De Vasco Pereira da Costa e da sua poesia

O poema é exacto: palavra verso e poema geralmente significam solução em um corpo formalmente fechado e poeticamente aberto.

Vasco Pereira da Costa, Campo

Vamberto Freitas

      Tirem o ilhéu da ilha, mas a ilha nunca sai dele ou dela. Nem vale a pena mencionar Antero de Quental, que escolheu a sua ilha de São Miguel para morrer, ou as obras de grandes escritores como Vitorino Nemésio, Emanuel Félix, Álamo Oliveira, Onésimo Teotónio Almeida, João de Melo e Cristóvão de Aguiar, e isto só para falar de alguns que viveram as suas vidas entre mar e terra. Vem aí uma nova geração que já está a dar continuidade a esta tradição. Os seus nomes ficam necessariamente para outra ocasião. Tenho lido e escrito sobre Vasco Pereira da Costa desde há muitos anos. Este título da sua mais recente poesia, Campo, por mais irónico que nos pareça, não me surpreende nada. O autor nasceu na Ilha Terceira, mas foi desde cedo para a Universidade de Coimbra, e daquela cidade voltava só esporadicamente, ou então quando exerceu funções como Director Regional de Cultura nos VIII e IX governos aqui das ilhas. De resto, toda a sua obra, dividida entre poesia e ficção, demonstra perfeitamente essa sua dualidade de ser e estar entre nós, com títulos que incluem Nas Escadas do Império (contos) até à poesia de Ilhíada antes e depois, escrita entre 1972 e 2012. Se digo aqui “entre nós” é porque a sua obra inclui ainda os poemas My Californian Friends, com duas edições de 1999 e 2000. Apesar do título em inglês, toda a poesia está escrita na nossa língua, e constitui uma comovida homenagem aos anos em que ele participou num encontro cultural no Vale de São Joaquim (Tulare), então organizado por Diniz Borges, e que juntava gente ligada à literatura e à cultura em geral, vinda um pouco de toda a parte. Nesses mesmos poemas tanto recorda eventos inesquecíveis como revê ou reencontra velhos amigos e conhecidos lá imigrados há várias décadas. Vasco Pereira da Costa vem também no seu presente livro relembrar-nos de outro facto muito importante na literatura portuguesa, e que perdura há séculos: os açorianos tem no seu imaginário todo o país de norte a sul com dois arquipélagos pelo meio, ao contrário da maioria dos continentais que só se lembram da Madeira com uma espécie de parque de diversões e os Açores pelos sismos ou pelo seu o anti-ciclone, que muitos ainda não sabem se é uma tempestade ou uma anti-tempestade. Campo, na minha interpretação, significa ou simboliza toda uma vida entre mar e terra, toda uma riquíssima vivência noutros continentes ou em pessoa ou através das suas literaturas. Há uma característica admirável em toda a sua obra, e regressa às páginas deste livro: um conhecimento profundo das literaturas e mitologias clássicas, desde a antiga Grécia aos moderníssimos Estados Unidos, e, por certo, a literatura lusófona. Ler Vasco Pereira da Costa é aliar o mais longo passado aos nossos dias. Evita a política propriamente dita, mas não evita as insinuações às realidades presentes que sofremos ou às quais sobrevivemos. Do poema “Porto De Abrigo”, a lembrar os seus Açores, que vai aqui em forma ou linhas diferentes, sem os devidos espaços:“e trás os montes o mar/era a seara verde ao vento leve:/a vaga breve envolvia na penumbra/o horizonte em grisalha bruma/Desenhei os contornos de uma ilha/ então o meu olhar em quilha/rasgou a ondulação de centeio/verde era o mar no meu vagante anseio/um final acenou em chão firme e calejado/(alvorada a torga o azul do rosmaninho)/e achei um porto de  abrigo depurado:/naco de pão presunto copo de vinho”.   Toda a escrita é essencialmente “memória” de tempos e lugares, seja ela ficção, poesia ou temas-outros. Só a poesia nos coloca tanto em geografias e em determinados tempos, mas muito especialmente na alma do seu autor. Ao contrário do que diziam certos críticos de tempos quase esquecidos, o “autor” não morreu nem nunca deixou de ser o “narrador”, aliás como afirmava José Saramago. O “narrador” é o que inventa as suas personagens, e em cada uma delas está parte do leitor, ou na sua experiência de vida ou nos seus sentimentos. Até mesmo um assassino nos retrata no que durante uma vida sentimos perante outros. O que nos separa são as acções que cometemos ou não. Quando um poeta retrata ou nos dá uma visão de territórios conhecidos ou imaginados, devolve-nos a nós próprios. A grande arte é isso e só isso quando se torna.“universalista”. Reproduz também a nossa humanidade e/ou desumanidade em palavras que depressa se tornam as nossas, que mexem não só com supostos estilos geniais, mas muito certeiramente com o nosso mais profundo sentir. Quando lemos um poeta, lemo-nos a nós próprios. Por mais abstractas ou deambulantes que nos pareçam as suas palavras ou metáforas.

      Campo traz-nos uma variedade de temas, todos eles interligados pela própria voz do poeta. Desde os mistérios da natureza e seus bichos em azáfama imparável, é uma perfeita representação da vida em geral, em que não faltam a sua presença diante de supostos heróis nacionais, como o que ele chama em “A Arocaia Do Largo Prior do Crato”, a garotada. Antes ou depois escreve elegias, ou então exalta a paisagem, seja ela do continente ou das suas ilhas, como a sua êxtase ante a Serra do Cume na Ilha Terceira, com vista para pastos divididos por agricultores num manto verde sem igual, “Na Serra do Cume”, na beleza do Tejo, e em “Quatro Estações”, lembrando Vivaldi, na singularidade do Mondego, à beira do qual ele vive. Depois noutro poema diz que “não vai ficar à espera de Godot, esse fantasma das palavras vazias e sem sentido, e que de qualquer modo nunca chega, e se chegasse não faria diferença alguma para o estado dos que o esperam. Creio que também queria dizer que não esperemos um rapazinho meio louco que ficou nas areias de Marrocos e dá pelo nome de D. Sebastião, destruindo-nos a todos ainda mais. A condição portuguesa actual, a que vivemos todos os dias, não tem palavra explícita aqui; tem o resto, tem a condição humana no seu melhor e pior, pelo menos na versão lusa. Campo, por mais estranho que vos pareça, faz-me lembrar Senhora das Tempestades, de Manuel Alegre, e a poesia A New Path To The Waterfall, de Raymond Carver, o americano falecido em 1988, e considerado a grande mestre do conto pós-Hemingway. Do poema “Nas Portas Do Ródão, em Campo:

“Tejo afeiçoado ao nosso ser:/Uma montanha a rasgar/ muita pedra a revolver/nas ânsias de ter o mar”.

Termino com as palavras de Elisa Branquinho, Anabela Sardo, Zaida Ferreira na contracapa de Campo: “Os lugares são reais, mas existem em cada poema numa combinação linguística que transporta em cada poema ao universo interior do poeta, resultante da proeza artística do fingimento poético que revela a sinceridade intelectual das emoções carregadas de simbolismo”.

A obra de Vasco Pereira da Costa conta ainda com outros livros que integram perfeitamente toda a sua temática de ilhéu por nascença e continental por opção. Cada leitor mais atento ou exigente que os leia verá o escritor absolutamente original que ele tem sido na sua já longa carreira. Espero agora que continue a olhar o Mondego e a reviver as suas ilhas. Cada escritor é todo um mundo próprio, só nunca nos deixamos de nos olhar nesse espelho directo ou retorcido, de nos reencontramos nas sombras de uma vida vivida nos múltiplos papéis que desempenhou entre nós, em Portugal e nos mais distantes recantos dos mundos a que pertence por afinidades familiares e do afecto e admiração dos seus leitores e amigos.

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Vasco Pereira da Costa, Campo, Calendário das Letras, Via Nova de Gaia, 2018.

Onésimo Teotónio Almeida nas Correntes da Póvoa de Varzim

Sim, as Correntes d’Escrita são um exemplo de como é possível remar-se contra a maré, não deixar cair os braços, não se deixa vencer por pessimismos derrotistas e inventar e reinventar algo diferente, criativo.

Onésimo Teotónio Almeida, Correntes D’Escrita & Correntes Descritas

Vamberto Freitas

     Logo no início deste singular livro, o seu autor cita Norman Malcolm (1911-1990): “filósofo discípulo de Wittgenstein, garante ter o seu mestre dito uma vez que poderia escrever-se bom e sério trabalho filosófico consistindo inteiramente de anedotas (“e ele não estava a brincar”), assegura-nos no seu Ludwig Wittgenstein: A Memoir de 1958. “Não tenho a veleidade, afirma Onésimo Teotónio Almeida — logo de seguida — de estes meus textos constituírem um trabalho filosófico: mas sérios, isso são”. Conheço o autor desde meados dos anos 70, e sei que ele nunca teve veleidades nenhumas quanto à sua escrita. A começar com os seus escritos desde o Seminário de Angra, tenho acompanho a sua obra desde de sempre. Aliás, o primeiro artigo que publiquei em Portugal foi sobre um dos seus primeiros livros da imigração, Ah! Mònim Dum Corisco, que publiquei na revista a Memória da água-viva, então criada e publicada em Lisboa por Urbano Bettencourt e J. H. Santos Barros nos anos 70, precisamente no número três da revista. Depois disso, veio muito mais: crónicas de todo o género, contos e especialmente ensaio. Publicou recentemente A Obsessão Da Portugalidade, e que veio a seguir, O Século dos Prodígios: A Ciência no Portugal da Expansão, sobre a ciência portuguesa no período dos Descobrimentos, que venceu o Prémio da Fundação Gulbenkian História da Presença de Portugal no Mundo, da Academia Portuguesa de História; o Prémio Mariano Gago, da Sociedade Portuguesa de Escritores; e o Prémio D. Diniz, da Fundação Casa Mateus. Há 20 anos (desde o início do projecto sem igual entre nós) que participa activamente nas Correntes D’Escrita da Póvoa de Varzim.Com a toda a justiça e relevância. Este seu novo livro contém os seus ensaios (menos o de 2007, e deste ano por razões compreensíveis, pois o livro estava já a ser impresso antes da sua mais recente intervenção. Inclui – como Epílogo — ainda o seu discurso proferido na Universidade de Aveiro quando esta instituição lhe atribuiu o grau de Doutor Honoris Causa. Não queria falar aqui de modo negativo, mas a inveja da sua carreira é também notável entre nós. Pudera. O que ele faz nesta sua escrita, sempre original e inesperada, é o que anuncia numa citação de Wittgenstein: combina a seriedade e erudição universitárias de um incansável estudioso com as anedotas e histórias que simplesmente ilustram e clarificam de modo brilhante as suas mais pertinentes observações e dissertações sobre o nosso mundo do passado e o actual, a que voltarei mais adiante.

“Na Póvoa, não costumo ser não eu próprio; apenas uso ultraje de praia, como convém a um local de veraneio, se bem que em Fevereiro lá estejamos fora de estação. Não posso ser assim em todo o sítio, é certo, mas ao menos ali é-me permitido andar de chinelos, ou mesmo de pé descalço. Por isso ocorreu-me fechar este volume com um outro texto que parecerá eventualmente descabido, embora eu creia fazer sentido a sua inclusão. Trata-se do que li na Universidade de Aveiro quando, certamente por distração ou erro, ali me atribuíram um doutoramento Honoris Causa. No texto vem tudo explicado. Aqui basta dizer, em resposta indirecta ao bom amigo Assis Brasil, que naquela intervenção apenas separei em duas partes as águas do humor e da conversa a sério, que nas Correntes misturo sem rebuço, tanto mais que, por razões que mais adiante ficarão claras, nele inseri três páginas da minha intervenção nas Correntes desse ano. Espero que esse escrito ajude a esclarecer o fundo que subjaz aos textos reunidos no presente volume. Foi sobretudo por esta razão que decidi incluí-los”.

A qualidade da escrita de Onésimo Teotónio Almeida, como aliás já foi mencionado aqui anteriormente, demonstra o que raramente acontece entre nós. É um investigador      infatigável das questões portuguesas do passado e do presente (assim faz quando fala da América da sua longa estadia naquele país), mas com uma grande e notável diferença. Fala dos temas mais universais desde as muitas mundividências que tem testemunhado ao longo dos anos, mas numa prosa de verdadeiro escritor: escorreita, clara a que junta sempre o chamado “prazer do texto”. Tanto menciona as ideias de um grande filósofo ou especialista em ciência sociais como inclui as mais hilariantes anedotas ou histórias inesperadas que leu ou ouviu nas distantes geografias do mundo. Vindo de uma formação clássica, desde o seminário açoriano e Universidade Católica de Lisboa até à Brown University, o leitor entra em mundos ou realidades totalmente originais. Vai desde os antigos gregos ao mais recente escriba em português ou inglês, cita nomes de várias proveniências, inclui passos entre aspas, e deixa-nos numa espécie de êxtase ou até inveja. Dialoga com figuras, por exemplo, que vão de um Eduardo Lourenço ou Vergílio Ferreira até a um Woody Allen, dos filmes e de eventuais pronunciamentos sobre a ironia ou comédia da vida, até a Sócrates, o original da Grécia, que ele tão bem conhece, e Platão das sombras e da suposta realidade. Percebo agora a sua indispensabilidade nas Correntes D’Escrita. Tem uma memória de ferro, nada e ninguém esquece nas suas palestras, ou lá o que ele chama as suas intervenções na Póvoa. Trata-se de uma prosa simultaneamente tão fina mas sem nunca faltar, como já disse, a citação esclarecedora ou que faz rir sem nunca perdermos o significado do resto das palavras. Foi ele que me ensinou há muitos anos o conceito de “modernidade”, a evolução do Iluminismo no Ocidente. Só uma diferença com ele: “modernidade” e a sua evolução para “pós-modernidade”, ou seja a liberdade a que faltava, penso eu, a noção de justiça perante as minorias em toda a  parte e os seus direitos. Posso estar enganado aqui, mas falei sobre isso. Um homem como eu formado nos últimos anos 60 e princípio de 70 sentia isso essa falta ou acrescimento à bem-estar, pelo menos nos Estados Unidos onde vivi esses anos de turbulência e revolta esquerdista na faculdade onde eu estava integrado, um dos primeiros açorianos a ter esse descaramento. Só isso. A prosa de Onésimo é de tal modo viva que apetece citá-lo de passo a passo. Tem passado a vida a falar bem de Portugal no estrangeiro, sem nunca esquecer os nossos defeitos ou atribulações com quase 900 anos como nação e estado muito antigo da Europa, que em dias muito longínquos teve a coragem e o saber para grande aventura, a criação da primeira globalização consequente. Aqui vai uma dessas suas recordações que vêm de 1991, na qual o humor se alia à pura verdade, denunciando a nossa atitude secular sempre ambígua perante a mãe-pátria.

“Mas em Portugal – diz ele naquele seu estilo limpo e luminoso – não é preciso inventar razões para apreciarmos o que cá temos. Porque há muita coisa boa em Portugal. Não quero, no entanto, fazer como um amigo meu que, depois de viver vinte e sete anos em Los Angeles, ia regressar aos Açores, mas hesitava: Eu falo muito mal disto [disse ele], mas Los Angeles tem muita coisa boa. Por acaso, agora não me lembro de nenhuma”. Conheço muito bem esse amigo, e ele continua a pensar o mesmo.

Não vou enumerar aqui a numerosa obra de Onésimo Teotónio Almeida, precisaria de espaço que não cabe num jornal diário de Ponta Delgada. Limito-me a dar os parabéns às Correntes D’Escrita pela sua presença nestes 20 anos de realizações anuais. Têm sido um exemplo inspirador que agora é seguido por muitos festivais em todo o país, inclusive aqui nos Açores.

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Onésimo Teotónio Almeida, Correntes D’Escritas & Correntes Descritas (com prefácios de Luís Diamantino e Manuela Ribeiro), Guimarães, Opera Omnia, 2019.

A condição existencial de um romancista homossexual americano

 

 

Tenho estado no Japão, nunca tinha ido à India, ou a Marrocos ou à Alemanha, ou a muitos lugares que Arthur Less havia de viajar nos próximos meses. Nunca subi uma pirâmide antiga. Nunca beijei um homem num telhado em Paris.

Andrew Sean Greer, Less

Vamberto Freitas

     Less é o titulo deste romance norte-americano, vencedor do Pulitzer Prize 2018, e é o último nome de Arthur, o seu protagonista. Escritor que se sente falhado e prestes a fazer 50 anos de idade, o narrador aqui sem nome tem como referencial geográfico e humano os países mencionados na epígrafe deste meu texto (é ele que fala nesse instante) em que seguimos as suas andanças numa série de conferências. No estrangeiro, como acontece tantas vezes com certos escritores, era mais apreciado no estrangeiro do que no seu próprio país, especialmente com uma outra peça de ficção intitulada Dark Matter, mas o seu mais recente original tinha sido determinantemente rejeitado pelo seu editor, o que o levou em fuga aproveitando o nome e o prestígio que já tinha na sua carreira. É residente em São Francisco desde os anos 80 após abandonar a sua terra natal do outro lado continente, Delaware. Estamos nos primeiros anos da Sida, que ceifava vida após vida, sem cura à vista. Less vive em São Francisco entre os da sua idade, então um grupo de amigos, escritores e artistas vários que se haviam refugiado na cidade californiana mais tolerante para com aqueles que tinham nascido ou optado por orientações sexuais fora da heterossexualidade. Acompanhos todos nas suas vidas diárias, e nas praias locais que tanto juntavam homens e mulheres com estilos de vida ora convencionais, ora de outra natureza. Há algo de muito especial neste premiado romance: a sua linguagem nunca cai nas descrições do acto sexual, segue simplesmente, uma vez mais, o estado existencial do seu protagonista, que teme a viragem de idade para os 50 anos de idade, muito menos dos que os seus falhanços literários. O narrador, como também insinua num passado citado aqui, parece também homossexual, mas não diz nunca o tema principal do seu romance. Para além do mais, o leitor vai seguindo Less nos países que visita, alguns depois de por lá passar alguns anos antes com amantes mais velhos e das mesmas orientações homossexuais, tomando nota das diferentes maneiras de ser e estar nessas outras realidades nacionais, contrastando o respeito e admiração que recebe dos seus anfitriões enquanto se passeia nas várias cidades para onde foi convidado, e tudo numa linguagem que oscila entre um realismo puro e duro e um eloquente liricismo quase  poético, nunca cedendo a condescendências perante uns e outros. Quando Less regressa meses depois à sua residência em Vulcan Street, numa daquelas colinas de São Francisco, já é um homem mudado, mais calmo na aceitação da sua idade e nos falhanços literários dos últimos anos. Mantém uma série de amantes locais, de idades diferentes, mas a partir de aí fica só a nossa imaginação sobre a sorte futura.

      O romance está estruturado com os anos de São Francisco, e depois segundo cada um dos países que vai visitando como convidado literário de prestígio. Desse modo, o narrador vai abordando as idiossincrasias de cada um deles, como que a querer dizer que há mais mundo para além do medo e do grande continente americano. Se um dia, como diziam alguns críticos, a literatura americana era algo provinciana, esta nova geração de escritores e da era digital não hesita nunca em atravessar fronteiras, e recusa o mal-dizer dos estilo de vida dos outros. Saído o ano passado, poderíamos muito bem interpretá-lo como um perfeito e total contraponto à “nova” América”, num respeito absoluto pela diferença de todos géneros e hábitos culturais. Humor, ironia e prosa quase poética contrapõem-se às linguagens político-culturais da actualidade do seu país. Na Califórnia, Less tanto tem amantes e amores anglo-americanos com mexicanos ou latinos, mulheres que toleram as mudanças dos seus maridos, respeitando-os tanto eles como os seus amores ou meros encontros masculinos. Less acompanha a partir do Japão os últimos dias da vida após um AVC do seu grande amor, de nome Robert Brownburn, cientista e muito mais velho. Tinham-se separado há uns anos, mas o narrador parece querer insinuar que a vida é redonda, e, aproximando-se um fim real, imaginado e temido, regressamos inevitavelmente aos momentos mais marcantes das nossas vidas. Este não é um romance propriamente sobre outras orientações sexuais, muito menos sobre pormenores de cama. É um romance sobre a natureza do amor e dos seus momentos mais felizes e infelizes. Por outras palavras, cada um de nós se revê nos abalos interiores dos seus personagens mais destacados. Uma das formas (já antigas) da ficção americana parece sempre um regresso ao realismo psicológico de um passado ainda não muito distante, mas que marca toda a estrutura da sua arte literária: linearidade aqui e ali interrompida por analepses que nunca nos deixam confundir os tempos ficcionais que nos são apresentados. Aliás, toda a narrativa deste livro parte do presente para os anos de fulgurância e produtividade ou boa vida das suas personagens. Não temos nestas páginas só as suas histórias, sobressaindo ainda toda a condição humana vivida nestas décadas mais recentes, a história do país sempre insinuada a cada passo, a cada insinuação de que como foi viver ou sobreviver os anos incertos e pessoalmente atribulados que continuam, agora mais do que nunca, a ser os nossos na generalidade.

      “Tal como Proust, — escreve o narrador – ele sabia que o fim estava por perto. Quinze anos, e a alegria do amor já há muito tinha esmorecido, e a traição tinha começado: não eram simplesmente as aventuras periódicas com outros homens mas o segredo desses relacionamentos que decorreram de um mês a um ano e acabaram com tudo à vista. Estava ele a experimentar quanta elasticidade poderia ter o amor? Era simplesmente um homem que tinha de boa vontade entregue os seus anos mais novos a um homem de meia idade e agora, chegando ele próprio a essa meia-idade, queria de volta a fortuna que tinha atirado ao vento? Queria sexo, amor e brincadeira? As mesmas coisas de que Robert lhe tinha salvado tantos anos atrás?  Quanto às coisas boas, tal como a segurança, conforto, amor – Less encontrava-se a esmagar em pedaços tudo isso. Provavelmente não sabia o que estava a fazer; provavelmente ele não sabia o que estava a destinar. Ou talvez sabia. Provavelmente estava a incendiar uma casa na qual já não queria viver”.

      O autor de Less (cujo significado quer dizer literalmente Menos) não lhe deu esse nome aleatoriamente. Poderá querer dizer-nos que todas as nossas vidas deixam de fora as fantasias da juventude, quando tudo nos parece possível e julgamo-nos imortais. Suponho que qualquer leitor deste romance, em qualquer parte do mundo, se vai reconhecer nesta vivência diferente, retirando de imediato as conotações sexuais, com as quais podem simpatizar ou não. É a nossa humanidade que domina este romance.

      Andrew Sean Greer, que também vive em São Francisco, tem já no seu currículo literário obras como The Confessions of Max Tivoli, que foi considerado pelo San Francisco Chronicle e pelo Chicago Tribune o melhor livro do ano em 2014, e ainda The Impossible Lives of Greta Wells e The Story of a Marriage, De resto, tem recebido inúmeros prémios prestigiados pelos seus contos, e recebeu o National Endowment for the Arts e o reconhecimento igual pela New York Public Library e o The California Book Award. De página em página vai fazendo chamamentos a diferentes escritores americanos e de outros países e línguas. Quero com esta lista parcial apenas chamar a atenção para uma nova voz da literatura americana contemporânea, e que não passe despercebido entre nós. A tradução do presente romance seria mais do que justa, seria de certo modo uma outra homenagem ou oferta a alguns leitores portugueses mais virados para a literatura mundial.

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Andrew Sean Greer, Less, Abracus/Little, Brown and Company, London, 2018. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

Do Bravo Mundo Em Que Vivemos

  1. Oleg Antoyyevich continua a viver uma vida dupla. Para os seus vizinhos suburbanos, o homem curvado de barba que vive tranquilamente atrás de sebes altas é apenas mais um reformado idoso, uma pessoa pouco importante. Na realidade, é uma pessoa totalmente diferente, uma figura de profunda importância histórica e um homem notável: orgulhoso, inteligente, irascível, com a pensativa expressão iluminada por clarões súbitos de irónico humor.

    BEN MACINTYRE, O Espião E O Traidor

     

    Vamberto Freitas

         Tenho tantos livros na minha secretária, de escritores açorianos, continentais, americanos, brasileiros e de outros autores que me não são desconhecidos, que levei a tarde inteira a decidir qual seria o próximo para a minha leitura e escrita. Vou ser preservo, sem esquecer os outros. Acho que vou ler um livro completamente fora da minha habitual esfera: O Espião E O Traidor, de BEN MACINTYRE. Dizem eles na capa que é “A Maior História de Espionagem da Guerra Fria”. John Le Carré: “A Melhor História Real De Espionagem Que Alguma Vez Li”. Basta, vou a ele, e aprender coisas, e ainda odiar ainda mais o mundo que nos foi legado. Lembro-me de ler no início dos anos 70 um dos livros John Le Carré, creio que Tinker, Tailor, Soldier, Spy, e um recenseador mal-disposto afirmou que a Grã-Bretanha ainda se pensava um grande império, mas que os seus serviços secretos já tinham perdido toda a sua importância, tal como o resto do país. Errou redondamente. Na verdade, a União Soviética parecia prestar mais atenção à ilha a norte e no coração atlântico da Europa do que suspeitava o referido crítico, pelo menos a partir dos anos 80 até há bem pouco. Poderia o então KGB prestar a mesma atenção e perfídia à CIA, mas a sua obsessão quase doentia era o M16 em Londres, pelo seu também substancial arsenal nuclear e a proximidade das suas fronteiras. A infiltração mútua era contínua, e o medo de um disparo nuclear vindo da própria Europa armada era uma obsessão da liderança no Kremlin. Os serviços secretos dos dois lados partilhavam os traidores, particularmente depois da fuga para Moscovo do mais famoso espião inglês, Kim Philby, deixando atrás “associados” ligados a várias universidades e comunistas convictos. A CIA, uma vez mais, parecia mais um grupo de amadores do que a temida e bem mais fornecida agência de espionagem dos Estados Unidos. Não é sobre este facto que se debruça o livre O Espião E O Traidor, mas sim sobre o mais especular espião duplo, já aqui referido. Vindo de uma família de mãe religiosa mas também de um pai que havia prestado os maiores serviços secretos à União Soviética, passou a odiar o regime totalitário quando foi colocado na Escandinávia, Dinamarca e Noruega. A partir dessa experiência de abertura e liberdade europeia tornou-se um agente duplo, que viria a causar os maiores danos a Moscovo, que estava convencido de um breve ataque nuclear preventivo por parte da Inglaterra, ou de seus aliados. Pelo que nos diz o presente autor, estivemos entre 82-83 à beira do temido Armagedão.

    Podem perguntar porquê leio um livro destes. A resposta é simples: aprendemos com estes textos biográficos (ou auto-biográficos), muito maia do que em monografias históricas académicas. Têm todos a ver, estes livros, com o esclarecimento da literatura do nosso tempo. Quando me dizem que um Coronel da KGB lia William Shakespeare e George Orwell, entre outros autores proibidos na União Soviética, e que ele mantinha mais ou menos escondidos, dizem-me tudo. Quase toda a literatura do nosso mundo trata ou alude ao estado perigoso do nosso planeta. As sociedades em decadência estão em perigo, e isso inclui a nossa suposta geografia de liberdade e supostos “privilégios”. Pode Oleg Antonyyevich ter sido um eminente espião traidor, mas nunca neste livro nos livramos da paranoia dos soviéticos, repita-se, ante a possibilidade de um ataque mortal para nós todos. Foram eles que mantiveram a calma, e nos livraram da catástrofe. A história aqui contada do seu agente traidor é mais do que aliciante. O modo como acontece o seu resgate da União Soviética é por demais aliciante, mas encobre as verdadeiras preocupações do Kremlin. A Inglaterra também tinha ao mesmo tempo os seus traidores. A certa altura, eles, infiltrados na União Soviética, tiveram uma sucessão de velhos líderes, a velha guarda, cujos nomes são demais para mencionar todos aqui. Depois chegou Mikhail Gorbachev, e tudo mudou. Sabia que o seu país não poderia competir com o Ocidente no desenvolvimento de armas devastadoras e mortíferas, seguindo-se o Glasnot e a Perestroika (abertura e reestruturação). Hoje, se a nova Rússia é corrupta, a nossa parte do mundo não lhe fica muito atrás em nada. Desde o futebol à classe política e financeira estamos quase tão sujos como eles. Estávamos nesses anos fatídicos após a crise dos misseis cubanos sob um pleno Big Brother, que Orwell havia previsto e de certo modo avisado. A verdade é que o Ocidente conseguiu a colaboração em cheio de um dos mais importantes agentes secretos do outro lado, o que talvez tenha ajudado a desviar-nos da catástrofe total para a humanidade. Seguiram-se expulsões “diplomáticos” de lado a lado, deixando um vazio que sem dúvida contribuiu para melhor controlar uma situação explosiva a todos os níveis.

    “Burton Gerber, — escreve o autor deste livro a dada altura, num capítulo apropriadamente intitulado ‘Roleta Russa’, e agora mudando a acção para Washington – o chefe da secção soviética da CIA, era um especialista no KGB com vasta experiência operacional na guerra da espionagem com a União Soviética.. Nascido no Ohio, era um homem alto e magro, assertivo e perseverante, e pertencia a uma nova geração de funcionários dos serviços secretos americanos que estava livre da paranoia do passado. Ele estabeleceu as chamadas ‘Regras Gerber’, que determinavam que todas as ofertas de espionagem para o Ocidente deviam ser tomadas a sério e todas as pistas investigadas. Um dos passatempos mais estranhos passatempos de Gerber era a observação de lobos, e havia alguma coisa claramente vulpina na forma como ele caçava as suas presas do KGB”.

    A parte mais dramática de O Espião E O Traidor vem nos últimos capítulos quando os soviéticos descobrem a traição dupla de Eleg Antonyevisky, e o M 16 tem de o retira de Moscovo, numa operação a que deram o nome de PIMLICO; saído escondido num porta-bagagem num dos carros da britânica M16, via Finlândia e outros países amigos e da NATO. Deixou para trás, teve de deixar, a mulher e a filha, que lá permaneceram em prisão domiciliária durante anos até mais tarde os deixaram partir para conviverem com o antigo espião num subúrbio obscuro de Londres. Passou a viver uma vida mais ou menos normal, sem que os seus vizinhos suspeitassem nunca das suas origens com espião e o quanto tinha feito em defesa da democracia, não só na Grã-Bretanha como em todos os seus aliados espalhados literalmente por todo o mundo. A literatura também é feita de “factos” e “história”, e por osmose acaba por afectar todas as nossas leituras. Essas obras superiores são como que um retrato do seu tempo e da sua geografia física e humana. São estes livros biográficos e auto-biográficos que lançam outra luz sobre todas as páginas que lemos.

    O Espião E o Traidor, de BEM MACINTYRE, é definitivamente um desses livros de leitura aliciante e de ensinamentos que de outro modo não teríamos. Entramos num mundo de espelhos, como diz o autor, e de sombras para um leitor que é colocado nos bastidores da política e da segurança de qualquer grande país. Só mais uma nota algo curiosa nesta saga de vida e morte. Vladimir Putin, o então Coronel do KGB, que andara na República Democrática Alemã, encontrava-se precisamente durantes estes acontecimentos em Leningrade, O livro não entra em detalhes no que lhe aconteceu pela sua “desatenção”, mas insinua que ele caiu um bocado na hierarquia dos serviços secretos da sua terra.

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    BEM MACINTYRE, O Espião E O Traidor (tradução Isabel Veríssimo, D. Quixote/LeYa, 2019.

Edmund Wilson contra Vladimir Nabokov

Num famoso ensaio, Ralph Waldo Emerson escreveu que uma ‘amizade era como a imortalidade da alma, bom demais para ser acreditada’… No caso de Nabokov e Wilson, foi isso mesmo.

The Feud: Vladimir Nabokov, Edmund Wilson and the End of a Beautiful Frindship

Vamberto Freitas

“Beautiful friendship”? Ou uma amizade absolutamente inquinada por pate de Vladimir Nabokov (1899-1977), o célebre autor de Lolita (1955), Speak, Memory, the real life of Sebastion Knight, entre alguns outros livros, inclusive Pale Fire que tive de ler num seminário pós-graduado e nunca mais voltei àquele jogo e gozo com o leitor. Alguns dos seus outros livros foram e traduzidos do russo pelo próprio autor. Estou ainda para ler Vladimir Nabokov: The American Years, que também está na minha estante entre outros dele. Sem a mão de Edmund Wilson, quando Nabokov chega aos Estados Unidos em 1939, depois da fuga da União Soviética logo de início do regime e debaixo de fogo num barco rebelde e apoiante dos velhos aristocratas e outos dissidentes do novo Poder, com passagem breve pela Alemanha e França, com praticamente só a roupa no corpo e com poucos dólares na algibeira, provavelmente nunca chegado a nada em língua inglesa. Muito provavelmente não teria chegado onde chegou a lugar nenhum nos Estados Unidos, e definitivamente à grandeza literária internacional que conquistaria com a publicação do romance “pedófilo” Lolita, que lhe permitiu a riqueza (os tempos eram outros) para o resto vida inteira, apesar do seu tema, pagando logo depois à América com uma nova fuga emigrante e agora legal, mas para um hotel na Suíça, onde viveu uns bons anos até ao seu falecimento, agora sem a ajuda generosa do eminente crítico canónico de americano, de nome Edmund Wilson. A história da quebra da sua amizade tem tanto de caricato como de ingratidão. Mesmo assim, Nabokov tornar-se-ia cidadão americano em 1945, na época do tempo de grandes perigos e de pouca segurança. A história de Nabokov na América é uma de puro oportunismo e cinismo. Edmund Wilson tinha viajado em 1935 para a União Soviética, e passado alguns meses num dos seus hospitais devido a uma febre séria, nunca ter perdido a sua admiração pelo que ele chamava “O Quartel General da Humanidade”, tal o seu  respeito por Lenine, sobre quem escreveria pouco depois um livro que liamos na faculdade californiana por questões puramente literárias, To the Finland Station: A Study in the Writing and Acting of History (1940), no qual afirmava toda a sua admiração pelo então líder máximo do Kremlin, o intelectual supremo, mais do que o político. Vindo de uma família da velha aristocracia da Costa Leste americana (Nova Jersey), nunca deixou de se considerar um marxista até fim da vida, com o desgosto do tempo estalinista, mas considerando, sempre, o sistema do seu próprio país como um dos mais injustos, dedicado à Guerra Fria e perpétua. Foi este proeminente crítico que deu a mão a um dos mais conservadores e arrogantes russos “brancos” que arribou repentinamente ao seu país.

Comecemos de novo. Edmund Wilson foi sempre um leitor e admirador da literatura russa antes da União Soviética. Há algum tempo antes tinha criado amizade com alguns russos e russas, especialmente com Nicolas Nabokov, um compositor e primo de Vladimir Nabokov, já com nome feito nos Estados Unidos e na Europa. Quando Vladimir Nabokov chega à América de mãos vazias este seu primo implora a Edmund Wilson (1985-1972) que o ajude de uma de forma ou outra. Leu alguns dos seus livros sem grande entusiasmo, especialmente o original de Lolita (primeiro publicado em Paris, aquela cidade-luz tão aberta a tudo e a mais alguma coisa), que o deixou meio enjoado e sem qualquer simpatia pelo tema de um europeu de meia idade a seduzir uma menina atrevida, “a velha e decadente Europa”, como dizia um mestre meu em literatura na Califórnia, o símbolo, a menina, de uma nova nação e ser devorada pelo velho continente. Mesmo assim, reconheceu o seu talento e qualidade literária para contactar algumas das melhores revistas literárias (The New Yorker, por exemplo) para aceitarem as suas críticas e ensaios, o que aconteceu da melhor maneira. Em seguida, utilizou da sua já considerável influência para que publicassem o que viria a ser o seu famoso romance que ele não tinha lido por completo no original, e ainda intercedeu para que ele desse aulas nalgumas das melhores universidades, e outra vez com sucesso. Quando Vladimir Nabokov chega à Universidade de Cornell já estava a trabalhar a fatídica tradução do mais venerado e reconhecido romance em verso de Elexander Pushkin, Eugénio Onegin (1833), que durou qualquer coisa como nove anos e tem como cometários de Nabokov muito acima de 900 páginas. O ensaísta contido e de prosa calaríssima que era Edmnd Wilson achou mais ou menos um escândalo de má tradução, ainda mais por ser uma tradução literal, com palavras em inglês que ele insistiu nem sequer existirem em qualquer dicionário, e desatou – o seu erro máximo – a querer dar lições etimológicas e de significados e ortografia ao russo, um mestre da sua própria língua. A tradução de Puskin saiu em 1964, e a polémica acesa, arrebatada e algo insultante entre os dois rebentou como uma bomba que não mata mas acorda toda a gente, numa publicação de prestígio como a The New York Book Review. Um pouco depois, este combate intelectual passaria para outros periódicos, incluindo a famosa revista britânica Encounter, que mais tarde se saberia ser financiada pela CIA. Não vou aqui enumerar os detalhes de um ou outro, só reafirmar que as guerras literárias são por vezes de uma violência pouco dignificantes à dignidade dos polemicistas, algo a que estamos habituados em Portugal, e em que cavalheiros e amigos perdem todo um passado de grandes momentos e diálogos intelectuais, como foi o caso de Edmund Wilson e Vladimir Nabokov. Este livro de Alex Beam, tão equilibrado e justo nos seus juízos e análises, coloca cada um no seu lugar.

“Mesmo nas décadas – escreve James Beam — depois da morte destes dois escritores, a controvérsia sobre a tradução de Onegin ocasionalmente sai do caixão. Em 1977, o ano do falecimento de Nabokov o aposentado diplomata britânico Charles Johnson publicaria que a tradução rítmica,e métrica encantou o jovem escritor Vikram Seth, que tinha retirado o livro de uma estante numa livraria de Palo Alto. Os dois acontecimentos não estavam relacionados. Parece possível que Vladimir Nabokov se teria dado ao trabalho de uma outra tradução de Onegin em inglês, com a sua imortalidade muito em dúvida.”

Seja como for, esta luta entre dois grandes gigantes literários, como alguém já os descreveu, de dois países tão distantes e diferentes, deixou poucos literatos indiferentes, pelas mais variadas razões. Edmund Wilson começou a publicar crítica e ensaio nas mais prestigiadas revistas do seu país, desde Vanity Fair a The New Yorker ao inescapável The New York Review of Books depois da sua fundação em 1963. Formou-se na Princenton University e tornar-se-ia amigo de grandes autores, hoje também canónicos, como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, John Dos Passos e T. S. Eliot, só para mencionar aqui alguns dos mais conhecidos nomes entre nós. Foi talvez o único ensaísta que conseguiu viver só dessa escrita, que pouco vendia, mesmo quando depois colecionada em livro. Wilson alternava a sua vida entre Nova Iorque e uma velha e grande casa mais tarde por ele herdade na parte norte daquele estado, e onde se refugiava pelo menos cada seis meses, dando testemunho dessa vivência rural em alguns dos livros. Publicou alguma ficção (I Thought of Daisy e The Higher Jazz) sem impacto, com uma excepção. Em 1946 faz sair Memoirs of Hecate County, um conjunto de histórias interligadas, e que ele considerava o seu melhor livro. Pelas cenas de sexo explícito, depressa o editor foi levado a tribunal, em São Francisco e Nova Iorque, e o livro teve de ser retirado das livrarias, já depois de lhe ter proporcionado uns bons milhares dólares e que lhe poderiam tornado financeiramente mais desafogado. Não foi uma figura fácil, mas foi de grande influência entre os seus pares.  Até mesmo entre a nova geração de escritores judeu-americanos que começaram a pontificar a partir dos anos 30, olhavam-no com a maior admiração e respeito. Wilson lia várias línguas, e no seu livro de ensaios The Triple Thinkers já tinha escrito precisamente sobre Alexander Puskin e a sua obra-prima que que Nabokov viria a traduzir à sua maneira. Continuaram a corresponder-se, mas nunca mais seria com aquela profunda amizade do início. Resta só dizer que Edmund Wilson continua a ser biografado mesmo mais do que os grandes escritores sobre quem escreveu ao longo da sua vida.

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Alex Beam, Edmund Wilson and the End of a Beautiful Frienship, Pantheon Books, New York, 2016. Todas as traduções aqui são minha responsabilidade.