A literatura nos Açores nos nossos dias

O conceito realiza-se num espaço de grande tradição literária. Isso diferencia-nos. O Arquipélago de Escritores é descendente das tertúlias dos anos 40 no bar Jade e dos Encontros da Maia, realizados entre 1988 e 1991. E parente de todos os encontros que acontecem e aconteceram no espaço açoriano.

Nuno Costa Santos, Director da revista Grotta, recentemente apresentada em Ponta Delgada no seu 3º número anual.

Vamberto Freitas

     Nuno Costa Santos já tinha um nome de autor marcante antes de começar a revista literária Grotta. É o autor de pelo menos dois livros de grande qualidade e pertinência literária tanto no continente como nos Açores: os contos dez regressos, de 2003, e o romance muito mais recente Céu Nublado com Boas Abertas, de 2016. Desde 2016 que dirige com sabedoria e critério literário implacável a revista Grotta, cujo 3º número foi lançado no primeiro grande festival literário nos Açores entre 15 e 18 de Novembro deste ano, por ele dinamizado e organizado, um evento sem precedentes nas ilhas que juntou escritores de todos o países e ainda do estrageiro, inclusive do Brasil e dos Estados Unidos, neste caso romancistas e jornalistas de renome. Não vou falar em nomes porque são muitos e cada um mestre na sua área de escrita. Só um pouco de história destes três números da revista. Parece-se uma The Paris Review (no seu novo formato), a revista mais prestigiada no mundo anglo-saxónico pela sua audácia intelectual: tanto publica os mais conhecidos ou famosos escritores de toda a parte (este 3º número traz, por exemplo, um dossiê de poeta galegos) como lança os mais novos que escrevem em todos os géneros. Cada número da Grotta distingue-se, portanto, pela variedade de géneros, e sobretudo por uma extensa entrevista a romancistas, poetas ou outros artistas da palavra, tanto do nosso arquipélago como do resto país. Dito ainda de outro modo, dá prioridade a escritores e poetas açorianos que fizeram a sua carreira no Continente ou optaram por permanecer aqui neste seu lugar de nascença, ou ainda a escritores clássicos da literatura lusófona. Grotta dá continuidade a um inúmero de revistas pensadas e publicadas cá ou lá fora, desde A Memória da Água-Viva de Urbano Betttencourt e José Henriques Santos Barros à Revista do Instituto Açoriano de Cultura, em Angra do Heroísmo, Boletim do Instituto Cultural da Horta, magma (Pico) a Gávea-Brown (Brown University). Isto só para mencionar algumas das mais influentes publicações para a minha geração.

Nuno Costa Santos pertence à geração literária que nos segue, uns residentes nas ilhas, outros no Continente, e ainda outros na diáspora. O seu conhecimento e vénia às gerações mais velhas é um acto de erudição, cultura e respeito. Sei bem que somos referências suas, sei do respeito que ele e outros dão à continuidade que nos desejam na literatura nos Açores e na nossa luta por uma identidade própria adentro do país português. Este 3º número da Grotta é mais uma prova. Abre com um texto de Emanuel Jorge Botelho, que foi justamente homenageado neste encontro Arquipélago de Escritores, e segue com uma longa entrevista e alguns poemas dele, aliás maravilhosamente traduzidos pela professora da Universidade dos Açores, Kathleen Judith Mundell Calado. A entrevista foi conduzida por Nuno Costa Santos e João Pedro Porto. As respostas de Emanuel Jorge Botelho são poemas de outra forma. Contido, mestre da palavra certa no lugar certo, emotivo e racional, combina o amor à sua cidade de Ponta Delgada com o seu destino vivido, pensado e sentido. Ler Emanuel a ler-nos a nós próprios, ou então desejar que estas palavras fossem também nossas. Sublime, e nada menos esperava dele numa conversa como esta.

“Não sei – diz o poeta à pergunta sobre o que lhe liga de modo íntimo à sua cidade de nascença e vivência até hoje – o que a diferencia porque o meu não viajar impede-me o elaborar de comparações. O que é bom, convenhamos. As comparações são, como nos diz a sabedoria chinesa, odiosas. Ponta Delgada é o rosto – cheio de feridas e cicatrizes – de cada um dos meus dias, o chão, liso, da minha vida… O encanto de Ponta Delgada está na memória que tenho dela. Porque Ponta Delgada é um nome que soletro com alegria dos regressos… Era uma vez uma cidade que morava no meio do Mar…”

Para ser absolutamente honesto, este número da Grotta tocou-me de modo especial, nomeadamente também por um ensaio maravilhoso da escritora Ângela Almeida sobre a obra de Adelaide Freitas, prosa e poesia. Ver a obra da Adelaide assim reconhecida é para mim mais do que uma alegria – reaviva-me a memória e a saudade, os estados de alma mais profundos e significantes em qualquer ser humano. Ângela escreve com carinho e racionalidade, redefiniu-me muitos aspectos e passos na prosa de com quem convivi durante mais de 27 anos, e li linha a linha os seus livros, que aliás vão ser todos reeditados. Ver um trabalho destes, tão lúcido e esclarecedor foi-me um momento de redescoberta e mais aproximação, se é que isso é possível. Que a revista Grotta a coloca na capa, juntamente com a obra de João de Melo foi ainda mais gratificante. João nasceu na Achadinha quase ao lado da casa da Adelaide, nasceram no mesmo ano, foram colegas de escola, dois andarilhos no mundo e dois escritores. Resisto aqui ao sentimentalismo, mas nunca à saudade e ao respeito pela obra dos dois. João vive em Lisboa, mas está sempre presente, em todos os sentidos, e espero ansiosamente o seu próximo livro.

“O texto de Adelaide Freitas – escreve Ângela Almeida — tem como centro agregador a casa onírica, que, sem dúvida, é um tema muito mais profundo do que casa real. Por isso mesmo, a casa onírica devolve-nos as imagens da intimidade, que se alojam no inconsciente e constituem o universo subtextual simbólico, onde se desnuda a estilística. É neste contexto universal total — the psyche is a conscious unconscious whole – que encontramos a significação completa do texto. Em casa onde tudo é inteiro, a família, a terra, o mar.”

De resto, Nuno Costa Santos, quer, repito, em obra literária própria quer na criação desta revista Grotta já fez história literária entre nós. Vou-me repetir. Vindo desta geração que nos vai seguir e dar continuidade traz-me a mim e a muitos outros um certo sentido de missão cumprida, e ainda mais a gratidão pelo seu trabalho. Nunca a “distância” diluiu a sua açorianidade e o apego à sua tradição intelectual, mesmo que a maior parte do país nunca dê por isso, nem sequer nos tem no seu imaginário criativo, ao contrário de nós, que para além da nossa nação temos todo o mundo lusófono nos nossos pensamentos. Tanto faz. Quem perde são os ignorantes, arrogantes e atrevidos. Que venham cá, preferivelmente em dias de chuva e bruma. E deixem de vez as nossas ruas mais livres e o ambiente limpo, as vozes mais baixas nas nossas esplanadas.

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Grotta/Arquipélago de Escritores, número 3. Direcção de Nuno Costa Santos e coordenação editorial de Diogo Ourique, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições/Nova Gráfica, 2019. Publicado no Açoriano Oriental de 15 de fevereiro, 2019.

 

 

 

De contadores de histórias e de sombras na cidade

E, acto contínuo, virou-se de costas, algemou-me as mãos sobre as nádegas e empurrou-me a cabeça para dentro do automóvel, rindo do meu protesto de que era escritor e conduzia uma investigação sobre o pesadelo da droga nos bairros degradados da cidade e precisava de me fingir um deles.

Joel Neto, só tinha saudades de contar uma história

Vamberto Freitas

     A novela de Joel Neto, só tinha saudades de contar uma história, fez-me lembrar, nas suas linguagens e imagens, James Baldwin, um dos maiores escritores afro-americanos do século passado, recentemente publicado no nosso país, Se Esta Rua Falasse, um dos seus mais conhecidos romances nos Estados Unidos, If Beale Street Could Talk. Foi o seu humor, foi cada cena inesperada, foi a habilidade de transmitir os sentimentos interiores da sua personagem, um polícia negro numa cidade portuguesa que me impressionou e comoveu na novela de Joel Neto. Uma espécie de bruxo e inventor de histórias. As “mentiras” da própria literatura no seu estado perfeito. A combinação de raiva, o humor e as cenas mais inesperadas numa rua de Lisboa que me levou a esta comparação, e a situação entre negros e brancos faz parte desta minha reacção. São as histórias raramente escritas, mas que transmitem a convivência e, de certo modo, a diferença entre uns e outros. Só que nestas páginas de Joel Neto a cena é virada ao contrário. É agora um polícia negro a seduzir ou a castigar os brancos maioritários à sua volta. Estamos em Lisboa, uma cidade que era conhecida pelos seus não-acontecimentos, e agora enfrentamos uma metrópole na sua crueza e alguma violência. O narrador vira tudo ao contrário – é agora um polícia negro, de nome Norberto, com toda a sua sabedoria de vida e imaginação, que tenta esclarecer as suas possíveis vítimas, ou então os que precisam de histórias alegóricas para melhor estreitar ou perceber as suas vidas. Recorda África e o tempo da guerra colonial, transmite o seu quotidiano já na sua cidade lisboeta. Tanto exerce os ensinamentos da sua vida como, quando necessário, a violência contida de um polícia cuja consciência lhe leva ao perdão ou ao castigo. Coloca-nos numa nova sociedade ainda desconhecida pela maioria dos seus habitantes. Um polícia negro encarregado da autoridade e ordem civilizada – sempre chamado de “preto” aqui – é uma viragem quase radical numa narrativa portuguesa, mesmo nos nossos dias. A ironia, se assim mo permitem chamar, é de uma originalidade pouco comum na nossa literatura. Porventura só um escritor ilhéu ou de referências geográficas e humanas mistas teria esta audácia e visão de todo um país em mutação, que nos deixa sem fôlego e muito menos sem orientação. É isso que deve fazer a literatura: o inesperado e a viragem sem precedentes no nosso modo de estar ou de viver, ou voltar a olhar um espelho que nos traz imagens inesperadas.or e sabedoria levou-me a esta conclusão. Nunca tinha visto nada assim na nossa literatura, a audácia de o narrador se meter na alma de um estranho como esse polícia, ex-guerreiro em África, e agora “autoridade” numa cidade europeia de marginais e suspeitos de toda a ordem. Ao contrário de quase nós todos, não fazia “literatura” de borla. Cada “história”, “parábola” ou “paródia” custava pelo menos 500 escudos

“As pessoas ouviam-no com cuidado, e o número de espectadores continuou a aumentar. Até políticos se sentavam a ouvi-lo, agora. Até padres, até outros polícias. Nós, pelo nosso lado, fomo-nos afastando. Talvez tenhamos ficado um pouco enciumados, não sei. Mas estávamos a crescer, as coisas deste mundo ficavam cada vez mais perto uma das outras, o sotaque africano daquele bófia ia-se tornando um objecto estranho – de repente parecia-nos apenas mau brasileiro, copiado das telenovelas – e toda aquela treta castigadora fazia cada menos sentido para nós.”

Norberto, o polícia negro protagonista desta novela, uma vez mais, tanto conta histórias do seu passado em África como em Lisboa, num tempo de guerra em que ele foi combatente activo, e no seu presente vigilante da criminalidade num bairro marginal de Lisboa. Sente a necessidade primordial de transmitir muito do que viu e viveu, é esse sabedor e bruxo do nosso tempo. Lida ele quase só com jovens transgressores, por vezes acalma-os com as suas palavras, por outras com a violência mínima de um ser humano consciente do sofrimento dos outros. Os rapazes encontrados nas suas patrulhas amam-no e odeio-no ao mesmo tempo, vêem os seus dias e noites coartadas pelo seu próprio meio criminoso meio brincalhão nos seus sítios de mera existência, sem rumo, razão ou futuro. Norberto sabe que tem a autoridade da sua farda e pistola, mas raramente pensa ou utiliza esse seu estatuto. Parece mais um profeta da pós-modernidade com a missão de esclarecer e pacificar por parábolas e missivas uma civilidade que os seus alvos humanos já não entendem. Não há aqui nem grande violência nem amor ou empatia, só a tentativa de tornar a sociedade num espaço mais convivente ou menos odioso. Vigia os seus alvos perturbadores, como estes o vigiam a ele. Essas histórias do polícia não são contínuas, só quando ele acha alguém a transgredir ou prestes a transgredir as merecem. Leva quinhentos escudos por cada uma delas, o que nos delicia com esse acto mais de humor do que ganância. A corrupção aqui nunca chega sequer perto do que vemos e vivemos todos os dias em Portugal e no mundo. Toda a salvação tem o seu preço, sabemos. A ameaça do inferno aqui é dispensável, pois tanto Norberto como todos nós vivemo-la todos os dias. São estas as regras de uma sociedade sem rumo nem deuses condenatórios e muito menos salvadores. É o quotidiano dos que raramente aceitam as regras da sua própria comunidade. Em vez de dó, temos o riso. Tanto uns como outros nem são necessariamente vítimas ou causadores de grandes desgraças, são os filhos e filhas mais ou menos perdidos num outro tipo de selva. Se o protagonista viveu uma guerra com arma ao ombro e no mato, estas outras personagens vivem no pandemónio de uma cidade, divida entre ricos, remediados e pobres. Parafraseando o pensador espanhol Ortega Y Gasset, somos todos, estamos todos, homens e mulheres, a aturar as nossas circunstâncias do modo possível e ao nosso alcance. O polícia fazia a sua vida tanto com autoridade cívica como com a sua civilidade, as suas palavras pacificadoras que nunca sabemos se são verdade ou pura invenção. Ele não imita a literatura, ele é a própria literatura. Nesse seu acto narrativo recria toda uma sociedade. A palavra, aqui, tanto falsifica ou distorce a realidade e a própria História como nos devolve a nossa imagem em espelhos invisíveis mas nos quais nos reconhecemos de imediato.

“E Norberto ia respondendo – contando histórias, inventando desculpas, justificando as maldades dos homens com recurso às suas parábolas de África e da sanzala e da guerra. Quando às oito e cinco nos juntávamos em frente ao muro do Atlético, já uma fila se prolongava rua abaixo, fervilhando de ansiedade. Então o profeta chegava ao seu ponto, pousava o saco do pão e, espreguiçando-se, deixava-se a escutar as queixas do povo.”

Conto ou novela, só tinha saudades de contar uma história, fica à consideração de cada leitor. Cada um destes géneros gémeos são romances abreviados, ou escrita em progresso. Joel Neto já tem uma vasta obra romanesca, e tem a capacidade literária de partir para o género que mais o representa. De quando em quando um grande escritor surpreende os seus leitores, a literatura universal geralmente cultiva todos os géneros, desde o ensaísmo, ficção, dramaturgia e poesia. Nem menciono aqui a escrita-outra. Há escritores entre nós, tanto nas ilhas como no continente, que até fazem das suas breves crónicas arte pura. Em cada caso, raramente é só o seu interiorismo que nos comunicam e nos chega à alma ou consciência – toda uma sociedade está sempre implicitamente presente. Só os artistas da palavra são capazes de nos levarem a outros mundos, muito para além de nomes, datas e acontecimentos colectivos oficializados e das classes dominantes que depressa esquecemos, ou até nos afastam das suas andanças, dizeres e afazeres. Nestas e noutras páginas ficcionais temos o contrário absoluto: a perpetuação da memória e um outro sentido das nossas próprias vidas.

 

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Joel Neto, só tinha saudades de contar uma história, Lisboa, Cultura Editora, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 8 de Dezembro, 2019.

De memórias, loucuras e esqueletos guardados

Contra todas as expectativas, há uma possibilidade, ainda que remota, de conseguires sair da escuridão, mesmo que, fora de ti, não haja nenhuma luz.

Teolinda Gersão, Atrás da porta e outras histórias

Vamberto Freitas

     Ler estes contos de Teolinda Gersão, “Atrás da porta e outras histórias”, cada um deles é como ler um extenso romance. O conto “Atrás da porta” é um perfeito exemplo da sua mestria. Uma personagem inquieta e perturbada consulta um psiquiatra, quer saber se é ele ou o mundo que está doido ou a perder o juízo em tempos de guerras e loucura por toda a parte. Nessas palavras de “diálogo” contido, o psiquiatra não tem respostas, tal como não se importa minimamente por quem está sentado à sua frente. O nosso mundo actual está aqui representado de modo lapidar, a paródia um perfeito retrato do inferno em que todos vivemos. Sobressaem destas palavras um e outro, os dois extremos do nosso sentido de dor e responsabilidade pessoal e da indiferença de quem poderá ser ou não um médico legítimo ou simplesmente um fraudulento mestre do engano e do desprezo por quem lhe aparece no “consultório”, o psiquiatra sem empatia e muito menos respostas. Em quase toda a escrita da autora, seja ela em qualquer género, conto ou romance, é sempre a ironia e estranheza de sermos vivos-mortos ambulantes (como diria um Tomas Wolfe acerca de certos nova-iorquinos num seus próprios contos, “Only the Dead Know Brooklyn”) e em busca da saída para a sanidade e a decência que se manifestam em certas personagens suas, ou então um quotidiano sem sentido, quase sempre de sofrimento sem queixas, quer seja numa grande cidade como Lisboa ou na mais remota das aldeias escondidas nas serras portuguesas. Solidão e distância perante todos os outros numa pequena ou grande comunidade. De vidas vividas num miserável apartamento na cidade ou numa casa primitiva nos mais escondidos e esquecidos recantos, reencontramos sempre uma humanidade ora carinhosa ou pelo menos pacífica, ou o outro lado raivoso em qualquer um destes contextos da sua vivência. “Sair da escuridão” descreve perfeitamente a temática que nos dá o fio condutor desta prosa repartida e que nos apresenta a totalidade infeliz do mundo contemporâneo em que vivemos, e aonde estes seres reinventados representam e se tornam em símbolos maiores do desespero e da má sorte. Estão eles e elas num estado alienado de tudo que se passa à sua volta ou no resto do mundo. Estamos aqui num tempo ficcional que são os nossos dias. É a angústia de uns e, uma vez mais, o desespero de outros. A obra de Teolinda Gersão não só nos aproxima deste estado de ser e estar como nos coloca no corpo e na alma de cada uma das suas protagonistas. Intercala de conto em conto a voz de narradores masculinos e femininos. Nenhum leitor se poderá afastar em modo identitário de ninguém aqui representado. A grande literatura faz ou permite-nos esta aproximação emotiva ou mesmo meramente artística de uma leitura simultaneamente gentil e forte, sem limites de linguagens ou pudores moralistas das suas e nossas vidas em dias de grande incerteza ou aldrabice do quotidiano do nosso presente e da condição humana no terror da pobreza, violência ou de amores e desamores.

Se coloquei o conto que dá o título ao livro no centro deste meu texto é porque acredito que sintetiza vigorosamente todo o resto da narrativa desta obra. De certo modo, esta escrita de Teolinda Gersão faz-me também lembrar os quadros magistrais de um Edward Hopper, mas ao contrário: Ele iluminava os seus seres imaginados na luz do interior dos quartos enquanto olhavam com expressões de solidão e tristeza o sol ou a luz do exterior, sempre com a descrença no que viam na claridade do lado de fora. Aqui, todos os interiores são de escuridão, sem que nenhuma personagem, do mesmo modo, vislumbre um pouco de esperança ou crença nos dias que se seguirão à sua má sorte ou raiva. Não existem amores sinceros ou verdadeiros, cada vivência em conjunto é uma separação sem futuro. Homens e mulheres raramente se amam, e os seus filhos são deixados num limbo do nada e de ninguém que os proteja. Pobres, bêbados ou simplesmente pequenos comerciantes ou donos de um café rural agem de modo absolutamente desligados do sofrimento interior de quem conhecem ou encontram. Deparamo-nos com cenas que são de puro realismo literário como mágico. Mulheres procuram o amor que nunca acontece, homens esperam pela noite ou fim da tortura diária dos seus empregos ou relacionamentos com os outros. Não se trata aqui de um pessimismo generalizado, tão-só de retratos que nos mostram as nossas vivências possíveis num mundo sem regras nem moralidade alguma. O último conto deste livro, “Dona Branca e os prestidigitadores” é devastador, mais parece uma reportagem da velha e muito conhecida “banqueira” do povo, que acabou na prisão, e agora fala-nos após a morte dos que a usavam, desde os mais pobres a figuras gradas da sociedade, comparando o que fazia com o dinheiro que lhes confiavam e que ela nunca roubava como os bancos oficializados do neo-liberalismo financeiro, ou de quem na verdade nos rouba todos os dias e governam a seu proveito descarado o mundo inteiro. Faz-me lembrar o que um dia disse Philip Roth numa entrevista quando lhe perguntaram como era ainda possível “imaginar” uma história ficcional na nossa época. Ele respondeu que nenhum escritor poderia ultrapassar o ultraje da realidade. A primeira página de qualquer jornal ultrapassava de longe qualquer ficção sobre um mundo em sobressaltos ou surrealista. Na obra de Teolinda Gersão temos um Portugal muito conhecido e escuro, e depois a tal luz que a sua ficção lança sobre nós. Vale por cem livros de História académica ou “oficializada”.

“É esse o problema: como identificar uma coisa que pode ser meramente virtual, um objecto que não é portanto um objecto, que (por enquanto) ainda é desconhecido, diferente de tudo o que cabe nas habituais categorias do entendimento? Poderia dar-lhe nomes, à experiência, mas em nenhum ele se enquadra: luz, vibração, planta, animal, pedra, sombra, máquina, vento, ritmo, conceito. Por vezes (mas tudo é relativo, porque ele muda constantemente de forma), assemelha-se vagamente a uma borboleta ou pássaro, para logo se transformar em folha ou ramo ou árvore e cair apodrecido, parecendo confundir-se com a terra. Mas também essa transformação é ilusória, ou virtual. É talvez apenas isso: movimento, constante mudança, constelação instável de formas: uma amiba luminosa, incandescente, que num momento seguinte é engolida pela sombra e desaparece no escuro.”

De “realidade” e “sombras” é feita a grande literatura. Em Atrás da porta e outras histórias é essa outra transfiguração de um país que bem conhecemos, mas que nos leva a qualquer geografia e à condição em que vivemos. Conhecemos a narrativa escolástica, mas só os grandes escritores entram na alma dos esquecidos, no seu esconderijo, nas suas mentiras, na sua mítica estudada e grafada em documentos que mais dizem sobre a classe dominante e as suas decisões do que de todo um povo em luta pela sua sobrevivência ou alegrias e tristezas. O chamado “universalismo” é também isto: a condição humana em qualquer parte, como aliás confirma toda a distinta literatura do mundo, mudando só de língua, imagística e impulso metafórico de cada artista. Ou seja: traz-nos o resto da verdade, ou se calhar a verdade inteira.

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Teolinda Gersão, Atrás da porta e outras histórias, Lisboa, Porto Editora, 2019. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 1 de Fevereiro de 2019.