Os Média Nos Açores E No Mundo

O aparecimento dos novos média e a crise generalizada na imprensa escrita não significam a morte do jornalismo convencional… A potencialidade das novas ferramentas de comunicação pode, pelo contrário, ajudar à imprensa escrita a regenerar-se.

Osvaldo Cabral, Os Açores E Os Novos Média

Vamberto Freitas

     Quando se lê pela primeira vez um primeiro livro de um jornalista-escritor, a primeira reacção é desconfiança, ou, no mínimo, a espera de algo, digamos, de retração. Os Açores E Os Novos Média, de Osvaldo Cabral, quebrou nas primeiras páginas com esse meu preconceito ou leitura distante e pouco interessada. Por entre as inúmeras referências a teóricos regionais, nacionais e internacionais da comunicação social tradicional (escrita, rádio e televisão) e das novas tecnologias, perante os números referentes a tudo que diz respeito à realidade das ilhas até ao resto do mundo, deparamo-nos com uma prosa aliciante e de estilo elegante que nunca acusa (ou melhor, ou mais correctamente dito, só acusa com palavras duras os poderes em Lisboa, dentro e fora da televisão oficial dita nacional, que nunca reconheceram a importância da RTP/Açores como elo de ligação entre as próprias ilhas e o resto país e da nossa diáspora), apenas constata o que entra nas salas ou no nosso ambiente de trabalho todos os dias, nunca deixando o leitor de o ler frase a frase, página e página. Foi o que me aconteceu. Como escrevi noutra parte, ler este livro atentamente é como assistir a um seminário sobre todas estas questões no mundo em que vivemos, ou sobre os mais variados média que nos “assaltam” segundo a segundo. Não vou mencionar todos os nomes nacionais ou internacionais que são referidos nesta prosa e nas quais a ética ou a deontologia são constantes. Só que ele nem se esquece das mais importantes figuras açorianas, quer tenham escrito a partir das ilhas ou feito carreira no Continente. Desde José Lourenço (Director do Diário Insular, em Angra do Heroísmo), Daniel de Sá, Jorge do Nascimento Cabral, Ermelíndo Ávila (entre alguns outros) até a Mário Mesquita, Mário Bettencourt Resendes, dois distintos directores do Diário de Notícias em Lisboa noutros tempos, a José Medeiros Ferreira e José Lopes de Araújo, as suas referências são vastas e históricas, nem os grandes mestres do jornalismo açoriano do século XIX são esquecidos e contextualizados no seu tempo e circunstâncias, muitos dos quais dirigiram brilhantemente alguns dos nossos jornais, e tornaram-se defensores acérrimos da nossa autonomia política já no seu tempo. Só todos estes chamamentos ao passado que têm como fim a análise simultaneamente crítica e solidária ao que se passa nos nossos dias. Osvaldo Cabral tem uma das mais longas e profícuas carreiras no nosso jornalismo, desde os anos 80 no Correio dos Açores a jornalista e eventual Director da RTP/Açores e ainda a Director Executivo actual do histórico Diário dos Açores, como aliás já foi referido numa das minhas citações aqui. Tem sido uma longa viagem, e os seus conhecimentos não têm par, nem sequer na nossa universidade ou noutras mais longe. Mais do que isso, esta é uma história brilhante da imprensa escrita no nosso arquipélago até aos dias dos computadores, iPhones e outros brinquedos vistos por toda a parte e através dos quais famílias inteiras prescindem da conversa cara a cara para “comunicarem” ao longe, sejam eles amigos ou estranhos.

Creio que nada de igual entre nós sequer se assemelhe à temática que predomina e guia toda a prosa do autor em Os Açores E Os Novos Media. Tal como indica o próprio título, Osvaldo Cabral faz uma análise profunda da influência e consequências das novas tecnologias no jornalismo tradicional. Se nalguns casos olha para tudo com um espírito céptico e crítico pelo modo como esses aparelhos distorcem essa comunicação do grande público mais sério e pensador, na sua ânsia de velocidade e novidade, inclusive a televisão), a verdadeira notícia, por outro lado não acredita que a comunicação social em papel vá desaparecer, se bem que a sua influência está cada vez mais diluída, levando até o Presidente americano a falar em fake news ou factos alternativos quando não gosta do que ouve ou vê. A resistência ao imediatismo acéfalo vai continuar, mesmo que só entre uma elite responsável pelo equilíbrio e integridade das instituições. Dito de outro modo, Os Açores E Os Novos Media traça o longo percurso do jornalismo credível nas nossas ilhas, só que com um afincado aviso à navegação tanto nas ilhas maiores como nas mais pequenas. Nenhum deles têm de acabar com as edições em papel, mas terão de migrar para outros meios de transmissão imediata e sempre actualizada. O resto fica com a consciência e a capacidade profissional de cada um: dizer a verdade e dar lugar à opinião, como diria um antigo professor meu na Califórnia, “informada”. O autor pede ainda mais o alargamento ou alcance dos média nos Açores, e disso falarei um pouco mais adiante. Tem palavras duras para os que hoje em dia dependem de gabinetes oficiais que disseminam as versões políticas e outras dos poderes as vários níveis, ou as de organizações especializadas em relações públicas.

“O saudoso sociólogo – escreve a dada altura Osvaldo Cabral no capítulo ‘Jornalismo e Cidadania’ – e professor Paquete de Oliveira, que estudou estes fenómenos, já alertara para o facto de, neste século, o poder de informar, tal como o próprio poder político, é, na actual sociedade complexa, um poder diluído. Os centros do poder estão disseminados e cada um com os meios de fazer passar a informação. A máquina da informação reorganizou-se profissionalmente. Há agências, há novas técnicas refinadas, há os famosos ‘spin doctors’, profissionalmente encarregados de fazer a mensagem funcionar no espaço público. E, por isso, mal estaria o governo, ou o partido, o movimento, a empresa que não se organizassem dentro deste esquema. Parece-me que muitos jornalistas, fechadas no modelo da sobrevalorização da missão e também com forte carga corporativistas, ainda nem deram conta da ‘nova ordem comunicacional’’’.

Vou ter de me repetir. Não há livro nenhum nos Açores que se aproxime a este na sua expansividade, profundidade de análise e, especialmente, quanto à informação concreta sobre a história jornalística que nos fez chegar aqui, e números que de ilha em ilha nos vão explicando toda a problemática dos média nos Açores de hoje. Parte das ilhas para o resto do país e para o mundo, mas sempre, sempre, com os Açores no centro da sua investigação pormenorizada e contextualizada. Ler o jargão académico é quase sempre doloroso. Ler quem conhece por dentro toda a problemática, depois de uma vida inteira ao seu serviço e ainda no activo, é outra experiência. Depois, saber escrever em linguagem clara, escorreita e precisa é outra. É isto que temos nas páginas preciosas de Os Açores E Os Novos Média. Osvaldo Cabral, com este seu livro, não presta só um enorme contributo aos seus colegas nas ilhas e noutras partes. Oferece ao leitor açoriano que se quer minimamente informado um precioso ponto de partida para o nosso pensamento, e, sim, para o modo como passaremos a ouvir, ver ou ler tanto a nossa própria imprensa como a de qualquer outra parte.

Nada menos eu esperava de um jornalista como Osvaldo Cabral, mas superou todas as minhas expectativas. O seu livro vem com um prefácio um tanto humilde de Onésimo T. Almeida. Esse facto não impede que o grande estudioso e intelectual da Brown University nos coloque num determinado rumo de leitura que só nos enriquece e esclarece ainda mais. Finalmente, para o Osvaldo Cabral, sei que li de um jornalista americano (cujo livro agora não encontro na minha exagerada colecção) no seu próprio fim de carreira a mais lapidar de todas as frases: “Sei que o meu maior prémio foi terminar a minha carreira com a minha credibilidade intacta”.

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Osvaldo Cabral, Os Açores E Os Novos Média, Ponta Delgada, Gráfica Açoreana, Lda, 2018. Publicado hoje no Açoriano Oriental, 11 de Dezembro de 2019.

 

 

De Jonathan Franzen e dos seus pássaros

As codornizes são o único alvo permissível dos caçadores com redes de neblina, mas vêm sempre por acréscimo aves pequenas e os falcões que as perseguem.

Jonathan Franzen,

O fim do fim da terra

Vamberto Freitas

     Já li boa parte da ficção de Jonathan Franzen, e todos os seus romances são de mestre. Aliás, a capa da revista Time nem o projetou nem o pronunciou sem mais nem nemos “O melhor romancista americano”. Estou a ler o seu livro de ensaios mais recente, que vai aí na minha epígrafe. De pássaros não percebo nada de nada, a não ser dos melros pretos que apareciam nas árvores da minha casa nas Fontinhas. Pareciam-me então uns inimigos, mas Franzen acha que as mudanças climáticas estão a acabar com todos os outros, e mais alguns ainda desconhecidos. Tenho muita pena, e tudo isto pode e deve ser visto e entendido como uma metáfora da morte do nosso planeta inteiro. Só que as mudanças climáticas estão também a acabar com muitos seres humanos. Viver em Santa Cruz é um privilégio muito grande, rodeado de Silicon Valley e de açorianos (já agora) por todos os lados? A morte das aves são uma metáfora de um mundo “no fim”? O grande autor anda por toda a parte a fotografar os mais escondidos ou longínquos recantos em inúmeros países. Se andasse a fotografar quem dorme nas ruas, nos passeios e nas entradas de lojas de luxo, quem passa fome na noite e no dia não seria mais apropriado a um grande humanista deixando os cientistas perseguir e insistir nas mudanças radicais que todos precisamos? Franzen anda pela a América Latina, pela de África, e até por certa Europa meio esquecida, meio marginalizada, meio discriminada pela “outra” Europa mais a oeste e supostamente mais próspera e com maior segurança social. Os melros desaparecem? Os seres humanos também, repito. O “fim da terra” envolve todos nós, querido autor. Sei que algo mais te justifica. Vamos falar disso. Quando escreves sobre as comunidades na América Central e os seus esforços comunitários para salvar a vida “selvagem”, que voa ou caminha em seu redor, e a sua própria vivência saudável, sei que falas em nome de nós todos. As acções humanitárias de certas comunidades nativo-americanas no Peru são de uma sensibilidade admirável quando se aborda os seus esforços no cultivo da terra, na protecção activa da vida-animal no seu habitat natural, no modo como seleccionam o que se planta e se come, as sementeiras sempre em consonância com o seu meio ambiente, quase sempre acidentado em montanhas e rochas agrestes. Da América Latina só se fala de violência e corrupção. Raramente ouvimos ou vemos esta gente digna na luta pela sua vida, pela vida de nós todos.

“Quanto mais vou envelhecendo, mais me convenço – escreve Jonathan Franzen — de que a oeuvre de um escritor de ficção é um espelho do seu carácter. Talvez seja por um defeito do meu próprio carácter que os meus gostos literários estão tão profundamente ligados às minhas reações, como pessoa, à pessoa do autor – que continuo a não gostar do jovem Steinbeck sobranceiro que escreveu Tortilla Flat enquanto gosto muito do Steinbeck mais tardio que lutou contra a entropia pessoal e da carreira e produziu East of Eden/A Leste do Paraíso, e tracei o equivalente a uma distinção moral entre os dois. Mas a tenho a impressão de que a simpatia, seja pelo escritor ou pelas suas personagens ficcionais, uma obra de ficção tem uma enorme dificuldade em ser relevante”.

Que Franzen menciona aqui proeminentemente uma pequena parte da obra de John Steinbeck, incluindo o seu pequeno romance Tortilla Flat, talvez o mais “anti-português” de toda a sua escrita. Trata-se de um romance de marginais alcoólicos, e o pior dos piores eram de descendência lusa, e a personagem feminina também de nome português a mais prostituta de todas as prostitutas. Já nas As Vinhas da Ira/The Grapes of Wrath aparecem passos pouco agradáveis para nós, mas nunca deixei de o ler ou admirar. Poderá ser que nos 20 e 30 Steinbeck era mais contra o “extermínio” do povo trabalhador americano, e a consciência ambientalista ainda estava longe, pelo menos perante a maioria dos cidadãos. O Professor Emérito George Monteiro (Brown University) bem tentou saber a origem destas hostilidades, mas sem sucesso. A minha teoria é bem mais simples. Já na altura os açorianos controlavam boa parte da agricultura e indústria lacticínia, e Steinbeck era um homem de esquerda, o que lhe provocaria atitudes de contestação aos “patrões”. Vivia em Salinas, uma cidade rural e rodeada de açorianos e luso-descendentes, perto de Monterey, que serviu de fundo geográfico e humano à maior parte da sua obra. Seja como for, estou em acordo absoluto com Jonathan Franzen. Só na maturidade Steinbeck corrigiria o seu rumo e porventura preconceitos. É do fim do mundo, tal como o conhecemos, que se trata aqui, e não da nossa gente, essa que ajudaria a Califórnia a tornar-se no século XX um dos estados mais ricos da nação mais rica do mundo, nas palavras de outros.

O fim do fim da terra, uma vez mais, é um livro de ensaios, e se não me engano o que segue durante largos anos os ensaios de How To Be Alone (2002). O presente volume tem como início o emblemático “O ensaio em tempos negros”, seguindo com outros inevitavelmente de um grande escritor, como “Dez regras para o romancista”, e termina exactamente com “Xing Ped”. Diga-se que o maior castigo no que toca a temas ambientalistas vai naturalmente para o seu próprio país: “Na América, a cada minuto que passa, deitam-se fora trinta mil copos de papel. Muito longe daqui, noutro continente, a floresta tropical atlântica do Brasil é devastada para dar lugar a gigantescas plantações de eucalipto que abastassem o mundo da pasta de papel, mas isso passa-se muito para lá do capô do nosso veículo”. Nada como a ironia fina de um escritor a denunciar o que lhe dá vida, fama e dinheiro – os livros. É a sua credibilidade que nunca fica em causa nestas páginas aliciantes. Não será só “o maior escritor americano” da sua geração. É sobretudo o mais consciente e solidário.

Jonathan Franzen tem ainda quatro romances superiores, todos na minha estante principal: The Twenthy-Seventh City (1988), The Corrections (2001), Freedom (2010) e Purity (2015). Já foi biografado recentemente por Philip Weinstein, Jonathan Franzen: The Comedy Of Rage (2015).

Última observação para um fotógrafo de pássaros mundiais como Jonathan Franzen. Segundo toda a informação mais ou menos científica existe na ilha de São Miguel uma ave rara, de nome “priolo”. Segundo alguns, está em extinção, mas ninguém concorda com números, alguns especialistas dizem que já existem menos de mil exemplares. Voa só numa parte da ilha, no Pico da Vara (Nordeste da Ilha) parte do ano. Sugestão ao grande autor: e uma visita aos Açores para viver esses momentos únicos. Prometemos não o aborrecer com literatura. Se uma sessão dessa natureza for possível, entretanto, muito melhor. Ele vive, volto a recordar, numa parte do estado da Califórnia rodeado de açorianos e seus descendentes. Fale com eles sobre tudo isto. Seria um grande momento a sua presença entre nós. Poderia até sair daqui com um sorriso pela natureza exuberante e limpa que temos.

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Jonathan Franzen, O fim do fim da terra (tradução de Francisco Agarez), Lisboa, 2018. Publicado no Açoriano Oriental a 4 de Janeiro, 2019.