O sertão nordestino brasileiro e a dignidade das suas vítimas

Alguns viravam donos de escravos, e davam adeus à servidão e à busca que lacerava suas mãos e suas almas. Mas a maioria só encontrava a quimera e a loucura, o assombro, o desassossego, a dor e a violência. Vergava soba própria ilusão, derrotado, acocorado num amontoado de cascalhos.

Itamar Vieira Junior, Torto Arado

Vamberto Freitas

      li o grande romance Torto Arado, de um jovem autor brasileiro nordestino, e que venceu o Prémio LeYa 2018, de nome Itamar Vieira Junior. É o regresso da brava literatura de um Brasil muito especial que começa a fazer história há muito séculos, mas a começar um pouco nos anos 30  dá-nos conta das suas mais variadas e cruéis realidades através de grandes autores autores e autoras, dos quais fazem parte alguns dos mais conhecidos em Portugal, e isso há poucas décadas, até que deixámos de virarmos as costas algo arrogantes (com as devidas excepções, como Arnaldo de Saraiva)  à grande literatura do chamado país-irmão, mas que tudo já tinha recriado e renovado no seu próprio país. Vão aqui são alguns desses nomes: José Américo de Almeida, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado. Menciono ainda, mesmo que seja sempre um nome controverso entre nós e eles, Gilberto Freyre, particularmente com sua obra sociológica, que mais parece um romance, Casa Grande e Senazala. Vêm agora novos autores de peso, que estão a renovar a dar um brilhante passo literário em frente. Um desse herdeiros, este escritor de que aqui falo, com páginas ficcionais agora sem igual, ou pelo menos sem igual naquela geografia específica e difícil, que têm como referencial humano e de uma economia ruralista historicamente injusta e cruel, por lá deixado por nós portugueses desde os tempos colonialistas e de roubo aberto e sem qualquer moral.. Aqui está a sua representação genial. Por certo que os brasileiros já tiveram muito tempo para consertar as coisas, mas nunca o fizeram, e “o passado”, como diria William Faulkner “nem sequer é passado”. O autor deste supremo romance nem nos acusa e quase nem nos menciona. Reduz-se ao que veio depois, com algumas referências breves aos longos tempos de nossa chegada e permanência, a uma terra grandiosa de grandes senhores privilegiados e ao resto que lhes serviam quase de servos animalescos nas gigantescas herdades do sertão, neste caso no interior da Bahia, ora de seca absoluta, ora o dilúvio das chuvas, de rios cheios de água e peixe ou então secos, e nas cidade aonde viviam quase todos os donos de tudo aquilo. O narrador leva-nos desde os primórdios da conilazição, neste caso em breves mas significativas alusões, até aos tempos modernos, à idade da revolta e de alguma mudança. Toda a herdade chamada de Água Negra (está entre dois rios, Santo António e Utinga tem como trabalhador principal, um trabalhador de apelido Zeca Chapéu Grande e a sua mulher Salustiana (Salu) Nicolau, com vários filhos, mas as duas personagens centrais são duas irmãs chamadas Belonísia e Bibiana. Antes as inúmeras personagens que aparecem pelo meio, toda a acção do romance gira em destes quatro nomes, e ainda inclui a sua avó Donana, que lhes lega involuntariamente um objecto mortífero que para sempre mudará as suas vidas, e quase sempre para pior.

Não queria forçar aqui simbolismos desta prosa escorreita e riquíssima na polissemia das suas palavras e frases, mas não resisto nesta minha leitura de Torto Arado interpretá-lo como uma coerentemente sustentada ou como uma longa metáfora a um Brasil histórico e moderno. Estamos no sertão baihano, a meados do século passado e em que a maioria dos trabalhadores, quase todos de descendência africana ou índia trabalham de Domingo a Domingo sem receber qualquer pagamento em dinheiros, reduzidos a uma pobre casa de barro e a uns cantos de terra onde cultivam o essencial para sua alimentação e o pouco peixe dos rios em volta. Quase nunca avistamos os donos dessas terras, residentes que são de casas grandes na cidade e nos próprios campos de que são proprietários. Para entretenimento e culto apócrifa o trabalhador-chefe, Zéu Chapeu Grande, sempre debaixo de olho do capataz de nome Salutério, junta os vizinhos e outros das redondezas para uma festa em casa em que a “reza” se combina com o álcool. De resto serve de curandeiro e conselheiros a todos, reservando para si certo prestígio na pequena comunidade explorada e oprimida, vivendo no medo e na segurança constantes. O romance abre com a tragédia que atinge quase o surrealismo com as suas duas filhas já mencionadas quando não resistem espreitar uma velha mala da avó e de onde tiram uma faca luzidia e com um lindo cano de marfim. Não resistem a experimentar o seu sabor na boca, o que resulta acidentalmente num grande da definitivo na língua de Belonísia, que para sempre fica sem fala, e depende quase exclusivamente da irmã para interpretar e comunicar os seus sentimentos e desejos. O Brasil, pois, no seu estado de silêncio perante a tragédia que é o seu mundo de vida naquela parte do país, assim como em muita da sua geografia ao centro e a sul, explorada por uma minoria sem consciência nem a menor solidariedade perante os que os mantêm ricos, poderosos e juízes não-oficiais de todo um povo. Esta de regresso, pois, a ficção de denúncia e protesto embrulhado na mais fina arte literária destes últimos tempos, pelo menos em língua portuguesa.

“Passou a fala para respirar, – escrevem as narradoras irmãs, que falam das primeiras duas partes do romance, e acaba com um narrador desconhecido, que tanto pode ser um homem como um ‘espírito’, segundo alguns outros leitores críticos – recuperando o fôlego consumido com as suas lembranças. Consumido pela responsabilidade de se apresentar para defender o que estava da dignidade do seu povo. Olhou para os filhos, atentos ao lado de Belonísia, que conservava o corpo muito próximo das meninas, como um animal a defender as suas crias. Nesse instante, foi tomada por recordações desordenadas que a levaram à imagem de Severo”.

A terceira narradora, segundo as próprias intenções do autor, é a consciência e memória de toda história daquele povo, e chama-se Santa Rita Pescadeira. Dona Miúda, que morreu, também passou a “encarnar” outra “encantada, uma das outras participantes nos ritos dos trabalhadores da fazenda, meio religiosos ou de crenças-outras e ancestrais, no sentido tradicional, com festa viva pelo meio. No fim da narrativa, quase já ninguém se lembra da última narradora, que conta toda a história daquele povo.

Severo teria sido o aseu primeiro amor à distância, acabando por casar com a sua irmã Bibiana, tendo abandonado a herdade para ir à luta com outros trabalhadores em defesa dos seus direitos. Esta fase do romance faz lembrar o movimento dos Sem Terra, esses que desafiaram e desafiam os poderes rurais e instituídos. Quando a narrativa chega ao fim, todos haviam conquistado alguma coisa, até mesmo a primeira escola para os seus filhos e filhas, mas a estrutura da sociedade brasileira permanecia segura nas mãos dos grandes senhores detentores da terra e da política local, cedendo aqui e ali para apaziguar ou evitar uma revolta maior. Permanecia o antigo racismo: os negros tentavam identificar-se com índios para usufruir certos certos “direitos”, que já vinham dos tempos coloniais e da independência que se seguiu em 1982. De resto, tudo permanecia na mesma, mas a crucificação dos nordestinos continuava por todos os meios possíveis, secretos ou em aberto. Torto Arado, para além de tudo que fica aqui dito, não é um romance tão-só de medo, mas sim da bravura e força de todo um povo que parece condenado para sempre, é uma outra “afirmação da vida” e da esperança em melhores dias ou tempo por vir. Faz por vezes lembrar, como o já disseram outros, a obra-prima que é Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Itamar Vieira Junior, leio agora da própria capa do livro, é natura de Salvador, Bahia, geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos, “especialista sobre a formação de comunidades quilombolas”. Tem os livros publicados, especialmente de contos, A Oração do Carrasco, e publica nas mais variadas revistas literárias em países como os Estados Unidos e França. Querendo tudo isto dizer que a sua ficção, nunca deixando de ser arte pura, vem com muita investigação formal e conhecimentos pessoais. Torna-se não só num imenso prazer da leitura como nos coloca no centro de vidas esquecidas e desprezadas por quem as comanda desde há muito, e provavelmente ainda sem fim à vista.  É um romance perfeito das nossas vidas actuais, pelo menos simbolicamente e de outra natureza, um pouco por toda a parte.

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Itamar Vieira Junior, Torto Arado, Lisboa, LeYa, 2019.

 

 

“Alma”, Portugal no seu melhor e pior

A minha mãe teve sempre para mim grandes desígnios. Quais eles fossem não sei. Nem ela própria o saberia. Era uma força que vinha de dentro dela, uma obstinação. Ela queria grandes coisas para mim, um destino, talvez um milagre.

Manuel Alegre, Alma

Vamberto Freitas

      Finalmente li o grande romance Alma de Manuel Alegre (Prémio Camões 2017, entre todos os outros grandes prémios literários portugueses ao longo da sua carreira), já na sua 16ª edição. Cada frase é um verso, cada passo narrativo um poema. Tem como tempo ficcional principalmente os anos 40, e a visão de um adolescente de 14 anos de idade e de uma família que o narrador diz ser “remediada” mas com boa vida, que testemunha a sorte de todos numa então pequena vila que dá o título ao livro, e toda a alegria e desgraça de um povo oprimido pela ditadura salazarista, romance símbolo de todo um país tanto ruralizado como citadino. Autobiográfico ou não, é toda uma “realidade” e um tempo que fica aqui brilhantemente retratado, ou então reinventa um mundo perfeitamente paralelo. Alma foi publicado originalmente em 1995, os anos em que eu andava totalmente dedicado à literatura açoriana e luso-americana, os meus anos da redescoberta das minhas raízes e estado existencial no meu país de origem após 13 anos na Ilha Terceira, onde nasci e me criei desenvolvendo já uma ideia das geografias físicas e humanas que desconhecia por completo, e depois 27 anos de América do Norte, onde me tornei homem, me formei na faculdade, seguidos de 14 anos no ensino secundário oficial da Califórnia. Um crítico ou ensaísta tem a obrigação de dizer de onde vem e como foi a sua mundividência moldada pela experiência pessoal e em directo. A literatura para mim nunca foi um acto meramente literário ou intelectual: foi o contacto possível com outros mundos desconhecidos, imaginados e sonhados, “realidades paralelas”, uma vez mais, que só nas artes têm a sua devida representação e que nos leva a um melhor entendimento tanto do artista como da comunidade a que pertence ou da pátria sua no seu todo dentro e fora de fronteiras delimitadas. Literatura e sociedade numa dialética constante. Há muito decidi elevar a obra e, quando é inevitável, castigar a sociedade de onde brotam as palavras em qualquer dos géneros literários cultivados pelo seu autor ou artista. Redescobri o meu país não através de formação e maturação ou revivências, mas sim através das letras. Quando, já nos anos 70, descobri e li com emoção Praça da Canção e O Canto e as Armas, de Manuel Alegre, ou as suas determinantes visões que nos levam a perceber tudo um pouco mais certo do passado e prevemos um certo futuro de um povo mais ou menos livre e uma sociedade aberta, foi-me mais do que decisivo: foi a descoberta que eu pertencia a um país com grandes poetas, escritores e pensadores, e que eu em breve redescobriria a liberdade e a dignidade. Nada menos do que isso, para além da poesia já aqui mencionada, que devo repetir, e neste caso só parcialmente, a Praça da Canção. Só muito mais tarde, e já de regresso definitivo ao meu país, descobriria alguma da sua poesia dos anos mais recentes, Senhora das Tempestades, e prosa, com destaque no meu caso pessoal, para  Uma outra memória: a escrita, Portugal e os seus camaradas dos sonhos .Falta-me agora ler Jornada de África e a restante obra, que vem a seguir, toda sua escrita parte central do cânone literário definitivo e nacional.

     Alma traz ainda como prefácio deste romance o texto de apresentação da primeira edição feita por Mário Soares, e que conclui com algo que me parece estranho: “Haverá a tentação de identificar Alma com Águeda. Erro grave, julgo. Alma é um grande romance de genuína ficção, criativo, original, transfigurado”. Nunca soube muito bem porquê, mas os autores portugueses que conheço, pelo menos alguns deles, temem que interpretemos a sua ficção como sendo “autobiográfica”, ou como se isso diminuísse o seu alcance puramente artístico. Creio que foi Gabriel García Márquez que disse um dia que só se escrevia bem quando se escreve sobre que o melhor conhecemos, e esse conhecido sujeito-protagonista será cada um de nós. Até no ensaísmo não podemos fugir desse acto comunicativo. Neste caso de Alma, ainda por cima, vem assinado à mão no fim da narrativa por Manuel Alegre, depois de ele ter escrito “Águeda, 11 de Agosto de 1995”, e relembremos que o nome do narrador é Duarte Faria, sendo parte do nome completo do autor. O seu narrador é agora adulto e escritor que recorda a sua vida e a da família, assim como de toda vida do seu lugar naquele tempo, em analapses sustentadas que nos levam a vários períodos da nossa História nacional, mas concentrando-se insistentemente nos anos 40 durante e depois da II Guerra Mundial, também os dias implacáveis do salazarismo. Sua mãe, que ele relembra nas palavras que servem aqui de epígrafe, chama-se Mariana, e dedica-se exclusivamente a manter a casa da família em ordem, o seu único refúgio de quando em quando é limpá-la quase psicoticamente ou em fúria para esquecer o que vai na rua. Seu pai, Lourenço de Faria, originário de uma velha aristocracia que havia entrado na História do país, mas agora recordada só esporadicamente, a sua vivência limita-se a andar de espingarda na casa ou na brincadeira no seu quintal quando há zangas especialmente com a sua mulher e os outros portas adentro, e ele manda tiros para o ar num acto mais de humor e nunca de raiva. De resto Alma vive do futebol e dos cafés, a discussão quase sempre em volta da perseguição da polícia secreta de Salazar, que a dada altura centra-se nalgumas personagens da vila, governada por um Antoninho Pena, figura sob o suspeito dos restantes cidadãos aqui representados. O narrador vai observando tudo, as euforias do futebol (com violência pelo meio durante os jogos, como que numa metáfora e espírito do tempo), e ainda mais o medo atávico do governo fascista que tanto intimida como prende, tortura e mata os seus opositores. Estamos geograficamente mais ou menos no interior do centro de Portugal, outro símbolo do restante país naquela época política, e era preciso “domesticar” um povo até então livre e que aparentemente preferia de longe o caos da Primeira República ao autoritarismo que havia tomado conta do Estado que de “Novo” tinha pouco, herdeiro do absolutismo multi-secular de todo o nosso passado na preferia da Europa. É difícil e impossível não fazer uma leitura do próprio autor em cada uma destas páginas fulgurantes, ora irónicas ora de humor, com a sensualidade de um adolescente perante as criadas lá de casa e outras mulheres.

“Parti – diz o narrador no fecho do seu romance – de camioneta para Lisboa, já no fim de Setembro. Não sei se a manhã estava cinzenta e triste ou se foi assim que ela se gravou na minha memória. Como saber o que é e o que não é, o que se inventa e acrescenta e o que se corta e encurta.

Senti um aperto na garganta ao passar a ponte. Olhei o rio, a nora, os salgueiros, os campos. Alma, dizia eu. Como quando era pequeno e dizia mãe”.

Alma é esse grade romance cuja adolescência já consciente ou entendimento precoce do seu lugar na sociedade era evidente, pormenorizada, em que cada detalhe nos leva a imaginar o seu dia-a-dia, as suas alegrias e medos, a sua indignação que mais tarde se converte numa vida de aventura e perigo. Não vale a pena falar aqui dos pormenores históricos ou do que foi após estas páginas, a sua entrada no liceu, a sua vida em Coimbra, a sua mobilização para a guerra em Angola e prisão, a fuga para a França, e eventualmente dez anos em Argel ao serviço da rádio da emissora Voz de Portugal. Basta lembrar as palavras da sua mãe fictícia que citei acima. Previa uma vida diferente e distinta. Foi concretizada em primeiro lugar na grande literatura da nossa geração, e depois na política. Este é um livro de ficção, sem dúvida. Só que para um leitor minimamente conhecedor do percurso do autor será impossível, uma vez mais,  não o associar a toda uma caminhada que fica, vai ficar, nos anais da nossa vida durante os piores anos de Portugal.

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Manuel Alegre, Alma, Lisboa, Dom Quixote/LeYa (prefácio de Mário Soares), 2019.