As Ilhas Açorianas Vistas De Dentro E De Fora

No ventre da terra-mãe crepita/fogo antigo acendendo a vida./No oceano profundo palpita/ outra Atlântida prometida.

Virgílio Vieira, Entre Silêncios

Vamberto Freitas

     Não é o meu primeiro texto que escrevo sobre a poesia de Virgílio Vieira, continental do norte desde há muito residente e actuante nas ilhas, cujos outros títulos mencionarei aqui noutra parte. Basta dizer que a sua obra é já vasta, e inclui o seu trabalho distinto de cientista investigador doutorado na Universidade dos Açores há muitos anos, e cuja obra inclui a sua integração no Centro de Ecologia e Alterações Climáticas, com reconhecimento aquém e além-fronteiras entre os seus pares nos mesmos campos de estudo e publicações. Só que Virgílio é ainda esse poeta de méritos reconhecidos entre uns e outros, e este seu mais recente livro, apresentado publicamente, vem confirmar estes outros seus méritos por um grupo de leitores já substancial, ficando de fora os menos atentos ou os mais arrogantes, esses que pensam que um poeta é um poeta e um cientista é um cientista, mesmo quando talvez saberão que a literatura sempre veio dos mais variados especialistas, desde as ciências ditas puras a advogados e outros ligados às humanidades em geral. Seja como for, vou auto-canibalizar um comentário meu que fiz a uma outra obra sua, mas creio que sintetiza o que penso e como o tenho lido ao longo do tempo: “Muitos escritores continentais têm escrito sobre a sua vivência ou mera visita aos Açores. Virgílio Vieira tem outros olhares e palavras. É originário do outro lado do mar, da Terra-Mãe, e um açoriano que sempre soube manifestar o seu mais íntimo ser e pertença às suas duas geografias humanas e de dedicação afectiva. A sua poesia denuncia a sua noção de Português repartido entre as duas realidades. Dito de outra maneira, é sempre a alma humana na sua condição verdadeiramente universal que transporta para outras paragens distantes e nos move e comove. Dito ainda de outro modo, é a poesia claríssima e no seu melhor, e que permanece no tempo e em todas as nossas circunstâncias de vida. Esquecem alguns que os maiores poetas do nosso tempo, em Portugal e especialmente nas Américas, escreviam não para os críticos ou académicos, mas sim para a maioria dos leitores mais inteligentes e receptores da palavra comum. T. S. Eliot, esse hoje adorado por um dos mais obscuros poemas intitulado The Waste Land ambicionava em primeiro lugar a ser um dramaturgo de teatro popular, e gozava à brava com a academia, dando-lhes pistas falsas em notas de roda-pé enquanto observava a partir do seu escritório os trabalhadores ingleses atravessando de cabeça baixa a ponte do Rio Tâmisa a caminho dos seus trabalhos escravizantes e mais do que humildes, e dos quais dá conta no seu mais famoso poema. A postura e palavras de Virgílio Vieira neste Entre Silêncios dão continuidade à solidez da sua obra. Os Açores olham para o resto do mundo, e o poeta revê as suas ilhas a partir desse exterior geográfico e artístico. Desde o Alentejo à Madeira (entre outras andanças mais longínquas), desde a ilha do Pico, predomina sempre o seu regresso a casa em Ponta Delgada ou a São Miguel no seu todo, onde sentimos a respiração dos seus vulcões e o quase constante tremer da terra, aos braços da sua amada e à saudade dos ausentes mais chegados ou família. Terra e Coração. O poeta combina aqui em perfeição a consciência ou o espírito do lugar com uma sensualidade pouco habitual entre nós. Não é só a sua vivência diária, é também o conhecimento profundo dos escritores que o antecederam ou mesmo que convivem diariamente com ele. Há poetas mais reconhecidos ou citados entre nós. Virgílio Vieira, no seu silêncio ou no silêncio que o rodeia neste pequeno meio liberto ou aprisionado pelo grande mar constrói uma obra poética em busca do que um dia será objecto de outra atenção e apreciação. Foi sempre assim com todos. Só que a sua humildade faz parte do seu equilíbrio como académico universitário e como poeta, sim, dos “silêncios”.

A poesia da autenticidade do seu autor (ao contrário do pretensiosismo intelectual e até teórico obscuro de outros bem mais conhecidos) é sempre uma espécie de registo do lugar e do tempo em que vivemos, e como o vivemos. Em Entre Silêncios não tem “vergonha” de dizer do amor que sentimos pelos nossos próximos, em directo ou em metáforas que nunca escondem os relacionamentos nem com a sua amada nem com um filho ausente, nunca se esconde a saudade e o afecto que de cada lugar de vivência ou viagem que nos fazem lembrar ou que dão sentido às nossas vidas ou aos nossos sentimentos. Todas estas palavras vindas de um cientista tornam-se ainda mais íntimas, relembram-nos ainda da nossa humanidade e proximidade aos outros, os que compartilham os nossos espaços fechados e a lonjura dos que mexeram com as nossas vidas. Cada pedaço de terra fora das ilhas é visto na sua integridade e originalidade, e isto sem nunca deixarmos de perceber a vida comum, as angústias ou a beleza ou sofrimento de cada ser humano observado ou do terreno que ocupa. Como os bichos da mais variada espécie descritos nestas páginas, cada um vê o seu mundo à sua maneira, sem nunca nos afastarmos uns dos outros. A poesia mais antiga já fazia ou transmitia estas verdades. A “ilha”, nestas visões, não passa de um pequeno continente, nem um continente uma ilha maior. Por outras palavras, por mais que não queiram, somos um mundo só. Cito os outros dois nomes que vêm na contracapa deste livro, e que nos fazem regressar ao meio do mar. João Pedro Porto: “Entre Silêncios, um sussurro é um estrondo. E um estrondo, um novo silêncio. Esse é o verdadeiro ritmo do coração atlântico. Auscultando-o, Virgílio Vieira convida-nos para uma pintura de sons que nos transporta para a ilha, esteja essa no meio do mar, adentrada na terra, ou em nós”. Leonor Sampaio da Silva: “Persiste, ao longo destes versos, a serenidade de uma espera firmada em duas bases de sustentação: a natureza e a arte. Podemos associar cada uma delas ao silêncio com que se inicia e termina este livro, o primeiro alimentando-se de mar, o outro de tintas e pincéis. Mas já mais do que mudez: há duas vozes que interrompem os silêncios para intercetarem as suas mensagens e no-las transmitem em linguagens diferentes”.

Aí estão os dois comentários perfeitos deste Entre Silêncios. Esqueçamos por agora a ilha e os olhares do poeta sobre elas, de uma ponta do arquipélago ao outro, poemas que levam como sujeitos as mais diferentes populações de cada pequeno pedaço desta terra. Como já foi dito aqui, ele nunca esquece as suas raízes duplas. A abertura do poema “Alentejo”:

São como o rebanho de ovelhas/verdes/os sobreiros, filtrando a luz do sol-pôr/nos ombros/sensualmente curvos do monte/São eles que anunciam a primavera,/a ventura/de ser novo outra vez,/de quem espera/na gestação da terra/a fertilidade da Planura./o equinócio traz/ pela mão/ a calma imensidão/do Alentejo./Ali está Grândola,/Grândola livre é muito mais/que um desígnio ou ensejo,/é um povo sonhando junto do cais.

     Não vou enumerar as obras científicas de Virgílio Vieira num trabalho constante na Universidade dos Açores. Está representado nas mais diversas antologias nacionais e estrageiras, inclusive a sua obra em prosa e poesia. Na primeira categoria, destaco Joaquim de Araújo e os Açores, Correspondência Inédita de Joaquim de Araújo e Alice Moderna e Uma Carta Inédita de Joaquim de Araújo a Ana de Quental. Na poesia, entre outros, Eu, Tu e o Mundo, Do Fundo do Coração, Margens do Olhar, Ondas são Palavras e O Rosto da Distância.

Entre Silêncios foi ilustrado por Isabel Medeiros e prefaciado por Leonor Sampaio da Silva.

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     Virgílio Vieira, Entre Silêncios, Ponta Delgada, Letras Lavadas Edições,2019. Publicado no Açoriano Oriental na passada sexta-feira, 26 de Setembro de 2019.

O sertão nordestino brasileiro e a dignidade das suas vítimas

Alguns viravam donos de escravos, e davam adeus à servidão e à busca que lacerava suas mãos e suas almas. Mas a maioria só encontrava a quimera e a loucura, o assombro, o desassossego, a dor e a violência. Vergava sob a própria ilusão, derrotado, acocorado num amontoado de cascalhos.

Itamar Vieira Junior, Torto Arado

Vamberto Freitas

      li o grande romance Torto Arado, de um jovem autor brasileiro nordestino, e que venceu o Prémio LeYa 2018, de nome Itamar Vieira Junior. É o regresso da brava literatura de um Brasil muito especial que começa a fazer história há muitos séculos, um pouco nos anos 30 dá-nos conta das suas mais variadas e cruéis realidades através de grandes autores e autoras, dos quais fazem parte alguns dos mais conhecidos em Portugal, e isso há poucas décadas, até que deixámos de virarmos as costas algo arrogantes (com as devidas excepções, como Arnaldo Saraiva)  à grande literatura do chamado país-irmão, mas que tudo já tinha recriado e renovado em termos literários. Vão aqui alguns desses nomes: José Américo de Almeida, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado. Menciono ainda, mesmo que seja sempre um nome controverso entre nós e eles, Gilberto Freyre, particularmente com sua obra sociológica, que mais parece um romance, Casa Grande e Senazala. Vêm agora novos autores de peso, que estão a renovar, a dar um brilhante passo literário em frente. Um desses herdeiros, este escritor de que aqui falo, com páginas ficcionais agora sem igual, ou pelo menos sem igual naquela geografia específica e difícil, que têm como referencial predominantemente  humano de uma economia ruralista historicamente injusta e cruel, por lá deixada por nós portugueses desde os tempos colonialistas e de roubo aberto e sem qualquer moral. Aqui está a sua representação genial. Por certo que os brasileiros já tiveram muito tempo para consertar as coisas, mas nunca o fizeram, e “o passado”, como diria William Faulkner “nem sequer é passado”. O autor deste supremo romance nem nos acusa e quase nem nos menciona. Reduz-se ao que veio depois, com algumas referências breves aos longos tempos da nossa chegada e permanência a uma terra grandiosa de grandes senhores privilegiados e ao resto que lhes serviam quase de servos animalescos nas gigantescas herdades do sertão, neste caso no interior da Bahia, ora de seca absoluta, ora do dilúvio das chuvas, de rios cheios de água e peixe, ou então secos, e nas cidade aonde viviam quase todos os donos de tudo aquilo. O narrador leva-nos desde os primórdios da colonização, neste caso em breves mas significativas alusões, até aos tempos modernos, à idade da revolta e de alguma mudança. Toda a herdade chamada de Água Negra (está entre dois rios, Santo António e Utinga) tem como referência inesquecível um trabalhador de apelido Zeca Chapéu Grande e a sua mulher Salustiana (Salu) Nicolau, com vários filhos, mas as duas personagens centrais são duas irmãs chamadas Belonísia e Bibiana, também suas filhas. Ante as inúmeras personagens que aparecem pelo meio, toda a acção do romance gira volta em destes quatro nomes, e ainda inclui a sua avó Donana, que lhes lega involuntariamente um objecto mortífero que para sempre mudará as suas vidas, e quase sempre para pior.

Não queria forçar aqui simbolismos desta prosa escorreita e riquíssima na polissemia das suas palavras e frases, mas não resisto nesta minha leitura de Torto Arado interpretá-lo como uma prosa coerentemente sustentada ou como uma longa metáfora de um Brasil histórico e moderno. Estamos no sertão baihano, a meados do século passado e em que a maioria dos trabalhadores, quase todos de descendência africana ou índia, trabalham de domingo a domingo sem receber qualquer pagamento em dinheiro, reduzidos a uma pobre casa de barro e a uns cantos de terra onde cultivam o essencial para a sua alimentação e o pouco peixe dos rios circundantes. Quase nunca avistamos os donos dessas terras, residentes que são, uma vez mais, de casas grandes na cidade e nos próprios campos de que são proprietários. Para entretenimento e culto apócrifa o trabalhador-chefe, Zéu Chapeu Grande, sempre debaixo de olho do capataz de nome Salutério, junta os vizinhos e outros das redondezas para uma festa em casa em que a “reza” se combina com o álcool. De resto serve de curandeiro e conselheiro de todos, reservando para si certo prestígio na pequena comunidade explorada e oprimida, vivendo no medo e na insegurança constantes. O romance abre com a tragédia que atinge quase o surrealismo com as suas duas filhas já mencionadas quando não resistem espreitar uma velha mala da avó e de onde tiram uma faca luzidia e com um lindo cabo de marfim. Não resistem a experimentar o seu sabor na boca, o que resulta acidentalmente num grande e definitivo corte na língua de Belonísia, que para sempre fica sem fala, e depende quase exclusivamente da irmã para interpretar e comunicar os seus sentimentos e desejos. O Brasil, pois, no seu estado de silêncio perante a tragédia que é o seu modo de vida naquela parte do país, assim como em muita da sua geografia ao centro e a sul, explorada por uma minoria sem consciência nem a menor solidariedade perante os que os mantêm ricos, poderosos e juízes não-oficiais de todo um povo. Está de regresso, pois, a ficção de denúncia e protesto embrulhado na mais fina arte literária destes últimos tempos, pelo menos em língua portuguesa.

“Passou a fala para respirar, – escrevem as narradoras irmãs, que falam das primeiras duas partes do romance, e acaba com um narrador desconhecido, que tanto pode ser um homem como um ‘espírito’, segundo alguns outros leitores críticos – recuperando o fôlego consumido com as suas lembranças. Consumido pela responsabilidade de se apresentar para defender o que restava da dignidade do seu povo. Olhou para os filhos, atentos ao lado de Belonísia, que conservava o corpo muito próximo das meninas, como um animal a defender as suas crias. Nesse instante, foi tomada por recordações desordenadas que a levaram à imagem de Severo”.

A terceira narradora, segundo as próprias intenções do autor, é a consciência e memória de toda história daquele povo, e chama-se Santa Rita Pescadeira. Dona Miúda, que morreu, também passou a “encarnar” outra “encantada”, uma das participantes nos ritos dos trabalhadores da fazenda, meio religiosos ou de crenças-outras e ancestrais, no sentido tradicional, com festa viva pelo meio. No fim da narrativa, quase já ninguém se lembra da última narradora, que conta toda a história daquele povo.

Severo teria sido o seu primeiro amor à distância, acabando por casar com a sua irmã Bibiana, tendo abandonado a herdade para ir à luta com outros trabalhadores em defesa dos seus direitos. Esta fase do romance faz lembrar o movimento dos Sem Terra, esses que desafiaram e desafiam os poderes rurais e instituídos. Quando a narrativa chega ao fim, todos haviam conquistado alguma coisa, até mesmo a primeira escola para os seus filhos e filhas, mas a estrutura da sociedade brasileira permanecia segura nas mãos dos grandes senhores detentores da terra e da política local, cedendo aqui e ali para apaziguar ou evitar uma revolta maior. Permanecia o antigo racismo: os negros tentavam identificar-se como índios para usufruir certos certos “direitos”, que já vinham dos tempos coloniais e da independência que se seguiu em 1822. De resto, tudo permanecia na mesma, mas a crucificação dos nordestinos continuava por todos os meios possíveis, secretos ou em aberto. Torto Arado, para além de tudo que fica aqui dito, não é um romance tão-só de medo, mas sim da bravura e força de todo um povo que parece condenado para sempre, é uma outra “afirmação da vida” e da esperança em melhores dias ou tempo por vir. Faz lembrar, como o já disseram outros, a obra-prima que é Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Itamar Vieira Junior, leio agora da própria capa do livro, é natural de Salvador, Bahia, geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos, “especialista sobre a formação de comunidades quilombolas”. Tem outros livros editados, especialmente de contos, A Oração do Carrasco, e publica nas mais variadas revistas literárias em países como os Estados Unidos e França, querendo tudo isto dizer que a sua ficção, nunca deixando de ser arte pura, vem com muita investigação formal e conhecimentos pessoais. Torna-se não só num imenso prazer da leitura como nos coloca no centro de vidas esquecidas e desprezadas por quem as comanda desde há muito, e provavelmente ainda sem fim à vista.  É um romance perfeito das nossas vidas actuais, pelo menos simbolicamente e de outra natureza, um pouco por toda a parte.

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Itamar Vieira Junior, Torto Arado, Lisboa, LeYa, 2019. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 20 de Setembro de 2019.

 

Alma, Portugal no seu melhor e pior

 

A minha mãe teve sempre para mim grandes desígnios. Quais eles fossem não sei. Nem ela própria o saberia. Era uma força que vinha de dentro dela, uma obstinação. Ela queria grandes coisas para mim, um destino, talvez um milagre.

Manuel Alegre, Alma

Vamberto Freitas

      Finalmente li o grande romance Alma de Manuel Alegre (Prémio Camões 2017, entre todos os outros grandes prémios literários portugueses ao longo da sua carreira), já na sua 16ª edição. Cada frase é um verso, cada passo narrativo um poema. Tem como tempo ficcional principalmente os anos 40, e a visão de um adolescente de 14 anos de idade e de uma família que o narrador diz ser “remediada” mas com boa vida, que testemunha a sorte de todos numa então pequena vila que dá o título ao livro, e toda a alegria e desgraça de um povo oprimido pela ditadura salazarista, romance símbolo de todo um país tanto ruralizado como citadino. Autobiográfico ou não, é toda uma “realidade” e um tempo que fica aqui brilhantemente retratado, ou então reinventa um mundo perfeitamente paralelo. Alma foi publicado originalmente em 1995, os anos em que eu andava totalmente dedicado à literatura açoriana e luso-americana, os meus anos da redescoberta das minhas raízes e estado existencial no meu país de origem após 13 anos na Ilha Terceira, onde nasci e me criei desenvolvendo já uma ideia das geografias físicas e humanas que desconhecia por completo, e depois 27 anos de América do Norte, onde me tornei homem, me formei na faculdade, seguidos de 14 anos no ensino secundário oficial da Califórnia. Um crítico ou ensaísta tem a obrigação de dizer de onde vem e como foi a sua mundividência moldada pela experiência pessoal e em directo. A literatura para mim nunca foi um acto meramente literário ou intelectual: foi o contacto possível com outros mundos desconhecidos, imaginados e sonhados, “realidades paralelas”, uma vez mais, que só nas artes têm a sua devida representação e que nos leva a um melhor entendimento tanto do artista como da comunidade a que pertence ou da pátria sua no seu todo dentro e fora de fronteiras delimitadas. Literatura e sociedade numa dialética constante. Há muito decidi elevar a obra e, quando é inevitável, castigar a sociedade de onde brotam as palavras em qualquer dos géneros literários cultivados pelo seu autor ou artista. Redescobri o meu país não através de formação e maturação ou revivências, mas sim através das letras. Quando, já nos anos 70, descobri e li com emoção Praça da Canção e O Canto e as Armas, de Manuel Alegre, ou as suas determinantes visões que nos levam a perceber tudo um pouco mais certo do passado e prevemos um certo futuro de um povo mais ou menos livre e uma sociedade aberta, foi-me mais do que decisivo: foi a descoberta que eu pertencia a um país com grandes poetas, escritores e pensadores, e que eu em breve redescobriria a liberdade e a dignidade. Nada menos do que isso, para além da poesia já aqui mencionada, que devo repetir, e neste caso só parcialmente, a Praça da Canção. Só muito mais tarde, e já de regresso definitivo ao meu país, descobriria alguma da sua poesia dos anos mais recentes, Senhora das Tempestades, e prosa, com destaque no meu caso pessoal, para  Uma outra memória: a escrita, Portugal e os seus camaradas dos sonhos .Falta-me agora ler Jornada de África e a restante obra, que vem a seguir, toda sua escrita parte central do cânone literário definitivo e nacional.

     Alma traz ainda como prefácio deste romance o texto de apresentação da primeira edição feita por Mário Soares, e que conclui com algo que me parece estranho: “Haverá a tentação de identificar Alma com Águeda”. Erro grave, julgo. Alma é um grande romance de genuína ficção, criativo, original, transfigurado”. Nunca soube muito bem porquê, mas os autores portugueses que conheço, pelo menos alguns deles, temem que interpretemos a sua ficção como sendo “autobiográfica”, ou como se isso diminuísse o seu alcance puramente artístico. Creio que foi Gabriel García Márquez que disse um dia que só se escrevia bem quando se escreve sobre que o melhor conhecemos, e esse conhecido sujeito-protagonista será cada um de nós. Até no ensaísmo não podemos fugir desse acto comunicativo. Neste caso de Alma, ainda por cima, vem assinado à mão no fim da narrativa por Manuel Alegre, depois de ele ter escrito “Águeda, 11 de Agosto de 1995”, e relembremos que o nome do narrador é Duarte Faria, sendo parte do nome completo do autor. O seu narrador é agora adulto e escritor que recorda a sua vida e a da família, assim como de toda vida do seu lugar naquele tempo, em analapses sustentadas que nos levam a vários períodos da nossa História nacional, mas concentrando-se insistentemente nos anos 40 durante e depois da II Guerra Mundial, também os dias implacáveis do salazarismo. Sua mãe, que ele relembra nas palavras que servem aqui de epígrafe, chama-se Mariana, e dedica-se exclusivamente a manter a casa da família em ordem, o seu único refúgio de quando em quando é limpá-la quase psicoticamente ou em fúria para esquecer o que vai na rua. Seu pai, Lourenço de Faria, originário de uma velha aristocracia que havia entrado na História do país, mas agora recordada só esporadicamente, a sua vivência limita-se a andar de espingarda na casa ou na brincadeira no seu quintal quando há zangas especialmente com a sua mulher e os outros portas adentro, e ele manda tiros para o ar num acto mais de humor e nunca de raiva. De resto Alma vive do futebol e dos cafés, a discussão quase sempre em volta da perseguição da polícia secreta de Salazar, que a dada altura centra-se nalgumas personagens da vila, governada por um Antoninho Pena, figura sob o suspeito dos restantes cidadãos aqui representados. O narrador vai observando tudo, as euforias do futebol (com violência pelo meio durante os jogos, como que numa metáfora e espírito do tempo), e ainda mais o medo atávico do governo fascista que tanto intimida como prende, tortura e mata os seus opositores. Estamos geograficamente mais ou menos no interior do centro de Portugal, outro símbolo do restante país naquela época política, e era preciso “domesticar” um povo até então livre e que aparentemente preferia de longe o caos da Primeira República ao autoritarismo que havia tomado conta do Estado que de “Novo” tinha pouco, herdeiro do absolutismo multi-secular de todo o nosso passado na preferia da Europa. É difícil e impossível não fazer uma leitura do próprio autor em cada uma destas páginas fulgurantes, ora irónicas ora de humor, com a sensualidade de um adolescente perante as criadas lá de casa e outras mulheres.

“Parti – diz o narrador no fecho do seu romance – de camioneta para Lisboa, já no fim de Setembro. Não sei se a manhã estava cinzenta e triste ou se foi assim que ela se gravou na minha memória. Como saber o que é e o que não é, o que se inventa e acrescenta e o que se corta e encurta. Senti um aperto na garganta ao passar a ponte. Olhei o rio, a nora, os salgueiros, os campos. Alma, dizia eu. Como quando era pequeno e dizia mãe”.

Alma é esse grande romance cuja adolescência já consciente ou entendimento precoce do seu lugar na sociedade era evidente, pormenorizada, em que cada detalhe nos leva a imaginar o seu dia-a-dia, as suas alegrias e medos, a sua indignação que mais tarde se converte numa vida de aventura e perigo. Não vale a pena falar aqui dos pormenores históricos ou do que foi após estas páginas, a sua entrada no liceu, a sua vida em Coimbra, a sua mobilização para a guerra em Angola e prisão, a fuga para a França, e eventualmente dez anos em Argel ao serviço da rádio da emissora Voz de Portugal. Basta lembrar as palavras da sua mãe fictícia que citei acima. Previa uma vida diferente e distinta. Foi concretizada em primeiro lugar na grande literatura da nossa geração, e depois na política. Este é um livro de ficção, sem dúvida. Só que para um leitor minimamente conhecedor do percurso do autor será impossível, uma vez mais,  não o associar a toda uma caminhada que fica, vai ficar, nos anais da nossa vida durante os piores anos de Portugal

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Manuel Alegre, Alma, Lisboa, Dom Quixote/LeYa (prefácio de Mário Soares), 2019. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de 13 de Setembro, 2019.