A crónica como ficção e ficção como crónica

 

Encosto a cabeça à parede branca; fecho os olhos. O som da viola envolve a noite e deixa um rasto suave, um rasto de saudade. É qualquer coisa que se desprende, que se despede…

Maria Teresa Horta, Quotidiano Instável/Crónicas

Vamberto Freitas

     Quando recebi o novo livro de Maria Teresa Horta os meus olhos brilharam ainda quando li o título Quotidiano Instável/Crónicas (1968-1972). Foram anos cruciais da minha vida nos Estados Unidos à beira do Pacífico, anos da mesma incerteza numa faculdade, sem esperar muito do futuro, que afinal viria a ser ameno, mas também turbulento. Foram os anos em que eu raramente pensava em Portugal, um açoriano inseguro (e por algum tempo sem a companhia de outro compatriota) entre mais de 30 mil alunos e em busca do seu lugar naquela grande sociedade. Em pouco tempo, tudo isso viria a mudar, a minha auto-confiança e um certo regresso a “casa”, à vida do meu país natal através de livros e jornais, e depois do 25 de Abril de 1974, já quase formado e prestes a iniciar a minha vida no ensino secundário oficial da Califórnia. Antes disso, já percebia que algo estava a ser “insinuado” em Portugal, que iria ser libertado em breve, ou pelo menos transformado numa sociedade um pouco mais aberta. A saga de As Novas Cartas Portuguesas, um livro de poesia, prosa poética e outras formas, publicado em 1972, levantaria um dos maiores escândalos internacionais da nossa memória, para além da guerra colonial em três frentes contra a oposição de praticamente o mundo inteiro, menos dos países hipócritas que nos forneciam armas e todo o tipo de ajuda mortal em África. Não segui de imediato a sorte das suas autoras Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. Não imaginam o orgulho que senti, quando a 2 de Fevereiro de 1975 vinha estampado na primeira página do The New York Times Book Review uma longa recensão ao livro que a grande editora Doubleday intitulava The Three Marias: New Portuguese Letters, as suas autoras retratadas na contracapa, e já ilibadas pelo regime que acabaria com a ditadura Salazar-Caetanista. Na capa dessa edição americana, entre outras muitas palavras, destaco as Edward Bailbay: “…de uma profundidade e beleza raramente igualada… trata-se de um livro com um ritmo que é constante, a sua pulsação de vida presente em todas as frases… uma obra prima”. Todos os leitores mais atentos sabem muito bem que esta obra foi inspirada pelas cartas da Mariana Alcoforado, que viveu nos séculos XVII-XVIII, e escreveria as famosas cartas a um oficial francês por quem se apaixonara. Não é, no entanto, o que quero abordar neste momento (se bem que ainda há poucos anos a escritora luso-americana Katherine Vaz dedicaria um longo romance à mesma figura, ao seu tempo e amor, precisamente intitulado Mariana nas versões em inglês e português. São as presentes crónicas que me interessam aqui, pelo momento em foram publicadas há décadas, pelo que prevêem na obra suprema da sua autora que viria até aos nossos dias.

Todas as crónicas de Quotidiano Instável vêm datadas, como está indicado no próprio título do livro, com a excepção do que a autora chama de “Antecipação”, e esta recua até 1963, como uma espécie de introdução a todas as páginas seguintes. Estes textos foram todos coligidos durante quatro anos e prefaciados por Ana Raquel Fernandes, que contou com a colaboração da própria autora. Por mais estranho que pareça, a prefaciadora afirma-nos que qualquer uma destas páginas serve de introdução a toda a obra de Maria Teresa Horta na poesia ou no romance. Estamos aqui em anos pré-transição para um regime que ninguém previa, e ainda mais vinda das próprias forças armadas. Não se lê a palavra “política” ou “regime” então no que nos parecia o seu pleno poder. Creio que poderemos sintetizar a temática que nos dá o fio condutor de página em página: sensualidade, saudade e solidão. Quanto à narradora, tanto nos aparece sempre sem nome mas identificável com a autora, ora dissimulada numa outra voz conforme a dor e a dúvida do momento. O estado dormente, ou “amordaçado”, como um dia diria Mário Sores, da sociedade lusa só nos é sugerido pelo estado em que vive quotidianamente uma mulher com desejos de cama, ou então sentada numa redação de um jornal. Quase todos estes escritos foram publicados originalmente naquela época no diário A Capital. Precisaria de um censor muito inteligente para topar as metáforas e simbolismos com que a autora nos segura à sua prosa. Não sabemos onde começa a “realidade” vivida ou a invenção de “ficções” várias. É um género que me parece sem igual entre nós, ou então cultivado por outros com muito menos imaginação ou habilidade literária. O que resulta daqui, pois, vai além do estado existencial da sua voz na primeira pessoa, abrange toda uma sociedade vivendo calada, ou olhando ruas e rio numa descrença e quase medo do que vê ou parece antecipar. Poesia e prosa, a alma humana a derramar-se ora no desespero ou na indiferença ou aceitação do Nada. Por mim, nunca tinha lido “crónicas” em que uma só voz se torna polifónica, falando de si e, suponho, de quase nós todos. Não tenho a certeza de que este livro apenas nos relembra o estado de ser numa determinada época. Se mudarmos as datas recuadas, pensaremos que a autora nos fala, de certo modo, dos nossos próprios dias mesmo que em liberdade plena e sem prisões políticas. Na aparente quietude do presente ferve em nós algo de muito semelhante, só que agora não temos de tornear os censores, que passaram, também me parece evidente, a residir dentro de nós próprios. Só que estas “crónicas” daqueles outros anos como que anunciam o que em poucos dias viria a público: a condição  feminina e feminista da sua autora e das suas mais próximas colegas literárias. Aliás, o livro termina com o texto “Fábula das Mulheres que Caminhavam no Deserto”, nem mais palavras seriam necessárias, estariam fora do seu lugar nesta obra.

“Sempre estrangeira – escreve a autora num dado passo acutilante – entre as pessoas,   aqui, só, sinto-me pertencer integralmente a alguma coisa: àquele ‘nada’ que se estabelece entre o sol e o mar e fica suspenso como uma lâmina brilha brilhante, raivosa.

É quando o cheiro do mar invade todo o corpo e me debruço sobre a praia, apoiada na balaustrada branca, a sorver ansiosa este hálito abrasado que uma ligeira brisa quebra junto dos lábios ressequidos.

Então lembro-me. Lembro-me mais desesperadamente do que em as ocasiões em que me lembro sempre. E Estás a meu lado, a tomares-me nos braços para o teu corpo: meu país de fertilidade e abundância”.

Toda a grande prosa e poesia oscila entre o pessoal e público. Se Maria Teresa Horta escreve com a paixão de sempre e a sua dor interior, escreve aqui do mesmo modo: com ironia, outra marca maior da sua escrita sobre si, sobre a sociedade ou comunidade em que, voluntária ou involuntariamente, está inserida pela sua nascença, pelo seu destino imbatível. Não é apenas uma resistente política, como o foi no tempo em que era imperativo sê-lo, é uma resistente literária, que de livro em livro, nos seus géneros de eleição, nos fornece um espelho estreito ou então deliberadamente alargado e distorcido para que cada um tenha a coragem de se enfrentar a si próprio ante, uma vez mais, o desejo, a saudade e solidão. É o seu e o nosso labirinto quotidiano, quase sempre, sim, mais instável do que seguro ou mesmo feliz. A voz liberta de uma mulher é igualmente a libertação dos homens, quando sabemos pensar e ter a força da liberdade e igualdade no mais profundo do nosso ser. Estas “crónicas” em nada estão ultrapassadas, mesmo que a autora faça questão de incluir as datas da sua publicação. Entre a numerosa obra da autora destaco aqui, pelas suas estórias interligadas, o romance  Ambas As Mãos Sobre o Corpo, de 2014.

___

Maria Teresa Horta, Quotidiano Instável/Crónicas (1968-1972), Lisboa, D. Quixote/LeYa, 2019. A tradução da breve citação de Edward Bailbay é da minha responsabilidade. Publicado na minha Coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 25 de Outubro de 2019.

 

Edmund Wilson contra Vladimir Nabokov

 

Num famoso ensaio, Ralph Waldo Emerson escreveu que uma ‘amizade era como a imortalidade da alma, bom demais para ser acreditada’… No caso de Nabokov e Wilson, foi isso mesmo.

Alex Beam, The Feud: Vladimir Nabokov, Edmund Wilson and the End of a Beautiful Frindship

Vamberto Freitas

     “Beautiful friendship/Uma Bela Amizade”? Ou uma amizade absolutamente inquinada por pate de Vladimir Nabokov (1899-1977), o célebre autor de Lolita (1955), Speak, Memory, The Real Life of Sebastion Knight, entre alguns outros livros, inclusive Pale Fire, que tive de ler num seminário pós-graduado e nunca mais voltei àquele jogo e puro gozo com o leitor. Alguns dos seus outros livros foram traduzidos do russo pelo próprio autor. Estou ainda para ler Vladimir Nabokov: The American Years, que também está na minha estante entre outros dele. Sem a mão de Edmund Wilson, quando Nabokov chega aos Estados Unidos em 1939, depois da fuga da União Soviética logo de início do regime e debaixo de fogo num barco rebelde e apoiante dos velhos aristocratas e outos dissidentes do novo Poder, com passagem breve pela Alemanha e França, com praticamente só a roupa no corpo e com poucos dólares na algibeira, provavelmente nunca teria chegado a nada em língua inglesa. Muito provavelmente não teria chegado onde chegou a lugar nenhum nos Estados Unidos, e definitivamente à grandeza literária internacional que conquistaria com a publicação do romance Lolita, que lhe permitiu a riqueza (os tempos eram outros) para o resto vida inteira, apesar do seu tema, pagando logo depois à América com uma nova fuga emigrante e agora legal, mas para um hotel na Suíça, onde viveu uns bons anos até ao seu falecimento, sem a ajuda generosa do eminente crítico canónico americano, de nome Edmund Wilson. A história da quebra da sua amizade tem tanto de caricato como de ingratidão. Mesmo assim, Nabokov tornar-se-ia cidadão americano em 1945, na época do tempo de grandes perigos e de pouca segurança. A história de Nabokov na América é uma de puro oportunismo e cinismo. Edmund Wilson tinha viajado em 1935 para a União Soviética, e passado alguns meses num dos seus hospitais devido a uma febre séria, nunca ter perdido a sua admiração pelo que ele chamava “O Quartel General da Humanidade”, tal o seu  respeito por Lenine, sobre quem escreveria pouco depois um livro que liamos na faculdade californiana por questões puramente literárias, To the Finland Station: A Study in the Writing and Acting of History (1940), no qual afirmava toda a sua admiração pelo então líder máximo do Kremlin, o intelectual supremo, mais do que o político. Vindo de uma família da velha aristocracia da Costa Leste americana (Nova Jersey), nunca deixou de se considerar um neo-marxista até ao fim da vida, com o desgosto do tempo estalinista, mas considerando, sempre, o sistema do seu próprio país como um dos mais injustos, dedicado à Guerra Fria e perpétua. Foi este proeminente crítico que deu a mão a um dos mais conservadores e arrogantes russos “brancos” que arribou repentinamente ao seu país.

Comecemos de novo. Edmund Wilson foi sempre um leitor e admirador da literatura russa antes da União Soviética. Há algum tempo atrás tinha criado amizade com alguns russos e russas, especialmente com Nicolas Nabokov, um compositor e primo de Vladimir Nabokov, já com nome feito nos Estados Unidos e na Europa. Quando Vladimir Nabokov chega à América de mãos vazias, uma vez mais, este seu primo implora a Edmund Wilson (1985-1972) que o ajude de uma de forma ou outra. Leu alguns dos seus livros sem grande entusiasmo, especialmente o original de Lolita (primeiro publicado em Paris, aquela cidade-luz tão aberta a tudo e a mais alguma coisa), que o deixou meio enjoado e sem qualquer simpatia pelo tema de um europeu de meia idade a seduzir uma menina atrevida, “a velha e decadente Europa”, como dizia um mestre meu em literatura na Califórnia, o símbolo, a menina, de uma nova nação a ser devorada pelo velho continente. Mesmo assim, reconheceu o seu talento e qualidade literária para contactar algumas das melhores revistas literárias (New Yorker, por exemplo) para aceitarem as suas críticas e ensaios, o que aconteceu da melhor maneira. Em seguida, Wilson manobrou a sua considerável influência para que publicassem o que viria a ser o seu famoso romance, que ele, Wilson, não tinha conseguido ler por completo no original, e ainda intercedeu para que ele desse aulas nalgumas das melhores universidades, e outra vez com sucesso. Quando Vladimir Nabokov chega à Universidade de Cornell já estava a trabalhar a fatídica tradução do mais venerado e reconhecido romance em verso de Elexander Pushkin, Eugénio Onegin (1833), que durou qualquer coisa como nove anos e tem como comentários de Nabokov muito acima de 900 páginas. O ensaísta contido e de prosa claríssima que era Edmund Wilson achou mais ou menos um escândalo de má tradução, ainda mais por ser uma tradução literal, com palavras em inglês que ele insistiu nem sequer existirem em qualquer dicionário, e desatou – o seu erro máximo – a querer dar lições etimológicas e de significados e ortografia da língua russa, de que Nabokov era  um mestre. A tradução de Puskin saiu em 1964, e a polémica acesa, arrebatada e algo insultante entre os dois rebentou como uma bomba que não mata mas acorda toda a gente, numa publicação de prestígio como a The New York Book Review. Um pouco depois, este combate intelectual passaria para outros periódicos, incluindo a famosa revista britânica Encounter, que mais tarde se saberia ser financiada pela CIA. Não vou aqui enumerar os detalhes de um ou outro, só reafirmar que as guerras literárias são por vezes de uma violência pouco dignificante à dignidade dos polemicistas, algo a que estamos habituados em Portugal, e em que cavalheiros e amigos perdem todo um passado de grandes momentos e diálogos intelectuais, como foi o caso de Edmund Wilson e Vladimir Nabokov. Este livro de Alex Beam, tão equilibrado e justo nos seus juízos e análises, coloca cada um no seu lugar.

 

“Mesmo nas décadas – escreve James Beam — depois da morte destes dois escritores, a controvérsia sobre a tradução de Onegin ocasionalmente sai do caixão. Em 1977, o ano do falecimento de Nabokov o aposentado diplomata britânico Charles Johnson publicaria que a tradução rítmica,e métrica encantou o jovem escritor Vikram Seth, que tinha retirado o livro de uma estante numa livraria de Palo Alto. Os dois acontecimentos não estavam relacionados. Parece possível que Vladimir Nabokov se teria dado ao trabalho de uma outra tradução de Onegin em inglês, com a sua imortalidade muito em dúvida.”

Seja como for, esta luta entre dois grandes gigantes literários, como alguém já os descreveu, de dois países tão distantes e diferentes, deixou poucos literatos indiferentes, pelas mais variadas razões. Edmund Wilson começou a publicar crítica e ensaio nas mais prestigiadas revistas do seu país, desde Vanity Fair, New Yorker e no inescapável The New York Review of Books depois da sua fundação em 1963. Formou-se na Princenton University e tornar-se-ia amigo de grandes autores, hoje também canónicos, como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, John Dos Passos e T. S. Eliot, só para mencionar aqui alguns dos mais conhecidos nomes entre nós. Foi talvez o único ensaísta que conseguiu viver só dessa escrita, que pouco vendia, mesmo quando depois coleccionada em livro. Wilson alternava a sua vivência entre Nova Iorque e a sua casa permanente em Cape Cod e uma velha e grande casa antiga, mais tarde por ele herdada da mãe, na parte norte do estado de Nova Iorque, e onde se refugiava pelo menos cada seis meses, dando testemunho dessa vivência rural em alguns dos livros. Publicou alguma ficção (I Thought of Daisy e The Higher Jazz) sem impacto, com uma excepção. Em 1946 faz sair Memoirs of Hecate County, um conjunto de histórias interligadas, e que ele considerava o seu melhor livro. Pelas cenas de sexo explícito, depressa o editor foi levado a tribunal, em São Francisco e Nova Iorque, e o livro teve de ser retirado das livrarias, já depois de lhe ter proporcionado uns bons milhares dólares e que lhe poderiam tornado financeiramente mais desafogado. Não foi uma figura fácil, mas foi de grande influência entre os seus pares.  Até mesmo entre a nova geração de escritores judeu-americanos, que começaram a pontificar a partir dos anos 30, olhavam-no com a maior admiração e respeito. Wilson lia várias línguas, e no seu livro de ensaios The Triple Thinkers já tinha escrito precisamente sobre Alexander Puskin e a sua obra-prima que que Nabokov viria a traduzir à sua maneira. Continuaram a corresponder-se, mas nunca mais seria com aquela profunda amizade do início. Resta só dizer que Edmund Wilson continua a ser biografado muito mais do que os grandes escritores sobre quem escreveu ao longo da sua vida.

____

Alex Beam, Edmund Wilson and the End of a Beautiful Frienship, Pantheon Books, New York, 2016. Todas as traduções aqui são minha responsabilidade. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 18 de Novembro, 2019.

 

 

 

 

 

 

Tarrafal, ou comer o pão que o diabo amassou

 

Quando se perde o equilíbrio, o mundo desaba, ficamos mais numerosos, mais nervosos, e com muito mais cotovelos.

Mário Lúcio Sousa, O Diabo Foi Meu Padeiro

Vamberto Freitas

      Estou em falta injustificada para com a literatura dos países de língua portuguesa em África. Ando desde sempre entre as literaturas portuguesa (incluindo muita escrita açoriana em vários géneros), Estados Unidos onde fiz toda a minha formação no ensino superior, e depois um pouco do Brasil pela minha área de Estudos Latino-Americanos e Inglês. Quando recebi o romance do escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, O Diabo Foi Meu Padeiro, publicado este ano, não resisti à leitura sistemática ou sequencial quando o abri pela primeira vez. O autor tem outras obras literárias na poesia e narrativas, que mencionarei mais adiante, assim como tem sido um distinto “compositor”, multi-instrumentalista e estudioso da música tradicional tendo colaborado com alguns dos nomes mais proeminentes da música brasileira, portuguesa, africana e americana. Trata-se aqui de uma história do Campo de Concertação do Tarrafal, na ilha de Santiago, e chamado pelos próprios Presos Políticos como “Campo da morte lenta” entre 1936-1954, enquanto o governo salazarista o chamava simplesmente de “Colónia Penal” construído, repita-se, em Outubro de 1936, três anos após os primeiros campos de concentração nazis a partir de 1933 dentro da própria Alemanha, pouco depois de Adolfo Hitler assumir o poder, e mandar para lá os alemães dissidentes, comunistas, certas etnias como os ciganos, e outros pertencentes a determinadas religiões ou seitas, como as Testemunhas de Jeová, ou de orientações sexuais fora do que eles consideravam a norma. Sabemos todos que um inferno muito mais mortífero e cruel chegaria com a invasão da Polónia em 1939, que inicia a II Grande Guerra. Após a leitura integral deste romance de Mário Lúcio Sousa, é difícil não considerar o Tarrafal (construído na terra natal o seu autor) na mesma linha de crueldade e indignidade, menos as câmaras de gás que ceifaram a vida de milhões de judeus e outros no continente europeu. Num determinado passo o narrador do presente livro tem uma frase mais ou menos como esta: não matavam, morriam-nos, se alguns foram fuzilados outros iam acabando a vida pela falta de alimentação minimamente aceitável ou por doenças que muito raramente eram assistidas por enfermeiros ou um ou outro médico indiferente quando eram transportados para a cidade da Praia, hoje capital do país, e na qual o autor tem exercido os mais altos cargos no estrangeiro e no país, empossado como Ministro da Cultura em 2011. Tudo isto para dizer que este livro é de um equilíbrio difícil de conseguir após séculos de fome mortal e opressão política que Portugal sempre impôs às suas colónias. Nem uma palavra ou qualquer passo mais desenvolvido demonstra um naco de anti-portuguesismo. A História acaba por se distanciar de nós, mesmo que nunca deva ser esquecida.

     Mário Lúcio Sousa fez investigação aturada sobre tudo isto, e vai ao ponto de no fim do romance dar-nos uma lista completa de todos os prisioneiros que estiveram naquele inferno do Tarrafal, o maior número sendo de portugueses do continente e alguns das ilhas, pois os barcos que os transferiam das prisões portuguesas faziam paragens na Madeira e nos Açores, para libertar uns poucos, mas mais frequentemente para embarcar outros dissidentes. O narrador omnisciente afirma que o maior número de sofredores foram os dissidentes portugueses, quer fossem comunistas ou não. Bento Gonçalves, figura destacada do PCP já nos anos 30 acabaria por sucumbir naquela prisão. Noutra página o mesmo narrador refere que os cabo-verdianos nunca esqueceram que tinham origens mistas, africanas e europeias. Não há ódio nestas páginas, só um relato um tanto distanciado do dia-a-dia dos prisoneiros e do seu sofrimento juntos ou numa cela solitária que chamavam de “frigideira”. As celas eram tão pequenas que quase faziam os seus habitantes viver de cabeça baixa e a rastejar. Quem pronunciasse a palavra “independência” nunca mais saía de lá e os castigos redobravam. Perante tanto atentado à dignidade humana, mesmo assim o narrador afirma que um dos dias mais tristes foi quando receberam a notícia que Amílcar Cabral tinha sido assassinado pela PIDE aos 41 anos de idade, a 20 de Janeiro de 1973 (estou agora fora do texto), o que levaria o General António Spínola a exclamar “Estamos tramados”, e pouco depois, a 22 de Fevereiro de 1974, o levaria a publicar o contundente Portugal e o Futuro que faria prever que algo mais estava na manga de muitos para o nosso país. Antes de tudo isto, eu já tinha lido na longínqua na Califórnia The Liberation of Guiné (quase todo ele uma biografia de Amílcar Cabral e da luta do PAIGC, com várias fotografias do líder e de outros combatentes nacionalistas) da autoria de Basil Davidson, então um dos mais reconhecidos especialistas sobre o colonialismo em África, e que me fora oferecido por uma professora em 1973, com a seguinte dedicatória: “for the liberation of Guiné, Portugal and the U.S.!/pela libertação da Guiné, Portugal e dos EUA!”. Ler O Diabo Foi Meu Padeiro trouxe-me tudo isto à memória e a grande ficção, como já escreveu o crítico-mor da New Yorker James Wood no seu livro de ensaios The Nearest Thing To Life, que o leitor se metesse “por dentro do texto” em análise, e deixasse as suas próprias palavras escorrerem para melhor percebermos a escrita alheia. A prosa deste romance é linear, com analepses pelo meio, escorreita com o seu realismo puro e com as suas metáforas e simbolismos, toda ela puxando o leitor para si, fascinado com o pormenor de cada estória e das personagens, mas que na realidade existiram, muitos deles safando-se da sentença ou transferidos para as suas terras, só que transfiguradas. O autor termina o seu romance com uma lista completa de todos os prisioneiros do Tarrafal, a quem dedica o livro, uma vez mais, portugueses, angolanos, guineenses e cabo-verdianos, estes em números mais reduzidos. Descreve ainda a miséria fora das paredes e portões, a fome de todos que os levavam à morte, muitos deles enterrados vivos pelo prémio oficial das autoridades oferecido a quem enterrasse um “morto”. Dentro da prisão, vamos conhecendo a data da morte de gente nova, muito nova, e a de outros mais batidos na vida. Caxias, Aljube, Peniche, Trafaria e Tarrafal. As virtudes de uma ditadura que muitos ainda dizem ter sido branda e meramente autoritária, não fascista.

“Eu me vi naquele momento, — diz o narrador no último parágrafo narrativo sobre a sua libertação – o homem mais solitário do universo. Senti duas pernas de água a descer-me cara abaixo. Essas pernas levaram-me dali.  tive a Rosa nas mãos, Fernanda no peito, sorri para as duas, e partilhei com elas a maior sensação de liberdade que jamais pude viver. Voei, voei. Nunca mais meus pés tocaram o mesmo chão. Quando desci à Terra deixei propositadamente ali o meu corpo, para que dele os esbirros fizessem o que lhes desse na cuca, seja tortura, feridas, pó. Porque aquele corpo que eles maltratavam já não era meu. Não o queria mais. O meu espírito fora demasiado longe com a Rosa, e eu já não era daquele Mundo. A minha liberdade se tornara luz, a luz tornara-se liberdade, ambas lindamente incorporadas numa linda criança germinada numa escura e abominável prisão”.

São poucos os livros que numa prosa brilhante nos recriam a história, transformam o nosso entendimento do passado, por mais longínquo que seja, dão-nos a sensação que vivemos com as personagens, no caso de “ficção” como a de O Diabo Foi Meu Padeiro. Já alguém escreveu que a política divide os povos mas cultura une-nos a todos. Aqui está um perfeito acto literário de revisionismo histórico à maneira pós-modernista, e que nos conta o resto, sem acusações a todo um povo como o nosso, ficando-se pelo regime que nos guiava com toda a sua cegueira ante tudo e a todos.

 

___

Mário Lúcio Sousa, O Diabo Foi Meu Padeiro, Lisboa D. Quixote/LeYa, 2019. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 11 de Setembro de 2019.

 

 

 

 

 

A Condição Existencial De Um Romancista Homossexual Americano

Tenho estado no Japão, nunca tinha ido à Índia, ou a Marrocos ou à Alemanha, ou a muitos lugares para onde Arthur Less iria de viajar nos próximos meses. Nunca subi uma pirâmide antiga. Nunca beijei um homem num telhado em Paris.

Andrew Sean Greer, Less

Vamberto Freitas

     Less é o titulo deste romance norte-americano, vencedor do Pulitzer Prize 2018, e é o último nome de Arthur, o seu protagonista. Escritor que se sente falhado e prestes a fazer 50 anos de idade, o narrador aqui sem nome tem como referencial geográfico e humano os países mencionados na epígrafe deste meu texto (é ele que fala nesse instante) em que seguimos as suas andanças numa série de conferências internacionais. No estrangeiro, como acontece tantas vezes com certos escritores, era mais apreciado do que no seu próprio país, especialmente com uma outra peça de ficção intitulada Dark Matter, mas o seu mais recente original tinha sido determinantemente rejeitado pelo seu editor, o que o levou em fuga aproveitando o nome e o prestígio que já tinha na sua carreira. É residente em São Francisco desde os anos 80 após abandonar a sua terra natal do outro lado continente, Delaware. Estamos nos primeiros anos da Sida, que ceifava vida após vida, sem cura à vista. Less vive em São Francisco entre os da sua idade, então um grupo de amigos, escritores e artistas vários que se haviam refugiado na cidade californiana mais tolerante para com aqueles que tinham nascido ou optado por orientações sexuais fora da heterossexualidade. Acompanhos todos nas suas vidas diárias, e nas praias locais que tanto juntavam homens e mulheres com estilos de vida ora convencionais, ora de outra natureza. Há algo de muito especial neste premiado romance: a sua linguagem nunca cai nas descrições do acto sexual, segue simplesmente, uma vez mais, o estado existencial do seu protagonista, que teme a viragem de idade para os 50 anos, muito menos dos que os seus falhanços literários. O narrador, como também insinua num passado citado aqui, parece também homossexual, mas não diz nunca o tema principal do seu romance. Para além do mais, o leitor vai seguindo Less nos países que visita, alguns depois de por lá passar alguns anos antes com amantes mais velhos e das mesmas orientações homossexuais, tomando nota das diferentes maneiras de ser e estar nessas outras realidades nacionais, contrastando o respeito e admiração que recebe dos seus anfitriões enquanto se passeia nas várias cidades para onde foi convidado, e tudo numa linguagem que oscila entre um realismo puro e duro e um eloquente liricismo quase  poético, nunca cedendo a condescendências perante uns e outros. Quando Less regressa meses depois à sua residência em Vulcan Street, numa daquelas colinas de São Francisco, já é um homem mudado, mais calmo na aceitação da sua idade e nos falhanços literários dos últimos anos. Mantém uma série de amantes locais, de idades diferentes, mas a partir de aí fica só a nossa imaginação sobre a sua sorte futura.

O romance está estruturado com os anos de São Francisco, e depois segundo cada um dos países que vai visitando como convidado literário de prestígio. Desse modo, o narrador vai abordando as idiossincrasias de cada um deles, como que a querer dizer que há mais mundo para além do medo e do grande continente americano. Se um dia, como diziam alguns críticos, a literatura americana era algo provinciana, esta nova geração de escritores e da era digital não hesita nunca em atravessar fronteiras, e recusa o mal-dizer dos estilos de vida dos outros. Saído o ano passado, poderíamos muito bem interpretá-lo como um perfeito e total contraponto à “nova” América”, num respeito absoluto pela diferença de todos géneros e hábitos culturais. Humor, ironia e prosa, uma vez mais, quase poética contrapõem-se às linguagens político-culturais da actualidade do seu país. Na Califórnia, Less tanto tem amantes e amores anglo-americanos como com mexicanos ou latinos, mulheres que toleram as mudanças dos seus maridos, respeitando-os tanto eles como os seus amores ou meros encontros masculinos. Less acompanha a partir do Japão os últimos dias da vida após um AVC do seu grande amor, de nome Robert Brownburn, cientista e muito mais velho. Tinham-se separado há uns anos, mas o narrador parece querer insinuar que a vida é redonda, e, aproximando-se um fim real, imaginado e temido, regressamos inevitavelmente aos momentos mais marcantes das nossas vidas. Este não é um romance propriamente sobre outras orientações sexuais, muito menos sobre pormenores de cama. É um romance sobre a natureza do amor e dos seus momentos mais felizes e infelizes. Por outras palavras, cada um de nós se revê nos abalos interiores dos seus personagens mais destacados. Uma das formas (já antigas) da ficção americana parece sempre um regresso ao realismo psicológico de um passado ainda não muito distante, mas que marca toda a estrutura da sua arte literária: linearidade aqui e ali interrompida por analepses que nunca nos deixam confundir os tempos ficcionais que nos são apresentados. Aliás, toda a narrativa deste livro parte do presente para os anos de fulgurância e produtividade ou boa vida das suas personagens. Não temos nestas páginas só as suas histórias, sobressaindo ainda toda a condição humana vivida nestas décadas mais recentes, a história do país sempre insinuada a cada passo, a cada insinuação de que como foi viver ou sobreviver os anos incertos e pessoalmente atribulados que continuam, agora mais do que nunca, a ser os nossos na generalidade.

“Tal como Proust, — escreve o narrador – ele sabia que o fim estava por perto. Quinze anos, e a alegria do amor já há muito tinha esmorecido, e a traição tinha começado: não eram simplesmente as aventuras periódicas com outros homens mas o segredo desses relacionamentos que decorreram de um mês a um ano e acabaram com tudo à vista. Estava ele a experimentar quanta elasticidade poderia ter o amor? Era simplesmente um homem que tinha de boa vontade entregue os seus anos mais novos a um homem mais velho e agora, chegando ele próprio a essa meia-idade, queria voltar à fortuna que tinha atirado ao vento? Queria sexo, amor e brincadeira? As mesmas coisas de que Robert lhe tinha salvado tantos anos atrás?  Quanto às coisas boas, tal como a segurança, conforto, amor – Less encontrava-se a esmagar em pedaços tudo isso. Provavelmente não sabia o que estava a fazer; provavelmente ele não sabia o que estava a destinar. Ou talvez sabia. Provavelmente estava a incendiar uma casa na qual já não queria viver”.

O autor de Less (cujo significado quer dizer literalmente Menos) não lhe deu esse nome aleatoriamente. Poderá querer dizer-nos que todas as nossas vidas deixam de fora as fantasias da juventude, quando tudo nos parece possível e julgamo-nos imortais. Suponho que qualquer leitor deste romance, em qualquer parte do mundo, se vai reconhecer nesta vivência diferente, retirando de imediato as conotações sexuais com as quais podem simpatizar ou não. É a nossa humanidade que domina este romance.

Andrew Sean Greer, que também vive em São Francisco, tem já no seu currículo literário obras como The Confessions of Max Tivoli, que foi considerado pelo San Francisco Chronicle e pelo Chicago Tribune o melhor livro do ano em 2014, e ainda The Impossible Lives of Greta Wells e The Story of a Marriage, De resto, tem recebido inúmeros prémios prestigiados pelos seus contos, e recebeu o National Endowment for the Arts e o reconhecimento igual pela New York Public Library e o The California Book Award. De página em página vai fazendo chamamentos a diferentes escritores americanos e de outros países e línguas. Quero com esta lista parcial apenas chamar a atenção para uma nova voz da literatura americana contemporânea, e que não passe despercebido entre nós. A editora Quetzal traduziu e publicou, em 2019, o romance, mantendo o mesmo título. Foi mais do que justo, foi de certo modo uma outra homenagem ou oferta a alguns leitores portugueses mais virados para a grande literatura mundial.

___

Andrew Sean Greer, Less, Abracus/Little, Brown and Company, London, 2018. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade. Peço desculpa aos meus leitores por ter insinuado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental de  4 de Setembro que Less ainda não tinha sido traduzido para a nossa língua.