26 de Outubro, 2018.

 

De um outro existencialismo e de um mundo de sombras

     É simples: não há história sequencial. Cada novo texto revê o anterior. Cada noite a da véspera. Assim, tudo, para ele era borrão, excepto o último.

Ernesto Rodrigues, Um Passado Imprevisível

Vamberto Freitas

     Da vasta obra de Ernesto Rodrigues, que inclui ensaio, poesia e ficção, retenho com especial interesse os seus romances Passos Perdidos (2014) e Uma Bondade Perfeita (2016), este que viria a vencer o Prémio Pen Clube Português no ano seguinte. Acabo agora de ler a sua mais recente peça de ficção, Um Passado Imprevisível, cujo título já contém em si essa ironia de nunca nos conhecermos por completo, muito menos os outros e os relacionamentos mais marcantes das suas e nossas vidas. Há aqui uma tentação de considerar, pelo menos parcialmente, este livro um romance um tanto autobiográfico, mas seria um erro elementar de leitor, como diriam certos críticos americanos acerca de textos ou narrativas complexas. De facto, Ernesto Rodrigues, hoje professor na Faculdade de Letras na Universidade de Lisboa e director do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, foi também leitor de Português na Universidade de Budapeste nos anos 1981-1986, os anos de chumbo daquele país que ainda nem suspeitava, (suponho) que todo o sistema sócio-político estava prestes a ruir em pouquíssimo tempo como resultado da queda da União Soviética. É também verdade que o autor – que viria a tornar-se o mais distinto tradutor no nosso país da melhor literatura húngara — deixou por lá laços de amor e família, muito do que nos levaria à tentação de o ler interligando realidade presente e passado num acto de ficção como este. Só que na obra de Ernesto Rodrigues existem estruturas narrativas que à primeira vista nos parecem desligadas, e a sua escrita torna-se um exercício complexo da imaginação pura, e em que o leitor vai desfrutando de frases lapidares que podem ou não significar os múltiplos sentidos de um tema que esconde em si não só o mundo dos outros mas mais ainda o estado interior do seu narrador, que, tal como nós na tentativa de interpretação, nunca sabe claramente o que aconteceu ou vai acontecendo no seu próprio mundo ou noção de existência entre os mais diferenciados seres humanos aqui inventados ou reinventados. Estamos dentro de um enigma que vai da vida académica e amorosa em Budapeste a Moçambique dos nossos dias em busca de uma mulher de nome Andrea. Este é um romance de poucas personagens centrais, mas os seus relacionamentos e as respectivas implicações para as várias representações aqui encenadas são algo complexas, deixando o leitor como que num jogo de xadrez e a olhar demoradamente cada peça e cada movimento.

Um Passado Imprevisível faz-me lembrar, de certo modo, o Finnegans Wake, de James Joyce, que levaria o grande crítico norte-americano Edmund Wilson, que introduziu nos anos 20 o modernismo europeu aos seus leitores enquanto olhava atentamente os seus colegas que no país ou residentes na Europa também respondiam a uma literatura que havia sido até então provinciana, ignorando quase tudo que se passava além-fronteiras. Wilson, falecido em 1972, leu e releu a ficção de Joyce, e não teve meias medidas: se era praticamente incompreensível, ele procedeu a uma interpretação muito original, quer coincidisse ou não com o que o autor irlandês teria em mente quando o escreveu. Faço o mesmo agora aqui. Um Passado Imprevisível tem um narrador que se identifica com um personagem principal de nome J. C. no seu regresso a Budapeste no presente depois de lá ter sido professor de Português na universidade principal do país. Vai à jubilação de um colega oriundo da Eslovénia, mas que será devidamente homenageado, e neste caso chamado simplesmente de “Z”, pois o seu nome é tão longo e complicado que tira do leitor o primeiro riso e perplexidade, e que nem me atrevo a escrever neste texto, depois de um alerta, ou de quem leu com atenção, que se tratava de todas as letras do alfabeto, numa brincadeira algo gratuita com o leitor, creio eu. De resto, será lembrar os anos passados e as mulheres da sua vida, ambas de nome Nídia, mãe e filha, que nos levam a tentar decifrar quem é o pai, se J. C. ou Z. Seja como for, o romance leva-nos mais ao ambiente internacional dos nossos dias na Europa, e termina, como já referi, em Moçambique aonde se encontra Andrea, uma outra possível amante, numa missão humanitária e que não espera um encontro com esse seu passado amoroso na Hungria. Pelo meio, acompanhamos a viagem num navio criminoso, que se dedica ao tráfico de tudo, inclusive de crianças. A violência durante essa viagem entre a Europa e África é extrema, e constitui uma outra visão do mundo actual, do mundo que permitimos no silêncio ou na nossa indiferença. Entre o passado dos anos 80 do século XX num país comunista retornamos à actualidade, testemunhamos o pior dos mundos. Resta ao indivíduo consciente reorientar-se e actuar dentro do perigo perante o que vê e vive. É o regresso ao tal existencialismo filosófico, que combina realidade e arte para denunciar os infernos que criamos, e ao mesmo tempo a possibilidade de apagar os fogos quando pode e onde pode. Este é um livro de prosa simbólica e poética, com frases tão contundentes e significantes que prendem nos seus leitores a força de irmos de página em página à procura de significações escondidas, dos mistérios ou segredos da vida de cada personagem.

“Ora, outros perigos irrompem nesta distracção. A pólvora da História deixa resíduos em qualquer um. Seja palavra, na tabuleta da loja, seja nome de rua, ou música descida de longe, que a rádio filtra, o peso da vida volta, velado em passado, que a mão esquerda dela, numa paragem brusca, entoa melhor, ao tocar-lhe no joelho, dois dedos, indicador e média, pormenor que lhe lembra outros dedos, talvez outro tempo, o que nem sempre coincide…”

Por fim, Um Passado Imprevisível dá continuidade a essa obra ficcional de Ernesto Rodrigues de que já falei anteriormente, um mundo de sombras ominosas ou meramente pessoais, e na qual o leitor encontra na sua prosa o caos e os relacionamentos misteriosos entre uns e outros, especialmente o que se chama na sociologia de significant others. Certa Europa permanece algures entre a civilização e o desastre, com as relações de cada um ou uma servindo como que de metáfora a todo o tipo de ameaça indefinida. A viagem para a África acontece, uma vez mais, num navio de loucos, e Moçambique como memória de um passado português pouco feliz, e agora dependente da ajuda e da criminalidade dos que pensam levar todos à salvação.

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Ernesto Rodrigues, Um Passado Imprevisível, Lisboa, Gradiva, 2018.

 

 

 

 

 

 

 

Em memória de Carlos Cordeiro

Vamberto Freitas

     Num ensaio que escrevi para o livro História, Pensamento E Cultura: Estudos em Homenagem a Carlos Cordeiro falei essencialmente de como ele se tinha posicionado ao longo dos seus anos na Universidade dos Açores entre e perante a nossa geração de estudiosos e defensores da cultura e literatura açorianas, falei do seu trabalho incansável quer como ensaísta de grande fôlego e ainda participante nos mais variados encontros sobre estas questões. Deixou-nos um legado intelectual nesta área de estudos quase única na Universidade dos Açores. Com ele e o Urbano Bettencourt mantive sempre um diálogo aberto, nunca deixando que as nossas opções ideológicas impedissem um inabalável respeito mútuo, ainda ouço a sua voz forte a rir em momentos de humor e até auto-crítica.

A minha saudade dele tem muito a ver com o facto de ele ter sido uma das primeiras pessoas e colegas que me acolheu desde a minha participação nos já míticos encontros literários da Maia, aqui em São Miguel, e depois do meu regresso definitivo aos Açores, agora na companhia da Adelaide. Lembro-me desses gestos do Carlos porque vivemos numa cultura de desconfiança quando alguém vem de fora, ou então optou por uma vida familiar fora do convencionalismo de pequenas sociedades como nossa. Sempre nos apoiou nesse começo de vida, convidando-nos para um jantar em sua casa e na presença de toda a sua família, visitava-nos no Pópulo quando o tempo lhe permitia, sempre disponível para a troca de informação e opiniões em volta das temáticas que aqui já referi. Foi ele a primeira pessoa que me mostrou boa parte da ilha aquando dos encontros da Maia, e sempre com aquela boa disposição e orgulho de quem amava a sua terra mas mantinha uma visão muito alargada em tudo que dissesse respeito a nós açorianos da diáspora americana e brasileira. Sinto muito a sua falta, uma espécie de desamparo com o seu desaparecimento físico, mas terei sempre os seus escritos como companhia e referência perpétua. Baixo a cabeça, e agradeço a todos os deuses esses anos de fulgurância intelectual, e sempre com a participação apaixonada da minha Adelaide. Considero essas memórias, primeiro das pessoas que foram e depois a sua obra, um dos maiores privilégios que nem todos têm a sorte de viver. Somos todos agora, os seus amigos e colegas, quem manterá sempre a sua presença nas nossas vidas, somos a consciência deles na sua rica passagem por este mundo. Obrigado, Carlos.

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De um outro desassossego interior

   Refere ser complicada a sua vida… E, com essa afirmação, sentenciou-se. Limitando-se ao pensamento redutor e à quietude paralisante, não deixa que a aventura lhe toque…

Fernanda Mendes, Fios Tecidos Ao Vento

Vamberto Freitas

     Fernanda Mendes, psiquiatra, política e governante aposentada, publicou o seu primeiro livro em 2014, intitulado Sexualidade Redonda e Circular, que tive o prazer de apresentar publicamente num ambiente algo diferente para mim, precisamente no Hospital do Divino Espírito Santo, aqui em Ponta Delgada. O desafio que a autora então me lançou foi complexo: estivemos perante um público que combinava leitores vindos de todos os quadrantes da vida, mas também médicos e sexólogos híper-especializados vindos de outras sofisticadas paragens, como Allen Gomes. Também ela é uma conhecida sexóloga, e a sua prosa de então foi decididamente um acto de coragem numa terra habituada a literatura sisuda e quase toda de meras insinuações sexuais nas suas páginas. Em Sexualidade Redonda e Circular a linguagem era bem outra, integrava o desejo e prazer, ou a dor de cama numa tradição conservadora como a nossa e dominada ainda pela hipocrisia social e religiosa, uma cultura do silêncio que acha estranho falar-se publicamente nestas questões, que também já dominam quase obsessivamente, como se sabe, até o discurso político noutros países. Só que a surpresa para mim foi encontrar um grupo de leitores e pensadores que aceitaram abertamente esse desafio médico-intelectual lançado nessa singular obra entre nós.

Agora, neste seu Fios Tecidos Ao Vento temos uma escrita epigramática, mas retirando a parte que diz respeito à sátira ou a outras significações mais negativas, mesmo que em certas entradas essas linguagens prevaleçam, sem nunca a autora perder a sua inclinação poética e de generosidade perante a condição humana em que vivemos todos, e ela olha muito atentamente, ouve sem perder pitada dos que lhe comunicam ou ficam no silêncio. Estamos aqui noutro livro bem diferente. Parece um diário, mas não é. São os seus pensamentos e memórias que lhe comunicam situações e gente em tempos diferentes. Fernanda Mendes vai anotando não só o que ouve das mais diferenciadas experiências de vida, como ouve a daqueles que ela conhece ou com quem convive, registando sempre ou a solidão ou o desespero de cada encontro. Trata-se de uma narrativa em curtos parágrafos ou breves frases do que ela pensa sobre a sua própria vivência em tempos que são os nossos. Diz-nos de si e dos outros, sem nunca ninguém identificar. Uma escritora psiquiatra é sempre “perigosa”, mas no melhor sentido da palavra. Sobressai não aquela que “julga” ou “sentencia”, mas a de quem entende o coração humano nos seus dilemas e medos. A capacidade de amar, ou não, a liberdade ou prisão interior dos sujeitos que ela encontra na vida, uma mulher tanto dona do seu destino como observadora desses “prisioneiros” e das suas circunstâncias. As palavras que escreve a qualquer dia ou da noite carregam em si quase sempre a empatia solidária e um entendimento da alienação numa sociedade sem regras nem as referências institucionais reguladoras de outrora. Em qualquer das circunstâncias, há o seu humanismo e a tentativa de entrar na alma dos seus interlocutores, ou o dos que ela experiencia em pensamento, quer seja solidária, mas também por vezes castigadora sem os juízos de valor que geralmente o acompanham, ou de maldade a eles inerente. Como em certos escritores, é o estado de espírito, seu e dos outros, que definem a nossa sociedade e o que essa sociedade nos impõe, como seres humanos, como amantes, como conhecidos, como ocasionais faladores de si e da sua sorte. É, uma vez mais, o desassossego de estarmos vivos na infelicidade e na má sorte do nosso destino. Nesse processo, a autora vai-se definindo como vai definindo os outros. Não se trata de pessimismo ou de alegria ante a vida: trata-se, antes, da nossa existência num labirinto que frequentemente dificulta qualquer saída.

“Estranho sol – escreve Fernanda Mendes — que não queima, estranha dor que não mata, estranho momento que não morre ao vento, estranhas vozes que nascem do meu espanto… Tudo requer estranheza”.

Permitam-me abrir aqui um parêntese. Cada livro ou cada frase abre espaços e feridas pessoais que nunca poderemos esquecer, e nunca nos deixa ignorar o que nos dizem pessoalmente. Toda a prosa que lemos ou é pessoal, se torna pessoal, ou de nada vale, nem sequer a dos textos arrogantes de alguns grandes escritores, quer sejam a poesia ou prosa. Leio um texto como que se fosse sobre a minha própria vida, mas nisso não há nada de estranho ou novo. A autora trouxe-me ao mais profundo ser a minha vida pessoal na companhia da minha grande companheira, a Adelaide. Foi uma escritora, académica e política, e muito mais do que isso, muito mais significante, o meu grande amor. Não, não vou ser lamechas aqui, queria só apontar a verdade directa destas palavras da Fernanda Mendes. Assisti durante quase 20 anos a uma doença na minha casa que mata a vida antes de matar o corpo. Não haverá nada de mais cruel. Ainda hoje essas “estranhas vozes” assombram-me nos meus dias e nas minhas noites. Nunca saber se me reconheces, ou estás comigo. Isto só para dizer do que nós, os vivos, fazemos todos os dias, sejam amigos ou só conhecidos. Estás comigo, ou estás comigo sem me ver ou reconhecer? Não me reconheces? Reconheço-te eu a ti, e isso basta porque o teu regresso não é possível. Um sorriso, um olhar terno ou mesmo indiferente, um beijo mole e olhos no infinito, deixava-me feliz. Os vivos não sabem disto. Sabem só os poucos seres humanos verdadeiramente conscientes da nossa sorte. Queria só dizer que se a psiquiatria ou uma escritora não encontra solução para os que vivem alienados e descontentes poderá ser uma tragédia, mas com a qual eu não ofereço a mínima simpatia ou empatia. Se não, em saúde e em vida normalizada te afundas, bom, temos outros e muito piores problemas a tratar ou a resolver. Sei que outros não vão gostar destas palavras. Paciência. Eu também recebi a mais forte lição da Adelaide, não ter medo ou aceitar a minha sorte futura. Uma depressão de outros ou a incapacidade de amar até se trata com comprimidos. Se isso não for possível é, para mim, um problema menor.

“Estranha forma de vida”, como no fado de Pedro Homem de Mello, cantado em som e voz arrepiantes pela Amália. Que Fernanda Mendes se tornou uma autora tão original entre nós não me surpreende. A autora tem vidas em várias geografias do nosso ser, desde uma pequena aldeia algures em Portugal continental ao Brasil, e depois a sua vivência aqui nos Açores. Só olhar simultaneamente o exterior e a nossa própria casa nos permitem certas perspectivas de vida a que não estávamos de todo habituados. Alguma escrita de gente que passou por aqui algum tempo e depois deixou um “testemunho” tem uma relevância muito relativa. Os que de “fora” vivem entre nós fazem parte da cultura e da vivência inteiramente açorianas. É deles e com eles que nos revemos. A autora de Sexualidade Redonda e Circular e de Fios Tecidos Ao Vento é, uma vez mais, do Continente, do Brasil e dos Açores. O seu e nosso círculo fica completo na sua escrita. Esqueçam os clichés do costume. De bruma e basalto eu, pelo menos, já estou farto. Nunca da nossa humanidade na melhor da literatura.

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Fernanda Mendes, Fios Tecidos Ao Vento, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2018.