Sobre borderCrossings: leituras transatlânticas V

Ernesto Rodrigues

Professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

A história da humanidade faz-se a atravessar fronteiras. Desde os grupos de caçadores e recolectores há milhares de anos às campanhas militares e aos incessantes movimentos migratórios, e dos avanços científicos à globalizada sociedade da informação, o homem procura ir além de si mesmo, o que só resulta no diálogo com outrem: dessa livre interculturação nasce um sentimento de semelhança na humanidade, em que assenta existência digna. Um crítico literário deve ser sensível a esse voto de igualdade.

No campo da cultura, este regime de fronteira vive de uma produtiva curiosidade pelo lado de lá, que é também modo de nos definirmos. Em casos particulares, a ferramenta linguística é decisiva, ou ficamos presos atrás do espelho. Em última instância, vale-nos a tradução.

Desde 1761-1762, quando Francisco Bernardo de Lima funda, no Porto, a Gazeta Literária – nossa primeira revista literária –, verter para português recensões a obras estrangeiras era uma resposta possível, mesmo chegadas com anos de atraso. Acrescentava-se reflexão sobre clássicos portugueses, e tínhamos, assim, a aliança crítica perfeita, nos seus alicerces cosmopolitas.

Se, no século XX, há breves ensaios sobre autores estrangeiros – caso de José Régio, por interposto francês –, a recensão, no que significa de atenção crítica ao recém-editado, só nos anos 70 se esboça – e mais sobre o entre nós traduzido, não sobre originais ainda frescos em Londres, Paris, Roma, Madrid, Nova Iorque… João Gaspar Simões, que teve uma costela de tradutor, preocupou-se com a edição nacional (e não foi pouco); hoje, Miguel Real segue-lhe os passos, donde resulta um grave fechamento em dois nomes responsáveis.

Na minha prática de décadas, além de tradutor de húngaros, pude misturar lusos e títulos traduzidos ou lidos no original, reunidos em Literatura Europeia e das Américas (2019), aproximando-me, com o milheiro de páginas da futura reedição de Verso e Prosa de Novecentos (2000) – sobre portugueses dos séculos XX e XXI –, do políptico BorderCrossings: Leituras Transatlânticas, iniciado por Vamberto Freitas em 2012, singular experiência entre nós.

A recensão, bem acima da nota ou resenha jornalística, adquiriu importância nos passados anos 30 e 40 com a emergência de páginas e suplementos dedicados à literatura e arte. Aí pontificou, numa colaboração multímoda vinda do Diário de Lisboa e que terminou no Diário de Notícias, o verbo por vezes derramado de João Gaspar Simões, cujo útil impressionismo teve a alternativa universitária, sobretudo, na Colóquio/Letras, a partir de Março de 1971. Comuns ao jornal e à revista académica tivemos Jacinto do Prado Coelho, José-Augusto França, David Mourão-Ferreira, entre muitos outros. Desaparecidas colunas ideológicas (Seara Nova, Vértice…), o JL – Jornal de Letras, Artes & Ideias procura, desde 1981, um mar chão, uma década depois acompanhado pelos suplementos do Público.

Seria injusto quedarmos neste rápido balanço. Na tradição literária do arquipélago noveno, Vamberto Freitas conquistou um espaço regular no Açoriano Oriental, que repete na Imprensa da Portufórnia (p. 46), e passa às redes sociais e ao livro. Como divulgação por estes meios, não tem rival. E, dentro de uma bibliografia activa começada em 1990, esta capacidade de pôr em livro – parafraseando o Fernão Lopes de ‘poer em caronica’ – as colunas efémeras do jornal não tem par, quando Gaspar Simões só esporadicamente o conseguiu, antes da súmula de décadas em volumes tardiamente saídos na Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

Um elemento distintivo em Vamberto Freitas é, além de atender a autores do Continente, cuidar do ilhéu, com raízes e ramos além-Atlântico. Olhando ao todo nacional, essa reflexão sobre idiossincrasias locais – aquela ‘açorianidade’ cunhada por Vitorino Nemésio em 1932 – vai muito à frente do processo, de algum modo sistemático, iniciado no Funchal somente nos anos 90, enquanto, para Trás-os-Montes e Alto Douro, o ‘reino maravilhoso’ (1941) de Miguel Torga, que designei como a terra de duas línguas (português e mirandês; título de antologia, 2011, 2013), eu mesmo me fiz fautor de uma singularidade.

Esculpir essa açorianidade, in loco e na margem americana (como já fizera, no articulismo do Diário de Notícias, na margem que desemboca em Lisboa), é o já longo desafio de Vamberto Freitas, reiterado na primeira secção deste livro, e logo no texto inaugural reunindo elogio de dois velhos e comuns amigos, Urbano Bettencourt e José Martins Garcia.

Fui colega daquele na Faculdade de Letras de Lisboa. Além de docente e animador cultural, antologiador, assinando microficções, esse poeta de mão-cheia é um lúcido ensaísta. Fui aluno de José Martins Garcia na mesma Faculdade, aqui celebrado com O Amanhã não Existe (2017) «outro grande e indelével contributo para esse esclarecimento da escrita feita por açorianos, ou mesmo por outros, mas que têm os Açores como palco de vida e arte» (p. 18) , enquanto Urbano prossegue na edição da sua obra completa. Ter ministrado na Universidade dos Açores uma cadeira de Literatura Açoriana deveria servir de exemplo ao demais país.

Outro segmento importante quase ausente da nossa crítica é a atenção maior aqui dada aos Estados Unidos, em tradução e no original. Ter quase trinta anos de ar americano é razão bastante para um conhecimento de que beneficiamos, acrescido de uma inclinação para relacionar literatura e sociedade, e balançando grandes questões do nosso tempo, seja a memória de vários holocaustos, seja o noticiário da actual administração em Washington.

Sob a égide de Edmund Wilson, que o ora desaparecido Harold Bloom «viria a considerar o crítico canónico norte-americano do século XX» (p. 188), num elogio recorrente, mesmo quando dele se distancia, Vamberto Freitas sabe que outros podem gostar de Proust e James Joyce, dele tirando explicações, senão prazer. Sem espírito de fronteira, capaz de dar o salto, ou aceitar que vizinhos o façam, não havia interpretação. Extrair algo de textos ditos difíceis é função nobre; nestes, mais do que nos fáceis, o resultado fica sempre em aberto. Cito, após consideração sobre Wilson leitor de Finnegans Wake, e no cenário de A Casa da Cabeça de Cavalo: «A grande arte literária tem momentos assim, cada leitor terá de decifrar os significados de cada passo narrativo ou diálogo sobre acontecimentos incertos, acontecidos ou meramente imaginados pelas vozes que nos vão contando a história de cada outro personagem ou acontecimentos colectivos dentro e fora das geografias referenciais de qualquer ficção.» (p. 147)

Entre estes e outros méritos, bastaria a informação sobre nomes para mim desconhecidos – na diáspora, sobretudo – e estava ganho o volume. Ainda, a leitura de obras há muito saídas, que eu mesmo li e agora releio segundo outro evangelho, quando o crítico recupera, nas reedições, autores como Teolinda Gersão e Manuel Alegre.

Não há espaço para estudar a técnica da epígrafe, ou arte de seleccionar um excerto indicativo da obra em análise. Também na variedade de espécies tratadas – ficção, poesia, cronística e jornalismo – este «arquivo criativo» (p. 221) se afigura único.

Fugindo ao tom, que nem por ser crítico deixa de ser de proximidade, a enunciação autoral torna-se agora muito presente e, a espaços, pungente. Da dupla dedicatória limiar ao tu marcado no segundo texto (p. 29-32), sobre Adelaide Freitas, convocada noutros lugares, entenderá o leitor o drama pessoal a cuja luz, ou sombra, foram escritas algumas prosas. Isso conduz-nos a uma, para mim inesperada, autobiografia disseminada, sob máscaras ou já explícita, seja no pretexto de um Hemingway (p. 95-98), seja sobre “As outras américas que não vivi” (p. 193), entre outros lugares. O volume encerra com entrevista e desejo: «Queria muito fazer uma biografia colectiva da minha geração. Ou numa narrativa sequencial, ou então em ensaios interligados e revendo a mesma história de quem entrou na minha vida, quer em termos literários quer em termos pessoais.» (p. 228)

Com este quinto painel, vário nos processos e nos objectos linguísticos e geográficos em estudo, Vamberto Freitas torna-se, nesta década, o principal crítico literário português. Entretanto, sem abandono da intermediação indispensável à coisa literária, pode oferecer-nos um retrato de ser dividido entre línguas, territórios e paisagens. Duplo privilégio, ganharemos todo um passo mais na marcha da humanidade.

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Vamberto Freitas, bordercrossings: leituras transatlânticas V, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2019. Publicado no Açoriano Oriental de 28 de Abril, 2020

Sociedade e uma outra forma de autobiografia

São de facto, vocês, caros leitores, que dão sentido àquilo que nós, escritores, vamos deixando por aí. E, por tal, devemos estar-vos gratos, devemos sentir-vos próximos e amigos, devemos respeitar-vos e nunca vos descurar.

Paula De Sousa Lima, Penso, logo escrevo

Vamberto Freitas

Já escrevi e publiquei sobre alguns livros da açoriana Paula De Sousa Lima e logo me repito aqui. A autora tem já uma vasta obra que inclui romances, livros ditáticos, correspondência (com o poeta Leonardo Sousa, de quem foi mentora) e especialmente ficção, uma vez mais, sendo a sua mais recente obra deste género O Paraíso (2016), que foi finalista do Prémio LeYa. Aliás, quase toda a obra da autora foi publicada sob grandes chancelas continentais e quase continuamente recenseada nas mais conhecidas revistas ou jornais da especialidade. Se menciono estes factos e feitos é só para contextualizar o livro presente e aqui em foco: Penso, Logo Escrevo, um conjunto de crónicas publicadas quinzenalmente no diário micaelense Açoriano Oriental, e que agora numa sequência de grande fôlego se tornam uma narrativa não só sobre a nossa língua como uma parcial autobiografia da autora, se não nos factos pormenorizados da sua vida pessoal e profissional, definitivamente dos seus pensares e sentimentos na sociedade em que lhe coube viver dentro e fora da cidade. A autora nasceu em Lisboa, mas viria para os Açores aos seis anos de idade e nunca mais deixou de viver intensamente o seu destino de adulta, combinando o ensino secundário e universitário com a escrita imparável. A sua versatilidade literária nunca deixou que ela voltasse aos seus temas de maior preocupação ou interesse histórico, revelando em quase todos eles a crítica civilizada à sociedade em geral adentro de uma certa religiosidade pessoal que define e orienta a sua ética ante tudo e todos. Estas crónicas têm ainda algo de especial: contêm secções que se dirigem sistematicamente a questões diferenciadas e ditadas pelos momentos que todos vivemos, inclusive, já quase no encerramento do livro, uma série de cartas dirigidas tanto a figuras que dominam o nosso mundo, como o Papa Francisco ou o simplório, para ser aqui generoso, que é Donald Trump (tão distantes no pensamento e acções como nós quase todos da lua). A autora já tinha manifestado claramente estas crenças e atitudes noutros dos seus livros, especialmente no já mencionado O Paraíso, que tanto é um título de significação literal como irónica, e finalmente, como indica a epígrafe deste meu texto, aos próprios leitores, quer a leiam ou não. Já tinha conhecimento de muita desta escrita agora presente através do jornal, mas uma nova leitura traz-nos como que outra voz de Paula De Sousa Lima, e ainda mais é um outro livro que se torna da memória de um tempo e lugar que todos partilhamos, mas não vivemos ou pensamos do mesmo modo. Dizer que a autora escreve muito bem é quase não dizer nada, antes escreve com força e inabalável convicção em textos já não soltos que fazem cada leitor seu pensar-se e pensar a comunidade a que pertence ou na qual escolheu viver vindos de outras partes nacionais ou de mais longe. Não se trata aqui de lições ou imposições de ideias ou ideais, mas sim de uma certa comunhão com aqueles que abrem este livro e o leem com a maior atenção e mente aberta. Podemos discordar de algumas afirmações. O respeito e admiração por cada passo nunca nos falta, lesse Penso, Logo Existo como quem lê um romance positivamente espartilhado que acaba por ser a tal narrativa coesa do princípio ao fim, passando a sua autora de mera crónica a uma escritora caracterizada pela sua autenticidade e verdades que porventura nos escapavam na corrida do dia-a-dia. O livro nunca “castiga” quem tem outras noções da vida quotidiana entre nós, muito pelo contrário. Expõe simplesmente outros pontos de vista ou outros modos de se ser e estar juntos ou separados. Uma das secções mais tocantes deste livro é quando a autora fala dos tempos em que era “pequenina” numa freguesia de São Miguel, o crescimento saudável de quem ainda brincava com primos e vizinhos na era antes da tecnologia por vezes alienante dos nossos dias. Aqui não vemos crianças sentadas à mesa com os pais centrados no telemóvel, mas em corridas nos quintais e em tarefas imitativas dos adultos à sua volta.

A “crónica” é uma forma de escrita muito específica e é praticada entre nós desde os primórdios da nossa língua, e através da qual os brasileiros são também mestres. Pega-se num tema pessoal ou colectivo, e em breves palavras disserta-se sobre todas ou qualquer questão. Pode ser amena (como são estas crónicas, quase todas elas) ou então de crítica ora justa ora reduzindo-se a queixas e mal-dizer o que mais inquieta a mente ou a vida de cada escritor. Não tem classificações, tanto pode ser um político como pode vir dos seus inimigos, ou inimigos do sistema, como pode nascer em louvor de acontecimentos ou das próprias artes e ciências. É quase sempre breve, e cada vez mais dado à ditadura de espaços e contagem de caracteres. De qualquer modo, assemelha-se ao melhor de outras espécies jornalistas, até mesmo dos melhores cartoonistas: numa caricatura, ou se rebaixa ou se eleva o sujeito em causa ou o evento acontecido, seja um jogo de futebol ou peça de teatro, por exemplo. Tem a estrutura da crítica pública escrita sobre qualquer assunto. Exige o melhor de cada um ou uma que a lê, a capacidade de síntese, que preferentemente será acutilante e permanecer na mente do leitor. Com Paula De Sousa Lima, temos os dois casos: tanto critica os hipócritas da nossa sociedade como defende os que, em palavras de um outro escritor, “voz não têm”. A suas crónicas na maior das vezes elevam-nos ao nosso melhor, anotam o que de bom fazem outros, nunca se tornam em ditames e vão pelo diálogo calmo com que cada um de nós. Lê-la é ler como se conversássemos com ela em casa ou numa esplanada, cada observação dissecada com respeito pelos seus interlocutores, de quando em quando desdizendo a malvadez de quem maltrata companheiras/os, ou seja, de quem for que vive numa marginalidade violenta, física ou corporal.

Talvez seja este um dos adágios mais perversos – escreve em ‘Desfazendo equívocos VI: Entre marido e mulher não metas a colher’ – da chamada sabedoria popular. E isto porque é fácil concordar com a afirmação, dado o casal ter direito a uma vida privada, que não deve ser alvo de devassa. Assim, em nome da privacidade do casal, muitas omissões se vão frequentemente estabelecendo, e muitos crimes ficam impunes”.

É desta linguagem com destreza que são feitas as palavras da autora. Desfaz igualmente muitos dos nossos provérbios já sem sentido ou qualquer justeza. Acompanha um mundo em mutação constante e vai seguindo essas mudanças que afectam seres humanos pelas suas escolhas ou orientações pessoais. Nunca insulta os que se agarram a velhos e caducos preceitos na nossa sociedade. Denuncia sem rancor, escreve não com a arrogância de conselheira, apenas sugere que nos nossos dias muito mudou, e o que antigamente era “pecado” hoje simboliza tão-só a nossa humanidade mais esclarecida, tolerante e inteligente, comunicando com os seus leitores sem imposições ou a arrogância de quem pensa conter toda a “verdade” em si.

Paula De Sousa Lima licenciou-se em Línguas e Literatura Modernas e depois fez o seu mestrado em Literatura Portuguesa na Universidade dos Açores, sem nunca deixar de escrever. Os seus escritos abordam vários temas e estão espalhados por revistas da especialidade um pouco por toda a parte, como a NEO, Transeatlântico e Grotta, e faz parte do Plano Regional de Leitura desde 2011. Como já referi, quase todas as suas obras foram publicadas em editoras nacionais: Explicações de Português, Tempo Adiado, Os últimos dias de Pôncio Pilatos e O Paraíso. Em editoras locais (Letras Lavadas, Edições Macaronésia) publicou Crónicas dos senhores do Lenho, Quando eu mover a sombra das montanhas e Correspondência, em co-autoria com o poeta Leonardo Sousa. Tem também escritos em várias colectâneas e escreveu obras reservadas ao conto, com destaque aqui para O outro lado do mundo, que recebeu o Prémio Daniel de Sá em 2016.

Finalmente, reproduzo aqui parte do que escrevi na contracapa de Penso, Logo Existo: Estas suas crónicas estão caracterizadas pela sua linguagem sem subterfúgios ou jargão académico ou protocolos de quase toda a literatura portuguesa dos nossos dias… Levam o leitor mais atento a uma maior aprendizagem da sua própria língua e sociedade, esta que a subverte todos os dias. Trata-se de um trabalho consistente de uma distinta escritora e pensadora.

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Paula De Sousa Lima, Penso, logo escrevo, Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2020. Publicado no meu “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 24 de Abril de 2020.

Lembranças de uma outra viagem pelas ilhas

 

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Terminara o meu cruzeiro a bordo do Vasco da Gama. E, ao pisar de novo o solo de S. Miguel, uma alegria nova cantava dentro de mim…

Guilherme De Morais, Ilhas Do Infante

Vamberto Freitas

A primeira edição deste grande Ilhas Do Infante: Um Cruzeiro Nos Açores, primeiro escrito em forma de crónicas num jornal micaelense, Correio dos Açores, estava a ser preparado para publicação em 1933, quando o seu autor, Guilherme De Morais, trabalhava num último capítulo, mas faleceu precocemente nesse mesmo ano precisamente aos 33 anos de idade. Finalmente, esta 2ª edição traz três textos de introdução, um do escritor Urbano Bettencourt, que também não o tinha lido, mas tomou conhecimento do seu conteúdo através de um ensaio de J. H. Santos Barros publicado no suplemento “Contexto” do jornal Açores de 10 de Janeiro de 1980, texto esse que vem integralmente publicado nas páginas contextualizantes do livro. Urbano Bettencourt fala do lugar desta obra no contexto de As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão, que também havia viajado por conta e iniciativa própria pelas ilhas no início da década de 20, e publicaria o seu agora clássico sobre o nosso arquipélago em 1927. Muito mais tarde, em 1956, apareceria O Corsário das Ilhas (anos depois de Mau Tempo no Canal) de Vitorino Nemésio. Os três volumes constituem uma espécie de trilogia sem igual sobre as nossas ilhas. Se Nemésio escreve pela primeira vez o termo “açorianidade” em 1932, atrevo-me a dizer que foi o continental Raul Brandão a despoletar toda a reflexão e uma nova visão do nosso povo, desde as paisagens singulares aos costumes das gentes e destes mais diferenciados lugares a meio do atlântico. Por sua vez, Ruy-Guilherme de Morais, filho do autor de Ilhas Do Infante, escreveu em 2018 outro texto agora incluído nesta segunda edição da editora Artes e Letras em que nos conta que o livro tinha sido publicado originalmente pela já mítica Livraria Editora Andrade (“que era, essencialmente, papelaria e oficina gráfica”, diz ele), em Angra do Heroísmo, começando a aparecer nas papelarias de São Miguel em 1938. Tenho de abrir aqui um parênteses. Ruy-Guilherme de Morais passou muitos serões em minha casa e na companhia de outros grandes amigos e colegas, como Urbano Bettencourt, Onésimo T. Almeida, Fernando Aires e Dias de Melo, entre outros, em ocasiões diferentes, mas nunca me/nos falou deste livro do seu pai, ou sequer da sua vida. Eventualmente eu escrevi e publicaria sobre a ficção de Ruy-Guilherme de Morais, As Terras Da Santa & Outros Causos, assim como lhe fiz uma longa entrevista publicada noutro jornal de Ponta Delgada. O autor das Ilhas Do Infante tinha sido formado em Direito na Universidade de Lisboa no início dos anos 20, e já tinha começado a escrever alguns versos, quase todos em forma de sonetos, que agora são também reproduzidos nas últimas páginas deste seu livro. É precisamente Ruy-Guilherme de Morais que nos volta a lembrar que quando a morte apanhou o seu pai ele preparava, uma vez mais, mais um capítulo final para Ilhas Do Infante. Mesmo assim, o leitor chega à última página com a sensação de um conjunto de textos inter-ligados e que completam a narrativa da viagem que ele fez em 1932 a bordo do velho navio de guerra Vasco da Gama, escalando todas as ilhas, menos a Terceira por razões nunca aqui explicadas, mas que não tinham nada a ver com a vontade do autor.

Ilhas Do Infante, sendo um livro de crónicas, torna-se uma das mais apaixonantes narrativas das nossas ilhas pelo olhar não de quem não vem propriamente de fora ou já com ideias firmes sobre a vida, literatura e as paisagens que vai encontrando, como talvez seria o caso de Nemésio, como me observava há tempos um outro grande escritor de cá, mas sim de um homem formado em Direito, e que aparentemente apenas cultivava esporadicamente a poesia que, como já referi, encerra esta obra. Guilherme De Morais inicia a sua viagem a 14 de Agosto de 1932, e data a última entrada a 26 do mesmo mês. Pelo meio vai descrevendo em termos laudatórios a vida dentro do navio que vinha percorrendo as ilhas em comemoração dos 500 anos do descobrimento, quando a data definitiva ainda tinha não sido actualizada por outros historiadores, sempre com palavras carinhosas e de grande admiração pela sua tripulação, desde o comandante até ao mais humilde marinheiro. A grandeza da sua escrita não está na novidade que nos traz de cada ilha visitada, e que muitos de nós conhecemos. É o seu olhar ao mais ínfimo pormenor, quer de uma praia, rochedo, campo cultivado ou na sua pureza imemorial, a arquitectura e cores de casas que vê de fora, e sobretudo o modo gentil e até agradecido com que são todos recebidos. Pode ser um pescador ou trabalhador num porto ou na terra, ou então um raro taxista daqueles tempos em que escasseavam os automóveis em todas as ilhas. Desde linguagens sobre a sobrevivência de cada ilha, o autor topa nas nossas supostas diferenças um todo, esse todo a que a democracia viria a dar o nome de Região cujas idiossincrasias espartilhadas não desfazem a unidade deste arquipélago que sempre foi chamado Açores, mas que os antigos poderes centrais dividiam em distritos separados, mantendo o pouco contacto entre uns e outros, até porque os barcos mercantes eram poucos e os aviões nem existiam por cá. Não qualquer condescendência nas suas observações e descrições do que vai vendo e ouvindo, simplesmente olha cada pedaço das nossas terras com o espanto inteligente de quem foi conhecer pela primeira vez o que ele sabia ser de riqueza humana e cultural, todos separados pelo mar imenso e bravo, mas que partilhavam uma história comum desde os primeiros dias do povoamento. Fala-nos nos terramotos mais violentos da época, como o da Praia da Vitória em 1926 e no esgadanhar da terra e do mar para a sua sobrevivência básica, quase sempre com um riso apreciador na cara e braços abertos aos forasteiros. A sua lealdade ao restante país fica simbolizada nestas páginas através desse modo alegre e grato com que recebem um grande mas velho barco de guerra com base na mãe-pátria. Divisão de terras por meios diferentes (pedras negras, naturalmente) ao florido das hortênsias nos cerrados do Faial, até à chegada ao Cais do Pico em São Roque, nada escapa a sua escuta e reflexão. Intitulada “A Ilha Da Alma Negra”, Guilherme De Morais quase entra em êxtase com a visão da grande montanha vulcânica do Pico e do modo como muda de cor e configuração com o baixar e subir das nuvens e sol, do mesmo modo como estranha e foge do cheiro dos restos das baleias recortadas, essas que eram parte fundamental na vida de boa parte dos habitantes, que trabalhavam a terra com o mesmo ardor com que a largavam para o mar em pequenos mas belos botes na caça aos maiores visitantes mamíferos nos nossos mares. Escreve o autor com a maior precisão das palavras e olho sempre vivo a tudo:

Em seu redor, a mancha larga, cinzenta e escura dos ‘mistérios’, lava que o vulcão vomitou, percorrendo a ilha de lés a lés, entre pequenas intermitências de campos de milho, de quintas aromáticas, de maciços copados de faias baixas, de quintalejos nostálgicos, onde florescem, lado a lado, as figueiras sombras e os gerânios vermelhos junto aos muros toscos de pedra solta, de quartéis de vinha que dá um vinho capitoso e forte, de pinheiros esguios e castanheiros frondosos, alagando o sítio de frescura, de perfume, de paz”.

Prosa como esta repetida em passo após passo é pouco comum entre nós. Volto ao início deste meu texto: As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão, O Corsário das Ilhas, de Vitorino Nemésio, e este Ilhas Do Infante, Guilherme de Morais, também completam um todo, cada um na sua originalidade e sagacidade verbal, tal como a natureza e gentes das próprias ilhas açorianas. Este é o que mais me tocou tanto em termos emotivos (que é outro dever da boa ou grande escrita), emoções, repito, como a visão absolutamente original na escrita deste género. Guilherme De Morais alude várias vezes a Raul Brandão, só que faz das Ilhas Do Infante uma gigantesca aguarela das mais variadas cores e formas. Alías, o próprio autor fala nesses termos, como que em cada paragem visse essa pintura sem par no mundo português. Provavelmente diria o mesmo da Madeira, mas essa outra ilha dar-lhe-ia um outro livro. Nada, afinal, está retirado que faça falta a esta soberba escrita, creio eu, a esta sua brilhante narrativa. Só que apetecia ler muito mais quando chegamos ao fim de um livro que não resistimos a virar cada página, ou outro livro semelhante de Guilherme De Morais.

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Guilherme De Morais, Ilhas Do Infante, Artes e Letras, Ponta Delgada, 2019. Publicado no meu “BorderCrossigs” do Açoriano Oriental a 17 de Abril de 2020.

 

Da sociedade açoriana e das suas vidas subterrâneas

A estupidez não impediu a mamã de perceber que casara e amava um homem que nunca tinha sentido a mínima atração por mulheres. O papá casou com a mamã porque, desde que a conheceu, soube que ela era estúpida.

Henrique Levy, Maria Bettencourt: Diários de Uma Mulher Singular

Vamberto Freitas

Nestes dias de isolamento em casa não poderia ler um romance melhor do que o de Henrique Levy, Maria Bettencourt: Diários de Uma Mulher Singular. Tragédia, como outros já escreveram, e eu diria absolutamente singular a todos os níveis: linguagens, metáforas, simbolismo da opressiva condição humana açoriana durante várias décadas até aos anos 70. Certa elite açoriana e a classe trabalhadora são representadas a partir de uma perspectiva totalmente original entre nós. Nunca tinha lido nada na nossa literatura tão radical (no bom sentido da palavra) sobre as alegrias e o sofrimento de um povo, ou pelo menos de uma família de Ponta Delgada, aqui em São Miguel. Pode ser situado nos Açores, mas a sua universalidade leva-nos a outras geografias humanas, e não só a Portugal no seu todo. Não confundam o nome da protagonista com o nome do autor. Este é o primeiro livro que leio do autor, que já tem uma obra extensa e diversificada. Nasceu em Lisboa, como está identificado na capa deste livro, e “passou a infância em São Tomé e Moçambique… Nos anos de 1980 segue para Macau, de onde regressa em 1990. Licencia-se em Língua e Cultura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e faz um mestrado em Estudos Portugueses…Vai para os Açores, onde se casa em 2017… Foi professor assistente na Universidade Autónoma de Lisboa”. Continua a viver entre nós, com um conhecimento profundo da vida “moderna” do nosso arquipélago, o que me parece essencial para uma melhor apreciação desta sua nova ficção. Os resto da informação sobre as suas restante publicações literárias virá mais tarde neste meu texto. O romance está escrito em forma de diário, tal como está explícito no próprio título, com entradas ora datadas ora sem tempo definido, dando assim um contexto mais vasto de toda a narrativa. Atrevo-me a dizer que esta não é só uma narrativa escrita, mas que se torna uma narrativa informal de toda a nossa sociedade em qualquer uma das ilhas, e muito mais. Trata-se de um tempo que vai desde o fim dos anos 60 até 1976, quando já estamos na liberdade do 25 de Abril, e acontece o fim de toda uma família constituída pela narradora cujo nome já conhecem, por um oficial da Marinha, uma mãe sem identidade própria que a filha diz que ama mas que a acha estúpida, e uma criada aqui chamada Tázinha. As outras personagens são muito diversos, e vão desde residentes locais a nomes nacionais durante antigo regime. Diz o autor que isto é precisamente uma homenagem às mulheres açorianas que tinham resistido activamente ao fascismo. (”A todas as mulheres açorianas”) dedica o livro o seu autor), e não será surpresa para o leitor que a sua longa epígrafe vem de um texto de Natália Correia: “Acho que a missão da mulher é assombrar, espantar… para que a vida seja um motivo de deslumbramento. Se chama a isso sedução, cumpri aquilo que me me era forçoso fazer”. Entretanto, a protagonista diz ter encontrado Vitorino Nemésio num cais qualquer, e mais tarde afirma que deveria ter sido ele a escrever o hino dos Açores, e não a Natália. De resto, todo o romance combina uma casa de bem com intrigas locais, políticas, perseguições da PIDE, tentativas por parte de Maria Bettencourt em tornar-se uma bombista quando enviada para Lisboa para o devido treino (que chega a nada), e um desfecho absolutamente inesperado quando o seu pai se revela acidentalmente um homossexual num cabaré em Ponta Delgada (popularmente conhecido como a Casa das Toleradas), de prostituição de uma Madame de nome irónico, Prudência.

Aliás, todo o romance é brilhantemente caracterizado pelo riso e pelo lamento do esquecimento que cultivamos após estes anos de chumbo, e das parvoíces violentas de quem nos governava de perto e de longe. A vida quotidiana na casa Bettencourt era uma de mãe sem qualquer consciência social, muito menos política, ao contrário da filha, a autora destes diários, que sai à rua e toma contacto com alguns dos mais proeminentes dirigentes do Partido Comunista, como um Marquês dos Praia e Bom-Forte, o tal que tinha financiado a sua ida a Lisboa para treino revolucionário, mas Maria Bettencourt e a criada Tázinha acabam com uma visita a Fátima, o que deixa os camaradas furiosos. Do riso: no dia de casamento de Maria Bettencourt o seu noivo de nome Firmino nunca chega à igreja, onde está convidada a nata da elite micaelense e cujos nomes, alguns deles, serão reconhecidos pelos leitores mais informados da governação e negócios desta ilha. A determinada altura, Maria Bettencourt é visitada por um palhaço da PIDE local, o que deu em nada, com ele a sair da casa calado e sem saber o que pensar, só deixando os conhecidos avisos dos lacaios do regime. O pai pouco parava em casa, dizendo sempre que tinha de estar parte da noite em serviço. Numa sessão de dança erótica no cabaré aparece uma figura que parecia uma “mulher” muito sensual, que fazia a audiência toda masculina corar de desejo e fúria sexual. No decurso da dança, com um belo rabo a abanar, voou a peruca – e descobriu-se que era o Oficial da Marinha, Armindo Bettencourt. O escândalo foi de tal modo que ele foi enviado para o exílio algures como castigo, e a esposa perdeu o juízo e foi internada na chamada Casa das Mulheres. O filho, de nome Inácio, com todo o seu desgosto, alistou-se no exército, acabando com o corpo estoirado na guerra colonial em curso, sendo enviado para São Miguel em pedaços de carne totalmente mutilada. Foi Prudência, a dona do cabaré, que veio em socorro de Maria Bettencourt, oferecendo algumas jóias para venda, e Maria Bettencourt iniciou a venda de terras nos Arrifes para a sua sobrevivência, enquanto procedeu à escrita destes diários, pedindo que só fossem publicados após a sua morte. Todas estas palavras são um reavivamento da memória de nós todos, que anda esquecida dos tempos em que todo o país era uma prisão de violência escondida e pobreza, com a maior parte da elite sentada nas suas casas no maior conforto e despreocupação. O lamento e a dor de consciência pertencia a uma minoria consciente dos seus dias de pouca sorte.

O inimigo mais temível da burguesia – escreve a protagonista a 1 de Janeiro de 1967 pela mão do autor deste romance – é o povo analfabeto. Sem modos. Abrutalhado. Cheio de pressa de morrer. Trabalhador. Pobre. Sem esperança. De sonhos mortos!… No dia em que o povo açoriano conquistar o poder, a burguesia morrerá por auto-afogamento no mar. Pois, nem sequer terá tempo de chegar ao aeroporto. Eu não sou comunista! Sou revolucionária!”.

Sabemos que não foi assim, e ainda bem. Só que esta ficção é uma representação de um determinado período na nossa história, e é uma genial chamada de atenção para que a nossa memória não esqueça a tragédia daqueles dias, mesmo que tenha sido um tempo em que o regime dava os seus últimos suspiros. Uma vez mais, nada como Maria Bettencourt: Diários de Uma Mulher Singular, tinha sido escrito entre nós. Do seu riso e choro sobressai toda a nossa humanidade. É um romance tão bem estruturado, feito a partir da realidade daqueles tempos, e por mera coincidência aparece em dias de outro tempo de escuridão que ameaçam um regresso não de uma ditadura clássica, mas de dias de liberdade limitada e ameaça viva de nova pobreza entre muitos de nós, de desconfiança ante o Poder, de desconforto doentio, de incertezas temerosas. Que a comunidade saiba lidar com o seu próprio passado, e agora sobretudo com o seu presente. Virá o tempo de obras como esta sobre a nossa sorte nos dias que correm. Poderão é não chegar à eloquência e arte perfeita deste romance de Henrique Levy. Trata-se de um dos mais brilhantes contributos à literatura açoriana e a toda a literatura de língua portuguesa. O romance encerra com um poema intitulado “Vida”, de dor e doçura, assinado por Maria Dos Anjos Silveira de Avelar Bettencourt

Henrique Levy é autor de três romances: Cisne de África (2009)); Praia Lisboa (2010); Maria Bettencourt; Diários de Uma Mulher Singular (2919); e de seis livros de poesia: Mãos Navegadas (1999); Intensidades (2001), O Silêncio das Almas (2015); Noivos do Mar (2018); O Rapaz do Lilás (2018; Sensinatos (2019)

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Henrique Levy, Maria Bettencourt: Diários de Uma Mulher Singular, Lisboa, Planeta Manuscrito, 2019. Publicado no Açoriano Oriental a 10 de Abril, 2’020.