Onésimo Teotónio Almeida nas Correntes da Póvoa de Varzim

Sim, as Correntes d’Escrita são um exemplo de como é possível remar-se contra a maré, não deixar cair os braços, não se deixa vencer por pessimismos derrotistas e inventar e reinventar algo diferente, criativo.

Onésimo Teotónio Almeida, Correntes D’Escrita & Correntes Descritas

Vamberto Freitas

     Logo no início deste singular livro, o seu autor cita Norman Malcolm (1911-1990): “filósofo discípulo de Wittgenstein, garante ter o seu mestre dito uma vez que poderia escrever-se bom e sério trabalho filosófico consistindo inteiramente de anedotas (“e ele não estava a brincar”), assegura-nos no seu Ludwig Wittgenstein: A Memoir de 1958. “Não tenho a veleidade, afirma Onésimo Teotónio Almeida — logo de seguida — de estes meus textos constituírem um trabalho filosófico: mas sérios, isso são”. Conheço o autor desde meados dos anos 70, e sei que ele nunca teve veleidades nenhumas quanto à sua escrita. A começar com os seus escritos desde o Seminário de Angra, tenho acompanho a sua obra desde de sempre. Aliás, o primeiro artigo que publiquei em Portugal foi sobre um dos seus primeiros livros da imigração, Ah! Mònim Dum Corisco, que publiquei na revista a Memória da água-viva, então criada e publicada em Lisboa por Urbano Bettencourt e J. H. Santos Barros nos anos 70, precisamente no número três da revista. Depois disso, veio muito mais: crónicas de todo o género, contos e especialmente ensaio. Publicou recentemente A Obsessão Da Portugalidade, e que veio a seguir, O Século dos Prodígios: A Ciência no Portugal da Expansão, sobre a ciência portuguesa no período dos Descobrimentos, que venceu o Prémio da Fundação Gulbenkian História da Presença de Portugal no Mundo, da Academia Portuguesa de História; o Prémio Mariano Gago, da Sociedade Portuguesa de Escritores; e o Prémio D. Diniz, da Fundação Casa Mateus. Há 20 anos (desde o início do projecto sem igual entre nós) que participa activamente nas Correntes D’Escrita da Póvoa de Varzim.Com a toda a justiça e relevância. Este seu novo livro contém os seus ensaios (menos o de 2007, e deste ano por razões compreensíveis, pois o livro estava já a ser impresso antes da sua mais recente intervenção. Inclui – como Epílogo — ainda o seu discurso proferido na Universidade de Aveiro quando esta instituição lhe atribuiu o grau de Doutor Honoris Causa. Não queria falar aqui de modo negativo, mas a inveja da sua carreira é também notável entre nós. Pudera. O que ele faz nesta sua escrita, sempre original e inesperada, é o que anuncia numa citação de Wittgenstein: combina a seriedade e erudição universitárias de um incansável estudioso com as anedotas e histórias que simplesmente ilustram e clarificam de modo brilhante as suas mais pertinentes observações e dissertações sobre o nosso mundo do passado e o actual, a que voltarei mais adiante.

“Na Póvoa, não costumo ser não eu próprio; apenas uso ultraje de praia, como convém a um local de veraneio, se bem que em Fevereiro lá estejamos fora de estação. Não posso ser assim em todo o sítio, é certo, mas ao menos ali é-me permitido andar de chinelos, ou mesmo de pé descalço. Por isso ocorreu-me fechar este volume com um outro texto que parecerá eventualmente descabido, embora eu creia fazer sentido a sua inclusão. Trata-se do que li na Universidade de Aveiro quando, certamente por distração ou erro, ali me atribuíram um doutoramento Honoris Causa. No texto vem tudo explicado. Aqui basta dizer, em resposta indirecta ao bom amigo Assis Brasil, que naquela intervenção apenas separei em duas partes as águas do humor e da conversa a sério, que nas Correntes misturo sem rebuço, tanto mais que, por razões que mais adiante ficarão claras, nele inseri três páginas da minha intervenção nas Correntes desse ano. Espero que esse escrito ajude a esclarecer o fundo que subjaz aos textos reunidos no presente volume. Foi sobretudo por esta razão que decidi incluí-los”.

A qualidade da escrita de Onésimo Teotónio Almeida, como aliás já foi mencionado aqui anteriormente, demonstra o que raramente acontece entre nós. É um investigador      infatigável das questões portuguesas do passado e do presente (assim faz quando fala da América da sua longa estadia naquele país), mas com uma grande e notável diferença. Fala dos temas mais universais desde as muitas mundividências que tem testemunhado ao longo dos anos, mas numa prosa de verdadeiro escritor: escorreita, clara a que junta sempre o chamado “prazer do texto”. Tanto menciona as ideias de um grande filósofo ou especialista em ciência sociais como inclui as mais hilariantes anedotas ou histórias inesperadas que leu ou ouviu nas distantes geografias do mundo. Vindo de uma formação clássica, desde o seminário açoriano e Universidade Católica de Lisboa até à Brown University, o leitor entra em mundos ou realidades totalmente originais. Vai desde os antigos gregos ao mais recente escriba em português ou inglês, cita nomes de várias proveniências, inclui passos entre aspas, e deixa-nos numa espécie de êxtase ou até inveja. Dialoga com figuras, por exemplo, que vão de um Eduardo Lourenço ou Vergílio Ferreira até a um Woody Allen, dos filmes e de eventuais pronunciamentos sobre a ironia ou comédia da vida, até a Sócrates, o original da Grécia, que ele tão bem conhece, e Platão das sombras e da suposta realidade. Percebo agora a sua indispensabilidade nas Correntes D’Escrita. Tem uma memória de ferro, nada e ninguém esquece nas suas palestras, ou lá o que ele chama as suas intervenções na Póvoa. Trata-se de uma prosa simultaneamente tão fina mas sem nunca faltar, como já disse, a citação esclarecedora ou que faz rir sem nunca perdermos o significado do resto das palavras. Foi ele que me ensinou há muitos anos o conceito de “modernidade”, a evolução do Iluminismo no Ocidente. Só uma diferença com ele: “modernidade” e a sua evolução para “pós-modernidade”, ou seja a liberdade a que faltava, penso eu, a noção de justiça perante as minorias em toda a  parte e os seus direitos. Posso estar enganado aqui, mas falei sobre isso. Um homem como eu formado nos últimos anos 60 e princípio de 70 sentia isso essa falta ou acrescimento à bem-estar, pelo menos nos Estados Unidos onde vivi esses anos de turbulência e revolta esquerdista na faculdade onde eu estava integrado, um dos primeiros açorianos a ter esse descaramento. Só isso. A prosa de Onésimo é de tal modo viva que apetece citá-lo de passo a passo. Tem passado a vida a falar bem de Portugal no estrangeiro, sem nunca esquecer os nossos defeitos ou atribulações com quase 900 anos como nação e estado muito antigo da Europa, que em dias muito longínquos teve a coragem e o saber para grande aventura, a criação da primeira globalização consequente. Aqui vai uma dessas suas recordações que vêm de 1991, na qual o humor se alia à pura verdade, denunciando a nossa atitude secular sempre ambígua perante a mãe-pátria.

“Mas em Portugal – diz ele naquele seu estilo limpo e luminoso – não é preciso inventar razões para apreciarmos o que cá temos. Porque há muita coisa boa em Portugal. Não quero, no entanto, fazer como um amigo meu que, depois de viver vinte e sete anos em Los Angeles, ia regressar aos Açores, mas hesitava: Eu falo muito mal disto [disse ele], mas Los Angeles tem muita coisa boa. Por acaso, agora não me lembro de nenhuma”. Conheço muito bem esse amigo, e ele continua a pensar o mesmo.

Não vou enumerar aqui a numerosa obra de Onésimo Teotónio Almeida, precisaria de espaço que não cabe num jornal diário de Ponta Delgada. Limito-me a dar os parabéns às Correntes D’Escrita pela sua presença nestes 20 anos de realizações anuais. Têm sido um exemplo inspirador que agora é seguido por muitos festivais em todo o país, inclusive aqui nos Açores.

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Onésimo Teotónio Almeida, Correntes D’Escritas & Correntes Descritas (com prefácios de Luís Diamantino e Manuela Ribeiro), Guimarães, Opera Omnia, 2019.

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