Eugénio Lisboa e o ensaísmo literário contemporâneo

 

 

 

 

 

Veja-se o vigor com que o passado vem, expulsando o presente chato e cinzento, matando, sem escrúpulos, esse presente, para que possa ele próprio reivindicar um estatuto de perenidade.

Eugénio Lisboa, Uma Conversa Silenciosa

Vamberto Freitas

     Leio Uma Conversa Silenciosa, um conjunto de ensaios destes anos mais recentes de Eugénio Lisboa. Lê-lo é como ter uma sala cheia dos melhores escritores portugueses, norte-americanos, ingleses, franceses, espanhóis, alemães, e até de África, Japão e Brasil, todos numa sala em diálogo literário e cultural uns com os outros. Considero-o um dos meus mestres na crítica e ensaísmo, que me provoca uma certa “angústia da influência” de que falava Harold Bloom. É inimitável na sua grandeza neste tipo de prosa, o mestre que combina o puro prazer do texto com as mais astutas análises e afirmações sobre livros, teatro e outras artes deixando em expectativa de página a página todos os seus mais atentos leitores, o que dira sobre um certo poeta ou escritor, ou então as suas viagens por vários continentes aonde visita museus, vê teatro, e trava conversas com as mais variadas figuras, desde o mundo anglófono, (literatura norte-americana e inglesa) e francófono, com a França no centro, sempre com a sua memória de África, tendo nascido em Lourenço Marques e vivido durante boa parte da sua vida já adulta, como o já contou em sucessivos livros de memórias e diários, assim como na África do Sul, também sempre com inesperadas e inúmeras citações pelo meio que reforçam as suas ideias e saberes. Não esquece nunca um único autor que leu sobre todas as paragens, com especial carinho pelos seus já falecidos amigos, como os distintos e geniais poetas de língua portuguesa, Rui Knofli e Alberto de Lacerda, entre alguns outros, incluindo memoráveis ou detestáveis professores desde o ensino secundário aos estudos superiores no Instituto Técnico de Lisboa nos anos 50, onde se formou num ramo técnico, mas que nunca condicionou a sua dedicação à literatura universal. É uma obra prima do género entre nós, repito-o quantas vezes for necessário, esta Uma Conversa Silenciosa. Eugénio Lisboa tem algo que me falta. Desde há anos que decidi só ler os livros de que gosto, e chegado à terceira ou quarta página sem consolo literário, deixo-os de lado, e não digo mais nada. Ele não tem qualquer hesitação em encostar um escritor ou escritora à parede, por assim dizer. Aqui há uns poucos tempos António Lobo Antunes fez uma declaração ao grande jornal espanhol El País sobre Fernando Pessoa insinuando que não tendo nunca feito amor, bom, pelo que se diz ou imagina, não poderia ser um bom escritor ou poeta. A resposta de Eugénio Lisboa não se fez esperar. Deu-lhe uma tareia no JL com todos os nomes sobre um rol de grandes escritores internacionais com uma vida semelhante, e chamou os bois pelo seu nome. Só a autoridade de um grande crítico ou ensaísta permite esta audácia literária “sem medo nem favores”. A minha admiração e “inveja” subiu consideravelmente pela sua audácia e mestria.

     Uma Conversa Silenciosa distingue-se pelas mais variadas razões referentes ao género. Primeira, vem em defesa dos seus autores de eleição, que em Portugal são muitos, mas com destaque aberto para José Régio, de quem tem sem dúvida a maior autoridade conhecedora da sua obra, e de seguida Jorge de Sena, esse grande poeta, ficcionista e ensaísta que abandonou Portugal quando se sabia perseguido pela PIDE, rumo ao Brasil onde deu aulas na Universidade de São Paulo no polo de Araraquara, sempre sofrendo as invejas de colegas brasileiros (ainda não tinha doutoramento), e depois da ditadura que tomou conta do Brasil em 1964, mudou-se para os Estados Unidos, começando na Universidade de Wisconsin e logo a seguir transferindo-se para a Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, já doutorado e senhor do seu destino, tendo falecido aí em 1978. Eugénio Lisboa também se tornaria um dos seus estudiosos  e admiradores, o que no nosso país nunca foi inteiramente reconhecido, assim como acompanhou atentamente a vida e obra de José Rodrigues Miguéis, que viveu a maior da sua vida no coração de Nova Iorque, e igualmente com Portugal sempre na alma e na sua obra, mesmo quando escrevia sobre imigrantes e outros habitantes da grande metrópole. Nunca conheci crítico ou ensaísta português com o conhecimento da obra universal de tantos países e respectivas línguas, ou um mestre na citação de todos como reforço às suas próprias afirmações ou juízos críticos, a favor ou contra. Citá-los todos aqui seria fazer um livro inteiro. Basta ler estas página para ficar intelectualmente meio intimidade. Desde os nomes já aqui citados, adicionemos alguns outros, que vão desde Manuel Alegre, Urbano Tavares Rodrigues, que eleva às alturas apesar das divergências ideológicas, a Cesário Verde e a ao inevitável David Mourão-Ferreira. Eugénio Lisboa não simpatiza nada com o New Criticism americano, o que quer dizer simplesmente que a biografia de um autor também interessa-lhe muito. Qualquer obra se auto-sustenta, mas a biografia do seu autor não pode ser esquecida, vale ainda mais se estiver ligada ao percurso e andanças do seu autor. No entanto, desde Onésimo T. Almeida, Alfredo Margarido a Luís Amaro, as afinidades literárias e afectivas ou se confundem ou convergem entre a pessoa e a obra publicada. Toda esta suprema escrita é só possível a quem nada deve, e a ninguém teme. Nem dos políticos, nem sequer se esquece da televisão, e raramente pelas melhores, quase sempre pelas piores razões.

“Uma das grandes características – escreve Eugénio Lisboa sobre o poeta Alberto de Lacerda, este hoje quase desconhecido em Portugal – mais atraentes da arte deste fabbro´´e a tensão que, nele, vai constantemente existindo entre este excesso ‘romântico’ e o mais rigoroso governo dos constrangimentos que a grande arte clássica recomenda: esta tensão sublima-se, de modo grandioso, na sua colecção de Sonetos, editada em Veneza, em 1991 – uma das mais belas colectâneas desta forma poética – o soneto – que entre nós se publicaram: uma forma exigente, que Godeau, bispo de Vence, insinuava não ser o soneto coisa deste mundo”.

Para além do que já disse neste texto, resta agora relembrar a sua prosa escorreita, clara, rejeitando, sempre, o falso jargão académico e as também supostas e variadas teoria da literatura, particularmente a partir dos anos 60, vindas da França e da academia norte-americana. Sei, como já referi, o chamado New Critcism (pensado e teorizado nos anos 40 por escritores e académicos sulistas como que em resposta aos preconceitos literários nova-iorquinos perante alguns dos mais geniais autores herdeiros da derrotada Confederação), que rejeitava toda e qualquer referência à biografia ou historial literário de um autor. Cada livro era um livro, e teria de ser analisado e julgado, repita-se, pelo seu próprio texto. Aceito parte dos argumentos de Eugénio Lisboa: o conhecimento de um percurso pessoal e artístico ilumina qualquer ficção ou poema seja de quem for ou vier. De resto, muito poucos entre nós têm a sua capacidade de nos apresentar uma peça literária, repito, sem ofuscações, e muito menos sem a falsa erudição do melhor que se publica nas línguas da sua eleição. Não vou enumerar aqui os inúmeros reconhecimentos nacionais e internacionais que Eugénio Lisboa tem recebido ao longo sua carreira pela volumosa quantidade e qualidade da sua obra entre nós. Basta lembrar neste momento que também publicou há alguns anos a poesia sob o título de matéria intensa, que receberia o Prémio Cidade de Lisboa, e ainda receberia o grau de Doutor Honoris Causa das universidades de Nottingham (Grã-Bretanha) e da Universidade de Aveiro. Não menciono estas factos para engrandecer Uma Conversa Silenciosa de Eugénio Lisboa. Admirável, este escritor português para quem as suas origens moçambicanas nunca são esquecidas em qualquer um dos seus escritos, nem de autores portugueses ou estrangeiros. Nunca rejeitou as suas raízes, nunca deixou de ser um grande escritor do mundo.

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Eugénio Lisboa, Uma Conversa Silenciosa, Lisboa, Imprensa Nacional, 2019. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental a 15 de Novembro, 2019.

 

 

Do bravo mundo em que vivemos

 

 

 

 

 

Oleg Gordievsky continua a viver uma vida dupla. Para os seus vizinhos suburbanos, o homem curvado de barba que vive tranquilamente atrás de sebes altas é apenas mais um reformado idoso, uma pessoa pouco importante. Na realidade, é uma pessoa totalmente diferente, uma figura de profunda importância histórica e um homem notável: orgulhoso, inteligente, irascível, com a pensativa expressão iluminada por clarões súbitos de irónico humor.

Ben Macintyre, O Espião E O Traidor

Vamberto Freitas

     Tenho tantos livros na minha secretária, de escritores açorianos, continentais, americanos, brasileiros e de outros autores que me não são desconhecidos, que levei a tarde inteira a decidir qual seria o próximo para a minha leitura e escrita. Vou ser perservo, sem esquecer os outros. Acho que vou ler um livro completamente fora da minha habitual esfera: O Espião E O Traidor, de Ben Macintyre. Dizem eles na capa que é “A Maior História de Espionagem da Guerra Fria”. John Le Carré: “A Melhor História Real De Espionagem Que Alguma Vez Li”. Basta, vou a ele, e aprender coisas, e ainda odiar mais o mundo que nos foi legado. Lembro-me de ler no início dos anos 70 um dos livros de John Le Carré, creio que Tinker, Tailor, Soldier, Spy, e um recenseador maldisposto afirmou que a Grã-Bretanha ainda se pensava um grande império, mas que os seus serviços secretos já tinham perdido toda a sua importância, tal como o resto do país. Errou redondamente. Na verdade, a União Soviética parecia prestar mais atenção à ilha a norte e no coração atlântico da Europa do que suspeitava o referido crítico, pelo menos a partir dos anos 80 até aos nossos dias. Poderia o então o KGB prestar a mesma atenção e perfídia à CIA, mas a sua obsessão quase doentia era o MI6 em Londres, pelo seu também substancial arsenal nuclear britânico e a proximidade das suas fronteiras. A infiltração mútua era contínua, e o medo de um disparo nuclear vindo da própria Europa armada era uma obsessão da liderança no Kremlin. Os serviços secretos dos dois lados partilhavam os traidores, particularmente depois da fuga para Moscovo do mais famoso espião inglês, Kim Philby, deixando atrás “associados” ligados a várias universidades e comunistas convictos. A CIA, uma vez mais, parecia mais um grupo de amadores do que a temida e bem mais fornecida agência de espionagem da União Soviética. Não é sobre este facto que se debruça o livro O Espião E O Traidor, mas sim sobre o mais especular espião duplo, já aqui referido. Vindo de uma família de mãe religiosa mas também de um pai que havia prestado os maiores serviços secretos à União Soviética, passou a odiar o regime totalitário quando foi colocado na Escandinávia, Dinamarca e Noruega. A partir dessa experiência de abertura e liberdade europeia tornou-se um agente duplo, que viria a causar os maiores danos a Moscovo, que estava convencido de um breve ataque nuclear preventivo por parte da Inglaterra, ou dos seus aliados. Pelo que nos diz o presente autor, estivemos entre 1982-83 à beira do temido Armagedão.

Podem perguntar porquê leio um livro destes. A resposta é simples: aprendemos com estes textos biográficos (ou auto-biográficos), muito mais do que em monografias históricas académicas. Têm todos a ver, estes livros, com o esclarecimento da literatura do nosso tempo. Quando me dizem que um Coronel do KGB lia William Shakespeare e George Orwell, entre outros autores proibidos na União Soviética, e que ele mantinha mais ou menos escondidos, dizem-me tudo. Quase toda a literatura do nosso mundo trata ou alude ao estado perigoso do nosso planeta. As sociedades em decadência estão em perigo, e isso inclui a nossa suposta geografia de liberdade e supostos “privilégios”. Pode Oleg Gordievsky ter sido um eminente espião traidor, mas nunca neste livro nos livramos da paranoia dos soviéticos, repita-se, ante a possibilidade de um ataque mortal para nós todos. Foram eles que mantiveram a calma, e nos livraram da catástrofe. A história aqui contada do seu agente traidor é mais do que aliciante. O modo como acontece o seu resgate naturalmente secreto da União Soviética é por demais aliciante, mas encobre as verdadeiras preocupações do Kremlin. A Inglaterra também tinha ao mesmo tempo os seus traidores. A certa altura, eles, infiltrados na União Soviética, tiveram uma sucessão de velhos líderes, a velha guarda, cujos nomes são demais para mencionar todos aqui. Depois chegou Mikhail Gorbachov, e tudo mudou. Sabia que o seu país não poderia competir com o Ocidente no desenvolvimento de armas devastadoras e mortíferas, seguindo-se o Glasnot e a Perestroika (abertura e reestruturação). Hoje, se a nova Rússia é corrupta, a nossa parte do mundo não lhe fica muito atrás em nada. Desde o futebol à classe política e financeira, estamos quase tão sujos como eles. Estávamos nesses anos fatídicos após a crise dos misseis cubanos sob um pleno Big Brother, que Orwell havia previsto e de certo modo avisado. A verdade é que o Ocidente conseguiu a colaboração em cheio de um dos mais importantes agentes secretos do outro lado, o que talvez tenha ajudado a desviar-nos da catástrofe total para a humanidade. Seguiram-se expulsões “diplomáticas” de lado a lado, deixando um vazio que sem dúvida contribuiu para melhor controlar uma situação explosiva a todos os níveis.

“Burton Gerber, — escreve o autor deste livro a dada altura, num capítulo apropriadamente intitulado ‘Roleta Russa’, e agora mudando a acção para Washington – o chefe da secção soviética da CIA, era um especialista no KGB com vasta experiência operacional na guerra da espionagem com a União Soviética. Nascido no Ohio, era um homem alto e magro, assertivo e perseverante, e pertencia a uma nova geração de funcionários dos serviços secretos americanos que estava livre da paranoia do passado. Ele estabeleceu as chamadas ‘Regras Gerber’, que determinavam que todas as ofertas de espionagem para o Ocidente deviam ser tomadas a sério e todas as pistas investigadas. Um dos passatempos mais estranhos de Gerber era a observação de lobos, e havia alguma coisa claramente vulpina na forma como ele caçava as suas presas do KGB”.

A parte mais dramática de O Espião E O Traidor vem nos últimos capítulos quando os soviéticos descobrem a traição dupla de Oleg Gordievsky, e o MI6 tem de o retirar de Moscovo, numa operação a que deram o nome de PIMLICO; saído escondido num porta-bagagem num dos carros desses serviços secretos, via Finlândia e outros países amigos e da NATO. Deixou para trás, teve de deixar, a mulher e a filha, que lá permaneceram em prisão domiciliária durante anos até mais tarde as deixaram partir para conviverem com o antigo espião num subúrbio obscuro de Londres. Passou a viver uma vida mais ou menos normal, sem que os seus vizinhos suspeitassem nunca das suas origens como espião e o quanto tinha feito em defesa da democracia, não só na Grã-Bretanha como em todos os seus aliados espalhados literalmente por todo o mundo. A literatura também é feita de “factos” e “história”, e por osmose acaba por afectar todas as nossas leituras. Essas obras superiores são como que um retrato do seu tempo e da sua geografia física e humana. São estes livros biográficos e auto-biográficos que lançam outra luz sobre todas as páginas que lemos.

     O Espião E o Traidor, de Ben Macintyre, é definitivamente um desses livros de leitura aliciante e de ensinamentos que de outro modo não teríamos. Entramos num mundo de espelhos, como diz o autor, e de sombras para um leitor que é colocado nos bastidores da política e da segurança de qualquer grande país. Só mais uma nota algo curiosa nesta saga de vida e morte. Vladimir Putin, o então Coronel do KGB, que andara na República Democrática Alemã, encontrava-se precisamente durantes estes acontecimentos em Leningrado. O livro não entra em detalhes no que lhe aconteceu pela sua “desatenção”, mas insinua que ele caiu um bocado na hierarquia dos serviços secretos da sua terra.

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Ben Macintyre, O Espião E O Traidor (tradução de Isabel Veríssimo), D. Quixote/LeYa, 2019. Pulicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 8 de Novembro de 2019.

 

 

De Vasco Pereira da Costa e da sua poesia

 

 

O poema é exacto: palavra verso e poema geralmente significam solução em um corpo formalmente fechado e poeticamente aberto.

Vasco Pereira da Costa, Campo

Vamberto Freitas

     Tirem o ilhéu da ilha, mas a ilha nunca sai dele ou dela. Nem vale a pena mencionar Antero de Quental, que escolheu a sua ilha de São Miguel para morrer, ou as obras de grandes escritores como Vitorino Nemésio, Emanuel Félix, Álamo Oliveira, Onésimo Teotónio Almeida, João de Melo e Cristóvão de Aguiar, e isto só para falar de alguns que viveram as suas vidas entre mar e terra. Vem aí uma nova geração que já está a dar continuidade a esta tradição. Os seus nomes ficam necessariamente para outra ocasião. Tenho lido e escrito sobre Vasco Pereira da Costa desde há muitos anos. Este título da sua mais recente poesia, Campo, por mais irónico que nos pareça, não me surpreende nada. O autor nasceu na Ilha Terceira, mas foi desde cedo para a Universidade de Coimbra, e daquela cidade voltava só esporadicamente, ou então quando exerceu funções como Director Regional de Cultura nos VIII e IX governos aqui das ilhas. De resto, toda a sua obra, dividida entre poesia e ficção, demonstra perfeitamente essa sua dualidade de ser e estar entre nós, com títulos que incluem Nas Escadas do Império (contos) até à poesia de Ilhíada antes e depois, escrita entre 1972 e 2012. Se digo aqui “entre nós” é porque a sua obra inclui ainda os poemas My Californian Friends, com duas edições de 1999 e 2000. Apesar do título em inglês, toda a poesia está escrita na nossa língua, e constitui uma comovida homenagem aos anos em que ele participou num encontro cultural no Vale de São Joaquim (Tulare), então organizado por Diniz Borges, e que juntava gente ligada à literatura e à cultura em geral, vinda um pouco de toda a parte. Nesses mesmos poemas tanto recorda eventos inesquecíveis como revê ou reencontra velhos amigos e conhecidos lá imigrados há várias décadas. Vasco Pereira da Costa vem também no seu presente livro relembrar-nos de outro facto muito importante na literatura portuguesa, e que perdura há séculos: os açorianos tem no seu imaginário todo o país de norte a sul com dois arquipélagos pelo meio, ao contrário da maioria dos continentais que só se lembram da Madeira como uma espécie de parque de diversões e os Açores pelos sismos ou pelo seu anti-ciclone, que muitos ainda não sabem se é uma tempestade ou uma anti-tempestade. Campo, na minha interpretação, significa ou simboliza toda uma vida entre mar e terra, toda uma riquíssima vivência noutros continentes ou em pessoa ou através das suas literaturas. Há uma característica admirável em toda a sua obra, e regressa às páginas deste livro: um conhecimento profundo das literaturas e mitologias clássicas, desde a antiga Grécia aos moderníssimos Estados Unidos, e, por certo, a literatura lusófona. Ler Vasco Pereira da Costa é aliar o mais longo passado aos nossos dias. Evita a política propriamente dita, mas não evita as insinuações às realidades presentes que sofremos ou às quais sobrevivemos. Do poema “Porto De Abrigo”, a lembrar os seus Açores, que vai aqui em forma ou linhas diferentes, sem os devidos espaços:

“e trás os montes o mar/era a seara verde ao vento leve:/a vaga breve envolvia na penumbra/o horizonte em grisalha bruma/Desenhei os contornos de uma ilha/ então o meu olhar em quilha/rasgou a ondulação de centeio/verde era o mar no meu vagante anseio/um fanal acenou em chão firme e calejado/ (alvorava a torga o azul do rosmaninho)/e achei um porto de  abrigo depurado:/naco de pão presunto copo de vinho”.

Toda a escrita é essencialmente “memória” de tempos e lugares, seja ela ficção, poesia ou temas-outros. Só a poesia nos coloca tanto em geografias e em determinados tempos, mas muito especialmente na alma do seu autor. Ao contrário do que diziam certos críticos de tempos quase esquecidos, o “autor” não morreu nem nunca deixou de ser o “narrador”, aliás como afirmava José Saramago. O “narrador” é o que inventa as suas personagens, e em cada uma delas está parte do leitor, ou na sua experiência de vida ou nos seus sentimentos. Até mesmo um assassino nos retrata no que durante uma vida sentimos perante outros. O que nos separa são as acções que cometemos ou não. Quando um poeta retrata ou nos dá uma visão de territórios conhecidos ou imaginados, devolve-nos a nós próprios. A grande arte é isso e só isso quando se torna “universalista”. Reproduz também a nossa humanidade e/ou desumanidade em palavras que depressa se tornam as nossas, que mexem não só com supostos estilos geniais, mas muito certeiramente com o nosso mais profundo sentir. Quando lemos um poeta, lemo-nos a nós próprios. Por mais abstractas ou deambulantes que nos pareçam as suas palavras ou metáforas.

Campo traz-nos uma variedade de temas, todos eles interligados pela própria voz do poeta. Desde os mistérios da natureza e seus bichos em azáfama imparável, é uma perfeita representação da vida em geral, em que não falta a sua presença diante de supostos heróis nacionais, como o que ele chama em “A Arocaia Do Largo Prior do Crato”, a garotada. Antes ou depois escreve elegias, ou então exalta a paisagem, seja ela do continente ou das suas ilhas, como a sua êxtase ante a Serra do Cume na Ilha Terceira, com vista para pastos divididos por agricultores num manto verde sem igual, “Na Serra do Cume”, na beleza do Tejo, e em “Quatro Estações”, lembrando Vivaldi, na singularidade do Mondego, à beira do qual ele vive. Depois noutro poema diz que “não vai ficar à espera de Godot, esse fantasma das palavras vazias e sem sentido, e que de qualquer modo nunca chega, e se chegasse não faria diferença alguma para o estado dos que o esperam. Creio que também queria dizer que não esperemos um rapazinho meio louco que ficou nas areias de Marrocos e dá pelo nome de D. Sebastião, destruindo-nos a todos ainda mais. A condição portuguesa actual, a que vivemos todos os dias, não tem palavra explicita aqui; tem o resto, tem a condição humana no seu melhor e pior, pelo menos na versão lusa. Campo, por mais estranho que vos pareça, faz-me lembrar Senhora das Tempestades, de Manuel Alegre, e a poesia A New Path To The Waterfall, de Raymond Carver, o americano falecido em 1988, e considerado a grande mestre do conto pós-Hemingway. Do poema “Nas Portas Do Ródão, em Campo:

“Tejo afeiçoado ao nosso ser:/Uma montanha a rasgar/ muita pedra a revolver/nas ânsias de ter o mar”.

Termino com as palavras de Elisa Branquinho, Anabela Sardo, Zaida Ferreira na contracapa de Campo: “Os lugares são reais, mas existem em cada poema numa combinação linguística que transporta em cada poema ao universo interior do poeta, resultante da proeza artística do fingimento poético que revela a sinceridade intelectual das emoções carregadas de simbolismo”.

A obra de Vasco Pereira da Costa conta ainda com outros livros que integram perfeitamente toda a sua temática de ilhéu por nascença e continental por opção. Cada leitor mais atento ou exigente que os leia verá o escritor absolutamente original que ele tem sido na sua já longa carreira. Espero agora que continue a olhar o Mondego e a reviver as suas ilhas. Cada escritor é todo um mundo próprio, só nunca nos deixamos de nos olhar nesse espelho directo ou retorcido, de nos reencontrarmos nas sombras de uma vida vivida nos múltiplos papéis que desempenhou entre nós, em Portugal e nos mais distantes recantos dos mundos a que pertence por afinidades familiares e do afecto e admiração dos seus leitores e amigos.

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Vasco Pereira da Costa, Campo, Calendário das Letras, Via Nova de Gaia, 2018. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 1 de Novembro, 2019.