De Nuno Costa Santos e da sua poesia

 

A ironia é um animal de estimação./Por vezes deve ser deixada à solta./a espairecer.

Nuno Costa Santos, Morrer É Não Ter Nada Nas Mãos

Vamberto Freitas

     De Nuno Costa Santos li Céu Nublado Com Boas Abertas, o seu impressionante romance publicado em 2016, e escrevi um ensaio a explicar o resto. Tinha já lido muitos outros textos seus, que creio não ser chamados para aqui. Guionista, protagonista, e autor de vários documentários sobre poetas e escritores maiores da nossa língua (Saudade Burra de Fernando Assis Pacheco, Ruy Belo, e outros que mencionarei mais adiante) e escritor de outros géneros, a sua escrita e realizações de documentários biográficos televisivos estão marcados por uma impressionante ausência de pretensiosidade ou vontade de protagonismo, ao contrário de muitos outros, inclusive aqui nos Açores, que passam a levantar a cabeça e a falar como se fossem estrelas de lugares maiores e mais famosos. Não é só um prazer ler este autor e homem das mais variadas artes transmitidas por todos os meios. É uma viagem literária tão simples como sofisticada nas suas palavras com múltiplos sentidos e sugestões quanto à nossa condição quotidiana ou eterna. Na sua linguagem poética faz-me de logo lembrar o americano Raymond Carver, que pontificou vigorosamente nos seus contos de What We Talk About When We Talk Abour Love (entre outras colectâneas), mas aqui ainda mais no seu livro de poemas New Path To The The Waterfall. Bem sei que há alguns escritores e poetas açorianos que se acham os mestres de mestres, mas esquecem uma coisa demasiado significativa: as novass gerações das ilhas não só lhes prestam homenagem, como lhe baixam a cabeça, apenas num acto de respeito e gratidão. Não, não vou falar em mais nomes maiores entre nós, eles conhecem-nos tão bem como eu. Nuno Costa Santos é um grande escritor, e agora mostra a sua capacidade na poesia. Não, não vou apreciar os que estão viciados por uma certa contemporaneidade, especialmente europeia, em que a maioria dos leitores mais inteligentes ficam perdidos. Nuno Costa Santos regressa ao melhor de nós: linguagem directa e uma filosofia de vida, talvez em cada um de nós, está transmitida na sua poesia, ou qualquer outra escrita sua. Poesia sem ideias não vale nada, não passa de um jogo de palavras e linguagens quase sempre indecifráveis. Morrer É Não Ter Nada Nas Mãos é o contrário disso tudo. Cada verso, cada poema no seu tudo, conta-nos o resto, conta-nos o que nos faz pensar e olhar para o espelho de cada dia. Isto é literatura. O resto fica pelo prazer de olharmos um quadro que não entendemos, mesmo que dele gostemos mas sem saber explicar porquê. Se Morrer É Não Ter Nada Nas Mãos é porque as nossas vidas são vazias de tudo que desejávamos, a poesia do quotidiano, como diria certo poeta português, por ora desaparecido do público por razões que só ele e os seus deuses sabem. Só que outros, esta nova geração de que alguns mal-dizem, não deixam de nos confrontar com a vazio das nossas vidas. Isso é literatura, uma vez mais, em prosa ou poesia. Leiam-nos, com critério e atitude crítica. Quem diz que a literatura “morreu” é porque está exausto, ou, ainda pior, acha que a arte acabou com eles. Esta atitude já vem de longe. É tão mentirosa, suspeito, como foram as suas vidas e supostas obras.

Se não tens vontade de escrever um poema, escreve-o.

                                       A poesia é a procura que o coração não quer fazer.

                                     Fácil é desviar os olhos das flores, impedir os perfumes

                                  de se revelarem, fechar o sol com a persiana.

                              Escreve, escreve como quem canta aquela canção

                            da qual só sabes metade da letra.

                          Escrever um poema é inventar a letra até ao fim.

        A obra de Nuno Costa Santos é, repita-se, diversificada, tal e qual um escritor que domina todos os géneros da literatura. Pertence pela idade e pela sua escrita a uma geração de açorianos que me surpreende com frequência. Como muitos outros entre os todos novos açorianos nas diversas faculdades em Lisboa, deu início a uma carreira fulgurante. Um a um, estão muitos a regressar à sua terra de origem, que se chama Açores. Ainda não entendi por inteiro essas razões, mas suspeito que Lisboa se tornou insuportável após o surto descabido do turismo, nalguns casos, ou então por motivos sentimentais. Percebo-os porque eu regressei pelas mesmas razões, pelo amor a uma mulher. Outros, vivem cá, nos Açores, parte do tempo e no Continente. Seja como for, a produção literária de todos eles assemelha-se à nossa diáspora em toda a parte: saudades das raízes e cansaço das grandes metrópoles, a sua criação literária manifestando tanto essa realidade como um outro sentido de pertença dos seus conterrâneos à sua geografia de nascença, a tudo que lhes dá sentido que uma terra de nascença nos proporciona. A literatura do autor presente junta-se a outros mais nessa condição existencial. Não sei muito da sua obra como guionista ou colaborador da televisão nacional. Sei que no caso de Nuno Costa Santos a sua memória resultou ainda em documentários como “Viagem Autonómica” açoriana e o respeito e lealdade aos que ficaram e viveram a nossa sorte arquipelágica. A sua poesia agora aqui em foco não deixa nunca de expressar a sua experiência nos dois lados do mar. Não regressou aos Açores por desgosto com o Continente, muito pelo contrário. Suspeito que tal como eu, outros quereriam ter a prática de uma vida já adulta na suas ilhas, para além das suas paixões pessoais. Vive neste momento numa da suas ilhas, Terceira, com sotaque diferente mas em frente ao mesmo mar. Morrer É Não Ter Nada Nas Mãos é uma das nítidas verdades que li até hoje. Quando Raymond Carver foi ao médico e estava condenado ao fim, o médico fez-lhe uma pergunta lapidar antes de lhe dar a notícia definitiva e fatal: “Do you believe in God?” Carver respondeu, “I do now”/“Acreditas em Deus?/”Agora sim”, respondeu Carver. Felizmente não é este o caso de Nuno Costa Santos. Só o discurso poético ditecto entre ele e os seus leitores.

       Não há escritor nosso mais perto do grande mestre norte-americano que tenho citado aqui. A linguagem poética, desde T.S.Eliot, é uma de vida vivida e dos dramas que foram as suas vidas, linguagens obscuras e directas na sua variada escrita. Uma outra questão em relação ao Nuno Costa Santos e a outros. A nova geração de grandes escritores açorianos, incluindo Joel Neto e Diogo Ourique, vem demonstrando uma certa tendência curiosa. Deixam Lisboa, pelo menos temporariamente, e regressam às suas origens nas ilhas, ora definitivamente ora de meses em meses. Isto significa qualquer coisa. Outros continuam a viver no Continente, mas a sua literatura nunca deixa de se situar, em grande parte, nos Açores, com regressos constantes mesmo que seja por uns dias ou palavras. Algo de novo está a acontecer entre nós. Não desdigo, nem aplaudo. Não esperava isto desta geração muito mais nova. Mas a ilha não sai deles, como não sai de nós. Podem interpretar com quiserem. A geografia humana tem muito poder. Por mais que digam os pseudo-intelectuais do nosso país, e especialmente da nossa região. Nuno Costa Santos é também autor de A Mais Absurda das Religiões, Às Vezes é um Insecto que Faz Disparar o Alarme, e peças de teatro como Condomínio da Rua, Em Mudanças, Mundo Distante, É Preciso Ir E Ver – Uma Viagem com Jacqes Brel, e ainda co-autor de I Don´t Belong Here.

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Nuno Costa Santos, Morrer É Não Ter Nada Nas Mãos, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2019. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 24 de Janeiro, 2020.

 

Memórias de um grande escritor americano

 

I’m not sure where my path will take me next, but through this exploration of my life of second chances and connecing the dots of my past, I know that I will find my way/ Não estou certo, depois de juntar os pontos de chegada e partida, para onde vai o meu destino, mas através deste mergulho no meu passado sei que vou encontrar o meu futuro…

Scott Edward Anderson, FALLING UP: A Memoir of Second Chances

Vamberto Freitas

FALLING UP: A Memoir of Second Chances, de Scott Edward Anderson, é o que chamamos um pequeno grande livro. O seu autor sempre sempre fez sair os seus livros numa ou numas pequenas editoras que se especializam em prestar atenção a autores especiais e que são capazes de sair da literatura chamada canónica ou de grande expansão nacional. Não se esqueçam que esta prática vem desde um James Joyce e alguns outros, como na América ainda de tempos recentes um Charles Bukowski, que só depois da sua morte os seus livros foram comprados por uma multinacional, mas só depois de viver toda a vida ligado a uma editora menor, ignorada por quase toda a academia dos Estados Unidos. Mais adiante mencionarei o resto da sua obra, mas por agora quero falar destas suas breves memórias, escritas com a maior contenção e indo só ao essencial do seu processo de vida. Pormenor mais do que importante: Scott Edward Anderson, apesar desse seu nome todo anglo-saxónico, é de origem açoriana, pelo menos em parte, e nos últimos anos tem vindo cá integrado em encontros de escritores enquanto investigava a vida dos seus antepassados. O seu percurso de vida, em poucas páginas, é fascinante de e cheio de actividades tão multifacetadas que me deixa estonteante e de admiração sem limites. Envolve, desde já, a sua dedicação a instituições dedicadas à protecção do ambiente no seu país e noutros, responsável editorial em várias editoras, com a sua vida pessoal e de pai em momentos críticos da sua vida, sem nunca lhe fazer perder a energia da sua vida pública e de intervenção. Não vou entrar por aqui porque é demasiada complexa e pluralista. Basta por agora dizer que por entre a sua dedicação aos mais vulneráveis entre nós nunca impediu a sua contínua dedicação à escrita, de que este seu mais recente livro é um exemplo eloquente, na sua capacidade de expressão e literária, da sua disponibilidade corajosa de despejar a sua alma e, uma vez mais, uma vida inteira plena de sentido e de ajuda ou colaboração como os mais fracos ante aqueles que detêm poder tanto político como financeiro. FALLING UP, como é evidente para qualquer leitor, é um título irónico mas muito significante, é de um autor que nunca se deixou derrotar nem por questões pessoais ou profissionais. Quando hoje se fala só em fraquezas físicas e mentais, cansaço no trabalho, desilusão com o rumo das nossas sociedades, desilusão com os nossos políticos democráticos, com corrupção de todo o género, ler um cidadão escritor que “cai para cima” apesar de tudo e de todos, é mais do que refrescante, é um sinal que no meio de todos ainda existe a decência e a coragem de enfrentar todo e qualquer contratempo pessoal ou colectivo. Este seu livro é mais do que um bocado prosa auto-biográfica – é um poema à possibilidade de mudança, é um testamento de esperança para nós todos. Escreve porquê? No quinto capítulo diz tudo: “Telling Stories To Change The World/Contar Histórias Para Mudar O Mundo”. Viaja por toda a parte, e nunca perde a oportunidade de falar com outros sobre a nossa comum humanidade e, ainda mais, a possibilidade real de contrariarmos a nossa má sorte, ou aqueles que a provocam e a cultivam: “An inspiring read for anyone seeking meaning in their work or in their life/Uma leitura inspirante de uma história em busca de sentido no seu trabalho ou na sua vida pessoal”, escreve na contracapa um dos seus apreciadores e críticos, Mark R. Terceck, CEO de Nature Conservacy.

Scott Edward Anderson tem uma vida tão multifacetada que não dá para contar todos os pormenores da sua andança profissional nos Estados Unidos. Dois casamentos, filhos, e a sua envolvência em várias agências de protecção ao meio-ambiente, assim como cooperação internacional com outros que partilhavam ou partilham as mesmas preocupações. Eventualmente, o autor deste livro abandona ou expande a sua actividade, sempre com o bem estar da sociedade nas suas preocupações e o bem estar dos outros. Combina as suas tribulações pessoais e familiares com uma actividade quase frenética noutros sectores da vida pública. Entre todos os activistas que nos estão ligados por laços familiares ou pessoais, Scott Edward Anderson é uma individualidade única entre nós. Por mais incrível que nos pareça, e por dentro de toda uma vida sem paragem, ele consegue escrever como poucos em todos géneros da literatura, sendo reconhecido entre um grupo pertencente às mais variadas editoras e revistas da especialidade. Para nós há algo que nunca mais poderá passar despercebido: a devoção à sua ancestralidade açoriana, que ele tem vindo a redescobrir nestes últimos anos. Um dia perceberemos a riqueza intelectual das nossas comunidades na América do Norte, que inclui necessariamente o Canadá. Um passo deste livro esclarece tudo muito melhor do que eu.

“Meses depois de eu sair da EY [uma organização de empresas dedicadas à protecção do meio-ambiente] comecei a pensar que talvez Harry e Samantha [a segunda esposa] estavam certos nas suas recomendações. Provavelmente o universo estava a dar-me uma outra oportunidade; Por certo que parecia que me estava a enviar mensagens nesse sentido: primeiro, uma editora escreveu-me para me comunicar que ela queria publicar um dos meus livros, Dwelling an ecopoem, que eu tinha escrito durante um mês na Millay Colony; depois, fui convidado para participar numa residência para escritores em Sào Miguel nos Açores, e para trabalhar num projecto de investigação sobre as raízes da minha família naquela ilha; e comecei a trabalhar neste pequeno livro que agora tendes nas vossas mãos”.

O autor nunca mais parou, e hoje tem uma obra substancial e de peso, que inclui, para além dos livros já aqui mencionados, Fallow Field e Walks in Nature’s Empire. Tem publicado consistentemente poesia em revsitas como The American Poetry Review, Alaska Quarterly Review, Cimarron Review, The Cortland Review e The Wsyfarer. P. Tem contribuído ainda com ensaios e recensões para os periódicos basalt, The Bloomsbury Review, Cleaver, the Philadelphia Inquirer e Scuylkill Valley Journal.

Como já se sabe entre nós, existem muitos mais escritores e poetas na nossa diáspora e nos seus arredores, espalhados todos pelo grande país. Não será descabido neste momento que, com os novos encontros literários em várias das nossas ilhas, e sempre que possível, temos variadamente uns e outras a partilhar esses momentos de reencontros e afinidades de todo o tipo e natureza. Engrandecem a literatura portuguesa, e a sua componente açoriana em especial. Devemos esse reconhecimento a grandes escritores e poetas nossos, mesmo que escrevam noutra língua mas sem nunca esquecerem e valorizarem a sua e nossa ancestralidade.

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Scott Edward Anderson, FALLING UP: A Memoir of Second Chances, Little Bound Books Essay Series, 2019. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

 

Regresso a outro labirinto literário

Estranhará , quem ler este relato, a dinâmica entre dois homens de comando e quem era apenas um clandestino.

João Pedro Porto, Contos Bizarros

Vamberto Freitas

Já escrevi sobre os três primeiros romances de João Pedro Porto, O Rochedo que Chorou, O 2segundo Minuto e Porta Azul para Macau. Se estes e outros títulos da sua ficção parecem estranhos é porque o são mesmo. Nunca dos Açores saiu nada de igual, ou tão difícil de ler, e muito mais sobre todos eles escrever, a não ser os “críticos” que lêem a contracapa e depois dissertam como se conhecessem a prosa densa, surrealista, experimentalista, mais ou menos joyceana dos anos 20 e pouco depois, que são a característica primeira da sua escrita. João Pedro Porto é absolutamente original entre nós, e suspeito que poucos leitores aguentam até ao fim as suas estórias e prosa contorcida, deliberadamente. Psicólogo de profissão, creio que isso tem tudo a ver com uma espécie de loucura ou, uma vez mais, labiríntica sucessão de frases e construção narrativa das suas estranhas personagens e improváveis incidentes inventadas e inventados como que num transe ou pesadelo. Se nem os nossos sonhos acabam por não fazer qualquer sentido, o que ele ouve diariamente deve ser ainda mais obscuro e aparentemente sem nexo. A escrita de certos escritores não acontece para sossegar os seus leitores. Incomoda-os, confunde-os, como num puzzle ou então em palavras cruzadas. O autor não fornece aqui o conforto da psicologia “realista”, que tem dominado quase toda a literatura a partir do modernismo que tem as suas origens há mais de dois séculos. Trabalha as suas linguagens, por mais alheias que nos são ou serão, e creio de propósito artístico, tal como a maioria de nós vive todos os dias e pensamentos de olhos abertos ou fechados como um fluxo de consciência, que interliga o que nos é mais estranho ou banal. Não procurem nunca nos seus livros “temas” habituais ou prosa escorreita, que é da minha preferência e formação académica. Tudo aqui é “mentira”, tudo são as nossas verdades secretas, feitas de personagens que não existem mas são tornadas inteiramente humanas, todos os acontecimentos poderão nunca ter acontecido mas, do mesmo modo, são plausíveis e acreditáveis, tudo aqui, desde os seres reinventados à geografia não passa de um jogo do próprio autor em busca de leitores que saibam associar as suas próprias fantasias às do escritor de imaginação delirante, mas em que a literatura ganha novamente a sua missão modernista: as palavras serão por vezes soltas, o seu significado tornado claro como que na leitura do genial O Som e a Fúria de um William Faulkner, que inicia a sua narrativa com um demente a descrever o que vê sem nunca nada entender até à entrada de outros em capítulos sucessivos que nos vão explicando a realidade vista por esse outro narrador. A ficção de João Pedro Porto não é feita propriamente de “estórias”, é feita das mais inesperadas palavras e frases, que nos fazem abrir o dicionário e descobrir que não existem, que foram por ele inventadas, incluindo nomes de geografias misteriosas que vão de um lado do mundo ao outro. O mesmo que dizer: todos os lugares são fictícios, todos os nomes de escritores, compositores, artistas plásticos e outros saem só da minha imaginação, mas se não existem têm os seus pares na história da arte. Como um genial Jackson Pollock: os seus quadros nada significam mas forçam-nos a olhar para eles pela pura beleza, ou então pelo que neles ele escondeu. Pensem ainda num Jack Kerouac e no seu romance The Subterraneans, ainda mais num William S. Burroughs em The Book of the Dead. Difícil de ler? Sim. Só que o leitor que vai de palavra em palavra até fim de qualquer um destes romances sente que algo de especial lhe foi transmitido, a loucura, a sensibilidade, a inteligência, a beleza quase incompreensível que sabemos fazer parte de nós todos a qualquer hora ou dia da vida.

O silêncio maior – afirma o narrador no conto ‘Águas Assopradas’ – existe para darmos tento ao som quando esse acontece. Mesmo o tinir de uma farpa num infinito silêncio é um estrondo. Quando Bailor se repetiu, foi ouvindo como uma assuada numa ermida. A invasão, dantes não falada, era agora uma hipótese. Não uma certeza. Rostos estranhos cruzariam todas as ruas e fariam encosto a todas as vitrines. Carantonhas a ajuizar as casas longas ou as redondas, com as suas fachadas de batólito cornubiano de Delabobe, e a sujar as frontes caiadas. A imitar ridiculamente as danças, a Nos Lowen e os Troyls. A manducar os torrões e a rosca de açafroa…”

Hermético? Sim. Vocábulos fora do nos uso diário? Sim. Personagens incomparáveis? Sim. Um escritor como João Pedro Porto não está minimamente interessado nas nossas próprias limitações de leitura. Escreve como quer e entende, e quem folhear ou ler integralmente a sua escrita que se defenda ou não, conforme os seus gostos da palavra escrita, ou não. Nunca será o leitor a ditar a prosa de um escritor, mas sim o contrário. Como já disse aqui há uns tempos bem recuados um grande amigo e colega meu, “há o meu gosto, e o mau gosto”. Quem nos tenta impor as suas preferências literárias é quem está redondamente equivocado. A grande literatura tem esse indiscutível mérito: provocar adesão ou afastamento. O resto será sempre mera opinião. A diferença, como se sabe, dificilmente é aceite com unanimidade. Temos nos Açores um autor que se chama João Pedro Porto, e insiste em descobrir os seus próprios meios literários, sem nunca se preocupar com a opinião generalizada entre os seus pares ou leitores. Para isso não é preciso coragem, só determinação, segurança e talento. Tudo o que temos no autor aqui em foco.

Contos Bizarros vem, no mesmo volume, traduzido em inglês, com o título Odd Tales, pelo próprio João Pedro Porto. Não vou entrar por aí, e poderia com muita facilidade. Nunca conheci um escritor açoriano que dominasse a língua de Shakespeare tão bem como este autor. Que outros o façam, e não lhe faltarão leitores no mundo de língua inglesa, especialmente nos Estados Unidos. Fiquei surpreendido com o seu bilinguismo. João Pedro Porto “arrisca” sempre em cada livro que tem publicado até ao momento. Por enquanto, o silêncio local de quase todos os outros diz alguma coisa. A nível nacional recebeu as palavras que merecia sobre o seu romance A Brecha, públicas e privadas. Também sei que nos Açores são poucos os que falam de outros. Bem sei o que custa assistir aos que nos ultrapassam na literatura. O engrandecimento dos outros à nossa volta engrandece-nos a nós próprios. Quem não entende esse facto ou feito é que perde. O “silêncio” poderá ter vários significados. Um deles é mesmo não gostar dessa obra, com toda a honestidade. O outro poderá ser a inveja. Estamos todos habituados aos modos portugueses de ser e estar. Só uma última observação. João Pedro Porto sabe que Finnegan’s Wake (1939) de James Joyce quase como que encerrou o modernismo experimentalista literário em todo o Ocidente, ou pelo menos no mundo anglo-saxónico (que quase ninguém o percebeu), e quando lhe faz o autor de Contos Bizarros aqui uma chamada só nos demonstra que ele é um dos escritores mais eruditos entre nós. Gostava muito de ler, num próximo futuro, uma narrativa a partir do modernismo actual, mesmo que tenha a Mongólia, ou outra qualquer geografia distante, como referência primordial. Bem sei que um autor tem os seus projectos bem definidos. Os críticos e outros leitores também. Só isso.

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João Pedro Porto, Contos Bizarros/Odd Tales (original em Português e em Inglês do autor), Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2019. Publicado hoje na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 10 de Dezembro de 2020.

Escritores açorianos e outros da Avenida Marginal em Ponta Delgada

Escritores açorianos e outros da Avenida Marginal em Ponta Delgada

Esta colectânea de contos, que inaugura ‘Avenida Marginal – Ficções, Ponta Delgada’, tem a grafia de escritores de renome, assim como novas vozes, que confirmam o valor criativo, literário e humanista de uma literatura notável.

Maria Helena Frias, coordenadora de Avenida Marginal

Primeiro esclarecimento sobre este Avenida Marginal: Ficções, Ponta Delgada, que foi pensado e dinamizado por Maria Helena Frias, da Livraria SolMar. Este é o primeiro livro numa série pensada para continuar com pelo menos mais um volume. Os que ficaram de fora ou adiados incluem alguns outros e outras escritoras que já têm nome e prestígio entre nós. O título desta série de contos vem do grande poeta e ensaísta Emanuel Jorge Botelho, como que substituiu o nome Avenida Infante D. Henrique desta cidade a partir dos anos 70, e será um dos contribuintes, estou em crer, em volumes próximos. Segunda questão, não há um conto ou pedaço de prosa nestas páginas que não engrandeça a literatura açoriana, partindo de uma geografia bem definida e de uma cidade onde nasceram ou os que vivem nela ou nos seus arredores. Não queria que isto imitasse uma lista telefónica, mas não resisto desde já a nomeá-los todos pela ordem em que aparecem na sequência em que foram dando entrada à sua organizadora: Joel Neto, Nuno Costa santos, Blanca Martín-Calero Leonor Sampaio da Silva, Tiago Ribeiro, Maria das Mercês Pacheco, Mário Roberto, Leonardo, Carlos Tomé, Pedro Gomes e Maria Brandão. De seguida tenho de dizer algo mais: não me dava conta de que uma cidade como Ponta Delgada tinha tantos bons ou grandes escritores. Para quem exerce o meu tipo de escrita, essencialmente de crítica e ensaio, ou então de mera apreciação do melhor que se tem publicado entre nós geração após geração só me traz alegria saber que, para além desta sua escrita temos os mesmos como grandes leitores, ou pelo menos aqueles que nos vão lendo, ou, mesmo que não o façam, sabemos que estão entre nós. Qualquer um destes contos ou escrita-outra poderia ou poderiam ser publicados nas mais prestigiadas revistas ou outros periódicos de língua portuguesa no mundo lusíada. Peço a alguns deles que ultrapassem de uma vez por todas qualquer complexo de inferioridade perante os que fazem literatura noutras partes “maiores” do nosso país. A nossa tradição literária deu desde sempre, dá e continuará dar ao resto do país, ou repetindo-me aqui, à língua portuguesa, algumas das grandes peças da arte literária. São naturalmente várias as vozes que dão vida e grandeza criativa à literatura do nosso país. A dificuldade para mim ou para qualquer outro crítico é destacá-los um por um/a num espaço limitado como é a página de qualquer jornal ou revista. Quem citar? Ao dar espaço a qualquer um destes contistas nunca vai significar a menoridade de outros. As minhas surpresas durante esta leitura foram contínuas. Se eu já conhecia a obra de certos nomes e sempre os valorizei por me terem tocado de vários modos intelectuais e afectivos, outros foram-me agora a mais agradável surpresa. Não fico por aqui ainda. Que é um reconhecido e aclamado escritor terceirense como Joel Neto a abrir esta colectânea “centrada” em São Miguel deveria dizer-nos muito sobre a continuidade não só de muitas gerações desde sempre e a recusa às palavras sobre rivalidades dos mais ignorantes em todas ilhas. Que uma escritora de origem espanhola mas que vive cá e deu aulas durante vários anos na Universidade dos Açores também marca a sua presença nestas páginas é outro sinal da nossa alma verdadeiramente universal. Não é preciso nascer cá para também ser açoriano ou açoriana – basta adicionar mais um identidade de cultura e lealdade à nossa pequena-grande terra, que sempre teve o mundo inteiro como poiso e pertença.

Como já disse antes neste espaço, o primeiro conto que abre este livro é de um escritor com uma obra reconhecida entre os melhores entre nós, e não precisa de mais palavras minhas neste contexto especial. Já escrevi ainda sobre outros, como Nuno Costa Santos. Queria referir aqui não a grandeza da abertura deste livro, como acho de bom tom, mas mencionar e citar o texto de encerramento, que é da autoria de Maria Brandão, tendo publicado há algum tempo outros contos sob o título de Corpo Triplicado, e que recebeu as melhores críticas públicas e apreciações entre outros escritores, em privado ou em conversas de grupo. Falhei a leitura na devida altura (2018), mas não posso deixar de rectificar essa falta inteiramente minha. A prosa de Maria Brandão é de um humor e ironia implacáveis, de uma clareza luminosa, e por vezes de passos entre a dureza e a verdade da sua e nossa condição de vida e história.

“Os verdes – diz a narradora a dada altura sobre uma personagem e meio-ambiente onde passa os seus dias em companhia ou na doce e assim mesmo amarga solidão – parecem~lhe desbotados, as paisagens banais, as hidrângeas queimadas, as termas duvidosas, a gastronomia gordurosa, a cultura dormente, os habitantes selvagens, o superhost pavoroso, o bom corpo afinal mirrado, a boca sorridente e apetecível transformada num depósito fedorento de cigarros e cerveja. Só o mar era bonito, de um azul carregado como nunca vira. Uns dias transparente e liso, outros turvo e espigado, mas sempre volumoso e possante a impor o seu carácter contra as rochas ou a areia das praias. Só o mar a apaziguara nas semanas que passara em transe, chorando a sua precipitação”.

Eis aí um retrato perfeito do “paraíso” que temos como o princípio e fim do mundo, a sua perfeição reduzida a uma sensibilidade raramente expressas na nossa literatura mais recente. Alma a descoberto, desilusão com os dias que passam sempre iguais, o seu quotidiano feito de uma espera que nunca chega, numa escrita vigorosa, cada palavra no seu lugar, cada frase descaradamente descritiva tanto do seu interiorismo, como diria qualquer literato americano, como do mundo à sua volta. Não vale a pena pensar numa “ilha”, antes, isso sim, na condição humana de um ser inventado em qualquer parte do mundo. Isto é literatura no seu estado mais puro, a invenção da “mentira” ficcional tornada verdade, um espelho em que a maior parte dos seus leitores se reveem, em gesto de repulsa ou reconhecimento de si próprios.

Avenida Marginal vem na sequência de outros livros editados pela Artes e Letras, o último dos quais, O lugar da Maçã, de Tomaz Borba Vieira, foi também recenseado por mim pela sua sua soberba prosa em forma de crónicas/contos que nos surpreendem a cada entrada na sua obra que é já considerável, como que um complemento ao seu rico trabalho nas artes plásticas. Uma vez mais, estes e outros livros juntam e dão a continuidade a um vasto corpo literário açoriano. Avenida Marginal vai ter, por certo, um lugar especial nas nossas estantes. Oferece-nos uma leitura que tanto nos aproxima ainda mais dos nossos lugares de afectos como provoca a nossa imaginação acerca de outros mundos vistos ou não vistos, vividos ou não vividos, sentidos todos ora com carinho ora com repulsa, aliás como toda a grande arte. O meu exemplar está todo riscado tornando a minha própria escrita uma escolha difícil quanto às palavras de cada um dos seus escritores. Para mim, é o mais importante sinal das múltiplas significações e prazer de cada texto nele inserido.

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Avenida Marginal:Ficções, Ponta Delgada (coordenação de Maria Helena Frias), Ponta Delgada, Artes e Letras, 2019. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental de 3 de Janeiro, 2020.

Escritores açorianos e outros da Avenida Marginal em Ponta Delgada

Esta colectânea de contos, que inaugura ‘Avenida Marginal – Ficções, Ponta Delgada’, tem a grafia de escritores de renome, assim como novas vozes, que confirmam o valor criativo, literário e humanista de uma literatura notável.

Maria Helena Frias, coordenadora de Avenida Marginal

Vamberto Freitas

Primeiro esclarecimento sobre este Avenida Marginal: Ficções, Ponta Delgada, que foi pensado e dinamizado por Maria Helena Frias, da Livraria SolMar. Este é o primeiro livro numa série pensada para continuar com pelo menos mais um volume. Os que ficaram de fora ou adiados incluem alguns outros e outras escritoras que já têm nome e prestígio entre nós. O título desta série de contos vem do grande poeta e ensaísta Emanuel Jorge Botelho, como que substituiu o nome Avenida Infante D. Henrique desta cidade a partir dos anos 70, e será um dos contribuintes, estou em crer, em volumes próximos. Segunda questão, não há um conto ou pedaço de prosa nestas páginas que não engrandeça a literatura açoriana, partindo de uma geografia bem definida e de uma cidade onde nasceram ou os que vivem nela ou nos seus arredores. Não queria que isto imitasse uma lista telefónica, mas não resisto desde já a nomeá-los todos pela ordem em que aparecem na sequência em que foram dando entrada à sua organizadora: Joel Neto, Nuno Costa santos, Blanca Martín-Calero Leonor Sampaio da Silva, Tiago Ribeiro, Maria das Mercês Pacheco, Mário Roberto, Leonardo, Carlos Tomé, Pedro Gomes e Maria Brandão. De seguida tenho de dizer algo mais: não me dava conta de que uma cidade como Ponta Delgada tinha tantos bons ou grandes escritores. Para quem exerce o meu tipo de escrita, essencialmente de crítica e ensaio, ou então de mera apreciação do melhor que se tem publicado entre nós geração após geração só me traz alegria saber que, para além desta sua escrita temos os mesmos como grandes leitores, ou pelo menos aqueles que nos vão lendo, ou, mesmo que não o façam, sabemos que estão entre nós. Qualquer um destes contos ou escrita-outra poderia ou poderiam ser publicados nas mais prestigiadas revistas ou outros periódicos de língua portuguesa no mundo lusíada. Peço a alguns deles que ultrapassem de uma vez por todas qualquer complexo de inferioridade perante os que fazem literatura noutras partes “maiores” do nosso país. A nossa tradição literária deu desde sempre, dá e continuará dar ao resto do país, ou repetindo-me aqui, à língua portuguesa, algumas das grandes peças da arte literária. São naturalmente várias as vozes que dão vida e grandeza criativa à literatura do nosso país. A dificuldade para mim ou para qualquer outro crítico é destacá-los um por um/a num espaço limitado como é a página de qualquer jornal ou revista. Quem citar? Ao dar espaço a qualquer um destes contistas nunca vai significar a menoridade de outros. As minhas surpresas durante esta leitura foram contínuas. Se eu já conhecia a obra de certos nomes e sempre os valorizei por me terem tocado de vários modos intelectuais e afectivos, outros foram-me agora a mais agradável surpresa. Não fico por aqui ainda. Que é um reconhecido e aclamado escritor terceirense como Joel Neto a abrir esta colectânea “centrada” em São Miguel deveria dizer-nos muito sobre a continuidade não só de muitas gerações desde sempre e a recusa às palavras sobre rivalidades dos mais ignorantes em todas ilhas. Que uma escritora de origem espanhola mas que vive cá e deu aulas durante vários anos na Universidade dos Açores também marca a sua presença nestas páginas é outro sinal da nossa alma verdadeiramente universal. Não é preciso nascer cá para também ser açoriano ou açoriana – basta adicionar mais um identidade de cultura e lealdade à nossa pequena-grande terra, que sempre teve o mundo inteiro como poiso e pertença.

Como já disse antes neste espaço, o primeiro conto que abre este livro é de um escritor com uma obra reconhecida entre os melhores entre nós, e não precisa de mais palavras minhas neste contexto especial. Já escrevi ainda sobre outros, como Nuno Costa Santos. Queria referir aqui não a grandeza da abertura deste livro, como acho de bom tom, mas mencionar e citar o texto de encerramento, que é da autoria de Maria Brandão, tendo publicado há algum tempo outros contos sob o título de Corpo Trplicado, e que recebeu as melhores críticas públicas e apreciações entre outros escritores, em privado ou em conversas de grupo. Falhei a leitura na devida altura (2018), mas não posso deixar de retificar essa falta inteiramente minha. A prosa de Maria Brandão é de um humor e ironia implacáveis, de uma clareza luminosa, e por vezes de passos entre a dureza e a verdade da sua e nossa condição de vida e história.

“Os verdes – diz a narradora a dada altura sobre uma personagem e meio-ambiente onde passa os seus dias em companhia ou na doce e assim mesmo amarga solidão – parecem~lhe desbotados, as paisagens banais, as hidrângeas queimadas, as termas duvidosas, a gastronomia gordurosa, a cultura dormente, os habitantes selvagens, o superhost pavoroso, o bom corpo afinal mirrado, a boca sorridente e apetecível transformada num depósito fedorento de cigarros e cerveja. Só o mar era bonito, de um azul carregado como nunca vira. Uns dias transparente e liso, outros turvo e espigado, mas sempre volumoso e possante a impor o seu carácter contra as rochas ou a areia das praias. Só o mar a apaziguara nas semanas que passara em transe, chorando a sua precipitação”.

Eis aí um retrato perfeito do “paraíso” que temos como o princípio e fim do mundo, a sua perfeição reduzida a uma sensibilidade raramente expressas na nossa literatura mais recente. Alma a descoberto, desilusão com os dias que passam sempre iguais, o seu quotidiano feito de uma espera que nunca chega, numa escrita vigorosa, cada palavra no seu lugar, cada frase descaradamente descritiva tanto do seu interiorismo, como diria qualquer literato americano, como do mundo à sua volta. Não vale a pena pensar numa “ilha”, antes, isso sim, na condição humana de um ser inventado em qualquer parte do mundo. Isto é literatura no seu estado mais puro, a invenção da “mentira” ficcional tornada verdade, um espelho em que a maior parte dos seus leitores se reveem, em gesto de repulsa ou reconhecimento de si próprios.

Avenida Marginal vem na sequência de outros livros editados pela Artes e Letras, o último dos quais, O lugar da Maçã, de Tomaz Borba Vieira, foi também recenseado por mim pela sua sua soberba prosa em forma de crónicas/contos que nos surpreendem a cada entrada na sua obra que é já considerável, como que um complemento ao seu rico trabalho nas artes plásticas. Uma vez mais, estes e outros livros juntam e dão a continuidade a um vasto corpo literário açoriano. Avenida Marginal vai ter, por certo, um lugar especial nas nossas estantes. Oferece-nos uma leitura que tanto nos aproxima ainda mais dos nossos lugares de afectos como provoca a nossa imaginação acerca de outros mundos vistos ou não vistos, vividos ou não vividos, sentidos todos ora com carinho ora com repulsa, aliás como toda a grande arte. O meu exemplar está todo riscado tornando a minha própria escrita uma escolha difícil quanto às palavras de cada um dos seus escritores. Para mim, é o mais importante sinal das múltiplas significações e prazer de cada texto nele inserido.

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Avenida Marginal:Ficções, Ponta Delgada (coordenação de Maria Helena Frias), Ponta Delgada, Artes e Letras, 2019. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” no Açoriano Oriental, 3 de Janeiro, 2029.