Quando Portugal era a morte e o silêncio

     Cuspira de repente, vomitara contra o mundo a coisa monstruosa que estava dentro dela: A morte de um filho.

Teolinda Gersão, Paisagem com mulher e mar ao fundo.

Vamberto Freitas

      A primeira edição deste romance de Teolinda Gersão, Paisagem com mulher e mar ao fundo, foi publicada em 1982, quando eu andava nos Estados Unidos e era difícil fazer chegar um ou outro livro antes da era digital. Era só por graça e amizade que recebia uma ou outra obra de amigos, mas este nunca tinha lido naqueles recuados anos. Há quem diga que isso é maravilhoso: esperar para ler qualquer grande livro é um prazer só adiado. Foi o que me aconteceu com este e outros romances e contos da mesma autora, o que desde algum tempo a esta parte venho a preencher o que então nesses tempos de lonjura e alguma indiferença perante quase tudo que saía fora dos clássicos portugueses de outros séculos me afastava da nova literatura, concentrando-me em questões políticas e culturais das nossas comunidades, publicando em jornais da imigração, e depois no Diário de Notícias a partir de 1979, mas isso era outra questão em que tinha a América no centro da minha correspondência, da sua literatura, e depois da literatura açoriana. Desde que regressei definitivamente a Portugal em 1991, tudo isso mudaria com rapidez, tinha de preencher um vazio imenso que dizia respeito à nossa escrita maior nas suas diversas geografias. Não quero que isto se torne numa nota biográfica, mas apenas contextualizar o que em seguida direi sobre este grande romance, a 5ª edição que acaba de sair na Porto Editora. Ao contrário de uma certa nova geração que se tem como sendo “globalizada” e escreve com um olho em possíveis traduções, fazendo da história do seu próprio país como se fosse a história, ou estórias de qualquer parte do mundo com esperança de traduções. Teolinda Gersão, que sim, está traduzida em muitas outras línguas (assim como alguns os nossos melhores escritores) faz da nossa realidade e estado existencial vivido em várias épocas o centro da sua temática, linguagens, simbolismos e metáforas a literatura verdadeiramente universal, os homens e mulheres em toda a parte na sua condição diferenciada mas no fundo a humanidade de nós todos respirar do mesmo modo, sentindo a mesmo dor ou, de quando em quando, a mesma alegria. Faz tudo isto sem imitar os estrangeiros em modas depressa ultrapassadas e sem qualquer originalidade. Praticamente todos os seus livros de ficção ou em outros géneros têm a nossa “realidade” como ponto de partida e chegada, o drama intenso de um povo que raramente conheceu a liberdade, e viveu quase sempre a opressão dos mais ricos e poderosos sobre todos os outros. As suas personagens em lágrimas somos nós todos, quer o aceitemos ou não. As contingências quotidianas das suas personagens são de imediato reconhecíveis pelos seus leitores de qualquer extracto social da nossa sociedade. Eis aí a grandeza da verdadeira arte literária, ou como diria Miguel Torga, o local é (inevitavelmente) o universal.

Bem sei que a literatura de guerra moderna do nosso país já conta com um substancial cânone, mas nunca tinha lido um romance tão abrangente dos anos da campanha anti-nacionalista em África, que vai desde os dramáticos e irrecionais anos 60 até à libertação do país com o 25 de Abril de 1974 (a data é minha e é apenas insinuada pelo narradora ou narradoras) desde o começo até ao fim “… O. S. (Oliveira Salazar) está morto e eu vou voltar, O. S. está morto e eu vou voltar”. Paisagem com mulher e mar ao fundo está dividido em três partes: o relato de Hortense que perde o filho na guerra e passa os dias na maior solidão e dor, tentando imaginar que a morte do guerreiro tenha sido súbita e sem a consciência do seu destino na mata africana. O segundo é de Clara, a sua esposa, e que vive os seus dias em Lisboa em condições semelhantes, os únicos momentos de alívio são um passeio na praia aonde vivem. A terceira parte é uma sustentada analepse, em que figura uma professora de nome (irónico aqui) Áurea do antigo ensino primário, fascista e religiosamente fanática e castigadora rigorosa de alunos, como teria sido com Hortense na sua adolescência: “Redacção a pátria, redacção a família, redacção Deus, devemos amar a pátria, respeitar a família, adorar a Deus, devemos dar a vida pela pátria, honrar a família, respeitar a Deus, devemos deixar tudo para seguir Deus, dar a vida pela família e sacrificar-nos pela pátria”. Por entre outras personagens mais ou menos secundárias, está sempre presente o O. S. É, claro está, o ditador absoluto, que tudo comanda na pobreza e entre a maioria do povo português, com olhos e ouvidos até nos mais remotos sítios do país, ou então a sua polícia batendo à porta durante a madrugada de qualquer cidadão suspeito. Ninguém fala da situação, nem sequer os mais bêbedos nos cafés locais. Era a obediência total, o sofrimento na nação tido como a virtude suprema de uma suposta civilização cristã, mesmo que o resto do mundo estava a evoluir noutras direcções ou concepções da dignidade humana. Silêncio e raiva por cá. Toda a nossa História de boa parte da segunda metade do século passado está presente neste romance. Cada leitor, naturalmente, terá e deve ter a sua leitura ou interpretação de uma obra como esta. Seja lá quem for ou como se posicionou social e politicamente nos anos de desvastação, medo, injustiça e arrogância, ou até mesmo respeito pela situação que terminou quase pacificamente no Quartel do Carmo irá reconhecer-se nestas páginas nada menos do que brilhantes, fazendo da língua portuguesa não um pretensioso acto de linguagens ofuscadoras, mas sim uma obra prima. É um romance, permitam-me adicionar aqui, que é reeditado no momento certíssimo em que vive alguma Europa, já esquecida do Holocausto generalizado que foram as suas ditaduras, incluindo a nossa, ou então já se esqueceram dos que pereceram numa guerra injusta e injustificável, de um país na miséria absoluta, e de um povo sem voz ou liberdade.

      “…Este ódio ao cais, às despedidas lancinantes, por que não gritar alto, assumir este cais e estas cenas, estão na nossa vida desde há séculos, este cais de desastre, esta amargura, é melhor assumi-lo até ao fundo e gritar com os outros de puro desespero, em vez de se diluir de falsa esperança.

      O que quer que aconteça é culpa minha, sou culpada deste navio e deste cais, porque nós preferimos culpar o destino, como se o destino existisse, e aqui estamos há séculos de pés e mãos atados, embarcando, partindo para fora de nós mesmos, no barco da loucura, um povo sem força nem vontade, apenas embarcando”.

A longa situação vai aí deliberadamente da minha parte. Não, não vivemos numa ditadura, pelo não numa ditadura política tradicional, se bem que estamos todos sujeitos à ditadura internacional da alta finança sem ética, vergonha ou dó de ninguém. Por mais que oficialmente digam que estão a entrar mais imigrantes do que a sair, isso é uma mentira. Já não saímos de barco, agora só de avião. Os barcos agora são só para pescadores e o recreio de ricos. A nossa emigração continua, e em força. Já sem guerra à vista, na aparência apenas, é verdade. Mas Portugal é fiel à sua longa História. Todo o sofrimento de outra natureza para a maioria, e os privilégios para uns poucos. O genial romance de Teolinda Gersão, como todas as grandes obras literárias, ainda significa, ainda nos fala directamente de um país de embarcadiços. O regresso quase não existe. As sombras ominosas permanecem, de outro modo mais ameno, no reino da velhíssima Lusitânia.

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     Teolinda Gersão, Paisagem com mulher e mar ao fundo (5ª edição), Lisboa, Porto Editora, 2019.

Aventura noutras terras: revisitação auto-biográfica

Que América, tão civilizada, tão histórica, tão memorial é esta que após 27 anos de açoriano isolado na Califórnia venho agora encontrar?

Vamberto Freitas

     Tudo isto foi muito antes da América dos nossos dias. É, no entanto, assim que a quero lembrar para sempre. O que diz respeito às minhas viagens na Europa, tem-me pouca importância, foi só confirmar o que de bom e de mau eu tinha lido nos livros, ou imaginado. Vivi quase três décadas na América do Norte, e posso dizer que muito por lá viajei, desde a grande área de Los Angeles por toda a parte. A minha corrida preferida ia dessa área até à minha família no Vale São Joaquim, a três horas e meia de carro a alta velocidade numa mítica auto-estrada chamado de 99. Entretanto, num ano em que já não me lembro, atravessei o Deserto Mojave até ao Grand Canyon na companhia de Onésimo T. Almeida e de outro amigo comum, que tinha vivido no Canadá e foi membro dos seus nadadores olímpicos, o que me trouxe prazeres e descontentamos durante quase toda viagem, pois parávamos a meio do caminho e eles os dois iam para uma piscina de um certo hotel, e eu nem sabia nadar, limitava-me a ler jornais e a beber cerveja, disfarçando as minha inabilidades da melhor maneira que me ocorria no momento. Chagámos a Las Vegas, que ainda hoje detesto pelas suas luzes exageradas e os seus casinos mafiosos. De qualquer modo, sobrevivi, quase já sem dinheiro algum, gasto nos bares e naquelas máquinas de roubo puro. Cheguei a casa são e salvo, jurando que nunca mais, com ou sem amigos queridos como estes. Estamos nessa altura nos anos 80, e escrevi um artigo publicado em São Miguel com o título “Com Onésimo T. Almeida na lUSAlândia e em toda a parte”, o qual viria a escandalizar um tio seu aqui em São Miguel, então professor nesta cidade, pois tanto fiz um relato fiel como misturei ficção que pensava inocente, mas que foi levada a sério, e ainda hoje estará nos arquivos do Açoriano Oriental. Tempos depois, quando o Onésimo vinha cá, chamava alguns amigos para lhes demonstrar que nada tinha disso se tinha passado de um pequeno risco que nunca dimpediu o meu carro de ser aprovado na nossa inspecção aqui nos Açores. Essa peça jornalística foi escrita já depois de eu ter regressado definitivamente a São Miguel. Até disse que Onésimo, numa condução de um carro novo que eu acabara de comprar me tinha quebrado o pára-brisas numa estada de pedregulho naquela cova mítica do famoso canyon, que não me interessou minimamente. Enquanto os meus comparsas desceram até ao fundo desse suposto fundo de um antigo mar, optei por ficar no hotel, a ler jornais e a beber whisky. Bom, no fim dos anos 80, em encontros literários da Maia (hoje já míticos entre as novas gerações) apaixonei-me pela Adelaide, o que deu lugar a visitas suas à Califórnia, e acabariam pela nossa viagem de carro de uma ponta da América no Oeste até à outra na Costa Leste, onde embarquei o meu carro e seguimos até ao nosso arquipélago.

     De seguida, foi o meu regresso definitivo aos Açores em 1991. A Adelaide foi ter comigo à Califórnia para fazermos juntos uma viagem de carro atravessando a América desde Los Angeles até Boston. O nosso itinerário foi feito de maneira diferente. Em vez de viajarmos em linha recta (tipo route 66) sentamo-nos e pensámos nas cidades dos nossos escritores preferidos. Isso resultou sair e passar por alguns estados do Sul para visitar casas-museus e cemitérios desses grandes nomes, o principal dos quais foi William Faulkner, da cidade de Oxford, Mississippi. Foi maravilhoso. O curador da sua Casa-Museu tinha estado há poucos dias em Lisboa precisamente para falar do grande autor e da sua obra.

     “Mississippi, localizado no coração geográfico e cultural do sul, – escrevi noutra parte e há muitos anos – é o paradigma fundamental de toda a tragédia humana e histórica naquela parte do país americano. É, ao mesmo tempo, um dos mais pobres e ricos estados da União. O seu estatuto – real e psicológico – de periferia autêntica fá-lo combinar a dor do seu passado com o triunfo que daí provém – uma poderosa e talvez inigualável literatura dos nossos dias. Para além de Faulkner, é a terra de todo um grupo de escritores que também viriam a tornar-se conhecidos, alguns deles, em todo o mundo letrado – Eudora Welty, Tennessee Williams, Walker Percy, E. Spencer, Richard Wright e William Morris, só para falar dos mais famosos”.

     Entre muitas outras cidades do interior e da costa atlântica fomos à Carolina do Norte prestar homenagem a Thomas Wolfe, que faleceu em 1938. Uma vez mais, visitámos a sua Casa-Museu e o cemitério onde está enterrado, e a sua universidade de Chapel Hill. Tenho nas minhas estantes pedrinhas e terra destas terras, e de Wolfe uma reprodução do exterior da sua casa de nascença e um quadro com seu perfil oferecido por uma antiga colega da Cerritos High School, onde dei aulas durante 14 anos. Thomas Wolfe, como me diria um dia o meu falecido e jubilado amigo George Monteiro da Brown University, ele era um romântico modernista, passe a contradição associada em mim para sempre a um génio da literatura, mesmo que hoje esquecido pela academia. Tem dois romances, entre toda uma numerosa, gigantesca obra, que ainda hoje me comovem: Look Homeward Angel e You Can’t Go Home Again. De resto, foram outros estados de mais escritores ao longo do grande país. Visitámos Washgington, D.C. mais por obrigação de dois cidadãos americanos do que pela curiosidade. Cheguei a ir com a Adelaide a um congresso sobre literatura americana. A mesma impressão. A parte da Casa Branca em que podem entrar turistas não me deixou a mínima lembrança ou saudade. Protestantes deitados em tendas em frente à Presidência, miseráveis pedintes nas ruas, e os outros engravatados ligados ao mundo da política e aos seus servidores. Baixei a cabeça em frente da grandiosa estátua de Lincoln

     A paisagem de quase todos os estados americanos é deslumbrante. Nova Iorque foi noutra ocasião, mas também não me deixou vontade de regressar após algumas três visitas, mais pelas suas livrarias e teatro do que qualquer outras coisas. Sim, fomos às Torres Gémeas, que mais tarde seriam derrubadas por selvagens. Nada mais, sair de lá foi um alívio, rumo finalmente às casas dos nossos amigos e imigrantes e luso-americanos em Rhode Island e Massachusetts. Parece que todas as capitais têm algo de intimidante e frieza. Dispenso-as. Só que nunca me esquecerei o calor humano e acolhimento em todos os outros lugares. A ideia que cá fora se tem da América, sei que me repito aqui, está longe da realidade humana daquele país. Até nos estados considerados mais racistas, e eles estão lá, para connosco eram só perguntas sobre as nossas origens e nacionalidade natal, e isto em restaurantes, bares e na rua. Esta, sim, é a minha América.

     Pouco depois de regressar aos Açores, viajei por vários países europeus: Holanda, Reino Unido, Irlanda, Isle of Man, Áustria, Bélgica, República Checa, Hungria e Alemanha. Para ser absolutamente honesto, já não tenho a suficiente paciência para mais museus, catedrais e arqitectura, mesmo que nunca tenha ido à Itália ou à França. Já não sinto qualquer necessidade de sofrer aeroportos gigantescos e confusos. Gostava de ver a Rússia, mas sem grandes pressas caso os deuses sejam benevolentes para comigo. Que trouxe destes países? Bom, alguma coisa, mas como um dia disse a um grande amigo quando deixei os EUA, agora não me lembro de nada que me tenha tocado profundamente. Muito mais do que cerebral, acho eu, sou emotivo, e a “frieza” humana e climática do norte pouco me diz. Também estive várias vezes no Canadá, uma vez delas em pleno inverno, mas gostei. Fez-me lembrar o outro lado da fronteira a sul, e aí, sim, senti-me em casa. Toronto não me disse muito, mas disseram-me com carinho e amizade os contactos privados e várias casas e outras situações. No México conheci um povo maravilhoso, educado, e com uma grande curiosidade sobre o meu país. Diziam-me, naturalmente em espanhol e com admiração, és do “país dos cravos”. Foi no ano de 1975. Nunca mais os esqueço ou deixarei de deles ter saudades.

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     A foto é da livraria Square Books, de Oxford, Mississippi, cidade natal de William Faulkner, A epígrafe foi tirada do meu livro América Entre A Realidade E A Ficção.

Los Angeles e as suas misérias

Passeei-me pelas suas ruas. Meu Deus, cá estava eu outra vez, a rondar a cidade. Olhei para as caras que me rodeavam, e sabia que a minha era igual à deles. Caras em que a cor e o sangue estavam ausentes. Transtornadas, perdidas. Caras como flores cortadas das suas raízes, e metidas secas num vazo bonito, as cores em secura rápida. Eu tinha de abandonar esta cidade.

John Fante, Ask The Dust

Vamberto Freitas

     Só agora li um dos mais eloquentes e canónicos romances que têm Los Angeles como referência e depois de ter lido outros autores da mesma estatura e grandeza na faculdade da California State University, em Fullerton, a mando dos meus mestres. Comecemos por The Lady In The Lake e The Long Goodbye, de Raymond Chandler, e de seguida The Day Of The Locusts (1939) de Nathanael West, publicado precisamente no ano da saída do livro de John Fante, sendo West, no entanto, o mestre do surrealismo com base na loucura criativa de Hollywood. Depois veio o devaneio criativo de Charles Bukowski, que vivia em San Pedro, a cidade-porto bem ao lado da grande metrópole, perto da cidade onde eu próprio fazia a minha vida profissional e pessoal, mas sempre sem coragem de o visitar pelo que ouvia dos seus temperamentos diários ou horários. O grande romancista e poeta “maldito” era muito mais do que isso, era um génio da nova literatura americana, e as suas contradições eram mais do que evidentes. Denunciava vigorosamente os chamados New Beat, mas era na realidade um deles, só que nunca amado ou respeitado pela academia, sempre conservadora e seguidora das modas do momento. É ele que prefacia brilhantemente este romance Ask The Dust, e declara sem rodeios que John Fante “era o seu deus… e eu sabia que os deuses não devem ser incomodados, têm de ficar sós, uma pessoa nunca lhes deve bater à porta. Assim mesmo, eu gostava de fantasiar onde tinha vivido no voo dos Anjos (Angel’s flight) e imaginava possível que ele ainda andava por ali”. John Fante (1909-1938), e que  hoje é considerado um dos incontornáveis fundadores da escrita Beat, antes do rótulo ser inventado, e isto ainda nos anos 30, muitos anos antes do que viria duas décadas depois, com Allen Ginsberg e Jack Kerouac, entre outros. Na verdade, cheguei finalmente a John Fante através do meu amigo e escritor também de descendência luso-americana, picoense e russa (judia) Darrell Kastin, ele próprio um grande escritor e que conheceu e conviveu pessoalmente com Charles Bukowski quando abriu uma livraria em San Pedro (Los Angeles), e o tinha como vizinho. Em 2016, Darrell Kastin publicou o romance fascinante sob o título de Shadowboxing With Bukowski, que a sua viúva lhe diria ser o melhor livro escrito de ficção sobre o seu companheiro. Antes disso, Darrell Kastin publicaria também o romance “açoriano” The Undiscovered Island, em 2019. Visita Portugal com certa frequência, e vem dando conta destes encontros com esta sua outra pátria em escritos diversos. As nossas ligações à literatura norte-americana vêm de longe, desde pelo menos Fernando Pessoa, quando reinventa o poeta Walt Whitman como uma das suas referências primeiras e as “multitudes” dentro de um e do outro, e continuam cada vez mais. Menos a nossa atenção literária.

     Ask The Dusk tem como narrador alguém que se confunde com o protagonista Arturo Bandini, um escritor italo-americano, e situa o seu romance em Los Angeles durante os anos 30, os anos da Grande Depressão. Ido para lá de Denver, Colorado, com vinte e poucos anos de idade e após terminar o seu curso universitário, em busca das luzes citadinas e da sua carreira literária, que haviam começado há uns poucos anos com a escrita de contos, o mais famoso de todos, aqui nesta ficção, intitulado “The Little Dog Laughed”, publicado numa das então revistas que disseminavam este tipo de escrita e pagavam o suficiente para os seus autores sobreviverem modestamente. O seu agente estava em Nova Iorque, de nome Hackmuth, e o autor a viver num hotel de terceira categoria na baixa de Los Angeles, rodeado de marginais alcoólicos e esfomeados. Todas as outras personagens ficam reduzidas a pouca importância, ou a nenhuma, menos uma servidora num bar de categoria questionável. Camilla Lopez, de origem mexicana, e por quem ele se apaixona sem nunca concretizar na totalidade os seus desejos, ou por insegurança ou pelo facto de ela dizer estar apaixonada por outro homem, contagiado pela tuberculose, anglo-americano, e chamado simplesmente Willie, que acaba a vida a viver numa barraca à beira do deserto Mojave, mais uma da suas metáforas sobre uma geografia em que Los Angeles foi roubado e construído na precariedade da vida miserável, feita de mortos ambulantes, como diria Thomas Wolfe num conto seu que nada tem a ver com esta obra. Entre uns e outros, Bandini vai escrevendo outro romance, que acaba publicado e lhe permite continuar só mas com algum dinheiro disponível para o seu dia-a-dia, e que então, mesmo em quantias hoje consideradas irrisórias e insultuosas, na altura permitiam continuar a sua carreira como artista da palavra. O resto é um retrato devastador numa América à beira do Pacífico a viver as suas ilusões e a miséria num país caído. Ruas da criminalidade, pequena ou dura, em que só o sexo e a bebida, mesmo na indigência do tempo e do lugar, ainda eram minimamente possíveis. O romance termina sem ele mais saber da sorte de Camilla ou Willie, escondidos na solidão e sofrimento na Terra de Ninguém. A vida em Los Angeles da época, em que Hitler já fazia barulho na Europa e as maiores ameaças ao resto do mundo. Era tudo de uma de errância, insegurança do chamado Sonho Americano, que parece ainda hoje nunca esmorecer.

     “No fim de Outubro, — diz o narrador-Bandini de si e da sua nova obra de sucesso — chegaram as provas. Comprei um carro, um Ford de 1929. Era descapotável, mas tinha potência e corria como o vento, e com a chegada dos dias fiz longas viagens ao longo da costa de mares azuis. Até Ventura, subindo a Santa Bárbara, descendo até San Clemente e San Diego, seguindo a faixa branca do passeio, de baixo das estrelas vigilantes, os meus os pés na consola, a minha cabeça cheia de temas para outros livros, uma noite seguida de outra, todas elas anunciando sonhos que eu nunca tinha tido, todos eles juntos prometendo dias que eu nunca conhecido, dias serenos que me metiam medo de questionar”.

     É este o romance, é este o autor que se sobrepõe à literatura da tristeza e a uma cidade de grandes promessas falsas, e por vezes de uma violência e criminalidade em geral que marcam quase toda a sua literatura, ou a literatura que a toma como referência à morte, tiros policiais e ameaças de todo o género, inclusive a sua natureza que desde que há muito ameaça o mais devastador terramoto dos nossos tempos. Esta é tanto uma história de amor e desamor, como é uma história de uma das mais desejadas e muitas vezes odiadas cidades dos Estados Unidos. Charles Bukowski reconheceu este romance como tal, e sabia que estava perante outro tipo de arte literária e visão autoral.

      Por fim, descobri através de um amigo em Lisboa que Ask The Dust/Pergunta Ao Pó tinha sido traduzido para português por Rui Pedro Cabral, e publicado pela Teorema em 2009. Por outro lado, eu queria lê-lo em inglês, dado o meu longo passado na Grande Los Angeles. Peço desculpa, mas aqui nos Açores ser-me-ia muito difícil encontrar a tradução portuguesa. As nossas traduções poderão ser diferentes, mas as minhas envolvem apenas alguns passos. De resto, também queria lê-lo em inglês dado a minha dedicação à literatura norte-americana. Ask The Dust foi tornado filme em 2016, que também nunca vi.

     John Fante publicou ainda muitas outras obras, que incluem The Road To Los Angeles, Wait Until Spring, Bandini, Dreams From Bunker Hill, e em 1933, Was a Bad Year, entre algumas outras. Tenho toda a intenção de ler algumas destas e outras obras suas.

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     John Fante, Ask The Dust (prefácio de Charles Bukowski), Edinburgh Canongate Books, 2012. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.

De David Oliveira e da sua poesia

O rio Mekong é uma um viajante com experiência/2.400 milhas de corrente, dominando cinco línguas,/trabalhando em turnos como turista, soldado, madeireiro, pescador, plantador de arroz.

David Oliveira, A Little Travel Story

Vamberto Freitas

     Que o poeta David Oliveira tem uma história pessoal sem par entre outros escritores luso-americanos não me deixa qualquer dúvida. Tive o privilégio de o conhecer pessoalmente em 2001 na Yale University num congresso que então comemorava 100 anos de literatura e outra escrita da nossa imigração nos Estados Unidos. Na altura já tinha uma obra substancial, mas dispersa pelas mais variadas e prestigiadas publicações do país, e apenas um pequeno livro intitulado In the Presence Of Snakes, e que serviu de título a um dos poemas aí inseridos, que eu viria a recensear pouco depois e a publicar num dos meus livros. Nasceu em Hanford, no coração do Vale de São Joaquim, rodeado de de avós e pais açorianos dedicados à agro-pecuária, como a maioria da nossa gente naquela época. Depressa deixou a terra de nascença para dar largas à sua obra em Santa Barbara, à beira do oceano Pacífico, um meio cosmopolita e onde existe um dos grandes polos da Universidade da Califórnia. Fundou a revista Solo, que receberia (estou a ler de uma nota biográfica sua), um prémio nacional, e fundou ainda uma associação que continua a existir chamada Santa Barbara Poetry Series. Em 1999 foi nomeado o Poeta Laureado, Santa Barbara´s millennnium poet. Desde que partiu em 2002 para Phnom Penh já lhe tinha perdido o rasto quando já ele escolheu Camboja para viver, tornando-se Professor na Pannasastra University of Cambodia. Foi ainda este ano que recebi um telefonema seu a dizer-me que ia passar uns dias aqui em Ponta Delgada com um companheiro do seu país de adopção, e creio que após uma longa viagem pela América e pelo continente português. Foi um dos meus grandes prazeres a conversa que mantivemos numa das nossas esplanadas da avenida marginal. Falarei mais adiante de outras publicações suas também em reconhecidas antologias de literatura californiana, mas por agora falarei de um dos dois livros que me ofereceu: As Everyone Goes (2017) e A Little Travel Story (2008), este de capa colorida à maneira asiática, que quero abordar aqui. Para além da sua grandeza poética, combina antigos poemas já publicados e referentes às suas origens com a sua experiência e vivência numa cultura radicalmente diferente da sua num país que passou pelos grandes horrores de Pol Pot e da sua tenebrosa guerrilha sob o nome de Khmer Rouge, ainda antes de ser selvaticamente bombardeado pelos Estados Unidos em busca de colaboradores lá escondidos na mata durante a guerra no Vietname. Do mesmo modo que os seus poemas convocam as memórias da família luso-americana e do muito que o rodeava na Califórnia, a segunda parte do livro faz o mesmo com seu quotidiana à beira do Mekong, que vai desde um certo choque cultural aos seus vizinhos que vivem e morrem, agora na normalidade de um povo em paz e na luta diária pela sobrevivência e prosperidade. São poemas narrativos de uma desusada eloquência que enquanto focam os “outros” são também como que uma aliciante história auto-biográfica.

     A Little Travel Story permanece, repita-se, um livro dividido entre o passado e o presente. Nalguns poemas da primeira parte inclui uma peça extraordinária a que dá o título em Português, “No Vinho a Verdade”: recorda os seus inesquecíveis momentos com o seu avô açoriano quando este lhe ensina a beleza do vinho e como bebê-lo. Por entre esses poemas e outros já por mim mencionados, o autor vira-se para memórias de lugares por onde passou ou viveu, e para personagens e acontecimentos relativamente recentes, como no caso de “The End of the 20th Century”, ou “President Clinton Lifts Ban on Gays in the Militar”, e ainda o cómico “Jerry Falwell Contemplates Oral Sex”, um pastor evangelista com um programa de televisão semanal que eu próprio via para (como dizem os americanos) comic relief/relaxamento cómico, tal as suas loucuras ou o seu puritanismo hipócrita e falso. A sua poesia oscila livremente entre o pessoal e o público, em elogios ou em críticas à sociedade americana que se recusa a reconhecer a diferença entre seres humanos e as suas escolhas ou orientações sexuais. David Oliveira escreve em versos livres, mas nunca perdendo nem o ritmo na a cadência das suas palavras, cada uma significante, irónicas, por vezes ambíguas, numa riqueza polissémica raramente lida entre nós. Quando chega aos poemas do Camboja, temos, mais ou menos, algo de semelhante. São os lugares por ele já bem conhecidos, são as pessoas, chegadas ou distantes, que nos aproximam do outro, e esses ou essas são sempre nós: neles nos reconhecemos de imediato, o poeta elimina a geografia e dá-nos o coração humano universal nas mais próximas ou longes terras. Camboja é para ele a sua nova casa – com vizinhos que apenas observa ao longe ou a partir da sua casa, ou com os quais convive e ri e chora. Ter escolhido uma geografia humana como esta não é para todos, só para os corajosos em busca das supostas diferenças que nos separam. Depois a sua poética nega isso tudo – somos mais iguais do que imaginamos, mais do que os retrógrados entre nós desejariam. Na terra quase totalmente queimada pelos assassinos do Khmer Rouge, David Oliveira encontra a civilização amena que desejava, e no último poema do seu livro dá-lhe o título, significante em todos sentidos, como sendo “Any place is like every place/Qualquer lugar é como todos os lugares”:

     “And this is where I am./It is afternoon,/ to give the palce time,/ and it is summer,/ to give the place a history/e isto é aonde estou./É a tarde,/ para que demos um nome a este lugar,/ e o Verão,/para que demos a este lugar uma história…”

      Por outras palavras, as minhas são bem menos eloquentes do que estas de um longo poema. David Oliveira vive e convive com um povo a refazer-se da sua trágica história, entalado que está entre outros países que despertaram a ira do Ocidente pelas suas escolhas políticas. Não, a sua poesia não entra na sua política, David Oliveira guarda isso para a sua terra natal, e teve a sorte de estar ao longe da América dos nossos dias. Não a poupa, mas também não castiga os seus conterrâneos pelos suas opções que os levaram a viver uma actualidade mais do que problemática, por vezes vergonhosa, e quase sempre injusta para com os outros de cor ou de origens nacionais que agora são indesejáveis, vilipendiados, difamados. A poesia deste autor entra por outros e mais vastos caminhos, passados e presentes. É o coração humano, nas suas memórias mais saudáveis ou nas suas contingências do presente que lhe comovem e o fazem escrever neste género quase à maneira de antigos trovadores, que se riam do poder e salvavam a alma de todos os outros que faziam do seu dia-a-dia um acto robusto de luta silenciosa e da sua sobrevivência pura e dura.

      Não, não se trata aqui de um poeta fechado na sua redoma elitista e pretensiosa, sem qualquer sentido maior ou menor para os seus leitores. Recusa, sempre, neste A Little Travel Story, os jogos de palavras, símbolos e metáforas que só ofuscam a ausência de ideias ou filosofia. Só que a grande poesia nunca foi por aí, desde os antigos até aos nossos dias. David Oliveira foi aluno do grande poeta Philip Levin na Universidade da Califórnia, em Fresno. Está incluído, como já disse, em antologias canónicas, entre outras, “A Near Country: Poems of Loss” e “The Geography of Home: California’s Poetry of Place”. Tenho estes e outros livros similares na minha estante. Nunca deixarei a minha condição de hibridez cultural e nacional, tal como ele.

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      David Oliveira, A Little Travel Story, Harbor Mountain Press, Brownsville, Vermont, 2008. Todas as traduções aqui são da minha responsabilidade.